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Loyola University

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1 Loyola University em Sex Jun 17, 2011 6:09 am


Loyola University New Orleans é uma Universidade privada, co-educativa e jesuíta. Originalmente criada como Loyola College em 1904, a instituição foi erguida ao patamar de universidade em 1912. Tem o nome do patrono dos Jesuítas, Santo Inácio de Loyola.

Ela é uma das 28 instituições membros que compõem a Associação de Faculdades e Universidades Jesuítas e, com o seu total atual de cerca de 5.000 alunos, está entre as maiores universidades jesuítas dos Estados Unidos. Também está classificada como uma das cinco melhores instituição dentre as universidades regionais, oferecendo aos alunos mestrado e graduação.



O campus ainda abriga a maior biblioteca da cidade e uma das maiores do sul dos Estados Unidos. Acervos sobre diferentes e bizarros assuntos podem ser encontrados em suas fileiras que, obviamente, não estão restritas aos alunos da Loyola; qualquer cidadão pode ter acesso ao conteúdo abertamente disponível, bastando apresentar a identidade para tal. Dizem que existe uma seção destinada ao ocultismo que explicaria boa parte das histórias de fantasmas de Nova Orleans. Os boatos estão certos, mas felizmente os Membros já colocaram suas mãos sobre todo o campus, evitando assim que o grande público venha a conhecer das verdades existentes nas sombras.



Existe também um pequeno museu na ala norte do campus, com peças, quadros, estátuas e cartas do período de colonização creoule na cidade. O museu, embora também esteja sob controle dos Membros, encontra-se desvinculado da administração da Universidade.




Conheça o site da Universidade Loyola AQUI

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2 Re: Loyola University em Qui Ago 23, 2012 11:46 pm

Loyola. Há algum tempo, aquele lugar representava o recomeço para alguém que havia perdido quase que totalmente a fé na humanidade quando havia chegado da Alemanha, como eu. O fato é que, estar em uma universidade jesuíta chegava a ser até irônico. Gott ist tot, como dizia Nietzsche. Mas isso era o de menos, afinal de contas, desde que ninguém me enchesse o saco, estava valendo. Além disso, eu estava sentindo que realmente poderia fazer a diferença naquilo. Já havia algum tempo que eu estava cuidando do Movimento Estudantil. E algumas pequenas conquistas para os estudantes foram realizadas.

Mas muito pouco ainda, para influenciar a sociedade como um todo. Há uma gama enorme de filiais de corporações em New Orleans, assim como em outras cidades dos Estados Unidos. A única diferença é que estas empresas poderiam mandar e desmandar em paz. Pagar pouco, pedir ajuda do governo perto de falir, ajuda essa que deveria ser direcionada à população que sofre com desemprego e falta de saúde pública, entre outros. Os problemas americanos diferiam um pouco dos alemães, mas a origem é idêntica: o povo sendo ignorado por quem o comanda. No caso deste país, com um fator prejudicial: canais televisivos inteiros trabalhando como verdadeiros partidos políticos de oposição e situação, ao lado de Republicanos e Democratas.

Aliás, que ambos, Burros e Elefantes, possam ir para o inferno juntos, sério. Nenhum dos dois partidos realmente está a serviço de quem deveria servir. Infelizmente, no mundo da política, a diferença entre direita ou esquerda fica cada vez menor. Quase inexistente. E a corrupção, a pobreza, crescem pela falta de ideologia e pela alienação em massa formada pela Casa Branca. Muito da culpa da crise mundial está neles. E está também nos europeus. Que afinal, sempre mandaram. Estado mínimo, sempre acabando com a proximidade com a sociedade...

Enfim, era exatamente isso que eu estava discutindo durante uma aula de Sociologia, entre os colegas de meu curso e o professor. Ao acabar um discruso do que eu pensava, estava na hora de acabar a aula. E assim, cumprimentei alguns colegas que passavam por mim. Ajeitava algumas coisas, e pensava em meu caminho. Aos poucos, a sala esvaziava. Apenas ficava pensando e repassando alguns detalhes no caderno que eu havia anotado. Eu estudava à noite, o que era mais fácil para mim. E naquela noite, eu não tinha nenhuma reunião no comando do movimento. Dessa forma, eu decidi apenas andar por aí, para falar com o pessoal dos outros cursos.

Andava um pouco sem rumo, até o refeitório. Cumprimentei alguns com um sorriso e um aceno, quando passavam por mim. Mas ainda não tinha parado para conversar com ninguém. Talvez porque a minha cabeça estivesse fervilhando com os próximos compromissos, projetos do curso e reuniões do grupo de estudantes. Muita coisa para fazer, mas eu tinha tempo. Todo o tempo do mundo, pelo menos até arranjar um trabalho como Analista Político, em uma mídia idônea o suficiente para me permitir liberdade. Mas pelo que parece, eu teria que fazer vídeos no Youtube para conseguir esta "mídia idônea".

Arroz, batata frita, steak. Era o que tinha para hoje, além de uma Coca-Cola. Passava um tempo, refletindo e comendo. Não demorei muito além de alguns minutos para terminar tudo. Mas eu estava na mesa, passando algum tempo comigo mesmo. Perdendo-me em meus próprios pensamentos e lembrando do passado em Berlim. Pensando na minha árvore genealógica e nos motivos que eu tinha para querer eliminar da memória de meu sangue a desonra de um bando de eugenistas fracassados. Se existe inferno, sei que meu pai e meu avô estão tendo umas férias bem difíceis por lá.

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3 Re: Loyola University em Seg Ago 27, 2012 2:35 pm

Amelia Pond

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Amelia Pond era, aparentemente, uma delicada jovem por volta dos vinte anos e com alguns problemas de pele que a faziam evitar o contato com a luz do sol. Por isso tinha uma pele clara, praticamente albina, que apesar do aspecto doente, ficava muito bem com seus cabelos muito, muito alaranjados e seus olhos verdes. Além disso, quando criança, sofrera um acidente que debilitara os movimentos de seu joelhos esquerdo, por isso tinha de caminhar com o auxílio de uma bengala de madeira e punho de prata enfeitado com pedras coloridas. Era, geralmente uma garota calada, mas de uma educação impecável e estava sempre metida no meio dos livros, primeiro porque era apaixonada por eles e segundo porque conseguira justamente um emprego como bibliotecária-chefe na biblioteca da Universidade de Loyola, o que aparentemente não lhe dava poder algum, mas lhe dava espaço e condições o bastante para realizar suas pesquisas sobre história, alquimia e uma pitada de ocultismo.

Naquela noite, ela estava parada a frente da Biblioteca, sentada em um banco sobre o gramado olhando o movimento. No início da noite, estivera em uma reunião com o reitor onde o fizera aprovar recursos para uma reforma de ampliação da biblioteca. Poderia então, comprar mais livros e instalar mais salas privadas de estudos. Aquilo era bastante satisfatório, especialmente se seu próximo projeto para grupo de pesquisa engrenasse. Estava inaugurando um Grupo de Pesquisas sobre o Oculto. Porém, estava com receio de divulgá-lo aos quatro ventos, não tinha o interesse de atrair góticos e punks revoltados com seus pais cristãos. Já tivera a experiência antes e não poderia ser um fracasso maior. Portanto, desta vez estava sendo cuidadosa, e procurando convidar pessoalmente quem pudesse ter interesse sobre o tema. Iriam pesquisar manifestações "fantásticas", o que os cristãos chamavam de milagres, estabelecer fatos a cerca de mitos, identificar a presença do oculto na literatura e ver suas influências sobre a biografia de seus autores, e quaisquer outros objetivos que fossem sugeridos e que parecessem ter um mínimo de credibilidade. Após estabelecerem objetos de pesquisa, e seus devidos focos, o grupo iria realizar leituras coletivas, debates e estabelecer frentes de pesquisa. Era por isso que Amelia fazia questão de um grupo de pessoas decidicadas e interessadas, tanto pelo tema, como pelo cotidiano da pesquisa acadêmica.

Ela vivia aquele tema desde a infância, quando fora tomada aos cuidados do Lorde Robert Crawley, Conde de Gramtham e profundo estudioso do oculto em sua majestosa propriedade em Hampshire. Podia assisti-lo noite após noite cercado dos livros mais antigos e misteriosos em seu laboratório. Às vezes ouvia gritos também, e pedidos de misericórdia e via, pela manhã corpos sendo enterrados no cemitério da propriedade. Cobaias, veio ela a entender mais tarde, assim como, quando atingiu a idade e a maturidade necessárias, Lorde Crawley a convidou para participar de suas pesquisas e a enviou para estudar em Oxford e ditou as disciplinas que deveria cursar. Tudo que envolvesse história, teologia, química, biologia, linguas antigas. Haviam muitos aspectos dos estudos mundanos que serviriam de base para começar uma compreensão sobre o oculto. E como obediente pupila, ela acatou ao desejo de seu tutor. E quando voltou para casa, ele a fez avançar ainda mais em seus estudos sobre o oculto, transformando-a num ser do oculto. Quase dois séculos depois, lá estava ela. Iniciando mais um experimento. Como seria a visão da humanidade sobre estas "fantasias"? Era um experimento perigoso, já estaria atuando no limite das regras mais importantes. Mas era um risco que estaria disposta a correr e era um risco que também traria suas vantagens posteriormente.

Deixou a biblioteca, apoiou-se com graça na bengala e enfiou a mão direita no bolso do casaco, não porque sentia frio — desde que adentrara para o centro do ocultismo, não seria mais frio, calor, fome ou qualquer outra incômoda sensação humana para distraí-la — mas porque não gostava de andar com as mãos balançando, era uma mania de criança tímida, que gosta de se esconder dentro de si. Não era tão tímida como quando criança, mas alguns gestos tornaram-se parte de si de modo que nem mais percebia-se fazendo.

Seguiu para a lanchonete e pediu um chá. Ela era inglesa e por mais que não pudesse sentir o gosto do chá ou mesmo fosse capaz de digerí-lo, gostava de poder sentir o aroma da erva infundindo ná água quente, fazia-a lembrar de casa. Fazia-a lembrar de Hempshire, dos tempos anteriores a sua vinda para Nova Orleans e as coisas eram mais simples. Não havia políticas e desejos por poder. Quando seus amigos não tentavam manipulá-la por causa de uma promoção que ganhara por que seu chefe veio a falecer durante a passagem do furacão. Ignorou os pensamentos que a entristeciam e procurou se concentrar no aroma do chá de jasmim.

Percebeu que a lanchonete estava cheia e abordou um rapaz de cabelos pretos, compridos para um rapaz, trazia-os na altura dos ombros e deixava algumas mechas caídas sobre os olhos.

Com licença, o lugar está cheio, será que podemos dividir a mesa? — Ela pergunta, educadamente.

Ela agradece e apoia seu chá sobre a mesa e se acomoda na cadeira a frente dele. Ele está comendo o prato do dia. Arroz, batatas, fritas, e bife. Percebeu que ele não tinha pego salada e que o bife estava especialmente sangrento. Aquilo a fez perceber que ela também estava com fome.

Estendeu-lhe a mão e se apresentou. — Amelia Pond. Muito prazer. Acho que já te vi pela biblioteca, — ela puxa assunto, — eu trabalho lá. O que você estuda?

Sim, estava com fome. E aquele paracia ser um rapaz bastante saudável, não seria problema doar-lhe um pouco de seu sangue... Ah, sim! Amelia também era uma vampira.

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4 Re: Loyola University em Seg Ago 27, 2012 6:47 pm

Como eu estava um tanto sem nada a fazer, pensava de fato, em retornar à minha casa no Centro da Cidade para reorganizar todo o meu tempo, já que era um tanto tarde para passar pela . Era em um local mais simples, não gostava das áreas de luxo do Garden District, afinal de contas, aquela localidade em que eu estava, nesta altura, era muito distante da realidade do povo sofrido de New Orleans, bem como de outras partes deste Estados Unidos em crise. Eu queria fazer algo. Queria mudar o mundo. Parecia uma maneira um tanto sonhadora demais de ver as coisas. Mas é a única que aprendi, depois de ver o meu pai pisando e humilhando pais de família. Gente que não tinha nada para se defender, nem em suas mãos, nem em seus recursos. Pessoas sem voz. Mas eu queria ser a voz dos mudos.

Sim. Era apaixonado por uma causa. E relacionada a ela, havia a questão da política atual do mundo. Algo feito com que aqueles que estão no "topo da pirâmide", sempre continuassem ali, não importa quantas revoltas sociais houvessem. Para isso, eu estudava a política em si, para saber como revertê-la para o bem de quem mais precisa de tudo funcionando: a sociedade. Principalmente, aqueles que estão à margem da mesma.

Com ela posso analisar governos de simples cidades, ou de países continentais. Acordos amistosos, ou grandes uniões econômicas. Ou até mesmo, organizações que existem há séculos. Igreja Católica, por exemplo. Tenho opiniões formadas sobre várias dessas organizações. Mas agora, não iria me aprofundar nisso. Não hoje. Até porque a cidade já tinha seus próprios problemas e seus próprios fantasmas, o suficiente e o possível de lutar contra, para mim neste momento.

Enfim, estava refletindo em tudo, sentindo o vento frio do local tocando em meu rosto. Nada como passar um pouco de tempo conectado com os mínimos detalhes ao redor, para ter a mente clareada. O problema é que eu não poderia externar nada com alguém. Todos os outros estavam conversando nas mesas vizinhas, sobre as situações dos alunos na Universidade, ou sobre projetos, ou mesmo, algumas bobagens que viram na Internet. Assuntos eram dos mais variados. Mas nenhum destes realmente me interessava.

Até o momento em que, distraído comigo mesmo, ouvi uma voz que parecia direcionada a mim. Uma voz feminina, para cuja direção virei a minha cabeça. Uma mulher, de cabelos que pareciam ruivos. Tão ruivos que chegavam a um tom alaranjado, cujos quais contrastavam fortemente com sua pele alvíssima, quase que totalmente sem cor. Olhava diretamente para seus olhos arredondados e verdes. De fato, bonita, mas uma beleza incomum, e talvez um tanto desbotada, doentia. Mas não cabia a mim julgar o que tinha com a tal moça, que afinal, parecia ser simpática. Pediu um lugar na minha mesa, com uma educação, com a qual não tive como negar. E nem queria de fato, pois precisava falar com alguém naquela noite.

- Ah... claro, pode sentar! Fique à vontade.

Dessa forma, eu aproveitava para observar melhor a minha interlocutora. Apenas observei quando ela sentava, com um chá em cima da mesa. O aroma tranquilizador da erva logo se impôs. De fato, um chá, às vezes, era bom para sentir algo mais natural. Lembrei-me de alguns membros da empresa BMW, que eram ingleses e habitavam na Alemanha. E estes, tinham tal hábito de tomar chá, principalmente no fim de tarde.

Voltava a ouvir a garota que estendia a sua mão, de maneira formal. No que respondi prontamente. - Prazer, Amelia. Meu nome é Christian Kaiserkopf e sou de Ciências Políticas. O fato é que também tenho algumas atividades no Movimento Estudantil daqui. - Depois de algum tempo, lembrei-me de ver os notáveis cabelos alaranjados, duas ou três vezes. Mas não se concentrou nisso como poderia antes. - Realmente, você não me é estranha... qual a sua atividade na biblioteca?

Depois de ter a resposta dela, sorri de leve, enquanto continuava a conversa: - Bom, isso me lembrou que tenho que devolver alguns livros para a biblioteca daqui a alguns dias. Usei alguns para o meu trabalho sobre Processos Políticos. É um assunto muito interessante, realmente. Eleições, tratados de independências, plebiscitos, revoluções... atos gerados por alguns países que nos permitem saber o espírito das populações do mundo de hoje. Mas de qualquer forma, acho que você também deve ter uma área de conhecimento por esta Universidade, que te atrai, não é? - Falava, de maneira sincera e animada sobre o meu interesse. Porém cessei o assunto por aí, afinal eu não sabia se a moça também se interessava pela política. Preferia deixar que a moça falasse em algum assunto no qual ela se sentisse bem.

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5 Re: Loyola University em Qua Set 05, 2012 11:56 pm

Amelia Pond

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Ancillae
Enquanto ouvia-o falar sobre seus estudos o olhar de Amelia discretamente vagueava pelas pessoas ao seu redor. Estavam justamente no horário do intervalo das aulas noturnas e a lanchonete estava bastante movimentada. Aquilo a incomodava um pouco. Nunca fora boa em lidar com multidões. Preferia um lugar calmo e um bom livro como companhia. Mas às vezes era preciso sair da toca e lá estava ela.

Na verdade, Amelia nunca tinha visto o rapaz a antes, mas como ela trabalhava na Biblioteca e qualquer estudante com meio intelecto daquele lugar hora ou outra precisava de livros nem que fosse para plagiar para um trabalho. Dizer que já vira alguém na Biblioteca era sempre uma boa estratégia para iniciar uma conversa. Sempre dava certo.

Ele disse seu nome. Bastante alemão, pensou ela. E disse que estava no ramo das Ciências Políticas. Dificilmente se interessaria por seu grupo de ocultismo. Além disso fazia parte do movimento estudantil.

É mesmo? Esses dias alguns garotos do movimento estiveram lá Biblioteca para avaliar as condições e o acervo para apresentarem suas reivindicações para o Conselho Universitário. Eu sou a atual bibliotecária-chefe. — Ela diz com um tom de voz simpático.

Ele, então, emenda dizendo que tem livros para devolver, cujas datas de empréstimo estão para expirar. Era ouvir isto ou que tinha que ir procurar determinado livro ou começar a sermonear por tal livro nunca estar disponível para empréstimo. Em seguida ele explica que estava usando os livros para um trabalho para seu curso de Ciências Políticas. Mais política, ela pensa, começando a se entediar, mas não deixando transparecer. Ela leva seu chá até a boca e finge beber um golinho enquanto pensa nas potencialidades do garoto. Pergunta-se se o que ele fala são apenas palavras decoradas de um livro que leu e logo cairá no esquecimento ou se o conhecimento que apresenta ter é autêntico e duradouro. Precisaria de mais tempo para avaliar. Por hora o garoto serviria apenas para saciar sua fome. Agora, o que precisava era descobrir se ele era mais um drogadinho e se fosse que tipo de drogas que consumia. Isso tudo determinaria se ele o sangue dele comporia uma refeição de qualidade ou uma ressaca sem qualquer sentido.

Política é sempre uma área interessante, pena que não hajam mais debates interessantes sobre os modelos de gestão pública hoje em dia. A política caiu no ramo do (engraçado colocar assim) politicamente incorreto, junto com as competições esportivas e com as discussões religiosas. Justamente quando que deveríamos estar fazendo é debatendo e trocando conhecimentos. Mas me parece que o homem moderno ocidental não tem mais a capacidade de discutir com civilidade, simplesmente não tem mais a capacidade de aceitar argumentos que desconstruam as suas crenças. Não podem ter as suas preciosas verdades contestadas. Mas não é a toa quando o ápice da discussão se dá em argumentos de no máximo 140 caracteres, às vezes tenho a impressão que o próximo passo de nossa involução é voltarmos a nos comunicar por grunhidos. — Ela sorri com um pouco de timidez e se esconde atrás de mais um "gole" de chá. — Desculpe, estive tentando colocar minha posição recentemente para alguns professores a cerca de seus métodos de ensino hiperbolicamente paternalistas que estão aniquilando com a atividade de pesquisa.

Ela o analisa mais um pouco, o linguajar de seus gestos. Apesar da alimentação pouco balanceada, não parecia ser do tipo que usava drogas para lazer. Talvez fosse daqueles que usasse energéticos para ajudar a manter-se acordado para a realização dos trabalhos. Menos mal, mas ainda não tinha como ter certeza. Só provando para saber.

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6 Re: Loyola University em Sex Set 07, 2012 3:25 pm

A conversa começava a fluir um pouco mais. Parava para observar um pouco melhor a moça, enquanto via que ela tinha algo como uma bengala de madeira, adornada com pedras coloridas e prata. Não perguntou o porquê daquilo, visto que só tinha reparado naquele objeto agora que ele estava parado ali. De qualquer forma, preferiu não reparar mais na tal peça, já que a conversa mantinha mais a sua atenção, tanto quanto o conteúdo da mesma. Gostava de como a moça se mostrava solícita para uma discussão, acima de tudo. Talvez pudesse identificar algo que ela gostava de discutir. Gostava de saber de algumas coisas, de aprender, mesmo que alguns assuntos em questão não fossem de meu total domínio. O conhecimento vinha através de qualquer meio, não só pelos livros, afinal.

Conheci então o fato de que a garota com quem eu estava falando era bibliotecária-chefe. De fato, nunca procurei saber quem era a "manda-chuva" de tudo lá na biblioteca, já que os funcionários adjuntos de lá já resolviam as minhas questões. De qualquer forma, era totalmente diferente do que eu havia imaginado. - Nossa, que legal! Parece ser bem nova de idade, você tem quanto tempo de trabalho aqui... hum, é que pensei em alguém com mais idade, aqueles estereótipos de filme, sabe? Por favor, não tome isso como ofensa. - Falei, em um tom brincalhão, para que a conversa não tomasse um rumo entediante. - E sim, é necessário prestar atenção em vários setores da Universidade se quisermos enfim, ter uma educação digna, com qualidade.

Comia um pouco mais de minha refeição e tomava um gole de Coca. Aos poucos, a conversa tomava um tom mais sério, que eu apreciava. De fato, a garota à minha frente começava a dissertar sobre gestão pública e sobre a evolução (ou falta da mesma) da discussão sobre a política, assim como vários outros assuntos. De fato, eu concordava com muita coisa do que ela falava. Colocava-me a escutar Amelia atentamente. Lembrei-me de outros assuntos que poderia puxar com isso. Alguns nomes em especial, para ver o quanto ela poderia saber daquilo.

- Saca só, o que estamos falando neste momento, realmente não é interessante para a maioria das pessoas. Mesmo as que estão neste lugar e deveriam ser teoricamente mais esclarecidas. Por isso, que mudam-se governos, partidos, e tudo continua como está. Empresários mandam no nosso mundo, cada vez mais, diante dessa noção de "estado mínimo", que os americanos possuem. E o pior é que todo o mundo seguiu isso. Você pode tomar o Centro Empresarial como exemplo. Vimos empresas de todo mundo, ainda mais depois do Katrina, por aqui. IBM, Chevron e outros colocando os seus pés aqui para ganhar mais dinheiro, e até uma tal de Vestrue que ninguém sabe de onde veio, nem para onde vai, apenas se sabe que deve ganhar muito dinheiro com suas ações. E enquanto isso, quem é que vai cuidar das pessoas lá nos Apartamentos do French Quarter? Garanto a você que não é nenhum dos engomadinhos que eu citei agora, a própria Vestrue nunca se importou com nada daquele lugar, nem mesmo qualquer outra empresa. Enquanto os empresários continuarem bem, o povo que se exploda, no fim das contas. O desemprego cresce, a saúde está precária e ninguém dá a mínima, pois o povo não discute mais, não se engaja. E é exatamente por isso que preferem se agarrar a conceitos antigos, mesmo com tanta tecnologia por aí que pode ter o poder de juntar um monte de gente para agir... mas também tem o poder de manipular. Sinceramente, creio que há muitos interesses por trás disso, interesses que nem imaginamos na Política.

Em certo ponto, notei que estava me alongando demais. Dessa forma, dei uma pausa, para refazer o meu raciocínio e também pensar no que ela havia falado. Terminava de beber o refrigerante e depois continuava. - Quanto à questão dos professores, por sorte, não encontrei tantos com uma atitude autoritária dentro da sala de aula. No entanto, reconheço que a relação de dominação que alguns exercem sobre os alunos é desestimulante e não ajuda em nada o aprendizado. A atividade de pesquisa melhora o conteúdo, porém não pode fazer muito efeito se a didática do professor é ruim. Acredito que sim, deve-se fazer um movimento maior para exigir à reitoria uma melhor atenção aos profissionais que são inseridos na Universidade. Acredito também que a formação dos professores que se faz aqui, também deve ser cada vez melhorada, para evitar esses problemas. Não sou entendido em pedagogia, porém a base para melhorar isso logicamente está nos docentes que transformarão alunos da Universidade em uma próxima geração de mestres em um futuro não tão distante.

Com isso, eu terminava um assunto que poderia ser um tanto pesado para algumas pessoas. Mas precisava expor o que eu pensava daquilo, visto que achei alguém que pudesse talvez pensar em tudo isso e raciocinar de uma forma que pudesse responder de maneira satisfatória as minhas perguntas. Sim, algumas discussões como essa poderiam me prender por horas. Infelizmente, como ela mesma dizia, nos ultimos tempos as pessoas se contentavam em falar apenas por postagens no Twitter e no Facebook, curtir e compartilhar uma fotinha qualquer e achar que estão fazendo parte de qualquer tipo de causa, sem levantar a bunda da cadeira para fazer qualquer coisa relevante. Aí ficava difícil.

Dessa forma, continuava a conversa, agora de uma maneira mais leve. - Você pretende ser uma professora, Amelia? Acho que você se daria muito bem nisso, de fato. Acho que cada pessoa com uma vontade de mudar, de melhorar, de modificar o que é obsoleto, deve ser levada em consideração para poder fazer um melhor meio para todos nós que estamos aqui na Universidade, alunos, funcionários e professores. É por isso que eu faço a minha luta por aqui, sem espaço para desencorajamentos ou gente autoritária que apenas querem se aproveitar de suas posições superiores na pirâmide.

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7 Re: Loyola University em Sab Set 08, 2012 5:27 pm

Amelia Pond

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Ancillae

Ele se impressiona quando ela diz que é bibliotecária-chefe e ela demora um segundo a mais que o necessário para atinar porquê do do estranhamento. Com quase dois séculos de existência,  por vezes ela esquecia que ainda preservava a aparência do dia, ou melhor, da noite em que Lord Crawley lhe concedera a dádiva dos mistérios da noite, portanto, para todos ali ela não tinha mais do que 25 anos. Havia momentos em que aquilo soava esquisito para seus ouvidos.

Acabei nesta função pois meu chefe veio a falecer durante a passagem do Katrina. Como eu era a que melhor conhecia a Biblioteca e eu acabei tomando a frente da restauração do lugar depois de tudo, fui promovida. — disse com simplicidade. — Mas sim, sou jovem... eu acho...

Ele se dividia entre finalizar sua refeição, prestar atenção nela e procurar uma brecha para logo dar continuidade ao assunto, tal qual uma criança quando quer ser o centro das atenções mas já tem idade o bastante para querer ser levada a sério. Christian era um rapaz que parecia gostar de ser levado a sério, por isso, o escuta atentamente enquanto ele continua a partilhar suas visões sobre o mundo e sobre como o sistema funciona. Uma parte de sua fala inclusive a fez considerar por um momento o quanto estavam bem alinhadas com os atuais acontecimentos da cidade.

Amelia podia passar a maior parte do tempo enfurnada na Biblioteca, realizando suas pesquisas e administrando pessoalmente o acervo restrito, mas ainda assim mantinha-se informada acerca do que acontecia. Portanto sabia que as discussões entre a Primigênie que aconteceram na noite anterior provavelmente circundaram a recente inauguração da Vestrue Co. e afronta que um grupo de pessoas que agiam em um grupo de nome particularmente parecido estavam cometendo. Imaginava que a Srta. Helena deveria estar bastante preocupada com a situação e que talvez requisitasse sua atenção para o assunto. Todavia, até que o fizesse poderia apenas esperar que se tornasse necessária.

Acredito sinceramente que o problema jaz na falta generalizada de educação. Culpa desga cultura do conforto, deste pão e circo moderno incentivado pelo consumo. Emburrecendo a população torna-se fácil a domesticação. Faça-ls trabalhar para comprar os últimos brinquedos da moda, assim há mão de obra e garantia de consumo e pior todos estão felizes sendo feito de trouxas enquanto um ganancioso ou outro se alimenta da habilitade que a grande maioria dos comuns tem de ser feitos de bobos... E as universidades o que viraram com isso, uma fábrica de produção de funcionários obedientes para abastecer o mercado. É por isso que eu absoluto repúdios por essa noção de estado mínimo e essa auto regulação do mercado que os neoliberais querem fazer resultar num anarco-capitalismo.  — ia dizendo ela, mas apesar das palavras duras, seu tom de voz era suave. — Mas não passa de utopia, assim como o comunismo não passa de utopia.... Marx fez um ótimo diagnóstico do capitalismo, mas ofereceu uma péssima solução para ele... Eu talvez tenda a pensar que a solução para tudo hoje esteja na implementação de um regime anarquista, mas isso a partir de uma gigantesca revolução na educação humana. Do jeito que está ainda são necessárias as hierarquias, as pessoas não tem maturidade para lidar com a responsabilidade de lidar com as decisões de um mundo sem leis impostas... Basta ver a quantidade de religiões, e o quanto crescem os cultos neopentecostais, é preciso haver um ser superior, paternal que tome a responsabilidade de julgar tudo o que eh faço, de dizer como devo agir e listar o que é certo e errado.É muito fácil lavar as mãos e dizer: deus que me julgue. Não sei se você não vai se ofender comigo neste ponto,  — ela sorri buscando manter a simpatia, — mas vejo uma grande infantilização por parte da sociedade que se volta para deus na necessidade de um pai protetor que a livre da responsabilidade...

Ela pausa e baixa os olhos, delicadamente leva o chá até os lábios. Talvez ele não percebesse que o nível do líquido não estava diminuindo. Um breve e rápido pensamento lhe ocorreu, Henry achava engraçado eu hábito de "beber" chá mesmo quando não podia digerí-lo. Sou britânica, você esperaria outra coisa?, respondia ela com uma graça sorridente. Sentiu-se triste. Fez sua cabeça se concentrar novamente nas palavras de seu atual companheiro de conversa.

É por isso que eu me dedico à atividade da pesquisa, acredito que a partilha de conhecimentos é a única coisa que pode nos levar para um outro patamar evolutivo de seres pensantes. Porém, respondendo à sua pergunta, não pretendo das aulas, não me sinto à vontade para assumir essa posiçâo de autoridade de um campo de conhecimento. Mas gosto muito da atividade de desenvolvimento conjunto do conhecimento. Simplificando, grupos de pesquisa. — Sorri, mas apenas por educação, relembrar Henry tirou-lhe boa parte da sua vontade de convivência — Escuta, você já terminou? — pergunta num tom extremamente polido — É que eu adoraria continuar nossa conversa em um lugar menos tumultuado. Eu tenho uma certa dificuldade com multidões.... Se você não se importar, é claro.

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8 Re: Loyola University em Sab Set 08, 2012 10:45 pm

Continuava expressando o que eu pensava para Amelia, enquanto partilhava de minhas idéias com alguém. No meio disso, escutei que ela tinha ocupado o lugar do antigo chefe que havia morrido no furacão. E assim, ela conseguiu o cargo, pela atitude de ter tomado a frente no processo de restauração do local. - Lamento pela tragédia. Mas admiro a sua força de vontade. O cargo não poderia estar em mãos melhores. - Falei de maneira sincera com um sorriso.

Aos poucos, eu terminava a refeição ao terminar de falar. E logo, eu escutava as respostas que ela tinha. Respostas duras e inteligentes, de fato. Verdades que a maioria das pessoas não gostariam de ouvir. Realmente, a educação era a base de tudo. Ou a falta dela, que gerava um monte desses problemas. E além disso, também era fato que as universidades não eram mais as mesmas, faz tempo. Passava a maior parde de seu tempo lutando, batalhando por melhores condições de todo aquele lugar. E sabia disso tanto quanto Amelia, de fato.

Outro ponto importante que ela havia tocado, era sobre o anarco-capitalismo. O tal anarquismo corporativo, cujo qual tanto odiava. O Estado e os Poderes deveriam ser derrubados pelo povo, e não por organizações. Seguia muito dos preceitos que Mikhail Bakunin tinha feito. Rejeitava a maioria do Manifesto Comunista de Marx, até por achar que a Ditadura do Proletariado era patética, assim como qualquer outra Ditadura, seja ela de esquerda ou direita. Qualquer opressão contra o povo era intolerável. Afinal de contas, a liberdade de alguém estende a própria ao infinito.

As religiões. Grande problema também. Eu estava um tanto farto delas. Tanto fanatismo burro, tanta limitação, tanta normatização de um pensamento, tanto medo inserido em mentes que se tornam inócuas... tudo isso tornou o nosso mundo pobre de intelectos. Não conseguia mais ver uma evolução possível, já que mentes que se destacavam eram cada vez mais raras. Quase não havia esperança no ser humano. Quase. Pelo menos, enquanto houvesse alguém em pé para reinvindicar seus direitos, a chama da liberdade plena ainda flamejaria.

- Claro, claro... hoje em dia, o ensino das escolas é risível. Nenhum americano quer mais saber do resto do mundo. Pensam que o Canadá não existe, que a Inglaterra é o 51º estado e que a capital do Brasil é Buenos Aires, idiotice! Isso sem falar em outras bizarrices que já ouvi, em diferentes áreas. Todo mundo usando iPod no meio da aula, tablet e qualquer outra porcariazinha dessas, achando que tá abafando. É deprimente! E enquanto rolar isso, fica perfeito para as organizações, que querem mandar, mais do que já mandam. - Terminava de comer. - Eu também acredito que o Anarquismo é a chave de tudo. Infelizmente, como você mesma diz, a sociedade tem que chegar a um alto nível de evolução e de bom senso, para não precisarmos de poderes e padrões morais nos dizendo o que devemos ou não fazer. Não fazer mal a si mesmo, a outrem e ao meio onde está inserido, já deveria ser o suficiente. Mas como não o é, vem vários aproveitadores dizendo que tem todas as respostas que teoricamente, não se pode obter nos meios científicos... apesar de que acho que há uma explicação perfeitamente lógica para a maioria das coisas. Não sou místico e nem acredito em um ser superior, porém a minha falta de superstições faz com que eu respeite as crenças de outros... e está aí algo que falta muito para todos nós... respeito.

De certa forma, eu começava a me alongar demais de novo e talvez, já estava na hora de parar um pouco a prosa, para ouvir sobre as atividades da moça. Ela disse que não pretendia dar aulas, mas que gostava dos grupos de pesquisa. Muito bem, era algo importante para desenvolver o conhecimento do lugar. Foi então que depois, ela me lembrou de algo importante: já estava na hora de sair dali, pois eu havia terminado de comer há um certo tempo.

- Ah sim, vamos... eu te acompanho. - Falava apenas, enquanto levantava e oferecia a mão para que a moça levantasse também. Só depois que percebeu que ela tinha um leve problema de locomoção, quando ela se levantou. Assim, deixava que ela ditasse o caminho, pelo qual ele seguiria, onde fosse*.




* - Amelia poderá determinar o local e fazer a ação desejada assim que chegar ali. Considerar que Christian está seguindo-a, sem restrições.

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9 Re: Loyola University em Qui Set 13, 2012 1:01 pm

Amelia Pond

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Ancillae
O rapaz lhe oferece a mão para ajudá-la a levantar. Amelia não precisa de ajuda, há tanto tempo vivendo com aquele pequenino inconveniente, nem mais o percebia. Caminhar com o auxílio da bengala era algo tão rotineiro que, embora consiga se virar relativamente bem sem ela, era como se uma parte de seu braço esquerdo faltasse. Todavia, ela aceita o auxílio e agradece o préstimo. Assiste-o abrir caminho entre os frequentadores do local até a saída mais próxima. Amelia sente-se aliviada quando finalmente sente o ar frio da noite tocar-lhe a face. Não dissimulara quando dissera que excesso de gente a sua volta a deixavam desconfortável. Quando o céu noturno os envolveu, Christian educadamente parou e permitiu que Amelia liderasse o passeio. Ela começa, sem perceber a fazer o caminho de volta para o seu santuário particular, seu templo do conhecimento, seu lugar preferido naquela cidade, seu refúgio de todas as maldades que nela residiam. A Biblioteca era o único local em que conseguia se isolar dos jogos de intrigas que ladeavam todas as instituições de Nova Orleans. Um bom debate político a aprazia deveras, entretanto, não o apreciava quando era necessário tomar uma postura ativa. Dava conselhos, estudava cenários, indicava ações, mas deixava as iniciativas para os outros. Depois que suas perspectivas eram apresentadas, ficava mais do que satisfeita de poder voltar para seu livros e para seu laboratório a fim de prosseguir com sua busca pelo conhecimento.

Os dois caminharam em silêncio por alguns minutos e diante daquilo, Amelia estranhou que o rapaz não tivesse inventado uma desculpa qualquer para seguir seu caminho. Como um bom garoto continuava acompanhando-a. Talvez fosse um daqueles rapazes cavalheirescos que gostavam de se adular ao afirmar que garantiam a segurança de uma garota. E acompanhar a frágil bibliotecária para a segurança, devia ser realmente recompensador para o ego. Não procurou se estender naquela linha de pensamento. Talvez o rapaz fosse uma pessoa honestamente bem intencionada.

Christian, você disse antes que não era religioso, porém, ainda crê em algo "maior" — Ela diz. — Se não for algo absolutamente pessoal, posso perguntar no que você acredita? Digo, grande parte dos cientistas políticos que conheci eram crentes, no sentido de que acredita em algo, mas sua fé estava muito mais em valores que ditavam comportamentos direcionados para a criação de uma sociedade utópica qualquer, e muitas vezes esses valores eram propagados apenas por eles, o que os transformavam em pastores de si mesmos. — Ela pausa e sorri encabulada — Estou divagando e me alongando. O que quero saber, se você puder me contar, no que você acredita?

A caminhada é lenta, mas agradável para os sentidos de Amelia. A noite fria lhe traz lembranças que ela metodicamente busca manter afastadas. É mais seguro para todos manter os sentimentos afastados das ações do cotidiano. Fora o que aprendera logo depois de iniciada no culto Tremere. Mas aquela moça de cabelos alaranjados não pensava assim e teimosamente lidava com os conflitos de valores que se recusava a deixar para trás. Fora por isso que certa vez, tantos anos atrás deixara partir um jovem garoto, não querendo dar a ele exatamente a vida que tivera. Como se isso fosse possível para alguém de sua espécie, para alguém com seus instintos, para o que estava prestes a fazer, considerava-se a favor da vida acima de tudo. Mesmo tendo que conviver com um monstro a lutar pelo contrário dentro de si. Ela acreditava na vida e nas possibilidades que ela oferecia, mesmo que suas crenças mais profundas tivessem que permanecer escondidas nos recônditos de sua mente. Ela era uma feiticeira, fiel a um clã cheio de mistérios e para fazer parte desses mistérios, ela tinha que ser implacável, fria e distante. Costumava ser e sempre que se percebia se afastando demais de seu código de ética, lembrava do motivo de ter deixado o garoto partir, ele era a sua humanidade e por isso sempre lhe seria grata... mesmo que hoje tivesse dele nada além de seu ódio.

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10 Re: Loyola University em Seg Set 17, 2012 6:38 am

Acompanhava Amelia, para que pudéssemos continuar a conversa em outro lugar, algum que ela sugerisse melhor. Deixei que a moça decidisse. Enquanto isso, nós andávamos por um tempo, e eu ajudava-lhe a passar por aquele caminho, de certa forma, afastando algumas pessoas enquanto seguíamos em frente. Assim que chegamos na parte externa, ela começou de fato a mostrar o caminho, provavelmente a Biblioteca. Gostava de teorizar e planejar sobre as possíveis soluções sobre tudo. E aprender sobre algumas coisas fora de seu conhecimento, também. De qualquer forma, o local onde se resguarda uma grande fonte de conhecimento escrito da universidade, parecia ser um bom lugar para passar o resto do tempo.

Por um momento, acompanhou-a, em silêncio, para que continuassem em um local onde ela se sentisse um pouco mais à vontade. De fato, havia mais gente naquela universidade do que de costume. Apenas refletia em tudo aquilo que me passava à mente agora. Também pensava em todos os últimos acontecimentos na cidade, desde o furacão Katrina. Muita coisa mudou. New Orleans estava mais parecida com as maiores cidades dos Estados Unidos do que antes. Mas teve que pagar um alto preço por isso. E mesmo assim, apenas poucas pessoas realmente ganharam com a reconstrução do lugar.

Enfim, ouvi a moça me perguntar algo, que me fez pensar. Basicamente, Amelia perguntava-me se eu tinha fé em algo, já que os cientistas políticos costumavam idealizar ações para si mesmos. De fato, era uma pergunta interessante. Dei um sorriso, enquanto tinha bem claro em minha mente no que eu acreditava. No que eu sempre acreditei, desde a minha adolescência, quando eu já tinha idade e conhecimento o suficiente para criticar o meu pai. Depois de passar um pequeno filme na minha mente de tudo o que me ocorreu no passado, eu respondi a ela.

- De fato, eu acredito em algo. Acredito nas noções de Anarquismo que foram passadas por alguns teóricos como Bakunin e Kropotkin. Acredito que com isso, nós tenhamos uma base para uma sociedade sem Poderes ou Estado, que seja construído para que todos ganhem, no fim das contas. Para isso, precisa-se de um maior foco de cada segmento da sociedade, inclusive os mais marginalizados. Vamos pegar como exemplo, os Nightstalkers. São formados por gente que é discriminada na sociedade. Não concordo totalmente com tudo o que eles fazem, mas acho que eles seriam muito mais efetivos se eles se focassem totalmente no seu real inimigo, que é o sistema atual, e não se dispersassem para cometer delitos ou crimes. Para derrubar um sistema e fazer nascer outro, para que todos possam ficar felizes, tem que se derrubar um inimigo em comum a toda a sociedade, e se degladiar com a mesma.

Falei, de maneira sincera, enquanto me lembrei de um grupo que fazia suas ações por New Orleans. Achava realmente, que apesar dos delitos, o grupo poderia ser melhor gerido, para um bem comum para todo o resto da sociedade, e assim, parar de aparecer em páginas policiais, para irem para outras, mais importantes. No entanto, estamos falando de New Orleans... mundo real. Onde o mercado manda e a Igreja dá uma ajudinha. Não há muito o que fazer.

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11 Re: Loyola University em Sex Out 05, 2012 1:23 pm

Amelia Pond

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Ancillae
A resposta que Christian oferece a desaponta, mas ela não esboça qualquer reação. Podia ser acusada de ser uma sentimentalista, mas conhecia o jogo em que fora inserida bem demais para saber como manipular a máscara em que se transformara o seu rosto. Eram pouco aos que dava o presente da intimidade e permitiam que a conhecesse como realmente era, pois sabia que isso a enfraquecia, portanto, não podia se dar ao luxo de vivenciar sua humanidade propriamente e devia conter os avanços da besta sobre sua consciência da forma mais metótica que podia. Aquela noite se encerraria com meditações e rituais que falseariam a tranquilidade de sua mente e apaziguariam temporariamente o monstro que habitava dentro dela.

Discretamente direcionou a caminhada para um caminho bastante arborizado e naquele horário um tanto escuro, mas a Universidade era um local seguro, mesmo no auge da madrugada. Agressores humanos não a assustavam e os vampiros sabiam muito bem que aquele território era um dos mais protegidos do principado, pois ali, nas salas escondidas da biblioteca estavam muito bem guardados os livros mais preciosos escritos por membros sobre os mais diversos assuntos de sua sociedade. Quem ousasse perturbar aquele templo do conhecimento não só teria que lidar com a fúria da Tremere, mas com as consequências que seriam impostas pelo Príncipe e sua Senescal. Seu predecessor na função de protetor e mantenedor da Universidade tinha feito um excelente trabalho em manter presas metidas longe dali, vestindo sobre seus ombros uma capa de invulnerabilidade que assustava a maioria dos outros membros que pudesse tentar trespassar seus domínios e isso assustava Amelia, pois não tinha nem metade da idade de seu antigo Regente e caso tivesse que proteger a Biblioteca, temia para os poderes aos quais teria que apelar para ser bem sucedida. O que a tranquilizava era saber que eram poucos os que teriam interesse em seu tesouro. Brujahs estão mais interessados em resolver as coisas com os punhos, especialmente sob a liderança de Royce Gregor. Ventrues, são poucos os que tem inteligência suficiente para olhar para trás a fim de planejar o futuro e os Toreadores estavam muitíssimo mais dispostos a colecionar belezas para prestar atenção em livros velhos e empoeirados, seja lá qual for o seu conteúdo. Helena de Vries era uma Malkaviana, sua loucura a transformava num simulacro de Toreador, portanto, estava mais preocupada em simular sua apreciação pela arte do que investir seu modo de pensar único e exclusivo em conhecimentos que poderiam levá-la tão mais longe. Ao menos o desinteresse da Senescal e sua habilidade em delegar funções que depois de delegadas fazia questão de esquecer, dava a Amelia liberdade suficiente para administrar suas influências sobre a Universidade como bem queria. Dissera-lhe para restaurá-la e assim fizera, investira todo o dinheiro da fundação jesuíta para deixar os prédios bonitos, os jardins bem cuidados e criar uma atmosfera de civilidade e cordialidade, pois era de aparências que Toreadores gostavam, e por isso a Senescal estava satisfeita com a Ancillae Tremere e ignorava qualquer notícia que Amelia lhe levava sobre a possível vinda de um Feiticeiro Ancião. Desta forma, o poder político de Amelia continuava a salvo. Jogue o jogo que lhe é oferecido, conheça suas regras e manipule-as.

Olhou de relance para Christian que de modo tão cavalheiresco a acompanhava. Ele era jovem e parecia determinado em fazer mudanças. Talvez pudesse lhe ser útil.

Eu posso parecer jovem, Christian, mas minha alma é velha e carrega quilos e mais quilos de experiências. Por isso, eu acabei a saber umas coisas ou outras sobre este mundo em que vivemos. E em, dentro de um tempo, conforme minha habilidade permitir, pretendo até saber algo sobre outros. — Ela sorri para ele. — Eu acredito naquela velha frase que diz que entre o céu e a terra existe muito mais do que supõe nossa vã filosofia. Mas você não precisa acreditar nisso. não por agora e somente se você quiser. Mas seu entendimento sobre política o faz saber que há um seleto grupo de pessoas que se posta acima de todo o resto, acima até mesmo do bem e do mal, sem qualquer responsabilidade e com o único compromisso mafioso e proteger e acumular em seu próprio benefício e dos seus.

Parou de falar por alguns minutos para que suas palavras pudesse adentrar a cabeça dele. Continuaram caminhando e o único som eram vozes muito distantes, algumas corujas e a gelada brisa noturna que fazia as árvores farfalharem.

Eu o conheci apenas há algumas horas, mas posso ver em você um talento para liderança e um sincero e romântico desejo de lutar por ideais. Vejo um grande potencial em você.

Naquele momento Amelia pára a frente dele, impedindo-o de continuar caminhando, e sua postura muda. Ela deixa de ser a garotinha pequena e frágil e torna-se a altiva feiticeira secular, que manipulava diariamente a magia do sangue.

Há muitos caminhos para você direcionar sua vida e um deles pode levá-lo a fazer parte de algo muito maior. É um caminho escuro, mas o leva para um novo nível de claridade a cerca dos assuntos mais diversos que nos permeiam. Infelizmente não posso lhe dizer nada a respeito disso, mas acho que você entende que estou sendo sincera. O que você vê é apenas o início de muito mais e para ver mais é preciso apenas um pequeno salto na beira do abismo. ... Um salto de fé.

Ela caminha em torno dele, seu caminhar não é mais devagar e errático, mas fluido e firme.

Mas não agora, embora haja tanto o que eu deseje compartilhar, pondere a respeito e na próxima vez que nos encontrarmos diga-me o que deseja. ... Mas agora você me fará um favor e não se espante se as coisas parecerem estranhas depois, apenas abra a sua mente. Eu lhe agradeço.

Para às suas costas, apoia-se sobre sua perna saudável e rapidamente ergue a bengala para acertá-lo na nuca, logo acima do término do pescoço, fazendo com que o impacto atinja o cerebelo. Ele cai imediadamente. Inconsciente. Aquele era um golpe recorrente que ela utilizava para desacordar suas vítimas e poder alimentar-se com tranquilidade.

Abaixa-se para ele e vê que o rapaz ainda respira. Apenas sentiria-se bastante tonto quando acordasse. Levou suas presas até o pulso de sua vítima, perfurou-o e começou a sorver o líquido quente que escorreu. A sua volta tudo era silêncio e podia apenas sentir a pulsação dele fazendo o sangue ir para sua boca. O gosto era delicioso. Quando se alimentava diretamente da fonte, concluía que não havia nada melhor no mundo. Todo o resto podia deixar de existir. Seria apenas ela sorvendo todo o poder da poção que lhe restaurava a vida, que acalmava e aprazia a sua besta. Era em momentos como aquele que percebia que sua mera existência girava em torno de momentos como aquele. Que tudo parecia fazer sentido. Sorveu, sorveu e sorveu, sem desperdiçar uma gota daquele rubro tesouro. Sorveu até que sentiu o pulso dele começar a diminuiu. Parar era a pior parte. Tal qual um viciado em narcóticos ou um alcoólatra, o último gole era sempre o mais difícil.

Afastou-se dele num único movimento. Sentia-se quente. Abriu o casaco como se aquilo fosse aliviá-la do desejo de sugar-lhe até a morte. Podia fazer isso, queria fazer isso. Lembrou-se do garoto e disse não a si mesma.

Voltou-se para Christian e lambeu o restante do sangue que ainda escorria e lambeu a ferida aberta a fim de fechá-la.

Foi bastante apropriado ele ter escolhido a carne bovina para seu jantar, uma refeição rica em carboidratos e proteínas o ajudaria recuperar-se mais rápido. Ao seguir de volta para a biblioteca, sacou o celular e ligou para a enfermaria.


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Amelia retirou 5 pontos de sangue de Christian.



Última edição por Amelia Pond em Sex Out 05, 2012 1:31 pm, editado 1 vez(es) (Razão : Erros de formatação)

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12 Re: Loyola University em Sab Out 06, 2012 11:00 pm

Amelia de fato, se mostrava uma mente desafiadora e interessante. Poderia passar um bom tempo tentando descobrir o que a moça pensava, o que vinha de sua mente. Gostaria de ter mais alguns momentos para aquela conversa, pois realmente sentia que ela parecia saber ainda mais do que se sugere para alguém como ela. Não parecia restringir-se apenas ao conhecimento de sua vasta biblioteca, apesar de ser algo muito importante para ela.

Aos poucos, andávamos para um local mais escuro e isolado da Universidade. Eu, particularmente, nunca havia estado por aquelas bandas. Mas apenas continuava seguindo-a. Talvez fosse uma parte dela, que a garota quisesse revelar. O que eu achava interessante. Aquela parte em que estávamos tinha certo ar de mistério. E, cacete, tinha visto que o meu celular tinha mensagem do líder do movimento estudantil, no silencioso. Dei uma rápida olhada e depois guardei. Depois daria uma olhada melhor. Havia muitos tópicos que eu gostaria de tratar assim que eu chegasse em casa. Tinha algumas idéias fervilhando em minha mente.

No entanto, Amelia parou por um momento, para falar-me algumas coisas. Ela parecia acreditar em algo além do que convivíamos normalmente no mundo físico. O que era normal. Mas o que mais me deixou um tanto sem saber o que pensar, é o fato dela relacionar isso à política... e de parecer saber muito mais do que deveria, devido a sua aparente idade.

Era estranho, mas as palavras de Amelia eram mais firmes que antes. Falava-me de um caminho escuro, mas que podia me esclarecer. Um caminho escuro? Que caminho seria esse? O que ela estava tentando dizer? Muitas perguntas estavam rondando a minha cabeça agora. Mas a verdade é que eu não consegui esboçar nenhuma reação. Estava "processando" tudo. Sim, queria saber de mais coisas. Queria saber quem realmente "dominava" tudo. Mas... um salto de "fé"? Imagino que não tenha nada a ver com religião. Então, que tipo de fé eu deveria ter para isso? A única que eu conhecia era a busca pela verdade. A qualquer custo.

Ela ficou na minha frente, e parecia que iria pedir um favor. Estava preparado para escutar. No entanto, uma forte dor na nuca me fez apagar...

(...)

Acordei na enfermaria. Nada mais me vinha à mente, além de alguns flashes. Por um certo tempo, demorei até mesmo para me lembrar da Amelia. Afinal, a primeira coisa que eu me lembrei de falar, foi para o enfermeiro...

- Cara... que porra é essa? Juro que eu não tomei uma gota de álcool.

No entanto, eu ainda estava atoroado, como se tivesse tomado algumas doses puras de whisky. O cara apenas me explicou que eu tinha passado mal temporariamente, talvez porque tivesse tido um forte trauma ou algo do tipo. Talvez eu tenha caído de cabeça no chão, não me lembro. Só sabia que meu pescoço ainda doía bastante.

Passei alguns minutos e fui liberado. Aos poucos, eu ia me lembrando de novo da conversa que tive com Amelia. Realmente, eu gostei daquele momento. Mas não descobri tudo o que gostaria. Eu me sentia estranho. E lembrava o quanto a conversa tomou um ar político e misterioso ao mesmo tempo. Alguns flashes me vinham. Só não me lembrava de maneira nenhuma do que aconteceu para que eu chegasse até a Enfermaria.

De qualquer maneira, estava na hora de voltar para casa. Antes disso, eu vi o meu celular. Pelo menos, estava comigo. Ninguém tinha me assaltado, aparentemente. Ao ver a mensagem, era algo do tipo:

Líder do Movimento escreveu:"Chris, tem alguma idéia da próxima pauta da reunião de Ato Público por New Orleans? A gente tem que fazer algo bacana para movimentar os estudantes e o pessoal mais engajado. Tô sentindo que depois daquela porcaria de Katrina, estamos nos paralizando."

Sim. Ele estava certo. Havia uma acomodação geral depois da recuperação da cidade. Era como se tivessem certeza que o governo bonzinho, e as corporações, sempre tão caridosas, iriam fazer tudo para proteger a população... só que não. Ou ao menos, não de graça. Governo bom, corporação com intenções sociais é o cacete. Isso não é nada mais do que alienação.

Peguei um taxi na avenida, para voltar para casa. Tudo aquilo estava estranho demais... eu tinha que falar com Amelia depois, mas por enquanto, iria cuidar de coisas minhas.



Off.: Seguindo para os condomínios do Centro.

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13 Re: Loyola University em Ter Nov 06, 2012 8:49 am

Amelia Pond

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Ancillae

Trecho em itálico escrito à quatro mãos. Leia a primeira parte e a segunda parte



Amor. Uma palavra tão pequena, mas ao mesmo tempo tão grande e tão complicada. Amelia não sabia como lidar com ela, não fora treinada para isto. Tudo o que ela era e sabia nada passava do que fora destinada a ser, o resto não mais do que uma teimosa tentativa de mostrar que podia ser mais. Mas não sabia lidar com o amor, primeiro porque não crescera num ambiente propicio para demonstrações amorosas, segundo porque mesmo fora de casa jamais lidara com interesses amorosos vindo em sua direção. Não fora criada para amar, portanto tudo o que tinha era uma excelente educação, um jeito doce de falar e um código de ética bastante específico, mas amor? Pela primeira vez questionou o motivo de ter libertado o garoto. Fora apenas sua diretriz que não permitia causar mal a crianças ou fora algo mais que a fizera envolver o rosto dele em suas frias mãos, dar-lhe um beijo na testa e dizer-lhe: "vá e viva uma vida melhor que a minha"? Ela não queria matá-lo, mas a outra opção significava impôr a alguém a mesma privação de escolhas que sofrera. Amara-o naquele momento? Fora amor que despertara sua piedade? Não sabia a resposta e aquilo a incomodou. Sentiu-se acuada.

Levantou-se rapidamente e se afastou de seu "predador", seguindo até a janela mais próxima. Abriu, escancarou-a. Não fazia sentido, mas sentia-se sufocada, talvez "presa" fosse uma palavra mais adequada. O ar frio da noite tocou sua face, mas não aplacou sua angústia. Depois de tempo, voltou a olhar para Henry, cuja expressão nada denunciava, ele tinha aquele olhar comum aos vampiros que ela também sabia dissimular, aquele olhar impassível e vazio — a melhor defesa em uma torre de segredos era nada revelar. Mas ele revelava algo, que devia amá-la, e a deixava confusa.

Por que você diz "devo"? — Pergunta de súbito, colocando em seu rosto a mesma máscara fria que ele usava. Dois podiam jogar aquele jogo, qualquer que fosse.

Ele franziu o cenho.

Por que está a dizer isto? — Ela atacou novamente. — O que espera ganhar com isto?

Aquilo o fez recuar. Sem entender bem, Amélia concluiu que feri-lo a fazia sentir-se melhor consigo mesma, embora soubesse que era errado. Diversas deduções sobre seu comportamento naquela noite, só chegou muito tempo depois quando conseguiu por seus pensamento de volta no lugar, mas naquele instante, aquilo que lhe dava estabilidade e segurança, Henry conseguira tirar dela. Amelia sentia-se segura em ambientes onde ela detinha as respostas, onde mesmo o desconhecimento de algo estava sob seu controle e naquela situação em que fora inserida, a impressão era de que tudo fugia-lhe e a ordem se transformava em caos. Amelia não lidava com o caos. Tinha medo do que não podia ser controlado.

Eu só queria que você soubesse de minha gratidão. — Ele disse finalmente e aquilo a enfureceu, não o suficiente para fazê-la perder o controle de si, mas o suficiente para que ela tivesse que se concentrar em suprimir certos instintos violentos. Hoje ela não sabe porque se sentira assim..

Mas eu não quero a sua gratidão! — Disse num tom mais alto do que normalmente usaria. Ele tentou se aproximar, mas imediatamente ela ergueu sua bengala na direção dele impondo o espaço de seu cumprimento entre eles. — Eu lhe dei a liberdade para que... não precisasse lutar por sua humanidade. Aquele garoto, meu Henry, era o único presente valioso o bastante que eu poderia lhe dar.

Ele certamente não estava esperando por aquilo, pois não respondeu ou esboçou qualquer tipo de reação. Amelia abaixou a bengala e tornou-se a virar para encarar a noite pela janela.

O que é a imortalidade sem uma série de arrependimentos para lamentar. — Ela virou para ele e tentou sorrir, mas estava triste. — Eu fiz a minha escolha e você fez a sua. Somente nos resta conviver.

Era a primeira vez que o tratavam como “meu Henry” desde a morte de sua mãe biológica. Por um momento ele imaginou que as duas mulheres seriam bem idênticas, assim como o tipo de amor que ele pode sentir por ambas. Havia, contudo, uma diferença grande na relação: uma delas nunca lhe viraria as costas.

Pare com essa dramaticidade toda. — ele disse secamente — Você não tem o direito de negar minhas vontades, de dizer como me sinto ou como devo agir, Amelia. Basta!

Havia levantado o tom de voz pela primeira vez nas conversas com a Tremere. Não só o segredo sobre sua real identidade é que estava guardado; também havia, além da gratidão, ressentimento. Se por um lado ela o deu a eternidade, por outro lhe tirou a vida. Sim, “tirou”, pois se ela tivesse cumprido seu papel e o matado, ele não estaria a perambular perambular sem alma pelo mundo e a participar dos estúpidos jogos da sociedade dos mortos-vivos.

Saiba que não só gratidão é o que lhe devo. Por sua culpa eu acabei virando o que sou, para o bem e para o mal, portanto pare com essa besteira de “conviver com nossas escolhas”. — deu as costas para a janela e para Amelia, ficando a andar vagarosamente de um lado para o outro — Tão linda, com seus cabelos vermelhos e sua pele branca, de fala mansa e educada. Uma jovem dama que tratou uma criança com outros olhos que não os da exploração; tratou com amor.

Ela se cala, prevendo que ele jogaria a culpa por aquilo que lhe aconteceu. De certa forma, já esperava por isso.

O “seu Henry” era impressionável. E persistente. Fui atrás de ti e encontrei alguém que me ofereceu a possibilidade de ser como você era. — Ele parou por um momento a estudar a expressão dela, desejando encontrar a surpresa dolorosa. Ela o transformara numa criatura feita para nada além de ferir, queria que essa realidade caísse sobre a cabeça dela e a machucasse, não suportava mais que ela fosse perfeita. — Você fez a sua escolha. Burra, irracional, mas ainda sim representa a sua vontade. Espero que se arrependa amargamente de suas escolhas, Amelia.

Apesar de ser seu refúgio, foi Henry quem encaminhou para sair do apartamento – Ah... Eu te aconselho a se proteger muito bem sob as asas de seu grupinho. As coisas podem ficar bem feias e ninguém será poupado.


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Estava sentada à sua mesa no escritório da administração geral da Biblioteca. O jornal já estava há tanto tempo em suas mãos que começava a manchar a ponta de seus dedos. O caderno de nogócios falava da inauguração da Vestrue CO. e de como isso influenciaria no mercado, tanto regional como nacional. A coluna social também trazia a mesma festa como tópico e em ambas seções haviam fotos de Henry. Não se importava em nada se mais uma grande corporação se instalava no mundo. Quem deveria se importar eram os pequenos anarquistas românticos que sonhavam com um novo mundo. Amélia já passara há muito deste tempo. Sonhos são para os jovens e ela era velha. 199 anos testemunhados sobre seus ombros, todos cuidadosamente registrados em seus livros. O que a importava sempre era saber que membro estava por trás de determinada ação, pois assim fora ensinada e assim percebera ser a verdade, sempre havia um membro cainita por trás de toda grande ação de de massiva mobilização. Aquilo se chamava movimentar o rebanho e sempre levava aos outros membros em posições hierarquicamente inferiores a pularem de um lado para o outro como baratas tontas a fim de acompanhar a onda.

No caso da Vestrue e seu infâme nome, uma óbvia provocação aos outros participantes das políticas na cidade, Henry estava demais exposto como a cabeça do dragão para justamente não ser isto. Não era preciso pensar de mais para ver que ele não passava de um mero peão. E tão logo sua missão terminasse, seria descartado... não apenas posto de lado, mas encaminhado para a morte final para que não se tornasse um incômodo posteriormente. Tivesse ele êxito ou fracasso. Embora se escondessem por trás de um jovem ancilla, aquilo eram os Ventrue erguendo seus estandartes e marchando para a guerra. Apenas estranhava o anúncio tão público, o envolvimento do rebanho quando aquilo se resumia a escaramuças entre dois clãs. Mas talvez servira ao seu propósito, fosse ele qual fosse. A Senescal do Príncipe das Sombras na noite posterior convocara seus vassalos para alegar finelidade na guerra por vir. Amélia fora convocada também, mas a um aviso recebido com tão pouca antecedência. Não teve como comparecer, mas enviou uma emissária que a representasse, testemunhasse o encontro e lhe relatasse o teor da conversa.

Exatamente como esperara. Helena De Vries convocara a primígênie e os principais membros de cada clã a fim de assegurar seus apoios nos conflitos. Todavia, a reunião foi um fracasso. O ancião Brujah manifestou seu descontentamento com a liderança Toreador e a Giovanni só faltara anunciar que viraria a casaca em favor dos Ventrue. Mas Brujahs seriam sempre descontentes, aquela era a sua natureza, quando tudo vai bem, cavocam, cavocam e cavocam até encontrar algo para ter contra o que lutar, estes são guerreiros e não sabem viver na paz - tinha a impressão que eles ainda estavam presos nos tempos passados em que sua força física e seu ímpeto na batalha era o necessário para a sobrevivência... mas não aconteciam mais batalhas campais e este clã tentava sair do deslocamento para se encaixar no mundo. Agora os Giovanni são outra história e esta papa-moscas em específico apenas mostrava o quão pouco todos eles eram de confiança, se fosse, certamente estariam todos eles submissos às leis da Camarilla e não jogando no lado em que melhor lhes convinha, ao menos a italiana era sincera em demonstrar suas verdadeiras cores, mas eram as cores da traição e da perfídia adornados com o poder dos mortos. Helena estava mal de aliados. E não era uma líder carismática o bastante para inspirar a lealdade de qualquer vampiro... Os Toreador talvez, na medida em que a tinham como líder apenas por sua idade e geração, mas no fim não passava de uma boneca que gostavam de admirar. Se o Príncipe não se revelasse a fim de liderar suas espadas para a batalha, a Senescal perfumada estaria sozinha lutando com gravetos.

E Henry morreria, independente de quem recebesse Nova Orleans como prêmio, e desta vez, Amelia não poderia fazer nada para ajudá-lo.

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14 Re: Loyola University em Sex Set 20, 2013 11:06 am

Há exatamente dois anos, aquela universidade parecia completamente estranha para Sophia. Ela havia acabado de se mudar para Nola e, antes mesmo de arrumar suas coisas em seu novo apartamento, já estava ali... Em seu mais novo local de estudo.

Não que a universidade fosse a melhor que ela já havia visitado, não era, mas saber que estudaria ali a fez entrar em um grande estado de excitação. Tudo a impressionou; desde a harmonia entre a fachada, com seus tijolinhos laranja, e o jardim, onde alguns estudantes ficavam sentados aproveitando o calor de fim de tarde, até as salas amplas e geladas, com cadeiras confortáveis, um quadro gigantesco – muito pouco utilizado pelos professores - e um pé-direito digno de uma construção antiga, devido à altura.

Mas, o que mais encantou Sophia foi a grande biblioteca.

A primeira vez que a visitou foi com o guia da universidade, não tendo tempo para aproveitá-la... Mas, no primeiro tempo livre, lá estava ela. Sophia não se cansava de admirar os arcos no teto de madeira, que davam mais luminosidade ao ambiente, as mesas de estudos, os vários livros que abordavam diversos temas, a organização que permitia encontrar o livro desejado sem muito esforço e, principalmente, o silêncio. O silêncio, juntamente com a variedade de informação contida ali, foram os fatores decisivos pra menina eleger aquele lugar o seu preferido de toda a universidade.


{...}


Hoje em dia, além de local preferido, Sophia precisa visitar constantemente aquele espaço. Além de ser um ótimo lugar para estudo, e talvez pra fugir do grande número de pessoas que vagavam pelas áreas de convivência e nos jardins na hora dos intervalos, ela estava profundamente envolvida na pesquisa que foi iniciada dentro do núcleo de sua bolsa de estudos. Um livro muito antigo foi encontrado por historiadores  e logo passado ao departamento de línguas clássicas para ser traduzido. Isso não costumava acontecer, havia uma grande disputa entre arqueólogos e historiadores, e o departamento de línguas clássicas, não havendo quase nenhum intercâmbio de informação... Mas aquele caso era diferente. O livro era uma espécie de diário mitológico (foi a melhor forma que Sophia encontrou para classifica-lo) que datava diferentes épocas e continha vários dialetos antigos, uns muito antigos, de antes da era clássica.

Desde então ela passava o tempo livre dentro daquela biblioteca, e, hoje, não foi diferente.  Ela chegou bem cedo, antes que o sol ficasse realmente forte, mas só tinha que ir “trabalhar” em sua bolsa à tarde e aulas à noite, por isso foi direto para a biblioteca. Antes, como ela não tinha muitos amigos ali, passou somente na sala de seu orientador pra dizer um olá e ver se ele havia descoberto algo e conversaram até que ele saiu pra dar sua primeira aula da manhã.

A biblioteca era um local sombrio naquela hora da manhã. Somente a luz nebulosa, que entrava pelas janelas de vidro, iluminavam o local quase inabitado. A única pessoa ali era  a bibliotecária, uma senhora rabugenta da qual todos tinham medo, mas por quem Sophia tinha uma estranha simpatia... Ela não fazia perguntas, apenas era cordial e logo fazia toda a biblioteca ficar em silêncio quando algum baderneiro ali entrava.
É... Podia-se dizer que elas tinham uma boa relação.

A menina percorreu as estantes buscando os livros que lhe interessavam, tendo de subir nas escadas pra pegar a maioria deles, devido ao seu tamanho, e leva-los para a mesa em algumas viagens . Logo a cena rotineira se formou ali, ela, tão pequenina, envolta em livros que pareciam mais agressivos que ela, de diversos tamanhos, cores e temas ( contendo gramáticas de latim e grego- naquela manhã-, alguns livros de história e mitologia da índia e algumas teses de doutorado que, transformadas em livro, faziam um estudo de um língua muito antiga chamada sânscrito). Ela começou o seu estudo folheando o livro de mitologia, procurando por figuras parecidas com a que encontrou no livro de sua bolsa. Estava mesmo curiosa com o começo dele, que tinha boa parte escrita em sânscrito, e, como ainda estava tentando aprender aquele dialeto, estava tentando fazer um paralelo, comparando-as com as fotos que havia tirado do livro de sua pesquisa com  as imagens encontradas no de mitologia .

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15 Re: Loyola University em Seg Set 23, 2013 6:20 pm

Essa era a primeira vez que Helen vinha a New Orleans. Chegara na noite anterior, em seu jato particular, e foi diretamente para o Hilton Hotel. Após uma noite de sono sem sonhos muito restauradora, tomou o café da manhã em sua suíte e rumou bem cedo para o Centro Empresarial, onde passou toda a manhã em reuniões sobre negócios imobiliários.

Dos três setores em que atua o Ortwin Sinclair Group, ou simplesmente OSG, é o imobiliário que, desde o estouro da "bolha", vem carecendo de maior atenção. Mas não que esse segmento da empresa chegasse ao ponto de gerar prejuízos. Sendo conservadora nos investimentos - seus críticos preferem dizer "sem ousadia" -, Helen acabou não fazendo apostas tão altas e arriscadas quanto as que alguns de seus concorrentes lançaram durante o período de boom da construção civil no mercado americano. Ainda assim, o ramo imobiliário dos negócios da família - herança de seu pai - seguia com taxas de lucro um tanto insatisfatórias para os acionistas. Decidida a mudar esse quadro, Helen se mudou temporariamente para Nola, a fim de acompanhar e coordenar mais de perto os investimentos que estava realizando em parceria com a Vestrue.

Mas havia ainda outro motivo que a atraiu para a cidade. A chance de fazer algumas pesquisas na área do ocultismo e, quem sabe, um contato interessante para melhorar o seu status junto ao Conselho Curador da Fundação Mirabilia. Embora fosse uma das maiores doadoras dessa entidade cultural, e neta de um de seus membros mais ilustres, o agnosticismo de Helen criava reservas quanto à sua candidatura (já rejeitada duas vezes) para compor o Conselho. A Fundação era antiga, conservadora, e se dedicava a fomentar o estudo e a preservação da cultura religiosa cristã, auxiliando igrejas de todas as denominações a zelar por bibliotecas, acervos digitais, templos de maior importância histórica, e assim por diante. Ser agnóstica, portanto, não era considerado um bom requisito pelos conselheiros.

Foi para investir nessa segunda área de interesses que, após o almoço - o qual também serviu para tratar de negócios - ela seguiu com seu carro até o campus da Loyola University. Assim que entrou na biblioteca, foi como se seu espírito mergulhasse lentamente em águas plácidas e mornas, tamanha a sensação de paz que aquela decoração sóbria e de longo passado lhe transmitia. Gastou algum tempo conhecendo os vários cantos da biblioteca, usufruindo de sua atmosfera. Foi como se, de repente, estivesse de novo na grande biblioteca de seu avô, que tanto prazer lhe dera na adolescência - diferentemente daquela outra biblioteca menor que ele tinha, sobre ciências ocultas, cujos tomos costumavam deixá-la entre perplexa e perturbada.

Foi já no final dessa etapa contemplativa que ela notou uma moça muito jovem, baixa e com cabelos loiros quase completamente brancos a recolher material para pesquisa das prateleiras, num metódico vai e vem. Isso fez Helen lembrar-se do motivo de estar ali, então começou a garimpar o material de que precisava. Sentou-se numa mesa próxima àquela em que a garota de beleza um tanto incomum estudava, mas logo ficou absorta nas próprias leituras, sem dar atenção ao que acontecia em volta.

Helen começou lendo sobre auras e psicometria, que é a capacidade de perceber emoções, pensamentos ou memórias de uma pessoa manipulando objetos que lhe pertenceram. Seria esse um bom caminho para explicar a razão de Helen haver começado a se atormentar depois de ter lido um conto numa revista autografada pelo próprio autor, homem cuja vida e espírito foram de muito tormento? Um autor que, além disso, possuía uma história de vida em alguns pontos similar à dela?

As leituras que fez nas horas que se seguiram não encaminhavam para uma resposta positiva a tais perguntas. A maior parte das informações ela já conhecia e, como de hábito, não traziam evidências concretas de que esse tipo de fenômeno psíquico seja real: apenas especulações baseadas em possíveis coincidências e testemunhos que não foram postos à prova por experimentos controlados. Ela passou então a procurar documentos mais antigos sobre um assunto correlato: magia simpática. A maior parte da documentação estava em latim e, como ela não domina essa língua, separou aquele material para fazer cópia. Quando achou um manuscrito em grego, que ela lê fluentemente, voltou para sua mesa com todo o novo material recolhido.

Ao passar perto de onde estava a jovem, viu que ela também estava trabalhando com materiais muito antigos, escritos em línguas arcaicas, inclusive latim. Algumas ilustrações curiosas que pôde vislumbrar - "seria aquilo um pentáculo?", cogitou - fizeram-na crer que se tratava de uma pesquisa sobre mitologia ou outros temas relacionados aos seus próprios estudos. A curiosidade de Helen a fez sentar-se mais perto da garota, cuja pele era quase tão clara quanto o cabelo, indicando tratar-se de albinismo. Ela parecia muito absorta no que fazia. Helen se perguntou se seriam notas históricas ou para um trabalho de tradução.

- Olá. Desculpe-me se interrompo seus afazeres, mas é que eu sou uma estudiosa diletante de história do pensamento ocultista e, bem, como há muito pouca gente que se interessa por isso, me pus a pensar, vendo os livros sobre a sua mesa, se nós duas não poderíamos trocar algumas ideias a respeito.

Ela disse essas palavras num tom simpático e procurou sorrir sem afetar animação excessiva.

- Ah, desculpe-me ter lhe abordado sem nem dizer meu nome. Eu sou Helen Ortwin Sinclair. Mas pode me chamar apenas de Helen, se desejar.

Estendeu a mão para cumprimentar aquela jovem, notando que ela tinha olhos profundamente azuis e um tanto tristes.

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16 Re: Loyola University em Ter Set 24, 2013 11:36 pm

As primeiras imagens que Sophia havia fotografado estavam bem borradas. Os traços se assemelhavam muito com o do desenho da capa do livro, feito a carvão, que retratava uma arvore morta, com um homem grotesco; provido garras nas mãos e pés, orelhas pontudas, músculos distorcidos e a face de puro ódio; pendurado de cabeça pra baixo como um morcego, e se distinguiam, pois pareciam que todos haviam sido feitos as pressas, com borrões que tornava a distinção das figuras ali presentes impossível. Mas havia algo semelhante entre eles: sempre a ilustração retratava cenas à noite, com um profundo grau de escuridão em todas elas.

As três ultimas imagens, que ela havia fotografado na noite anterior do livro de sua pesquisa, foram as que mais chamaram a atenção da menina naquele momento. Não era preciso ser grande especialista em arte – e ela não o era – pra perceber haviam sido feitas pessoas e, provavelmente, em circunstâncias bem diferentes, pois, enquanto as primeiras eram feitas de carvão e com traços totalmente amadores, as ultimas eram pintadas em tons quentes como vermelho e laranja, em contraste com o negro e o azul, e apresentavam uma qualidade artística incrível.

A primeira delas representava a deusa indiana Kali, com seus vários braços – que seguravam em um dos lados do corpo, uma foice e um tridente e do outro uma cabeça humana decapitada, com uma tigela recolhendo seu sangue - subjugando Shiva (seu marido) em um campo de batalha. Toda a imagem era trabalhada em vermelho (e  suas variações) e negro, entrando em contraste com as cores frias dos dois deuses ( azul e branco). O que mais impressionou Sophia naquela imagem era a vestimenta da deusa: Seu colar era feito de cabeças humanas e sua saia de membros decepados, com o corpo dela coberto de sangue.

As outras duas imagens retratavam também um ambiente sangrento. Uma delas representava uma mulher pálida, fugindo do quarto de um homem durante uma noite sangrenta, havendo uma semelhança com o céu vermelho e negro da primeira imagem, enquanto deixava o corpo dele pelo chão, com as roupas ensanguentadas e a expressão de horror. A imagem mostrava ela olhando para trás, enquanto estava agachada na janela, com uma expressão de satisfação e  os lábios sujos do mesmo sangue, vermelho vivo, que escorria do corpo do amante, fazendo um caminho pelo chão. A outra representava um homem entrando no cemitério. Este era pálido, como toda a imagem ( esta era, em maior parte, trabalhada em preto, branco e cinza) e carregava o corpo de outro homem ( que possuía sua pele e roupas representados com cores quentes – Sophia só podia imaginar que aquilo representava vida versus morte) e olhava diretamente para uma cova vazia. Não era possível entender – com os conhecimentos que ela tinha até o momento – se o homem seria enterrado ali ou se a cova pertencia ao homem que carregava o corpo... Mas o sangue nos lábios do homem pálido e nos lábios da mulher da outra imagem,  fazia a menina crer que ambas representavam a mesma coisa: vampiros.

...


Na parte que ela estava ajudando a traduzir do livro -  a final, escrita em latim – várias menções foram feitas a estes seres mitológicos. A pessoa que escreveu aquela parte parecia não gostar muito desses seres e acreditar que eles existiam, a ponto de caçá-los. Até a parte que haviam traduzido ( e não era muita coisa, devido a ser um latim misturado com dialetos locais e a condição em que os papeis se encontravam) havia se contado uma pequena história do “primeiro vampiro” e como este gerou outros... Dizendo que essa raça se perpetuaria. E foi isso que a fez acreditar ser um “diário mitológico”.

Ela ligou imediatamente para o seu orientador, contando o que havia descoberto: uma conexão entre o começo e o fim do livro. Contou sobre as imagens e que havia passado parte da manhã tentando encontrar alguma parecida com as primeiras – borradas -  mas que não havia se dado conta que eram as três últimas que ajudariam em algo. O orientador deu permissão para ela passar o dia pesquisando, a liberando de comparecer no laboratório e assim ela o fez, parando somente para comer algo na hora do almoço e voltando para a biblioteca.

Sophia estava concentrada. Quando viu a imagem que retratava o campo de batalha, identificou aqueles dois realmente como divindades, mas não sabia “quem eram”, realmente. Se concentrou naquilo, logo descobrindo que no hinduísmo a deusa Kali e seu marido Shiva eram diretamente ligados ao vampirismo. Descobriu também que os vampiros da índia eram tomados como servos desses deuses, mas não eram uma espécie única. Leu algumas lendas, tentando entender as outras duas imagens, e logo encontrou algumas que podiam explicar aquelas imagens, transcrevendo-as em um caderno:
Transcrição:
Uma infinidade de seres vampíricos fazem parte da mitologia indiana, sem falar em várias divindades que têm facetas vampíricas evidentes, como a deusa Kali e seu marido Shiva.
{...}

O Vetala é um demónio vampiro com características de semideus. Ocasionalmente, o Vetala pode promover a possessão de um cadáver, animando-o para suas práticas hematófagas.

Outros dois tipos de vampiros importantes eram o Gayal e Churel. O Churel é um Vampiro feminino, uma mulher que teve morte no parto ou menstruada. Ela aparece como uma linda donzela, extremamente sedutora, drenando suas incautas vítimas enquanto estas se encontram deleitando-se em seus braços.
{...}
O cadáver do Churel tinha os pés presos em cadeias, os ossos quebrados e era enterrado em decúbito dorsal, para impedir seus ataques.



Já o Gayal,  assume características de Vampiro mais uma vez devido a problemas no sepultamento, por ser uma pessoa sem família para zelar por seu funeral, ou se a família por alguma razão não realizou as cerimónias. Ele é enterrado sumariamente sem ritos póstumos. O Gayal ataca seus parentes e os filhos de seus vizinhos. A destruição do Gayal é feita quando lhe fazem os ritos póstumos e lhe queimam o corpo.

Fonte: http://www.astrologosastrologia.com.pt/vampiros_VampirospeloMundo.htm

A menina mal percebeu a chegada de Helen, só se dando conta mesmo de que esta falava com ela quando a moça mencionou ser também uma estudiosa que queria compartilhar algumas informações sobre o conhecimento de ambas em determinado assunto. Logo a menina levantou a cabeça, observando a mulher de forma calculista, mas ficando certamente interessada na proposta dela.

-Hm... A sua interrupção é certamente adequada, Helen - disse. A voz dela era doce, fazendo um conjunto harmonizado com seu corpo. Logo continuou – Eu sou Sophia Beker. Talvez você se interesse em se sentar? Sim, acho que assim teremos um melhor diálogo – Ela tinha um jeito estranho de falar. Talvez um pouco seco e sem muito rodeios, como é de costume quando se conhece uma pessoa... E isso costumava afastar as pessoas dela. Sophia indicou para a moça se sentar e logo colocou alguns livros em uma cadeira vaga, para que eles não atrapalhassem a visão de ambas – O meu estudo não é apenas diletante, mas confesso que gosto realmente disso – indicou os livros – Qual sua área de estudo, Helen? Eu no momento estava estudando alguns mitos, talvez seja do seu interesse –Virou o livro para a moça, mostrando a página que havia acabado de transcrever em seu caderno. Não falou exatamente para o que era, mas achava interessante compartilhar o que ambas sabiam sobre o assunto. Sophia guardou o celular e prestou atenção na reação da mulher ao ver o livro – Você os conhece? – Perguntou de forma direta. Queria saber mais sobre aquilo que estava lendo, e pensou que talvez a mulher soubesse algo sobre aquilo, ou sobre alguma coisa que pudesse complementar o estudo dela.

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17 Re: Loyola University em Ter Out 01, 2013 3:57 pm

Helen achou interessante a reação da moça à sua aproximação. Afinal, ela se prestou logo a entabular conversa, apresentou-se como Sophia Beker e até convidou Helen a se sentar bem ao seu lado, mas sempre com um tom de voz e uma expressão que pareciam manifestar certa reserva. Sempre propensa a analisar as pessoas, Helen se perguntou se a garota seria um pouco tímida ou se estava apenas esperando conhecer melhor sua interlocutora para se mostrar mais aberta.

– O meu estudo não é apenas diletante, mas confesso que gosto realmente disso – indicou os livros – Qual sua área de estudo, Helen? Eu no momento estava estudando alguns mitos, talvez seja do seu interesse.

– Eu trabalho como empresária, mas uso boa parte do meu tempo livre para estudos em história, filosofia, um pouco de ciência e, principalmente, ocultismo. Então, se você estuda mitos, pode ter certeza de que isso me interessa.

Helen observa a página do livro que a jovem lhe mostrou com uma expressão séria. A garota sabia que Helen não iria ficar lendo o texto de um livro suspenso na vertical, o que significa que ela desejava que Helen desse informações sobre o que estava sendo pesquisado sem usar outra fonte além das figuras - que, por sinal, eram tenebrosas, sangrentas e altamente sugestivas.

- Você os conhece?

- Os deuses indianos são fáceis de reconhecer. As outras figuras mostram pessoas que bebem sangue. Hummm… você está pesquisando sobre vampirismo?

Diante da confirmação que Sophia lhe deu, assentindo com a cabeça, Helen refletiu alguns momentos no que deveria dizer. A moça não esclareceu qual era sua área de pesquisa e ainda hesitou um pouco antes de confirmar o tema. Isso levou Helen a supôr que ela estava escondendo o jogo para avaliar o quanto podia obter de informações antes de mostrar o que já sabia. Era um cuidado típico de pesquisadores profissionais, que são muito ciosos em não revelar suas descobertas a menos que tenham certeza de que isso pode lhes trazer conhecimentos novos. "Ou talvez a reserva e hesitação dela tenham também motivos pessoais…", sussurrou-lhe a intuição ao ouvido.

Fosse por questões profissionais ou pessoais, a precaução de Sophia era compreensível, de modo que Helen decidiu contar o que sabia sobre aquele gênero de lendas, mesmo estando ciente de que a garota podia se desinteressar pela conversa se não ouvisse nenhuma grande novidade.

- Nunca pensei em associar as divindades da Índia com vampirismo, mesmo Kali tendo alguns avatares tão sanguinários. Para ser sincera, eu não leio muito sobre criaturas monstruosas, mas posso falar algo do mito do vampiro segundo pontos de vista científicos e simbólicos. No primeiro caso, a lenda do vampiro é parente próxima das lendas sobre cadáveres que saem da tumba para comer a carne dos vivos, como os masticorum e os revenants. São todas frutos de interpretações equivocadas sobre fenômenos naturais ligados à decomposição dos corpos, como a preservação mais prolongada de alguns cadáveres, a secreção de fluidos pelos cantos da boca, e assim por diante. No caso específico do vampiro, há uma clara ligação entre essa lenda e as epidemias de tuberculose, ao menos no caso europeu e, um pouco, aqui na América. Acreditava-se que a doença era causada por criaturas que sugavam o sangue da vítima, o que explicaria o sintoma da palidez.

Helen suspira brevemente antes de prosseguir, antecipando que Sophia poderia fechar-se caso não considerasse aquelas informações muito reveladoras. Teve o ímpeto de dar à conversa um rumo mais pessoal, mesmo se arriscando a ser intrometida e, assim, fazer a jovem se retrair de vez.

- Já em termos simbólicos, ou até psicanalíticos… bem, Sophia, não sei se eu tenho coisas a dizer que sejam inesperadas para você. Mas talvez eu tenha algo interessante para mostrar, dependendo de qual seja a natureza do prazer que você diz sentir por esse tipo de estudo. É um prazer puramente intelectual, ligado ao seu trabalho de pesquisadora, ou que se relaciona a algum tipo de, digamos, intuição ou imaginação com forte carga emocional?

Antes que a resposta viesse, ela acrescentou, para evitar malentendidos.

- E note que eu não estou sugerindo que você acredita em monstros - eu mesma não acredito. Entendo apenas que lidar com mitologias pode mexer com as emoções de alguém pelo que elas têm de simbólico, arquetípico. Os mitos podem funcionar como metáforas para experiências ou modos de ver o mundo muito pessoais.

Ela encerra suas palavras olhando serenamente nos olhos de Sophia Beker. A garota hesitava em responder, levando Helen a se perguntar se tantas reservas se deviam a razões profissionais, pessoais ou as duas. O azul profundo naquele olhar não permitia decifrar nada[1].
__________________

[1] As reações atribuídas a Sophia foram combinadas numa troca de MP’s.

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18 Re: Loyola University em Ter Out 01, 2013 10:19 pm

A  biblioteca era mesmo um local silencioso. Comparava-se ao silêncio das igrejas, e podia até vencê-lo, se considerarmos as missas. Os murmúrios das rezas eram substituídos pelas tecladas dos notebooks dos estudantes. Ao invés de belas pinturas nas paredes, livros forravam cada canto para qual podia-se olhar. Salas de estudos faziam as vezes de confessionários. Um dos lugares que podia ser considerado um dos opostos de um templo religioso tinha diversos pontos em comum. E o mais forte deles era o silêncio. A ausência de som era boa tanto para a alma quanto para a mente. Em ambos os lugares a concentração era um fator chave para realizar a ligação, seja com a força superior ou com a vastidão do conhecimento.

- Sophia??

O silêncio é quebrado. Um homem entrou na área comum de estudos, e antes que pudesse identificar onde a moça estava, preferiu chamá-la, sem parecer se importar com quem pudesse incomodar com isso. Não era necessário fazê-lo, pois os cabelos quase brancos chamavam a atenção. E o dono da voz os conhecia muito bem, pois os via há tempos, desde que Sophia chegou na universidade. Um resmungo de repreensão veio da responsável pela manutenção do silêncio ali, que foi recebido por indiferença pelo seu alvo.

Era o Doutor Dubois, orientador de Sophia, e doutor em linguística, coordenador do projeto de tradução do qual a universitária participava. Ele se aproxima da mesa de estudos onde Helen conversava com Sophie, interrompendo completamente o assunto, como se nada mais fosse importante do que o que ele tinha a dizer.

- Sophia, querida, então você estava com a senhorita Sinclair o tempo todo? Ah, permita-me apresentar, senhorita Sinclair. Sou o Doutor Theodore Dubois, e sou responsável pelos estudos de tradução de línguas antigas.

O homem elegante de sotaque francês estende a mão para Helen, em cumprimento. Era uma mão grande, com uma pele morena de miscigenação branca e negra, muito bem cuidada. Suas unhas chegavam a brilhar, o que podia indicar que foram feitas. Theodore era um homem grande, com mais de um metro e oitenta, e largo. Não estava acima do peso, pelo contrário. Por baixo de suas roupas elegantes, um paletó de corte seco, uma camisa justa e calças italianas, estava um corpo rígido, sem excessos de gordura.

O perfume francês dava a evidência final de que o professor era um homem vaidoso. Não chegava a ser bonito, mas se esforçava bastante, e tinha seu charme. Mantinha os cabelos grisalhos correspondentes aos seus quase cinquenta anos, penteado todo para trás, fixado com algum produto. Não estava de óculos, mas Sophia sabia que ele os usava. E ela sabia o quanto ele se importava com a própria aparência.

- Estava te procurando desde que soube de sua chegada, cherrie. Precisava muito conversar com a senhorita. Será que poderia me acompanhar até minha sala? Posso aproveitar e te apresentar o campus, em uma agradável caminhada. O pôr do sol aqui é lindo.

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Esta postagem faz parte da narrativa Labirintos da Mente, e serve de introdução para  a personagem Helen Ortwin Sinclair.

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19 Re: Loyola University em Qua Out 02, 2013 8:02 pm

Sophia observou atentamente Helen, enquanto esta se sentava. Estava realmente curiosa com a abordagem da moça e com o que ela tinha pra falar, portanto, prestou atenção nas respostas dela, sem interrompê-la.

Primeiramente,  em resposta às perguntas de Sophia, Helen apresentou, resumidamente, sua área de atuação no mercado de trabalho e, de forma mais ampla, seus interesses extracurriculares.  Era interessante uma pessoa envolvida no mundo dos negócios se aprofundar  em  áreas, se não completamente, quase majoritariamente acadêmicas. Talvez, pensou Sophia,  ela trabalhasse para empresas do ramo da ciência ou alguma pesquisa específica... Mas então, por que seriam estudos “no tempo livre”?.. Ela chegou à conclusão que era mesmo uma área de interesse pessoal, mas decidiu que não era relevante perguntar o motivo de Helen fazer um estudo em áreas tão distintas da sua formação profissional.

Sophia demorou alguns segundos para responder a pergunta de Helen, olhando fixamente para a capa do livro que ela segurava para a mulher ver as figuras. Não estava realmente analisando a capa dele, mas, em sua mente, visualizava a capa do livro de sua pesquisa, tentando responder, pra si, se estava, mesmo, estudando sobre vampirismo.  Tudo indicava que sim, principalmente  as imagens presentes do inicio ao fim do livro. Aquele paralelo  que descobriu pela manhã, a fazia acreditar que todo o livro tratava desses seres mitológicos e por isso, depois de finalmente voltar a fixar seus olhos em Helen, ela assentiu à pergunta, ouvindo o que a empresária tinha a dizer sobre esses seres mitológicos, procurando não revelar muito sobre o motivo daquele estudo que ela fazia ali.

A menina pareceu se interessar, principalmente, quando Helen começou a contar fatos sobre o vampirismo. Sabia que quanto mais soubesse era melhor para a pesquisa, por isso, esboçou um sorriso com as informações e logo pegou o lápis novamente e anotou algumas coisas que ela havia falado. Helen notaria que o sorriso dela era não mais que um repuxar de lábios, mas na expressão séria de Sophia fazia toda a diferença.

- Eu li algo sobre isso. É interessante como a visão do vampirismo vem sendo modificada durante os séculos, um estudo diacrônico dessas criaturas mitológicas é bem interessante...

Respondeu antes que Helen continuasse, sem perceber que ela queria continuar falando, pois estava com a cabeça baixa por estar escrevendo – Aqui na biblioteca há fontes riquíssimas de mitologia... – continuou ao mesmo tempo em que Helen voltou a falar.  Talvez ela tivesse pensado que Sophia havia terminado, devido ao pequeno tempo que a menina havia deixado entre a primeira e a segunda frase, mas logo Sophia se calou, dando a palavra para a mulher.

Daí a coisa desandou um pouco. Sophia franziu as sobrancelhas quando ela levou tudo aquilo para o lado psicológico. Não que ela tivesse algo contra a psicologia e os métodos utilizados por ela, mas, não achava nada proveitoso entrar em algo de cunho pessoal enquanto se discutia e trocava informações sobre determinado assunto de estudo.  Ela ouviu atentamente, mas, se a mulher reparasse, o pequeno brilho de excitação de descoberta, que havia estado nos olhos dela há poucos instantes, não estava mais ali.

- Eu raramente estudo algo de cunho pessoal em minhas pesquisas – explicou, respondendo a ultima pergunta de Helen – Acho que a imparcialidade é algo extremamente importante quando se trata de algum assunto do qual queremos dissecar cada detalhe. Algo pessoal pode trazer maus sentimentos quando o fazemos. – Disse e virou o livro pra si novamente – Eu nunca pensei nesses mitos como algo intrínseco a pessoa que os criou pois, muitas vezes eles passam por tantas modificações e alterações durante séculos, que é impossível, pra mim, dizer o que queria ser dito e não o que a sociedade da época refletia. Esse estudo me parece pertinente, embora não seja o meu foco – concluiu e logo  a olhou novamente, pensando –  Creio ser uma linha de raciocício que merece ser estudada, mas não na área de tradução – A menina não queria ofender Helen, mas sempre dizia o que pensava,  sem perceber que, muitas vezes, isso poderia ofender ou magoar as pessoas.

- Nós podemos discutir um pouco mais sobre as epidemias e a ligação delas aos vampiros? Eu terei de ir pra aula daqui a 27 minutos, mas creio que ainda dê tempo de falarmos um pouco sobre isso. Eu li, uns dias atrás, sobre a origem ocidentalizada desse mito, posso te passar ...

Sophia não teve tempo de terminar.  Diria que poderia também passar pra ela aquelas informações, mas, no exato momento em que iria terminar a frase, seu orientador entrou na sala, fazendo seu pequeno escândalo de costume. A menina revirou os olhos. Ela já estava acostumada com aquele jeito dele, mas ele conseguia se superar a cada dia. Ela levantou os olhos, o procurando e constatando que ele a havia visto e estava vindo em direção a ela.

- Dubois – cumprimentou. Ele já havia lutado pra ela não o chamar daquela forma tão formal, mas não havia conseguido. A maior conquista foi ele ter conseguido tirar o “doutor”, quando ela o chamava. Ele só fazia questão do título quando era alguém desconhecidoem uma situação formal  – Muito educado de sua parte gritar pela biblioteca e interromper nossa conversa – disse com um ar sério, puxando um pequenino sorriso por ter implicado com ele.

- Bem, eu estava, mas creio que, no momento, ela seja de seu interesse – disse sem perceber que a frase parecia ambígua -  Então eu vou pra minha aula.. – Ela se levantou juntando as coisas delas enquanto seu orientador se apresentava à Helen e logo esperou uma oportunidade de falar.

- Hm. Até mais Helen, muito obrigada – disse com um pequeno aceno de cabeça e logo se despediu também do orientador, prometendo mandar o que havia estudado, durante a tarde, por email pra ele.

Sophia fez algumas viagens, novamente, pra guardar os livros nos devidos lugares e logo saiu da biblioteca, indo para as aulas da noite.

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20 Re: Loyola University em Sex Out 04, 2013 6:09 am

Prédio da faculdade de Letras. Sala 203 B.

Um breve sinal sonoro anunciou a troca de turno e o início das aulas da noite. Enquanto aumentava o movimento entre os halls do antigo prédio, um aluno aguardava solitariamente dentro da sala. Estava sentado na última fileira. Tinha o corpo jogado para trás na cadeira e os pés preguiçosamente esticados na mesa à sua frente. Sua mão clicava o botão da caneta entre pausas curtas. O chapéu havia deslizado um pouco para baixo, tapando parcialmente seu rosto. Por debaixo dele, mostrava um olhar estranhamente fixado na porta ainda fechada. Parecia ter o pensamento longe - ou então não pensava em nada, considerando a total falta de expressão em seu rosto.

Pelo sopé da porta conseguia enxergar os pés dos alunos passando de um lado para o outro. Os cliques na caneta continuavam, como um foci de concentração. E então cessam. Ele age com toda a tranquilidade ao tirar os pés da mesa à frente e se levantar. Retira também o chapéu e o coloca sobre sua própria mesa. Da cadeira ao lado pega uma mochila verde-escura comum a tantos estudantes e coloca uma das alças sobre o ombro. Finalmente, do bolso de trás da calça retira um pequeno pedaço de papel. Após esse último ato ele ouve a maçaneta da porta girando, e a primeira coisa que o primeiro estudante vê é um homem negro na casa dos trinta anos colocando o seu chapéu e conferindo em um papel em suas mãos se estava na sala certa. Perfeitamente cronometrado.

O primeiro estudante é uma menina de características físicas bem marcantes. Ela é albina. O contraste das cores dos dois, e da normalidade dela ao entrar para mais um dia de aula com a aparência dele de perdido possivelmente provocou uma surpresa em ambas as partes. A princípio desconcertado, o homem cria um sorriso nos lábios que se estende pelas bochechas até formar um par de “covinhas”. Mentalmente agradece a si mesmo pela eficiência em encontrar “o alvo” em tão curto período de tempo.

- Desculpe, eu não queria assustá-la.

Ele retrai o sorriso, tornando-o mais impessoal. Aproveita sua própria deixa e se aproxima dela com o papel em mãos.

- Saberia me dizer se esta é a sala do Curso de Tradução de Línguas? Acho que estou meio perdido...

Ele leva a mão livre à nuca e torce o canto da boca, como se aceitasse a vergonha da sua afirmação. O papel que procura entregar à garota mostra “Sala 203 B”, exatamente o mesmo número pregado à porta.

- É o meu primeiro dia aqui nessa Universidade. Na verdade é o meu primeiro dia em uma universidade. mais uma vez é mostrado o “sorriso da derrota” Eu me chamo Samir. Sou do Cajun Country.

A cor da pele e a aparente desinformação combinavam com a alegada proveniência de sua pessoa – pessoas desfavorecidas sempre habitam os locais mais pobres.

Tic-tac. Eficiência cronometrada novamente. No momento em que para tudo o que estava fazendo para poder oferecer um aperto de mão à garota, Samir conscientemente permite que sua mochila aberta deixe cair alguns livros ao chão. “Curso de Latim: Voume Um”, “Magia Africana Antiga” e “Hieróglifos: Terceira Dinastia”. Finge certa falta de jeito para que recebesse a ajuda da garota no recolhimento dos livros.

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21 Re: Loyola University em Sab Out 05, 2013 12:46 am

Sophia saiu da biblioteca satisfeita com seus estudos naquela tarde. Havia conseguido identificar os possíveis significados de algumas imagens e, melhor ainda, se esses significados estivessem corretos, ela havia conseguido descobrir o conteúdo de todo o livro de sua pesquisa, de forma geral. Talvez Dubois já soubesse daquilo - ele era o responsável pela parte em sânscrito e os dialetos gregos, enquanto Sophia e o outro bolsista estavam trabalhando com o latim e o inglês arcaico -, mas não havia revelado pra ela. Muita coisa não havia sido dita, na verdade, então ela fuçava e tentava encontrar por si mesma.

Faltavam exatos vinte minutos para a aula começar, a garota conferiu ao olhar o relógio do celular. Sabia que não gastaria mais de cinco pra chegar na sala de aula, por isso se dirigiu para a sala de sua bolsa de estudos, para ver como tudo estava por lá. Passou o cartão que liberava a porta e encontrou o outro bolsista digitando algo no computador, provavelmente as partes traduzidas por eles no dia anterior, e logo explicou por que não havia estado ali durante a tarde. “Havia ficado na biblioteca pesquisando mais sobre as imagens” . Ela não entrou em grandes detalhes pois ainda não tinha a confirmação de nada, e ele não perguntou muito mais, conhecia o jeito de Sophia. Ela não gostava de dar falsas esperanças a ninguém, por isso precisava pesquisar mais e encontrar outros indícios de vampirismo e a ligação dele com deuses correspondentes com as sociedades de cada registro presente no livro.

Ficou mais alguns poucos minutos pegando umas anotações que havia feito e guardado ali, pra, mais tarde, comparar com as de hoje a tarde, e, depois de se despedir com um aceno para o seu colega de pesquisa, ela saiu em direção à sala. Não demorou mais que cinco minutos, como havia previsto, e chegou bem no horário da aula. O  sinal havia acabado de tocar quando ela entrou na sala destinada a matéria que cursaria naquele horário.

Quando entrou viu o homem desconhecido que parecia não ter noção de onde estava. Ele olhava o espaço, como se dele pudesse tirar alguma informação e, quando viu Sophia entrar, olhou-a de forma meio surpresa e logo abriu um sorriso – é, ela estava acostumada com aquela reação quando as pessoas a viam pela primeira vez... Mas o sorriso era novidade –. Sophia franziu o cenho com aquela reação do homem e logo olhou pra trás, pra ver se alguém estava vindo atrás dela. Ninguém. Ele estava sorrindo pra ela?..
Talvez a expressão de dúvida que apareceu no rosto da menina tenha dado a impressão de que ela estava medo, pois logo ele estava se desculpando por assustá-la.

A menina assentiu, como quem diz “tudo bem”, e logo começou a andar novamente, querendo chegar em sua carteira e acabar com aquela situação estranha, mas, antes que pudesse dar dois passos ele já estava falando novamente. O rapaz mostrou um papel, que ela observou, e depois disse estar perdido. Sophia logo respondeu.

-Eu creio que a forma mais fácil de se situar é olhando do lado de fora das salas, onde tem os números. Mas você está no local correto – Disse com um encolher de ombros. Aquilo era o óbvio pra ela, procurar uma turma olhando as carteiras da sala poderia ser um tanto complicado. A menina não percebeu que aquilo podia ser apenas um pretexto pra conversa, por isso respondeu de forma direta, tentando orientá-lo.

Não havia levantado o rosto pra olhá-lo nos olhos, fazia isso somente quando algo lhe interessava muito e, no momento, ela estava mais interessada em se sentar pra esperar a aula. Foi quando ele voltou a falar. Aquilo chamou um pouco de atenção dela.

- Você não está um pouco velho pra universidade? – ela perguntou sem pensar e logo continuou – Digo, é incomum. Não que seja errado – Corrigiu o que havia dito pois percebeu está cometendo um preconceito e isso era algo que ela não fazia. Ela ficou curiosa quando ele mencionou fazer parte dos Cajum, pois ela já havia lido sobre eles, mas não de forma aprofundada.

Sophia esqueceu completamente de se apresentar, pois estava pensando no que havia lido sobre aquela manifestação cultural, deixando o rapaz com a mão estendida ali. Talvez o olhar dela tenha ficado perdido por alguns segundos, mas, quando ela voltou pra si, tinha planos de perguntar algo sobre a cultura deles.
Foi quando a mochila dele caiu... A impedindo de fazer o planejado.

Certo, ela devia ajudar, pensou. Observou-o pegar alguns dos livros e logo se abaixou pra pegar o que havia caído perto dela e observando a capa “Magia Africana Antiga”. Olhou para o livro e logo o olhou com as sobrancelhas franzidas. Observou os outros dois na mão dele e falou

- Você devia tomar cuidado com seus livros – disse ponderando se devia perguntar do por quê daqueles livros e qual a ligação entre eles, mas imaginou que era algo relacionado à cultura dele, pelo que havia lido, que contava uma breve história das origens daquele povo. A curiosidade venceu – Creio que estes livros sejam um pouco avançados para quem está entrando na faculdade agora,não? – apontou para o dicionário e o livro de Hieróglifos que estavam na mão dele, ambos pareciam livros de pesquisas ou mesmo de pós-graduação. Decidiu não mencionar o livro de “magias”, não sabia o motivo dele estar com ele, e pensou que podia ser algo pessoal. Ela estendeu o livro que estava com ela e esperou uma resposta.

As pessoas começaram a entrar na sala, logo o professor entraria também.

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22 Re: Loyola University em Dom Out 06, 2013 9:32 am

Certas amizades de Helen no meio artísitico (merchands, pintores e escritores) costumam achar que ela se aborrece com o trabalho administrativo, que o julga vazio e sem graça. Mas estão apenas projetando nela suas próprias inclinações e preconceitos. Ela gosta de administração porque exige pensamento analítico, fixação de objetivos claros e habilidade para coordenar atividades. Muitas vezes, o desafio de analisar problemas e tomar decisões racionais com base em dados estatísticos serve até como um alívio depois de pesquisas prolongadas sobre ocultismo. 
Realmente, embora os resultados das decisões empresariais sejam fortemente afetados pelo acaso, os fatores aleatórios em jogo aí são concretos, inserindo-se na mesma esfera de segura racionalidade em que transcorrem a análise e o planejamento. Por sua vez, o ocultismo costuma ser frustrante por não conduzir a certezas, na medida em que trata de inúmeros fenômenos (e até entidades) que estão fora da experiência sensorial e que, por isso mesmo, só podem ser "compreendidos" - seja lá o que isso signifique - apelando-se à faculdades como imaginação, intuição, ou até para algum tipo de "sexto sentido".
No caso, a conversa havia mostrado que a intuição de Helen falhara completamente ao dizer que Sophia tinha alguma motivação subjetiva para empreender seus estudos. Embora a expressão do rosto da jovem denotasse sempre distanciamento emocional, é certo que ela se mostrou interessada na leitura científica dos mitos vampirescos (chegou a tomar notas a respeito), mas permaneceu completamente indiferente às leituras de tipo simbólico - talvez até arredia a elas, realmente. Tudo ao contrário do que Helen previra. Finalmente, a jovem esclareceu que o trabalho em questão consistia em traduzir textos antigos, não tendo relação direta com leituras antropológicas. 
Apesar da frustração intelectual que sentiu com esse erro, o jeito distante com que a menina falava, seu meio sorriso algo seco, que parecia arrancado a fórceps, faziam Helen sentir ter encontrado uma pessoa de personalidade estranha, e isso alimentava nela a intuição de que os estudos de Sophia não eram como quaisquer outros. 
"E onde é que termina a diferença entre intuição e superstição, minha neta?". Aquelas palavras de questionamento ecoaram na cabeça de Helen, mas sem impedi-la de continuar incentivando Sophia a falar mais sobre sua pesquisa. Helen estava para contar a história de Mercy Brown, no intuito de aprofundar o tema da ligação do mito do vampiro com as ocorrências de tuberculose, quando foi interrompida pela chegada inesperada do prof. Theodore Dubois.
A garota mostrou não gostar do jeito exageradamente expansivo de seu orientador - jeito de que Helen também não gostou, por achar que vozes altas violam o ar de solenidade que toda boa biblioteca devia ter. E não foi difícil para ela perceber que Sophia também tratava seu orientador com um ar de reserva e formalidade. Isso não contribuiu para que Sophia parecesse simpática aos olhos de Helen, mas reforçou a impressão que ela teve de que a jovem era uma pessoa singular ou até estranha, bem como a intuição de que tal característica devia, de algum modo, se estender àquela pesquisa sobre vampiros.
- Ah, prazer em conhecê-lo, dr. Dubois. E  que mundo pequeno este! Então o senhor trabalha com a jovem Sophia, a quem acabei de conhecer? São essas coincidências que nos fazem pensar se existem mesmo coincidências.
Falou com um sorriso polido no rosto, a fim de não expressar que tanto a interrupção da conversa quanto o modo como isso tinha acontecido lhe desagradaram. Respondeu à despedida de Sophia de maneira um tanto maquinal, pois suas atenções já começavam a se concentrar na presença do professor Dubois.
Aquele homem de compleição física robusta era expansivo, vaidoso quanto à aparência e também em relação à sua imagem no meio acadêmico, razões pelas quais tinha contas em mais de uma rede social, no Twitter e também um blog. Helen acompanhava o blog com certa regularidade e compartilhava, vez ou outra, informações acadêmicas com ele. Ela lhe enviou um e-mail contando que ia à Nova Orleans e à Loyola University, mas não sabia dizer como o doutor Dubois fora capaz de reconhecer-lhe o rosto - "internet, sem dúvida", cogitou. De qualquer maneira, apreciou bastante o convite que recebeu daquele conhecido estudioso de línguas antigas para visitar o campus ao pôr do sol antes de seguir para o gabinete dele. 
- Fico encantada com a ideia de começar com um breve tour. E, sabe, uma coisa boa de travarmos contato pessoal é poder descobrir que o senhor usa um perfume de muito bom gosto.
O comentário não era uma adulação. Helen reservava esse tipo de estratégia social apenas quando tinha o desprazer de tratar de negócios com pessoas pouco racionais. Cultura, porém, era só prazer para ela.

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