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Manicômio Abandonado

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1 Manicômio Abandonado em Sex Jun 17, 2011 6:31 am



Manicômios nunca são lugares legais.

Fundado em vinte de março de 1951, o Manicômio de Nova Orleans foi projetado fora dos limites urbanos da cidade para receber doentes de todo o sul da Luisiana. Suas oito alas diferentes permitiam vários níveis de tratamento aos internos, utilizando as técnicas mais modernas para a época. Nada de choques elétricos, afogamento ou coisas do tipo. Os doentes passavam por psicólogos e psiquiatras que faziam toda uma análise de seus problemas mentais e então eram deslocados à ala específica de tratamento - familiar, profissional, traumas de infância, fobias...

Dos anos 50 aos 80 o lugar serviu como referência no tratamento dos mentalmente insanos, chegando a receber mil internos de uma só vez. Os diretores tinham o apoio do governo do Estado da Luisiana e de instituições estrangeiras. Apesar das significativas taxas de melhoras nos quadros dos doentes, alguns pequenos detalhes começaram a incomodar as pessoas de fora. A chaminé a cuspir fumaça todas as madrugadas, às quatro da manhã, era algo totalmente inadequado ao tipo de estabelecimento, o que atiçou a curiosidade da sociedade. Após algumas semanas de investigação foi descoberta a ala nove.



A ala nove era uma construção escondida no subsolo do manicômio. Nela se encontravam equipamentos saídos de filme de terror onde "médicos especialistas" conduziam novos métodos de tratamento aos internos. Eles mantinham até mesmo uma técnica exclusiva conhecida como "nova lobotomia": através de incisões no cérebros das cobaias os médicos procuravam lhe implantar comportamentos animais. Todos os experimentos fracassados eram então dirigidos à grande fornalha.

A nova ala descoberta era claramente uma construção nova, de no máximo dez anos, e cogita-se que fora construída à pedido do psiquiatra responsável pelo manicômio à época, o diretor de toda a instalação. Infelizmente o seu nome foi apagado de todos os registros documentais quando o lugar foi invadido e incendiado pela população revoltosa. Pensando ter evacuado o prédio inteiro, as pessoas não contavam com os internos presos na ala oito, a que servia como entrada para a câmara dos horrores. Saldo da revolta: cerca de trinta internos foram mortos carbonizados, todas as fichas se perderam no incêndio e o local foi fechado para todo o sempre.



A morte continua presente no manicômio abandonado. Durante o dia são feitas excursões de aventura, mas de noite qualquer visitação foi proibida pela prefeitura após casos de desaparecimento na região. Fantasmas são vistos com frequência rondando o manicômio, e gemidos lamuriantes podem ser ouvidos a quilômetros de distância. Há noites em que focos de incêndio são vistos pipocando por entre os prédios para então se extinguirem magicamente. Por detrás das janelas, ocasionalmente é possível ver o que seriam internos vagando sem rumo pelos corredores.

Um dos maiores mistérios atuais de Nova Orleans tem sua origem aqui. Ninguém sabe se poderia tratar-se de uma brincadeira má intencionada, mas todos aqueles que se mostram mentalmente perturbados acabam de alguma forma se dirigindo ao manicômio. Quando indagados sobre o porquê da caminhada no meio da madrugada até um local tão ermo, alguns deles disseram seguir uma voz que clamava incessantemente pela suas presenças.

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2 Re: Manicômio Abandonado em Seg Mar 26, 2012 4:19 pm

Parada na frente da porta principal de entrada do manicômio, as perguntas voltavam a encher sua mente, nenhuma resposta, infelizmente, surgia. Mas a mais forte delas era também a mais simples: “porquê?”. Em todos os seus esforços, em todas as suas andanças, tentava se manter longe da podridão humana, das coisas que agrediam sua alma, daquilo que lhe fazia mal... Claro, essa não era a melhor atitude possível. Gostava de repetir para si mesma que era uma artista, e, se assim acontecia, devia sempre se preocupar em expandir seus limites. Em eliminar seus limites, enfim. Mas porque, porque, ela não entendia, porque seres humanos fazem certas coisas com os outros? Engraçado pensar nisso. Não faz sentido. Se as pessoas simplesmente orientassem seus esforços para coisas melhores, maiores, não precisariam usar de crueldade para descobrir nada. A resposta sempre está lá, dentro do cérebro, escondida, mas pronta para sair ao toque bem intencionado. Hum.

Passou a mão na madeira empenada da porta, com carinho. Pobrezinha. Vira tanto! Quanta energia, quanta força! E ainda assim, não se decidia a entrar. Não se sentia segura. Mas era tolice, supunha, já que já vira peças incríveis em manicômios abandonados. E aquela no presídio, em que um travesti estuprava uma mulher numa cadeira de rodas entre os escombros? Bárbara! Mas ela não era perfeita, e fora pra isso que fora até ali. Expandir limites. Eliminar limites. Olhou em volta. Que lugar mais triste, aquele! Todo torto. Sorriu. Estava vendo coisas. Era porque estava já anoitecendo, é claro. Nunca imaginara que a caminhada até lá demoraria tanto, planejara chegar lá a tarde. Também, se não tivesse parado naquela clareira simpática para tomar banho de sol, fumar um... Hum. Mas estava vendo coisas. Era apenas a lua. Nada poderia se mover daquela maneira ali. Deu de ombros. Estava sendo idiota. Batucou levemente a porta com a ponta dos dedos.

- Toc, patoc, patoc, tac... – sorriu e cantarolou baixinho – toc, patoc, patoc, tac...

Empurrou a porta quase sem usar de força alguma, e ela se moveu, rangendo. Estava torta mesmo. Espiou para dentro do que deveria ter sido uma sala de espera ou recepção há tempos atrás. Agora era apenas um cômodo escuro, semi destruído e sujo.

- Toc, toc? – falou, alto, para dentro do prédio, e ouviu sua própria voz respondendo baixinho, lá do fundo.

Estava sendo boba e paranoica. Aquele era simplesmente o melhor lugar possível para uma intervenção. Um piquete artístico! Um pouco de cor, talvez uns barbantes vermelhos, algo aproveitando os espaços, contrastando com o ambiente destruído, ah, seria lindo! Talvez uma teia colorida naquele buraco ali no alto? E umas gelatinas, assim, quando o sol batesse, o ambiente se iluminaria como uma boate psicodélica louca, seria incrível. Mas teria bem algumas semanas de trabalho. Teria que sair de casa bem cedo, porque iria trabalhar de dia, é claro. Nada de paradas pelo caminho. À noite, aquele lugar era estranho. Olhou em volta novamente. Creepy.

Encostou-se no batente da porta, ainda sem entrar. Precisava pensar bem. No momento que pusesse os pés naquele lugar, não tinha volta mais. Mas era um belo projeto, não? Transformar dor e cinzas em cor e beleza? Parecia bom. Procurou no bolso da calça colorida a ponta que sobrara de seu baseado e acendeu, compenetrada. Sim, precisava pensar bem... Pensar. E criar, para poder voar.

Bem, bem. Mãos a obra, então. Um passo de cada vez. O primeiro pé... O direito, claro. Aprendera a dar valor a pequenas superstições e rituais. Seria bom. Suspirou. Entrou. Parou por alguns segundo no hall de entrada destruído. Havia uma bancada onde provavelmente já houvera um vidro. Podia colocar um plástico firme e colorido ali. Será que ficaria caro? Azul... Era uma boa cor. Tirou a mochila das costas e apoiou no chão sujo, para procurar sua fita métrica. Onde estaria? Maldita mania de jogar as coisas de qualquer jeito dentro da mochila... Nem ouviu a porta se fechar rangendo atrás de si. Achou, finalmente, no fundo do bolso externo, a fita amarelada e começou a medir as paredes, ou, melhor dizendo, o que restava das paredes. Sim, ia ficar bom. Sorriu. Colocou um montinho de incenso na bancada e acendeu. Precisava já começar a purificar aquele lugar.

Com a coragem renovada, seguiu pelo corredor escurecido. Era realmente sinistro. Ficaria ótimo quando finalmente o arrumasse. O belo e o grotesco, lado a lado. Uma vontade risível de cantar lhe subiu aos lábios e, como não costumava reprimir suas vontades, deixou a voz sair, baixinha, enquanto andava pelos corredores a abria portas.

- Os miseráveis, os rotos, são as flores dos esgotos, são espectros implacáveis os rotos, os miseráveis. São prantos negros de furnas caladas, mudas, soturnas... São os grandes visionários dos abismos tumultuários... lalala... Procurando o céu aflitos, e varando o céu de gritos, faróis a noite apagados, por ventos desesperados... lala... – aquela música era muito boa. A colocaria para tocar quando a instalação estivesse pronta. Ou talvez a escrevesse na parede, com tinta vermelha lalala... Droga, como era mesmo? Ahm... lala... Bandeiras rotas, sem nome,das barricadas da fome. Bandeiras estraçalhadas das sangrentas barricadas. Fantasmas vãos, sibilinos da caverna dos destinos... Ah, isso é mesmo ótimo. Tenho que usar.

E continuou, alegremente, a cantar cada vez mais alto, enquanto a noite avançava.

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3 Re: Manicômio Abandonado em Seg Mar 26, 2012 9:04 pm

Confusão. Angústia. Medo. Dor. Ódio.

Noite. Luzes escuras, cantos vazios, muito silêncio. Cheiro forte. Fumaça e luz de fogo. Correria, confusão, atropelamento nos corredores. Corrida foi tentada, em vão. Jaulas, ferros, trancas. Cheiro e calor aumentaram.

Batidas na porta, lado de dentro. Tentei, sem sucesso. A dor rastejou pela porta, tomou meu canto, subiu meus pés, me possui. Tentei debater, lutar, viver. Muito forte, implacável. Fui ao chão.

Estava me consumindo. De olhos arregalados vi a portinha se abrir. Olharam para mim, implorei piedade, ganhei sorriso. Cara ao cão, garganta aberta gritando, espalmando cada centímetro. Cheguei à porta, eu e ela tomados pela dor. Vi os olhos que me encaravam sorrindo. Jamais os esquecerei. Um último suspiro soltei, e então não mais existia a dor.

Desci para ascender. Conheci minha nova morada, meu Mundo Inferior. Esquivei-me da Tempestade. Mas havia algo me puxando para fora daquele mundo, impedindo que pudesse enfim ter meu descanso. Procurei dentro de mim e encontrei a resposta. Eu não teria meu descanso até que soubesse de quem eram aqueles olhos impiedosos que assistiram minha morte. Eu NUNCA teria meu descanso na verdade, pois o dono daquele olhar insano provavelmente morreu no mesmo incêndio. Mas se ele se foi, não haveria grilhões, e sem eles eu não deveria estar aqui. Quem me manteve desperto quando eu deveria ter meu descanso, só pode estar me pregando uma terrível peça.

Pertenço ao Manicômio, e o Manicômio me pertence. Ele também tem outro dono, o Outro invisível a mim e que põe tudo fora de seu lugar. Nunca O vi, nem sinto Sua presença, apenas sei que Ele está ali. Nós brigamos todos os dias. Ele arruma tudo ao Seu jeito, eu volto as coisas para o lugar correto; estou calmo, Ele explode; busco respostas, já Ele mantém uma terrível senso de maldade; quando perco minha paciência, Ele é o herói da noite. Dividimos o mesmo lugar e divergentes emoções.Somos Eros e Thanatos.

Ele não apareceu esta noite. Aproveito a tranquilidade e vago pelos corredores tentando encontrar o dono daqueles olhos e acabo encontrando um ser estranho. O ser caminha com medo e empolgação ao mesmo tempo. Canta, revira seus objetos, parece querer dançar. Observo sua sombra, acompanho-no pelas portas e corredores explorados sem deixar que me perceba. Vejo sua curiosidade e acabo notando uma empolgação fora de eixo. Não entendo como alguém pode gostar desse lugar.

O pequeno ser de felicidade se aventura pelos corredores mais internos, repletos de escuridão. A penumbra é por onde eu vago, mas a escuridão à Ele pertence. Seu covil permanece oculto à mim na medida que não me aventuro por aquela direção. Mas esse pequeno ser curioso sim. Não sei se sabe de Sua presença e busca encontrá-lo ou apenas se perdeu em meio à noite.

Começa uma música cantarolada. Eu cantarolava músicas sozinho em minha cela. Elas eram repletas de angústia, de lembranças as quais tento apagar a todo custo. Passo a acompanhá-lo de perto, chegando mais perto por trás a cada parada que ele faz. Estou curioso, confesso, a ponto de investigar no mundo físico mais a fundo. Descubro que é uma garota, e minhas dúvidas quanto ao seu objetivo aqui esta noite aumentam. A música também aumenta, em breve não poderei mais suportá-la.

A garota avança mais uma porta, olhando para dentro daquele que era o banheiro dos internos inofensivos, coisa que nunca fui. Tenho que aproveitar a oportunidade e dar um basta agora mesmo.





A luz acima de uma das pias quebradas se acende, mesmo sem correr energia elétrica há décadas no Manicômio. Um espectro distorcido que parecia estar do lado de dentro do banheiro bate com a mão espalmada contra o vidro, fazendo com que ele vibrasse com o golpe e emitisse um som forte e abafado.


Um segundo depois não havia nem espectro nem luz alguma acesa.
Foi tudo como um flash.

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4 Re: Manicômio Abandonado em Ter Mar 27, 2012 4:53 pm

AÇÃO PARALISADA. GIA DEVERÁ FAZER A ROLAGEM DE DADOS PEDIDA NESTE TÓPICO.


RESULTADO: GIA LEVOU UM BAITA SUSTO, MAS CONSEGUIU SE CONTROLAR. AÇÃO QUE SEGUE.



Última edição por Mestre de Jogo em Seg Abr 02, 2012 1:18 am, editado 1 vez(es)

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5 Re: Manicômio Abandonado em Ter Mar 27, 2012 8:22 pm

Nada podia dar errado. A noite estava saindo mais do que perfeita. Nenhum problema. Nada estranho e assustador acontecendo, como todo mundo avisou que aconteceria. A essa altura, ela já achava que todas aquelas histórias de assombração eram apenas para boi dormir, ou melhor, para as crianças não dormirem. Não que aquele lugar não fosse perigoso. Tivera que escalar algumas vigas, pular alguns buracos e desviar de uma ratazana monstruosa. Mas o saldo final era tranquilizador: nenhum machucado ou rasgão na roupa. Ainda tinha bastante água e algumas bolachas recheadas, e não estava cansada. Um baseado já bolado e totalmente intocado jazia no fundo da mochila, esperando para fazer seu bem no momento que escurecesse demais e ela ficasse com medo. Já passara por quase toda a parte da frente do hospício, tivera algumas ideias maravilhosas. Por exemplo, aquele afundado na parede do que parecia uma cela ou um quarto, tinha quase o formato humano! Podia contorná-lo com giz de cera, transformar num desenho tosco de criança, e deixar apenas isso de cor, não mudar mais nada no cômodo. O efeito seria devastador. E aquela poça de algo que parecia um plástico firme derretido, que ficara quase totalmente firme e lisa, como um laguinho, mas com algumas bolhas ameaçadoras em sua superfície? E também a “sala das máquinas”, um nome que dera em sua mente ao que devia ser o local para fisioterapia ou algo assim! Parecia uma câmara de tortura, com aqueles metais retorcidos e carbonizados espalhado por um espaço enorme, sem uma das paredes, era... Uau. Era de tirar o fôlego. Lutou muito para superar sua vontade de fumar todo o seu último baseado de uma vez e ficar sentada lá, na sala das máquinas, pirando nas milhares de possibilidades de intervenção artística naquele lugar. Mas tinha que ter um pouco de disciplina.

Estava no fim da música. Finalmente se lembrara dela inteira, como era longa! Além disso, tivera que recomeçar várias vezes por culpa das diversas ideias que atravessavam sua mente e minavam seu foco de atenção. Na verdade, a achava muito adequado ao local. O que eram os loucos enfurnados que não os rotos, os miseráveis? Quando cantara pela quinta vez o verso “pedindo amor aos espaços” até se dera ao luxo de abrir bem os braços e sentir o prazer dolorosamente estranho de ocupar aquele espaço decrépito. Tirando os ratos, ela provavelmente era a única coisa viva por ali. Já confiante e sem medo das “forças ocultas” que a crendice popular enfiara em sua mente, entrou no décimo quinto banheiro que via aquela noite. Aquele era diferente. Mais escuro, e ainda tinha o vidro, embora o espelho estivesse rachado no meio. Se apresentasse o banheiro daquele jeito, nunca acreditariam que fora encontrado assim – provavelmente achariam que ela tinha feito a cenografia... Não, não estava bem.

Ela olhou vagamente seu reflexo e puxou fundo o ar para cantar o último verso da música, finalmente, dessa vez o mais alto que conseguisse, queria ver como o espaço reagia ao eco dos sons agudos.

- Que por entre os estertores sois... – e “uns belos sonhadores” ficou preso na garganta.

O susto de ver seu rosto brevemente iluminado no espelho quebrado a fez abrir a boca num cômico “O”, mas o barulho no Box a fez saltar para trás. Por um momento, pode ver claramente a mão espalmada contra o vidro escurecido. Salto para trás, passo cambaleante, tropeço, uma queda rápida no chão, logo estava sentada contra a parede oposta ao Box, a boca ainda aberta em susto e respiração arfante, os olhos arregalados. Fora um susto tão absurdamente grande e foi tão rápido que agora ela simplesmente não compreendia o que acontecera. Algo se movia contra a palma de sua mão no chão. Olhou. Uma barata. Colocara a mão numa barata. Deu um peteleco fraco no inseto e se levantou com dificuldade, arrumando a mochila nas costas. Deu um passo incerto em direção ao Box. Engoliu em seco. As palavras que engolira estavam se avolumando em sua garganta. Deu outro passo, mais firme. Passou a mão pelo pescoço, nervosa com aquela sensação de palavras mal digeridas. Tentou dar outro passo em direção ao Box, mas não teve forças para isso. Seus instintos gritavam que o melhor a fazer era sair correndo dali. Mas tinha que pensar racionalmente. Queria fazer aquela instalação. E tomara LSD dois dias atrás. Talvez fosse ainda algum efeito, uma alucinação esperando o momento certo.

- Ahn. Er... Oi? Tem alguém aí? – sua voz saiu massacrada, esmagada pelo peso das palavras que ainda ocupavam sua garganta. Engoliu, com força. Estava começando a ficar angustiada.

Avançou os dois passos que ainda a separavam do vidro fosco do Box. Respirou fundo e se muniu de toda a coragem que podia no momento.

- Ei... Olha!... – tentou deixar a voz mais firme, em vão – Escuta! Tem alguém aí? Eu vou entrar, hein! – esperou alguns segundos – Vou entrar mesmo, hein! – mais alguns segundos – Estou entrando!

Segurou o vidro com força, para impedir o tremor de suas mãos e, num ímpeto, empurrou-o.

Não havia nada lá.

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6 Re: Manicômio Abandonado em Qui Mar 29, 2012 10:08 am

Seus dedos trêmulos, de unhas roídas, precisaram riscar o isqueiro preto mais de seis vezes até que o objeto emitisse algo além de faíscas inúteis. Quando finalmente conseguiu, levou a fraca chama depressa até a ponta do cigarro e acendeu-o, puxando um trago com enorme alívio. O filtro ficou manchado com o sangue que brotava vagarosamente de um corte em seu lábio inferior, que inchava pulsante. Passou a língua pelo machucado, limpando-o e franzindo a testa com uma careta de dor, antes de olhar ao redor e perceber que tinha se perdido.

Há alguns minutos atrás, estivera em uma pseudo-festa na casa de pessoas desconhecidas, arrastado por um de seus companheiros de banda, Jakob, supostamente convidado por uma garota que estava lá. Pseudo, porque só considerava festa algo que fosse agradável e divertido. Assistir a um bando de estranhos, que estavam bebendo desde as três horas da tarde, competir para ver quem conseguia agarrar um filhote de porco mais rápido, não era a sua ideia de diversão. Perguntou-se várias vezes de onde haviam tirado aquele pobre porquinho, enquanto sentava-se no sofá colocado no quintal segurando uma latinha de cerveja quente. Em dado momento, deixou seus olhos parados nas órbitas, sem focar-se em nada, apenas refletindo em letras e melodias novas que podia estar escrevendo. Mas somente isso já foi o suficiente para um redneck imbecil achar que estava "secando" a namorada dele e decidir partir para cima com um soco. Foi arrancado bruscamente de seus devaneios, demorando um bom tempo para entender o que tinha acontecido. Quando conseguiu levantar do chão, deparou-se com a porcaria da festa transformada em um caos de homens brigando. E não fazia a menor ideia da razão. Seu amigo estava embaixo de três caras, imediatamente acendendo a luz vermelha dentro do seu cérebro que indicava "perigo". Não pensou duas vezes em tirar a sua Magnum 44 do cós traseiro da calça e dar um tiro para cima. Ato que se revelou muito insensato, mesmo sua intenção sendo a de parar a briga, visto que não era o único armado do lugar. Puxou Jakob pela camiseta e desatou a correr de lá o mais rápido possível, não parando para olhar de onde os outros tiros vinham.

Mesmo não podendo mais ouvir os barulhos da festa, os dois continuaram correndo, até que Fog se virou para trás e viu que haviam se separado em algum momento da fuga.

Agora, caminhava devagar por uma rua estreita de asfalto rachado que parecia ter mato de ambos os lados por quilômetros. A barra de sua calça jeans era destruída pelo calcanhar do tênis a cada um de seus passos arrastados, alternando entre arfar e tragar. O céu já estava escuro o suficiente para várias estrelas ficarem visíveis e qualquer coisa mais distante no horizonte reduzir-se a silhuetas. Era o ambiente perfeito para ser assaltado, mas duvidava muito que corria algum risco. Sua Magnum estava guardada de volta no mesmo lugar, ocultada com ajuda da camisa.

Sabia pelo menos que da próxima vez não cederia a nenhuma negociação quando se recusasse a acompanhar Jakob em seus momentos de loucura. Preferia pagar sozinho, injustamente, o aluguel do estúdio que usavam para ensaiar toda semana. No fim das contas, sairia mais barato e saudável se não fosse incluído nessas festinhas idiotas.

Tirou o celular do bolso e tentou pela segunda vez ligar para o número do amigo, mas o sinal estava ruim demais para que conseguisse completar a ligação. Irritado, jogou a bituca no chão e pisou com força, olhando frustrado para o aparelho. O jeito era continuar andando até encontrar um ponto de ônibus, ou até o maldito celular prestar pra alguma coisa além de ver as horas.

Ali era silencioso e escuro, com postes distantes uns dos outros e lâmpadas fracas no alto, dando um aspecto sombrio à rua. Se aspirasse profundamente, podia sentir o cheiro dos pântanos nas redondezas, e no mesmo instante veio em sua mente cenas de filmes de zumbi. O cenário era perfeito, só faltavam os mortos-vivos grunhindo atrás de si. Não que estivesse com medo, mas era algo típico seu, pensar sempre na coisa errada no momento mais inapropriado. Aquele típico momento embaraçador que acontece com algumas pessoas, de lembrar piadas engraçadíssimas durante um funeral, por exemplo.

De repente um som se destacou no meio dos cricrilares suaves, fazendo-o se virar para trás alarmado. Antes fosse um zumbi; o som viera da sirene de um carro de polícia, que se aproximava jogando flashes de luz vermelha e azul no chão e nas árvores. Tanto por Fog estar parcialmente escondido na penumbra, quanto pela lentidão com que o veículo andava, dava a entender que eles não pareciam tê-lo visto, mas ainda assim procuravam por alguém. Um policial do lado oposto do volante usava uma lanterna grande para iluminar o matagal enquanto passavam. Pensou em como estaria fodido se fosse pego com aquela arma sem licença, naquele lugar totalmente ermo, quarenta minutos depois de um tiroteio na região, e decidiu que, para seu próprio bem, era melhor fugir mais uma vez.

Não fez muito mais do que acelerar o passo, mas teve a decência de evitar as luzes dos postes, contornando-os por trás e usando o mato alto como auxílio para se ocultar. Foi impossível não se lembrar da sua não-distante adolescência, onde quase todo final de semana escondia-se da polícia por seus atos de vandalismo pela cidade. É claro que não cometia nada tão violento como os hooligans, de destruir lojas e atear fogo em carros, mas telefones públicos quebrados e muros pichados eram o de costume. Depois só era visto o bando de moleques correndo e se enfiando em qualquer buraco para não ser pego pelos guardas, como fazia agora. Chegou a cogitar a ideia de deitar no chão e esperar os policiais passarem para dar continuidade à sua caminhada, porém, não foi preciso.

Deu de frente com uma falha de terra batida, que formava uma espécie de entrada para uma estrada curta e terminava em um portão alto e escuro.

Olhou para trás novamente, certificando-se que o carro da polícia ainda estava a pelo menos uns cem metros de si, antes de sair de trás da moita e adiantar-se apressado até o portão. Não estava fechado, mas o espaço entre uma parte e outra era estreito demais, e precisou se espremer de lado para conseguir entrar. Podia rir daquilo depois.

Com passos cautelosos, iluminando o caminho com a luz do celular, afastou-se da entrada e foi até o que parecia ser um pátio frontal, onde se erguia a forma de um prédio largo sem muitos andares, lembrando uma fábrica abandonada. Sentiu um arrepio subir a sua coluna ao encarar o edifício por mais de dois minutos. Não fazia o tipo medroso, mas aquele lugar tinha cara de filme de terror demais pra não ficar reticente. O celular continuava sem sinal. Só faltava surgir um brutamonte usando uma máscara feita com pele humana e carregando uma serra elétrica para ficar perfeito.

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7 Re: Manicômio Abandonado em Sex Mar 30, 2012 6:06 pm

Alívio supremo. Relaxamento. Só agora sentia como tinha ficado tensa. Era como se, antes de entrar no Box, houvesse um búfalo sentado sobre seu peito e bufando em seu rosto. Era como se estivesse carregando um piano nas costas. Tinha certeza de que todos os seus esfíncteres tinham se fechado completamente durante aqueles longos segundos e quatro passos em direção ao vidro fosco. Mas não havia nada lá, e aquela era a prova definitiva que ainda tinha um pouco de ácido no seu sistema nervoso, que arrebentara como uma alucinação visual num momento de grande tensão. Quer dizer, ela não se lembrava de estar tensa antes da alucinação, mas com certeza devia estar. O subconsciente sabe de muitas coisas. De certa maneira torta, sua mente sabia que devia encontrar alguma assombração por ali, porque era de noite, estava escuro, estava distante da cidade num manicômio abandonado. E, é claro, todo mundo tinha falado tanto, mas tanto daquele lugar, que sua cabeça se enchera de caraminholas e possibilidades de piração. Lá na cidade, parecia que todo mundo tinha muita certeza da existência de fantasmas, ou qualquer coisa do tipo, andando por lá durante a noite. O que não fazia sentido. Fantasmas não andam, supostamente. Afinal, não são corpos! Então todo aquele papo de passos no pavimento superior durante a noite era uma besteira. Quanto aos que sumiram por aquelas paradas, bom, não era nada impossível mesmo sumir por ali! Primeiro porque é super difícil alguém querer informar como chegar ao manicômio, segundo porque é mato, não é? Ninguém vai ouvir seus gritos. Enfim, tudo isso influencia! Seu grande erro era ter ido pra lá com restos de ácido no corpo, o que significava que provavelmente levaria mais alguns choques nessa noite. O lado bom é que teria uma história assustadora para contar para seus netos.

De fato, o que não faltaria a seus netos eram histórias. Qualquer outra coisa ela não podia garantir.

Ela balançou os ombros, relaxada, e deu uma sacudidela no corpo para se libertar dos males que a tensão excessiva pode causar, como dores desnecessárias, pescoço duro e nervosismo no trato social. Ela não era dessas. Se permitiu dar um sorriso de canto. Não havia nada lá. Ninguém. Nenhuma luz extracorpórea, lobisomem ou bicho-papão. Nada a temer. Ok, talvez pudesse temer a possibilidade do LSD ficar para sempre em sua mente e ela se tornar alguma espécie de louca, ou qualquer coisa assim, mas isso era muito pouco provável. Ela era sã demais, consciente demais, para se deixar enlouquecer.

Colocou a mochila no chão e abriu o zíper, agora com as mãos firmes. A tremedeira se fora. Não se fora o nó na garganta da música inacabada, embora agora o incômodo fosse bem menor do que antes. Ela já lidaria com isso. Antes, tinha que fazer outra coisa... Onde é que...? Começou a revirar a mochila novamente. Sabia que tinha colocado em algum lugar por ali... Maldita mochila... Simplesmente lhe ocorria agora a mais maravilhosa, louca e bela ideia que ela tinha desde que entrara naquele castelo mal-assombrado. Depois de passarem pelas intervenções lúdicas e leves do resto do prédio, podia guiar os visitantes àquele banheiro... O manteria escuro e destruído e, então, um pique de luz e as pessoas veria um vulto atrás do vidro e, se alguém mais corajoso resolvesse investigar, estaria ali um boneco humano, de tamanho real, caído no chão... Um palhaço! Mas na verdade, não seria um boneco! Seria alguém vestido de boneco!! E então, as pessoas o veriam respirar, o palhaço macabro... A ideia era tão maravilhosa que não pode evitar uma enorme risada, imaginem só a cara deles! Imaginem só a cara deles... E ela podia deixar uma buzina na mão do palhaço, e ele podia tocá-la, caso ninguém percebesse que era alguém de verdade! Seria incrível. Mas, é claro, ele não ia poder se mover muito. Ia precisar de voluntários. Mas agora, onde estava...? Ah! Com um gesto vitorioso, levantou no alto da cabeça um pedaço de giz vermelho e levantou-se animada, se precipitando para a parede e, com certa fúria animada, escreveu “BUUUUUH” em grandes letras toscas na parede escurecida, dando uma risadinha logo depois. Jogou o giz na mochila, a colocou nas costas novamente e, animada, querendo dar uma grande despedida àquele cômodo em especial, juntou todo o ar com cheiro de mofo que os pulmões podiam aguentar e gritou o mais alto que pode e com toda a força que seu corpo pudesse.

- QUE POR ENTRE OS ESTERTORES SOIS UNS BELOS SONHADORES!! – esperou parada por alguns segundos enquanto seus batimentos se normalizavam, ouvindo sua voz ecoar por todos os cômodos e celas do manicômio. Se houvessem realmente monstros e fantasmas por ali, ela com certeza acordara todos. Mas ela sabia que não. Eram alucinações, apenas. Ia parar com o ácido. Agora só coisas naturais. Sei lá, chá de cogumelo.

Deu uma última olhada no seu “BUUUUUH” e, sorrindo, continuou sua inspeção pelo manicômio, cantarolando novamente sua musiquinha.

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8 Re: Manicômio Abandonado em Seg Abr 02, 2012 1:56 am

Por quê, Deus? Por quê?

“Deus de paz e sabedoria, guiai este vosso filho em direção à luz. Olhai pela minh’alma, último pedaço remanescente daquilo que um dia eu fui. Mantenha-me no caminho reto e não me deixai trilhar escolhas tortuosas.”

Essa é a oração que me protege em todos os maus momentos. Ela me protegeu por toda a minha vida, alertando ao Pai Sagrado sobre as necessidades deste seu bendito filho, e continuará a fazê-lo agora na morte. Orando ao Senhor eu consigo manter Aquele mal bem longe daqui. Como nos velhos tempos. Mas Deus parece não me ouvir, e a garota continua suas profanações. Por quê, Deus?

Afundado em minhas próprias lamentações vejo a humana continuar sua ladainha pelo local sagrado. Ela ri, treme, canta, vandaliza e profana meu território como se estivesse em seu próprio quarto. Se o Outro ver isto ele não vai gostar. Começo a imaginar se não seria bom eles dois se encontrarem por alguns minutos.

A garota grita alto. Eu não consigo aguentar aquilo por muito mais tempo! As paredes de meu território sagrado ainda reverberavam o som por toda o lugar quando ela recomeça com aquela música. Não, ela não pode mais continuar com isso. Ela deve deixar meu santuário e meus assovios somente para mim, pobre condenado. Não queira roubar as minhas únicas boas lembranças. Não a conheço, mas já a detesto a ponto de comemorar sua ida em direção à Ele.

Ele sou Eu. A escuridão me transforma, torna o ser piedoso que busca apenas cortar seus grilhões no maníaco psicopata que acabou sendo levado à este manicômio para tratamento. Sigo de perto a jovem. Conforme ela avança cada vez mais em direção ao interior, aumento as sombras dos locais por onde veio a ponto de tornarem uma volta ao início praticamente impossível. Deixo que ela inspecione quantos quartos queira, e então quando ela abre a última porta daquele corredor, uso uma das cadeiras e golpeio-lhe as costas, jogando a desgraçada lá dentro.

Bem-vinda ao meu lar, piranha.




_______________ OFF DO MESTRE DE JOGO _________________
Gia está em sérios apuros. Ela rejeitou o aviso simples e continuou sua exploração “drogada” e inadvertidamente. A aparição a seguiu e usou uma breve manifestação física – o famoso “poltergeist” – para lhe arremessar uma cadeira nas costas. Com o impacto totalmente inesperado, Gia é jogada para frente. A “frente” da porta é uma velha escadaria de madeira apodrecida, pela qual ela rola alguns bons degraus antes que toda a estrutura quebre e ela caia de uma altura de uns quatro metros.

Gia deverá rolar “Vigor” para tentar absorver quatro de dano (vamos contabilizar o golpe, a queda na escada e no chão como uma só coisa). Absorvendo ou não, ela estará zonza e em um ambiente ABSOLUTAMENTE ESCURO, breu total, como se estivesse cega. O cheiro de mofo e de madeira queimada é extremamente forte, mas também há algo fedendo ali perto, como se fosse um ‘animal’ morto.

Todas as jogadas desta cena deverão ser roladas AQUI.

Boa sorte, Gia.

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9 Re: Manicômio Abandonado em Seg Abr 02, 2012 2:04 am

TDOS ESTÃO LIBERADOS PARA POSTAR.(RESULTADO DO TESTE AQUI)

"Gia recebeu o golpe nas costas, com isso se projetou para frente e acabou caindo na velha escada de madeira, pela qual rolou poucas vezes antes de a estrutura entrar em colapso e desabar. A queda foi em um chão duro, sendo que seu ombro direito foi quem absorveu o maior impacto. Infelizmente foi tudo tão inesperado que ela não conseguiu preparar o corpo da forma adequada e acabou se machucando bastante. As costas (pancada da cadeira), o corte na testa, os três dedos da mão direita quebrados (ambos rolando na escada) e o ombro deslocado são seus ferimentos, que embora sejam sérios e causem muita dor, mostram que tudo poderia ter sido bem pior. Ela permanecerá seus dois próximos posts sentindo bastante dor e zonza pela pancada na cabeça (depois disso ela poderá agir razoavelmente normal)."

"Do lado de fora do Manicômio, Fog pode ouvir um barulho de algo desmoronando e também pode perceber através das vidraças que uma escuridão total foi tomando conta do interior do prédio, não como luzes se apagando, mas como uma névoa negra se alastrando."

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10 Re: Manicômio Abandonado em Seg Abr 02, 2012 5:02 pm

Piscou os olhos bobamente, tentando enxergar alguma coisa. Não via um palmo a sua frente. Para piorar ainda a situação, a dor a impedia de pensar com alguma clareza. Sentiu uma lágrima quente escorrendo pelo rosto e levou a mão direita aos olhos, enxugando-os, sem jeito. Não via, e mal entendia o que tinha acontecido, mas o corpo falava por si próprio. O coração batia forte, dolorosamente, e ela o sentia contra a garganta. Adrenalina. Estava aí uma substância na qual ela não era nem um pouco viciada. Sentia o braço esquerdo inteiro latejando dolorosamente, em específico o ombro e a mão. Mas seu lado direito estava quase normal. Passou a mão pelos pontos de dor, investigando-os. Gemeu. Um dedo, dois, três... Pareciam quebrados. Estavam quase que completamente virados para trás, e a força mínima que exerceu sobre eles gerou uma dor lancinante. Impossível evitar que mais algumas lágrimas escorressem pelo rosto livremente. Pelo seu parco conhecimento de medicina e anatomia, aqueles dedos precisariam de pelo menos quatro meses de recuperação. Continuou apalpando o braço. Tudo parecia bem. Soltou outro gemido ao chegar ao ombro. Sentia claramente seu úmero empurrado pra frente, deslocado da clavícula, surgindo contra a pele como uma bola endurecida de dor. Mais lágrimas quentes. Esfregou novamente os olhos, com alguma rudeza. Sentia também algo quente escorrendo por sua testa. Seria suor? Passou os dedos de leve pela área e sentiu um corte. Seus dedos voltaram molhados. Passou-os de leve pelos lábios e sentiu a boca inteira sufocar ao sabor ferruginoso. Sangue. Um pensamento cruzou sua mente com a velocidade de um raio e ela sentiu seus batimentos aumentarem ainda mais. Esperava realmente que aquele fosse apenas um lugar escuro, e não tivesse ficado cega de verdade.

O que acontecera? Escorregara? Tropeçara? Bem que queria acreditar nisso. A dor em suas costas não a deixava pensar em qualquer outra coisa. Sabia bem o que tinha acontecido, mas não era o momento de gastar com isso os poucos neurônios que ainda funcionavam no meio da multidão de confusos do seu cérebro. Restava apenas que, se alguma força do além tinha mesmo a golpeado nas costas, bom, então tinha que ir se aviando. Não ia ficar ali esperando a coisa vir lhe bater novamente. Olhou para cima. Não conseguia nem mesmo ver a porta por onde passara. Devia mesmo estar cega. Se segurou para não cair no choro. Não era o momento. Mas deixou seu corpo se sacudir ao som de alguns soluços dolorosos. Mas, sem mais autopiedade. Precisava sair dali.

Girou sobre seu lado direito, se esforçando para apoiar o peso do corpo ali. Não poderia seguir de gatinhas. Com algum esforço, conseguiu se colocar de joelhos, mas quase no mesmo segundo seu corpo despencou. A tontura que a dominou quando se moveu foi tão grande, que quase perdeu o ar com o movimento. Vertigem. O embrulho em seu estômago piorou, e ela deixou-se vomitar para o lado. Conseguiu impedir uma queda de cara no chão apoiando-se no braço direito com força. Não conseguiria levantar por agora.

Tateou brevemente, a procura da mochila. Sua vida inteira estava lá. Lenta e laboriosamente, puxou a mochila pesada para perto de si e pendurou a alça no pescoço. Vagamente se lembrava dos seres humanos pós-apocalípticos de Beckett, rastejando na lama, sem forças, com um saco enorme de latas de atum pendurado o pescoço. Estava bem nessa situação. Provavelmente, ela era a criatura idealizada por Beckett, e o cenário não podia ser mais perfeito para isso. Se não estivesse com tanta dor, riria. “Como cheguei aqui se sou eu nenhuma pergunta fraco demais sem interesse mas aqui neste lugar onde começo desta vez formulação atual parte um minha vida apertar o saco ele pinga primeiro sinal este lugar algumas sobras”. As palavras de Beckett lhe davam um estranho conforto. Apertou a mochila. Ela não pingava, mas não precisava de um sinal. “B para C C para D do inferno para casa inferno para casa para inferno sempre á noite Z para A esquecimento divino basta”. Era isso. Só lhe restava agora o instinto de sobrevivência. Colocando força nos pés e no braço bom, começou a rastejar. Em algum lugar ela ia parar, e, caso algo acontecesse, poderia pelo menos morrer tranquila de que fizer o possível naquela situação.

Rastejar para frente. Ignorar o cheiro. Trazer consigo a mochila. O resto agora não importava.

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11 Re: Manicômio Abandonado em Qui Abr 05, 2012 11:03 pm

Dois passos para a esquerda, duas barrinhas. Mais um passo para a esquerda, uma barrinha morre. Volta outro passo, nada de uma nova barrinha. Antes que pudesse começar a discar o número, o sinal todo torna a morrer.

Fog bateu o celular contra a coxa em frustração antes de socá-lo no fundo do bolso da calça, xingando tanto o aparelho quanto seu amigo que era de certa forma o culpado por aquela situação toda. Arrependeu-se de não ter voltado no caminho e procurado-o enquanto ainda tinha sol pra iluminar aquele cabeção de fogo ao longe. A cerveja quente chacoalhando dentro do seu estômago vazio enquanto corria deve ter lesado seu bom-senso. Ou então o fato de ter passado as últimas horas assistindo caipiras yankees pedirem para ele dizer o nome "britânico" das coisas contaminou-o com a burrice deles.

Os flashes vermelho e azul do carro da polícia se aproximaram e clarearam os portões gradualmente, fazendo-o se abaixar de novo, mas dessa vez atrás de uma mureta em ruínas, onde ficou até que eles sumissem de vista. Quando se ergueu, viu que suas mãos apoiadas antes nos tijolos, estavam sujas de um pó negro muito parecido com fuligem. Esfregou as palmas na barra da camisa até que boa parte do pó saísse, enquanto voltava a encarar o prédio abandonado atrás de si, por cima do ombro. Imaginou que aquele lugar pegara fogo um dia, aumentando sua hipótese sobre ter sido uma fábrica. Poderia voltar ali depois para vasculhar melhor. Como crescera em uma cidade cercada por fábricas e outros edifícios industriais, tinha criado um gosto particular por esse tipo de ambiente. Um dos seus sonhos era dar um show fodástico num lugar daqueles, e quem sabe até gravar um clipe.

De repente ouviu o ruído de algo caindo, muito parecido com uma árvore folhuda rachando o tronco e despencando, fazendo-o dar um pulo para trás e erguer o rosto para os lados, procurando sua origem. Arregalou os olhos para forçar a vista, mas estava escuro demais para que pudesse ver algo além do brilho fraco da lua invadindo as janelas mais altas. Tentou usar a luz do celular mais uma vez, erguendo-o acima da cabeça, mas o alcance dela não era grande o bastante.

- T-tem alguém aí...? - experimentou perguntar para a escuridão, sua voz meio rouca pela garganta seca. Não ouviu nada em resposta além da própria respiração se alterando.

Sua atenção foi chamada intuitivamente para as janelas que estivera olhando. Pôde ver o interior dos andares ir se escurecendo devagar, dando a impressão de estarem sendo preenchidos por uma espécie de fumaça tão negra quanto a fuligem que sujou suas mãos. Involuntariamente, seu corpo todo estremeceu, e sentiu como se um dedo muito gelado tivesse passado pela sua coluna, desde a nuca até o começo do cóccix. Foi o suficiente para fazê-lo dar outro pulo e se afastar aos tropeços, sem dar as costas para o prédio. Seu celular caiu no chão e se apagou, mas pegou-o quase que no mesmo instante e continuou a se afastar até que trombasse no portão. No pânico de sair pela greta estreita, acabou por enroscar um furo mínimo do joelho da sua calça em um pedaço da grade, rasgando ainda mais o tecido e cortando de leve a pele embaixo dele. Mesmo que sua preocupação maior agora não fosse vazar dali, não iria se importar com o estrago; podia ser facilmente confundido com um mendigo às vezes.

O carro da polícia já havia se afastado mais uns duzentos metros pela rua esburacada, mas ainda assim preferiu agachar e ir calmamente se esgueirando atrás dos postes até que tomasse uma distância segura onde não poderia ser facilmente visto. É claro que se sentia um pouco ridículo fazendo aquilo, só que não havia outra opção. Ser preso por causa de uns rednecks? Ficar bancando o cagão naquela porra mal-assombrada? Não, era melhor se enfiar no meio do mato e correr de volta para a civilização. Encontrar Jakob e o estrangular até que a raiva passasse.

Já podia ver a claridade vinda das casas no bairro, quando tomou o terceiro susto da noite, com um grito forte e repentino que ecoou saindo direto do seu celular. Nada mais era do que o toque personalizado que botara, uma música do Misfits. Quase apropriado demais. Com uma mistura de alívio e emputecimento, viu na tela o nome de quem ligava: Jakob.

- Seu filho de uma puta mal-paga, onde você tá? - rosnou ao atender a ligação, automaticamente olhando ao redor para se certificar de que não havia ninguém por perto para ouví-lo. - Ah é, e tá gostoso aí? - perguntou com sarcasmo, estreitando os olhos - Eu saí correndo ué! Não! Não vi, porra! Sei lá, eu segui por uma ruazinha escrota e fui parar num troço caindo aos pedaços... Uma fábrica, acho. - voltou a caminhar apressado enquanto respondia irritado ao amigo, sempre espiando para trás. - Tava sem sinal ué! Quê?! Não, eu tô perto de umas casinhas agora... Tinha um carro da polícia me procurando, sabia? É bem óbvio né? Bro, você é muito retardado, eu juro que nunca mais saio sozinho com você... - atravessou uma data vazia, chutando algumas latas que estavam pelo caminho, e saiu direto em uma rua movimentada onde tinha um ponto de ônibus do lado oposto - Oh, achei um ponto de ônibus... Tá, tá! Vai à merda. Tchau.

Desligou o aparelho e enfiou-o no bolso antes de atravessar a rua, praguejando. O tempo todo em que estava se enfiando no meio do matagal ou se apavorando com pseudo-alucinações induzidas pelo medo, Jakob tinha conseguido escapar dos caipiras por um caminho menos sinistro, encontrado uns amigos dele que estavam zanzando por aquele fim de mundo também, e pegado uma carona com eles até um bar onde havia cerveja de verdade. Achava surreal a capacidade que o amigo tinha de se dar bem mesmo se metendo em tanta confusão. Queria surrá-lo.

Entrou no primeiro ônibus que surgiu e foi embora, encontrá-lo no tal de Razzoo.

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12 Re: Manicômio Abandonado em Ter Abr 24, 2012 1:34 pm

O bom filho à casa torna.

Cá estou eu de volta ao meu lar, meu lugar de direito de onde tantos tentaram me tirar. Estaria eu falando da loucura que assolava minha mente em vida e que retornou ao receber a visitante inesperada? Ou o “lar” a qual me refiro é a Ala 9, sobre a qual a vadia agora rasteja? Um dilema delicioso, realmente, do qual não me importo em definir uma resposta.

Passei aqui os últimos anos de minha vida. Estes mesmos corredores que... Ah, sim, ela não enxerga no escuro em que se encontra. Bem, a piranha está rastejando por entre o largo corredor que servia como braço principal da Ala 9 – largo o suficiente para permitir a passagem de macas com corpos e equipamentos experimentais diversos. Em ambos os lados do corredor existem várias portas, dezenove para ser exato, cada uma delas dá acesso a uma cela individual onde nos colocavam. Cada cela dessa abriga um interno “perdido”, que era o termo usado pelos médicos para definir aqueles cuja loucura havia cegado por completo a razão. No final do corredor há a transição para o setor das experimentações. Mas o corredor é tão grande que ela poderá levar a noite toda engatinhando de uma ponta à outra. É melhor eu tomar alguma providência a respeito.

Faça-se luz.

Pronto, agora sim ela poderá me servir para algo mais digno. Com o corredor iluminado permito que ela compartilhe da visão magnífica desta construção. Meu lar. Aprendi a gostar daqui como se fosse minha primeira casa. Lembro de tudo como se fosse ontem: cheguei trazido pela polícia, acomodei-me junto aos outros internos nos quartos coletivos e depois de seis meses virei um “perdido”. A transferência para a Ala 9 aconteceu no meio da noite, enquanto todos dormiam. Meus últimos anos, bem aqui. Cela 17. Mas bem, recordar não é viver. Devo aproveitar que tenho uma hóspede esta noite e fazer as honras, apresentando-na aos meus colegas de ala.

Vão. Estão livres agora, amigos. Vão e digam e digam “olá” à nossa nova amiga.





Gia começa a rastejar para frente mesmo com todas as dificuldades quando luzes se acendem e cegam-na por alguns segundos. Ao ter a visão de volta, ela percebe que se encontra em um corredor relativamente largo (uns 4 metros) feito de tijolos antigos deitados. Ela pôde notar os tijolos por conta do péssimo estado de conservação das paredes, cujos rebocos se desprenderam há muito tempo, estufados pelo mofo. Não há janela alguma, o que impede circulação de ar e causa os estragos visíveis. Um rato morto em estado de decomposição está a alguns poucos metros dela, sendo o motivo do fedor. Este corredor possui várias e várias portas em ambos os lados, e todas elas estão enegrecidas, como se tivessem sido queimadas. Qualquer outro detalhe de madeira – e até mesmo alguns trechos das paredes – também estão enegrecidos.

O corredor se estende bastante para frente, culminando em uma porta aparentemente de metal. Um fato perturbador que Gia pôde notar é que algumas das lâmpadas que acenderam e que ajudam a iluminar o corredor estavam quebradas no chão, sem ao menos manterem a ligação com os bocais ou fiação. Provavelmente esse inquietante fato ficou em segundo plano após o susto que ela levou quando todas as portas se abriram ao mesmo tempo em um estampido abafado quase uníssono, de dentro das celas para fora, em direção ao corredor – por exceção da porta de metal (?) do fim do corredor e de uma outra “comum” que ficava à esquerda, também próxima ao final (permanecem trancadas). Cada porta tinha a inscrição de um número em uma placa de ferro colocada acima: a primeira da esquerda era a 1, a primeira da direita era a 2.

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13 Re: Manicômio Abandonado em Qua Abr 25, 2012 4:56 pm

Idiota. Idiota. Idiota.

Impressionante como era uma droga de uma adolescente. Agia como ume menina de quinze anos! Estúpida! Se achando tão certa, tão talentosa, tão livre de problemas e de medos! Quem ela podia enganar, afinal? Acreditara, acreditara realmente, que o fato de estar indo para o manicômio com intenções artísticas e nobres seria até lisonjeiro para as forças ali presentes, que talvez eles ficassem até felizes com sua presença. Bom, não que não estivessem felizes agora. Certamente. Já que tinham um brinquedinho novo.

A luz se acendeu do nada e os olhos de Gia cegaram. Piscou-os com força, para se acostumar com a luminosidade inesperada. Idiota. Idiota. Não cansava de se maldizer. Tinham falado tanto! Tinham-na avisado com tanta veemência! Tantas histórias a respeito daquele lugar, e aquilo só lhe aumentara o ânimo, o desafio, a vontade e provar que seria capaz de criar algo belo de tudo aquilo. Que estupidez! Podia ter escrito uma porcaria dum livro que já seria o suficiente. Nunca teria que ir naquele lugar. Mas tinha ido. Bom, não podia se arrepender de seus atos agora. Não gostava disso. Não gostava de querer ter feito diferente. Ia ser honesta a si mesma, enquanto pudesse. Fizera. Fora. Estava lá agora. Se pudesse, correria. Mas não podia, não é mesmo? Então ficava.

Voltou o olhar quase fosco para uma lâmpada estourada caída no chão, que brilhava com tanta intensidade quanto qualquer uma das que estavam penduradas no teto. Não que ela precisasse de mais alguma confirmação de que estava ferrada. As portas ao longo do corredor se abriram com um som seco e seu coração pulou alguns compassos. Estava próxima à porta de número dois, e por pouco não foi atingida por aquele pedaço de madeira queimada e decrépita. Olhou para o chão, rapidamente. Não tinha coragem de espiar para dentro do quarto. Agora, já não tinha mais vontade nenhuma de ver mais daquele lugar. Sua intervenção... Bom, se sobrevivesse, talvez a fizesse em uma casa de campo. Não ali.

Firmou seu olhar na porta no fim do corredor. Parecia que aquela era sua única opção. Mas não queria ir pra lá. Ela se assemelhava muito a uma daquelas portas de hospital que ligar a área dos pacientes à área de cirurgias. Provavelmente, entrar lá seria apenas uma continuação do circo de horrores em que se metera. Além disso, estava fraquejando. Ainda sentia dor, ainda estava tonta, enjoada com a visão das vísceras putrefatas do pobre rato do outro lado do corredor. Soltou um gemido de desespero. Logo, seria suas vísceras esverdeadas que dominaria aquele lugar. Estava acabada.

Sentou-se sobre as pernas e examinou seus ferimentos. Morreria assim. Bem que sentira que nunca passaria dos vinte e poucos anos. Mas vivera feliz, podia dizer isso. Tentou não chorar. Não ia fazer o joguinho deles. Não ia ser um brinquedo divertido. Sorriu levemente.

- Se o sangue é o que dá a cor ao rosto dos homens, que ele core minha face. – espalhou o sangue que escorria de sua testa no rosto, principalmente nas bochechas – Ninguém me verá pálida. Quando os carrascos me vierem matar, verão uma mulher de coragem.

Seus olhos brilharam levemente. Era isso. Ia morrer, era inevitável. Mas ia morrer com coragem. Se arrastou para a parede e se encostou ao lado da porta número dois, escancarada. Enfiou a mão boa dentro da mochila e puxou sem maiores dificuldades o seu último baseado. Chegara finalmente a hora de fumá-lo. Ia morrer, mas ia morrer feliz. Com a mão tremendo muito, acendeu-o. O último gesto de uma morimbunda! E riu.

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14 Re: Manicômio Abandonado em Sab Abr 28, 2012 2:51 am


Sangue, quente e rubro, escorrendo das veias abertas por um corte para a pele exposta do rosto dela, se espalhando. Respiração, ofegante e contaminada, entrando e saindo de seus pulmões, exibindo no auge do medo o que existia dentro de seu corpo. Inundada. Como tinha a ousadia de invadir a moradia dos mortos com toda aquela vida?

Controlar os meus instintos já não era mais uma opção. Creio que nunca tenha sido, na verdade. Era minha casa, para sempre. Qualquer invasor, principalmente sendo tão vivo e repugnante, sofreria as consequências de perturbar o silêncio dessas paredes queimadas em ruínas.

Mas ela zombava dessas paredes. Com suas palavras estúpidas e seu cigarro de mato. Exalando junto com o cheiro dele, o fedor típico do suor de quem ainda tem a alma presa dentro da carne. Meu ódio por sua presença só aumentava, e meus amigos não estavam me ajudando.

É claro, como pude esquecer. Eles tinham tanto medo quanto ela. Medo de mim.
Cada pequena alma destroçada pelas perturbações de quando tinham um corpo, cada minúsculo fragmento do que fora uma pessoa um dia, se encolhia apertado diante dos meus pés. Eu era o dono daqueles corredores. Nenhum morto se atreveria a sair enquanto eu ainda existisse. E nenhum vivo se manteria nesse estado enquanto eu tivesse poder.


Ri alto e com estardalhaço. Fazendo o possível para que fosse ouvido por todos, inclusive por ela. O riso seco, desafinado, insano, que saiu pela minha garganta imaterial e reverberou com um eco por cada tijolo esfarelento.

Me aproximei dela, de seu rosto pateticamente pintado de sangue, encarando-a direto em seus olhos molhados e murchos. Mesmo que ela não pudesse me encarar de volta, eu sabia que sentia minha proximidade. O seu pavor só alimentava a minha excitação, e como era delicioso ser dono do destino de alguém. A vadia preparava-se para morrer, mas ela devia ser muito burra para acreditar que isso seria o fim. Já não tinha diante de si provas mais do que concretas de que não havia um fim ali?

Furioso, acertei com força o seu rosto, atirando seu cigarro nojento para longe. Nada de fugir da sua realidade imutável, mocinha. Quero que sinta profundamente cada dor que eu lhe provocar.

Quero ouvi-la gritar até que perca a voz. Quero ouvir as batidas do seu coração até que ele exploda.

Botei a vagabunda em pé, erguendo-a pelas mechas do seu cabelo grosso e sujo, forçando-a contra a parede atrás de si. Comecei a sussurrar em seu ouvido palavras ofensivas e obscenas. Ela precisava saber que eu faria com ela do mesmo jeito que fiz com Amy. Por elas terem os mesmos olhos azuis. O mesmo ar de inocência que precisava ser arrancado à força pelas minhas mãos; apesar de estas não mais existirem.

Eu ia estuprar sua alma de dentro pra fora, e ela sentiria isso pela eternidade.



Absolutamente nada saiu de dentro das celas. Gia também não ouve nenhum som vindo de dentro delas, o que dava a impressão de estarem vazias. No entanto, enquanto era toda ouvidos ao silêncio, um ruído grave e crescente, que não parecia ter forma alguma no início, moldou-se em uma aparente risada sinistra que tomou conta do corredor inteiro, vindo de lugar nenhum e de todos ao mesmo tempo. A risada não era muito alta, pelo menos não mais que o som de seu coração batendo disparado.

Depois daquela risada - ela ainda não tem certeza, ou se recusa a ter de que se tratava mesmo de uma -, Gia pôde sentir um frio atravessando sua espinha: ela não estava sozinha ali, fato comprovado pelo cigarro de maconha que foi arremessado de sua boca por uma improvável rajada de vento. Sem tempo para se recompor, sua mente passou a ser invadida por sussurros de ameaças e obscenidades tão reais e intensos que ela não percebeu que havia ficado de pé ao esfregar as costas pela parede. Essa mesma reação impensada de seu corpo faz com que ela tape os ouvidos e puxe o próprio cabelo para cima com força.

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15 Re: Manicômio Abandonado em Seg Abr 30, 2012 10:31 pm

Ainda bem que tinha dado uma longa tragada.

Mas não foi capaz de reter esse pensamento por muito tempo, nem sequer foi capaz de manter seus olhos preocupados na brasa que se apagava lentamente em seu baseado, que caíra cerca de dois braços de distância. Nem por meio segundo. Porque agora ela compreendia o que acontecia, ou pelo menos achava que compreendia. Não tinha mais salvação. Aquela risada, que viera como um sopro aos seus ouvidos, e o vento que levava para longe a sua tábua da salvação em forma de cigarro só lhe confirmavam as ideias. Não tinha mais esperança.

Sentia como se algo duro e gelado tivesse passado por seu coração. Parara, dolorosamente. O que quer que fosse a força que agora a fazia de joguete, estava perto. Não que ela precisasse ter certeza disso. Sentia mesmo que estava em todo lugar, entrando por seus poros como um vírus maldito, rindo dela com lábios maliciosos e sem corpo!

Sentiu suas costas raspando dolorosamente contra a parede, embora não sentisse seus pés firmes no chão. Na verdade, estava provavelmente perdendo a noção da realidade, e talvez mesmo aquela dor fosse fruto de uma imaginação começando a se perturbar. Mas havia algo bem real, mais real do que a dor de seus cabelos sendo puxados, do que as costas machucadas, o braço deslocado, os dedos quebrados, a testa latejante. Mais real do que aquele corredor vazio e iluminado ou do que o cadáver fedorento a pouca distância dela. Mais real do que sua vida inteira. Os sussurros.

A ‘coisa’ sussurrava em seus ouvidos coisas que ela nunca conseguiria frasear. Palavras e frases tão torpes, tão imorais, tão... Ouvia as batidas de seu coração muito altas, como se estivessem batendo contra a parede em que pressionava suas costas, mas mesmo assim... Mesmo assim não conseguia fazer com que se calasse. E as palavras, as palavras a embalavam na situação mais estranha da sua vida. Eram tão... Eram tão... Obscenas! Lascivas... Ecoavam em sua cabeça maliciosa e violentamente. Por alguns segundos tentou se desvencilhar daquilo. Tentou fazer seus próprios pensamentos assumirem as rédeas de seu cérebro. Mas não conseguia. As palavras... Eram irresistíveis. Sim, irresistíveis. Não queria assumir que seu corpo se aquecia com aquela situação, mas era o que estava acontecendo. Estava ficando excitada.

O prazer na dor. O prazer na humilhação. Não podia negar que queria que aquilo continuasse. Estava sim, morrendo de medo, e isso agora só melhorava as coisas. Uma pena, realmente, que não houvesse um corpo ali para subjugá-la. Mas estava funcionando bem daquele jeito. Sentiu que sorria, seu lábios sendo puxados para cima numa combinação maléfica de prazer e medo. Sim, sim, faça isso. Faça. Sua mente gritava em resposta. Ela queria sentir um pouco de dor agora. Na verdade, não só um pouco. Queria a dor. Só para ter a certeza de que ainda podia sentir alguma coisa.

Os sussurros continuavam. O sorriso foi se transformando numa risada irresistível, calorosa, aguda, que escapando de sua garganta ecoava dolorosamente nas paredes do corredor. Logo, parecia que não era só ela quem ria, e sim um conjunto de Gias, milhares delas, rindo sem parar, irresistivelmente, loucamente, um riso de luxúria completa.

Isso mesmo. Agora ela também queria ser um joguete nas mãos das trevas. Que viessem.

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16 Re: Manicômio Abandonado em Seg Maio 28, 2012 1:12 am


Subestimei a humana. Acabei pensando que sua burrice em descer até meu território se estenderia a todas as suas ações, mas não; ela é esperta quando quer. Viu que eu pretendia me alimentar de sua alma, estuprar sua vontade inteira com minhas trevas e acabou... “gostando”. Cheguei a pensar em quem diabos poderia gostar de ser atacado por um fantasma. Ninguém, certamente. Ela só quer me afastar. Fingir que está gostando de um ataque pode murchar o próprio ataque, que perde o sentido. Esperta, ainda que não o suficiente pra me vencer.

Vejo o rato morto perto de meus pés e de repente uma vontade de enfiá-lo pela garganta da vadia me invade, uma vontade de fazê-la se engasgar em podridão e sentir o cheiro da morte - o mesmo cheiro que exalaria depois que terminássemos nossa diversão. Abandonei a idéia não por pena da vadia ou do rato, mas sim porque demandaria muita energia de minha parte manipular um corpo morto e forçá-lo pela garganta de alguém vivo. Outras idéias me vêm à mente então. Ela disfarça que gosta de ser possuída para poder ter uma fuga da realidade cruel em que se encontra. Muito bem, vamos trazê-la ao mundo real.

Bastou a mera vontade de minha parte e a força que a segurava contra a parede cessou, fazendo com que fosse ao chão. As luzes pararam de piscar; toda a aura de terror se foi. Agora junto à humana apenas a fria e cruel realidade do subterrâneo de um manicômio abandonado e os ferimentos em seu fragilizado corpo. O fantástico deu lugar à mais pura das verdades para a vadia: ela ia morrer. Naturalmente, o mundo pode conspirar para salvá-la ou ainda ela pode ter uma grande força de vontade e escapar viva dessa noite. Poderia acabar morrendo somente daqui a trinta, sessenta anos – o que me deixaria bem fulo da vida por ter que aguardá-la por tanto tempo. Algo tem que ser feito a respeito.

Invoco o vazio. Das profundezas do grande abismo de onde saí após minha morte e de onde parti para retornar à “vida”, trago o maior de meus trunfos. Eu amaldiçôo a ti, humana. Sua morte acaba de ser reescrita.



Em um passe de mágica o terror cessou. Tudo o que parecia sobrenatural se foi, deixando Gia sozinha com o corredor e os seus próprios ferimentos. Ela poderia simplesmente se levantar e ir procurar alguma saída daquele inferno. No entanto, antes que ela efetivamente levantasse e partisse, um último sussuro atinge seus ouvidos. Esse não veio rancoroso ou acompanhado de palavrões, mas teve um conteúdo tão sinistro que certamente gelou sua espinha: ela iria morrer dentro de seis meses. Junto a esse sussuro veio um vislumbre do mundo dos mortos, um lugar tenebroso, negro e de uma pós-vida eterna em agonia. Jamais teria descanso novamente.

Gia Kafka, sua personagem irá morrer em 12 de dezembro de 2012 (data real, não a de jogo).

Carpe diem,
carpe noctem
.

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17 Re: Manicômio Abandonado em Sab Jun 23, 2012 9:18 pm


Depois do fiasco da noite anterior, Isabela estava, finalmente, em seu ambiente. Por vezes ficava tão entretida com políticas inúteis que esquecia onde deveria estar. Um erro que sempre prometia não mais cometer, mas sempre acaba comentendo. Seus olhos escanearam a velha construção que antes abrigara um manicômio. Era um lugar fantástico. Suas ruínas eram poéticas e dizer que era assombrado não era mais do que um clichê, todavia um verdadeiro clichê. Aquele lugar era horroroso, aos pedaços, fedorento e animado demais para uma casa abandonada. Mas ainda assim era lindo. Uma beleza que toreador algum conseguia captar.

O ar frio tocou sua face e ela o sentiu, não a temperatura caindo, mas o ar tocar sua face. Gostava de estar entre os mortos. Por isso gostava daquele lugar. Solitários, carentes, era fácil lidar com eles quando se sabia o que os motivava a fugir da passagem. Isabela decidiu que abandonaria a luz do sol quando descobriu que a morte que estava ao seu alcance, a morte e a imortalidade, tal combinação era irresistível demais a ponto de implorar àquele que seria seu senhor para aceitá-la na famiglia. Quatro séculos depois lá estava ela, naquela cidade cujo sangue escravo se fazia tão presente, envolvendo-se numa briga que não era sua em detrimento do que lhe era realmente caro. A noite anterior lhe ensinara mais uma vez uma lição que teimava em esquecer: "o que te interessa, Giovanni, são os mortos, os vivos sabem falar por si".

Adentrou a casa, sabia que os residentes imediatamente perceberiam sua presença, talvez viessem ter rapidamente com ela. Talvez não. Então ela teria que vasculhar cada canto onde se esconderiam para descobrir o que causara a interferência que liberara Giorgio no Longue Vue. Soubera naquele momento que uma manifestação ocorrera em Lakefront, e fora preciso atiçar alguns de seus servos para descobrir que algo havia perturbado a tranquilidade do Manicômio abandonado e foi o suficiente para tirar Isabela de seu refúgio para um trabalho de campo.

Todo spiritto podia ser classificado como mentalmente perturbado por um mortal de cabeça comum, mas aqueles que mudavam de plano em "centros de reabilitação para mentes debilitadas" geralmente tinham comportamentos mais agressivos e erráticos. Portanto, eis a curiosidade de Isabela.

Atravessou o hall e fez sua voz ecoar:

- Vamos, você já sabe que estou aqui. Venha conversar comigo. - Disse para o aparente vazio. - Apareça e conte-me quem teve a ousadia de perturbar-lhe.

Olhou em torno, procurando evidências da passagem de algum estranho enquanto esperava que se mostrasse para ela. Já a conhecia e sabia o que ela poderia fazer caso se mostrasse arredio demais. Sabia que um spiritto com duas mentes residia naquela construção, e já fizera contato com ambas, duas antissociais, embora com níveis de crueldade distintos. Ele denominava a si próprio Interno 17 e tratava sua contraparte cruel apenas por "ele". 17 era o que geralmente se fazia presente e falava com ela. "Ele" a evitava pois sabia que ela tinha poder para subjugar sua vontade. Geralmente Isabela evitava ser tão filha da puta com qualquer espírito, mas havia vezes em que era um mal necessário.

17 é bastante neurótico, gosta das coisas ao seu jeito, portanto Isabela, buscando sua boa vontade caminha por entre os restos sem marcar sua presença, embora eleve sua voz para chamá-los novamente. Podia ser "ele" quem respondesse, todavia, se não podia encontrar sangue ou objetos novos no local, certamente fora 17 quem fizera o contato com o estranho. Por cada ambiente que passava, procurava por indícios claros da passagem de alguém. Adolescentes às vezes apareciam por ali desafiando a si próprios a entrar no Manicômio, mas geralmente o espírito podia lidar com isso. O que acontecera fora outra coisa, a ponto da notícia da manifestação ter atravessado meia cidade até chegar a ela. Talvez fosse um maldito médium. Não gostava de médiuns e certamente não queria saber de um tentando se comunicar com as malditas aparições que há tanto tempo tentava conquistar a confiança.

Estava perto da entrada da Ala 9 e por ali percebeu vestígios de sangue. Tudo mais podia passar desapercebido menos o sangue. Aquilo fez uma leve excitação crescer dentro dela.

- Então, vejo que a festa foi divertida. Não virá falar comigo? Não quero ter que procurar por você. Venha, só quero saber quem foi a criatura e se você a matou.

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18 Re: Manicômio Abandonado em Qui Jun 28, 2012 11:41 pm

Em conjunto com Isabela Sforza



Presos à este mundo, sem viver e sem gozar do descanso eterno. Esses são os condenados ao martírio eterno, como eu. Os grilhões que me seguram à este “mundo” de tormento não são nada nobres: orgulho e vingança. Sempre me senti melhor que os outros, superior a qualquer pessoa que tenha encontrado pela frente. Essa atitude me tornou uma pessoa fria. Cometi muitos pecados, admito, e faço essa admissão sem me arrepender de nada. Acabar nesse lugar de incertezas onde estou não é digno para quem teve o mundo aos seus pés. Jamais me guiarei a tão injusto destino... e jamais deixarei de procurar por aquele que me venceu. Lembro de seus olhos e de sua voz tão claramente quanto recordo de suas ações. Infelizmente ele se foi há muito tempo, deixando-me preso aqui com uma eternidade à minha frente.

A minha única esperança, se pode ser chamada de esperança, são aqueles a quem chamo de “médiuns”, os únicos a verdadeiramente enxergar nosso mundo e entender um pouco os conceitos complexos pelos quais somos regidos. Sei de uma muito poderosa que me conhece e que conhece também à Ele. Na verdade, sinto sua presença em minha moradia. Ela pode ter percebido o quão feroz Ele esteve com a garota e veio até aqui puní-lo, procurando-o na Ala 9. Por um acaso Ele está dormente no momento, o que me permite tentar uma aproximação.

Quando ela pergunta sua voz se ergue sobre todas as coisas, perguntando sobre quem teria provocado tamanha manifestação. Sua curiosidade é motivada pelo sangue largado naquele vil corredor, de tantos tormentos e más recordações para mim. Mal ela sabe que não houve uma morte, mas sim haverá uma morte.

Mantenho-me afastado de suas e maiores percepções, em um lugar que julgo fora do alcance de seus poderes diretos – apesar de saber do potencial de sua influência em meu mundo cinza. Deixo que minha vontade comunique minhas idéias em seu pensar especialmente munido do dom de ouvir a nós.

- Sua presença atiça a todos nós, senhora. Tu és diferente de qualquer um. Podes ser minha salvação e minha ruína, o que me causa uma sensata aflição. Por favor, queira me ouvir antes de se apressar a punir a algum condenado. Foi tudo culpa dela. A vivente veio até Ele e o provocou, avessa aos meus avisos. Mas saiba que mortes não ocorreram... ainda.



Ela sorriu docemente para a aparição, quase conseguindo ter certeza de onde ela estaria posicionada, escondida, como um animal acuado. Sua vontade era pegá-la no colo e embalá-la como um dia fizera com o filho natimorto.

- Eu escapei do fim... Pelo menos por enquanto. A morte tenta me alcançar, mas fujo ela para poder conversar com criaturas como você.

Farejou o ar e sentiu as pequenas perturbações nas correntes de vento e encontrou-o. Ainda não podia vê-lo, pois ele se encolhia demais nas sombras e por mais que seus olhos estivessem acostumados com a escuridão, a escuridão do limiar da existência era muito mais profundo e inacessível para os olhos daqueles que ainda estão vivos.

- Um dia você descobrirá o caminho para além do limiar. Não se preocupe com isso. O tempo pode demorar a passar. A agonia pode ser insuportável, mas as respostas sempre vêm. Seja assim bondoso comigo e eu lhe ajudarei a fazer a passagem.

Para que 17 encontrasse descanso, primeiro ela teria que descobrir qual era o motivo que o prendia, e considerando que eram duas personalidades com que estava lidando, se quisesse realmente que ele fizesse a passagem, teria que descobrir duas motivações. Dois métodos. Dois comportamentos. Mas isso ficaria para depois. Por enquanto tinha apenas que conquistar a total confiança de 17.

- Você tem algo a mais para me contar? Sobre essa que aqui veio? Ou sobre qualquer outro que tenha vindo provocar você ou "ele"? Diga-me pelo menos por quê ela “ainda” não morreu.



A senhora diz que não quer mais a condenado algum. Talvez Ele pudesse ser punido pelos seus crimes; eu pelo menos não me sentiria mal por isso. O que me incomoda é sua petulância em achar que pode me ajudar. Espero que não se repita.

- Porque sussurrou a morte em seus ouvidos e iluminou sua visão com a “mais fatídica das imagens”. Aqueles que vêem o limbo são marcados para toda uma eternidade. É impossível escapar do fim, senhora. É com toda a amargura que preenche minha vontade que lhe faço tal afirmação.



- Muito bem, guarde informações para mim, diga-me quem vem e quem passa por aqui. Logo mais poderemos trazer para este lugar, para você, um pouco de paz.


Ela quer que Eu lhe sirva? Que sirva a uma mulher?? E como se já não tivesse me insultado por demais ainda oferece como “recompensa” a maior de todas as mentiras: uma paz que nunca tive e que nunca terei.

- Nunca terei paz! Jamais serei digno do descanso eterno! Você fala como se soubesse o que me guia, como se conhecesse minhas dores. Mentira! Você... não sabe... DE NADA!







O Interno 17 havia manifestado seu lado mais “ameno” perante Isabela - visto o enorme gasto em suas reservas de forças ao interagir com Gia. Ele se manteve fora da visão comum de Isabela, comunicando-se com ela apenas em pensamento. A Giovanni sente sua presença e lhe entende perfeitamente. O diálogo se passa absolutamente compreensível por ambas as partes, pelo menos até a vampira tocar em um ponto que deixa a Aparição irada.

O ar frio que entrava pelas janelas altas transforma-se em fortes lufadas que levantam poeira e folhas do chão à medida em que a raiva ia crescendo nas palavras da Aparição. Parece que uma outra faceta do fantasma estava prestes a se manifestar...

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19 Re: Manicômio Abandonado em Qui Jul 19, 2012 11:25 pm

Post escrito em conjunto com INTERNO 17



O vento torna-se violento quando a aparição se irrita e Isabela espera o momento que “ele” se fará presente naquela conversa. Típico. O ponto fraco de todos eles sempre será a passagem, a tão almejada passagem que deles se afasta e para tão longe vai que eles sequer ousam ter esperanças de um dia encontrar a porta para a paz. Isabela sabia o quanto era cruel prometer-lhe isso. Se bem que, era importante ter claro, ela não oferecia a passagem, mas uma ajuda para que ele pudesse, sim, ter esperanças. A esperança, apesar de tudo é um combustível importante para a força de vontade. Desse modo, vampiros e aparições não eram de todo diferentes, já que aquilo que os tornavam mais próximos (apesar de em níveis distintos) da dimensão dos vivos, era a força de vontade única e pura. Enquanto ele tivesse esperança ele teria paixão e a paixão louca e violenta é a única que torna a vontade férrea. Isabela era dona de uma vontade irrefreável. Nada se colocava entre ela e seus objetivos, pelo menos não eternamente e ela dava um jeito de passar por cima dos obstáculos, ou, se fosse preciso, pelos lados ou por baixo.

Era perigoso brincar com a vontade de uma aparição, brincar com algo tão forte podia resultar na transformação da criatura e levá-la no caminho dos spettri, completamente incontroláveis e dificílimos de banir. “Ele” na sua completa fúria por vezes parecia-se com um, mas apenas parecia-se. Ainda dividia sua consciência com 17, apesar de tudo, bastante dócil.

- A paz pode ser difícil para ser alcançada, meu caro, mas não impossível. Para que detem o poder da eternidade nas mãos, você me parece deveras impaciente. Você quer a paz, então deseje-a. Sua vontade de alcançá-la tornará o trabalho mais fácil. Veja o que você já é capaz de fazer. - Explicou-lhe pacientemente. - Mas se não deseja esta busca por agora, posso compreender, ela apesar de não ser impossível é dolorosa e não é qualquer um que esteja disposto a sofrer a dor maior de todas.


Sou feito de vontade. Da vontade da raiva, da vontade do rancor, da força da vontade que alimenta meu desejo de reparação. Minha essência é furiosa e é dela que fui 'criado'. Poucos podem me conhecer apenas pelo lado mais ameno; uma hora ou outra minha verdadeira face acabará se mostrando, como quando a morta-viva me irrita com suas falsas promessas. A chance de que suas próximas palavras acabem por me irritar por completo são bastante grandes, mas ela conseguiu ser sábia o suficiente na escolha do que dizer. Não há nada que venha fácil, seja no mundo dos vivos, no mundo dos mortos ou nesse purgatório em que vivo. Poderei continuar para sempre aqui. Se por acaso ela sabe de alguma forma de me ajudar, estou disposto a aprender mais sobre. Sendo assim, "ele" recua para uma distância segura. Conversaríamos eu e a que fala com os mortos. Só nós dois.

Sentou-se no chão imundo, com as pernas cruzadas e colocou-se a meditar. Isso ajudava a sentir o ambiente a sua volta bem como as flutuações de energia que emanavam da aparição.

- Você vê, a única coisa que me diferencia de você é o fato de existirmos em planos diferentes, portanto. Se há alguém que pode ajudá-lo, sou eu. Se a morte verdadeira não me encontrar e essa é uma possibilidade que eu encaro todos os dias ao abrir os olhos, a eternidade também esta nas minhas mãos. O que você precisar deste plano, minhas mãos podem conseguir. É o que posso lhe oferecer, já que minhas capacidades em seu plano são ligeiramente limitadas.


- Eu busco paz em qualquer plano. Estou preso a este lugar por conta do que fiz e do que me fizeram em vida. Sinto que aquele que procuro ainda caminha neste mundo, mas não retornaria até aqui do jeito que as coisas estão. Quero que recupere este lugar para mim. Que seja um encontro de almas ou que sirva ao teu propósito, não me interessa; desde que tenha novamente internos andando pelos corredores. Aí você terá conseguido minha satisfação. Algo me diz que aquele que é meu objetivo, meu grilhão, voltaria para cá nessas condições. Ele jamais se esqueceria de sua melhor criança.

O desejo da aparição pareceu curioso. E por um momento, ambíguo. Queria a aparição almas vivas circulando por aquele lugar, ou mortas? Se mortas, sua missão podia ser mais complicada. Aparições eram extremamente apegadas aos locais que habitavam, movê-las demandava um exercício muito grande e extremamente paciente de persuasão. Sinceramente, não lembrava de ter um dia se deparado com a necessidade de tal feito. No máximo banir uma aparição para o mundo inferior e isso era sempre apenas temporário... Com energia suficiente, elas iam e vinham conforme sua vontade ditava. Porém, a retórica de 17 indicava que o que parecoa querer mesmo era aquele horroroso e decadente manicômio em funcionamento de novo, no sentido literal, a pulsar de vida... Isso traria aquele que o prendia de volta. Por o manicômio assombrado a funcionar poderia trazer vantagens a ela, ter um local bastante adequado às suas necessidades para alimentação. Teria como selecionar suas fontes e manter uma equipe de manutenção sob seu controle ajudaria muito a evitar perguntas incômodas e o gasto de energia na invenção de histórias. Porém, a desvantagem jazia no interesse de quem que aquele lugar iria despertar. Era conhecimento comum que os filhos de Malkav gostavam de se instalar entre os mentalmente debilitados destas instituições e ter um a funcionar certamente iria trazer um ou outro para se instalar e havia uma certa pessoa que não ficaria nada contente com isto...

- Eu posso trazer este lugar de volta do mundo dos mortos e do esquecimento se é este o seu desejo. Mas você deve saber que haverão consequências anteriores ao seu encontro com quem quer que ache que com isto atrairá para cá. Perderá sua rotina, seus esconderijos, tudo mudará, e antes que tudo se assente, pessoas estranhas entrarão e sairão daqui a todo momento. Precisarei colocar esse lugar no mínimo apresentável de acordo com as leis deste plano, colocar enfermeiros, médicos e administradores. Você poderá lidar com isto? O barulho, as vozes, os passos, as presenças insuportáveis? - Nesse momento abre os olhos e fita a aparição. Não teria como colocar o lugar de volta nos eixos com "ele" tentando matar e afugentar qualquer um que aparecesse.

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20 Re: Manicômio Abandonado em Dom Jul 29, 2012 10:00 pm

A força da vingança é nosso único deus, nossa única força motriz. Aquela que me enxerga é uma tola em pensar que algo tão corriqueiro como pessoas andando de um lado para o outro poderia nos desanimar na busca de nosso objetivo. Eu sou Ele, e juntos, somos imbatíveis em nossa vontade.

Sentada no chão de minha prisão, ela olha em minha direção de um jeito inqisidor. Não sei o que enxergara em mim ou o que esperava enxergar, apenas aproveitei sua entrega maior à nossa comunicação para lhe mostrar o que havia dentro de meu “coração”.

- Eu sou apenas um guardião pacífico deste prédio, não sou de fato necessário aqui. É Ele quem busca a redenção. Traga vida à este lugar novamente, é o que lhe pedimos. Eu lhe pagarei com a tarefa que desejar e depois nunca mais voltará a me ver. O outro se recolherá em seus aposentos na Ala 9, a qual deverá permanecer inacessível aos novos moradores. Quando o momento da vingança chegar, Ele se mostrará e conquistará Seu objetivo. Este será o fim da história para todos. Assim espero.

Ainda que essa mulher seja nossa única esperança de conseguir o descanso eterno, ela é uma intrusa nesse plano e nesse prédio. Ela pisa nos escombros do lugar que moldou nossa raiva, invade um espaço sagrado. Também recebemos a outra mulher, a invasora desrespeitosa que assoviava e me tirava do sério. Isso tudo me cansou. Sinto-me fraco, não a ponto de esmaecer neste plano e finalmente obter o descanso eterno, mas o suficiente para procurar me recolher e aguardar pacificamente pela realização do meu pedido. Antes de me recolher, busco reforçar minha intenção.

- Devo partir por ora. Vamos considerar que temos um trato. Deixe seus termos e eu e Ele faremos o melhor possível para cumprirmos nossa parte. Queremos esse local cheio de vida novamente, pois isso atrairá nosso algoz. No entanto, se for de sua vontade cuidar de assuntos de “perdidos” (aparições) por aqui, não vamos nos opôr. Sei qual é o meu espaço e também sei por onde controlá-los se invadirem nossa Ala. Não me interessa o motivo de sua vontade em se comunicar com os mortos, mas ajudaremos sempre que possível. Esperamos que cumpra sua parte.

Deixo o recinto em paz, esperando que em breve minha salvação apareça no horizonte. Até lá... Ala 9.

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21 Re: Manicômio Abandonado em Qua Ago 08, 2012 9:25 pm


Ela observou a aparição desaparecer de sua visão e sentiu-a encaminhar-se para seu próprio plano de quase existêcia até que não mais sentiu nada. As brisas do manicômio se tornaram ordinárias, toda a sujeira tornou-se apenas imunda. Todo o horror era apenas digno de pena. E ela tinha uma missão. Levandou-se do chão e olhou ao redor ao que começou a caminhar e inspecionar o lugar com uma atenção que ainda não tinha se dado ao trabalho — na verdade, nunca tivera interesse pelo lugar a ponto de vasculhá-lo. Era uma casa grande, repleta de pequenos quartos, salas de conviviência, salas de descanço para enfermeiros, consultórios médicos e salas de procedimentos. Encontrou numa destas salas, jogadas sobre uma mesa ferramentas para lobotomia. Perguntou-se por uma fração de segundo se 17 teria seu espírito impedido de se manifestar através de um procedimento tão agressivo para com a mente humana. A mente humana é tão sensível. Pouco pode suportar sem receber algum tipo de trauma... Por vezes até nascer era considerado um malefício para a mente. Isabela sabia da psique apenas o suficiente para lidar com suas traumatizadas aparições, pouco lhe importava a mente dos vivos. Mas por um tempo suas prioridades teriam que mudar. Iria restaurar aquele lugar e pelo favor de 17 encheria aquele lugar de insanos novamente. Os perturbados seriam a companhia de 17 e o chamariz para o que quer que achasse que com isso traria para cá. Por outro lado, teria um lugar mais seguro para se alimentar, além uma equipe inteira sob a sua influência.

Obviamente tantos benefícios chamariam atenções indesejadas e imaginava que a Senescal pouco ou nada ficaria satisfeita com a restauração de um lugar para abrigar os loucos. Helena já estava na cidade quando o fatídico incêndio que condenou o lugar ao seu fechamento e a escondida Ala 9 desapareceu de todos os registros. Imaginava se seu clã estaria envolvido com aquilo. Sim, a Senescal ficaria furiosa com a restauração do lugar. Mas que ficasse! Não se importava com a impossível satisfação de sua insegurança.

Deixou o lugar e se dirigiu para o carro, estacionado à porta do estabelecimento. Não gostava de dirigir. Aprendera apenas o suficiente para não ter a necessidade de um carniçal levando-a para lá e para cá. Por mais que seus carniçais fossem sempre muitíssimo bem selecionados, úteis e, acima de tudo, fiéis, haviam momentos, como aquele, que a companhia da solidão era mais eficiente. Por isso estava sentada no banco do motorista naquela noite.

Sacou o celular e viu uma mensagem do diretor do necrotério. Muitos corpos teriam chegado naquela noite. Talvez algum lhe interessaria. A mensagem fora recebida horas atrás, quando ainda era dia. Respondeu-lhe rapidamente que apenas os não-identificados eram de seu interesse. Em seguida, ligou para Vicenzo e pediu-lhe para encontrá-la no hospital.


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Destino: Medical Center of Louisiana

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22 Re: Manicômio Abandonado em Qui Ago 08, 2013 1:59 pm

Michael estava adormecido em cima de alguns escombros. Dormia de bruços, a barriga tocava algumas madeiras apodrecidas empilhadas.  Estava com a respiração difícil, embora estivesse em um sono pesado. Um pequeno ratinho se aproximou de sua perna com cautela, cheirando o garoto que parecia estar por lá há dias.  Seus trajes antes mais formais e elegantes, agora estavam rasgados e manchados com algum líquido espesso e escuro de cor avermelhada. Seu sapato do pé direito havia se perdido, exibindo uma meia branca com o solado escuro e sujo – devia ter perdido o sapato ainda acordado, andando de meia por algum tempo. O rato se equilibrou nas duas pequeníssimas patinhas e pareceu esfregar as pequenas patinhas dianteiras rosadas.

O local parecia uma antigo quarto, bem pequeno e pobre de móveis. As paredes estavam cobertas por um papel de parede listrado, possivelmente branco e cinza no passado, mas agora era escuro e com pequenas manchas esverdeadas de musgo e infiltração de água. A armação de uma pequena cama estava presente, mas não havia colchão. As madeiras apodrecidas onde Michael dormia eram, certamente, do telhado – o teto agora dava para o azul do céu e para algumas telhas prontas a desmoronarem também. Estava amanhecendo, mas o sol ainda não havia surgido, mesmo assim o quarto estava claro. Não havia janelas, mas havia uma porta de ferro que dava acesso ao quarto – fechada e com uma pequena janelinha de vidro onde era possível se observar dentro.  No canto do quarto, afastado da cama, havia uma cadeira, branca – um móvel fora do contexto: era a única coisa naquele quarto inteiro que parecia nova, praticamente intocada.

Houve um grande barulho que vinha de baixo. Certamente Michael estaria no piso superior de uma grande construção. Um estranho grito e um rangido – a casa parecia chorar. A casa inteira. As madeiras apodrecidas rangeram, algumas portas se fecharam com força e criaram um eco e o vento passava pelo vão de milhares de janelas criando um assobio sinistro. O pequeno rato que antes parecia tranquilo e confortável na presença do estranho, correu até um pequeno buraco na parede e desapareceu. Michael acordou.

Abriu os olhos com dificuldade, a luz da manhã doía-lhe a vista. Deu algumas piscadas, mas ainda parecia adormecido e permaneceu deitado, imóvel. Fechou os olhos novamente, como quem solicita ao corpo mais um tempo de descanso. Sonhou que estava em um quarto fechado, esquecido e destruído. Estava deitado no chão e quando abriu os olhos, viu uma mulher sentada em uma cadeira branca. Ela estava completamente nua. Tinha seios pequenos e firmes, era branca de uma maneira incômoda, como se estivesse morta ou doente, e estava de olhos fechados. O cabelo muito escorrido caía-lhe pelos ombros em um tom palha, sem vida.

A mulher abriu os olhos. Tinha olhos inteiramente negros e assustadores. Inclinou a cabeça levemente para o lado, se dando conta da presença de Michael ao canto da sala. Era terrivelmente perturbador o seu olhar. Levantou-se e caminhou até Michael. Michael não conseguia se mover... Despertou. Abriu os olhos. Olhou ao seu redor e estava no quarto do sonho. O coração batia acelerado. Viu a cadeira. Levantou e sentou-se nas madeiras de uma maneira desesperada tentando recordar-se de como havia chegado até ali, mas não se lembrou. Na sua frente, havia uma cadeira, mas não havia mulher alguma. Ergueu-se. Seus músculos das pernas pareciam fracos, sem sustentação. Sentia-se como se já não andasse há meses, anos... Por quanto tempo havia dormido? Como chegou ali? Onde estava?

Caminhou até a porta. Levou as mãos até a maçaneta. A porta estava trancada e suas mãos deixaram um rastro vermelho na maçaneta. Olhou para as mãos em um estado já de loucura – "Estou dormindo. Certamente que estou dormindo...". Suas mãos  estavam furadas com uma das chagas de Jesus.

Plin, plic. Duas gotas de sangue caíram no chão, ecoando seu som molhado pelo pequeno quarto. A terceira, caiu no olho de Michael. Com o susto, o garoto caiu no chão. Mais gotas.  Não vinham do teto, mas escorriam de seus cabelos. A segunda chaga estava exposta em sua testa: a coroa de espinhos.

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23 Re: Manicômio Abandonado em Sab Set 14, 2013 12:01 pm

Um mês depois que o Interno 17 havia saído do prédio do Manicômio Abandonado no corpo da pobre Gia o lugar apresentava um clima diferente. Um clima mais leve, que não expulsava aqueles que entravam ali. O ar deixou de ser tão denso, e a impressão de aquele lugar era mal abandonado deixou de ser palpável. A bagunça continuava sendo a mesma, dia após dia, a não ser que alguma alma viva interferisse nela. O caos havia desacelerado. O desgaste do prédio voltou a ser natural. Nenhuma força sobrenatural afetava mais aquelas salas. Ao menos não da mesma forma que o antigo “dono”.

Como ninguém mais era expulso de lá, podia-se trombar com um sem teto ou outro que fugia da chuva e do frio da noite. Gatos caçavam os ratos, e cães curiosos escondiam seus ossos por ali. Jovens que se desafiavam a explorar o lugar conseguiam ir mais além naqueles corredores e quartos do que qualquer outra vez que tentaram. Pixavam seus nomes nas paredes para provar que estiveram lá, e até gastavam mais tempo no lugar, vendo que de fato “não havia nada de mais”.

O cheiro de maconha e mijo ficou mais forte, indicando que aquele era o mais novo “point” de quem queria fazer uma festinha ilegal. Em uma noite um mendigo chegou a morrer embaixo da escada, por algum mal que atormenta aqueles que não tem abrigo, e ficou fedendo ali por vários dias. Aquele lugar ainda era conhecido por acontecerem coisas ruins aos que entravam lá. Ainda assim, o manicômio parecia menos abandonado. Parecia mais vivo.

O Padre Wallace não sabia disso quando mandou seu pupilo Michael para lá, em uma missão inicialmente filantrópica para ajudar algum sem-teto que estivesse passando fome ou frio naquele lugar. Levar para algum necessitado a palavra de Deus, além de comida e calor humano. O real objetivo do padre era mais uma vez testar o garoto. Mandá-lo para um local onde havia um real perigo sobrenatural, para que então tivesse sua Fé aflorada em um nível superior. Mas desde a noite anterior não tinha notícias do rapaz, que agora se encontrava em um sonho bizarro, porém revelador.

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Esta postagem e a seguinte abrem a narrativa Labirintos da Mente. Aqueles interessados em participar da narrativa devem verificar a disponibilidade de vagas e se inscrever no tópico da narrativa.

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24 Re: Manicômio Abandonado em Sab Set 14, 2013 12:06 pm

- Marrie? Pode acordar? – Disse uma voz grave e idosa. – Acorde Marrie. Volte!

A voz pertencia a um homem idoso de fato, com uma calvície bem avançada, e cabelos brancos onde eles ainda cresciam. Tinham a cor de seu jaleco, impecavelmente alinhado. Uma gravata borboleta agravava o tom clássico daquele homem. Estava sentado na cadeira branca, no meio da sala, ao lado de um divã. Tinha a perna cruzada, segurando uma prancheta, onde fazia anotações com uma caneta tinteiro, tão clássica quanto sua roupa. Seu par de óculos pousava na ponta de seu nariz, o permitindo ler melhor o que estava no papel, mas sem interferir em sua visão para objetos mais afastados.

- Deite-se, Marrie, para que possamos continuar.

O resto da sala não estava mais quebrada. Estava nova, em perfeito estado. Os papéis de parede listrados, brancos e cinzas, estavam intactos e limpos, tendo a sua função de dar um ar limpo ao lugar. Havia móveis de madeira grossa e escura, cheias de livros de medicina e psicologia. A cadeira, os móveis, a mesa mais para o canto, tudo ali era novo ou bem conservado. Na parede, um diploma. Michael estava em um consultório, e ele era o paciente. Não se lembrava de nada desde a noite anterior, quando saiu da Catedral para ajudar os necessitados.

- Conte-me mais sobre essa mulher. Ela se parece com sua mãe?

O médico faz referencia a mulher que Michael vira no  “sonho”, e usava seu nome de mulher. O nome que ela queria deixar para trás e esquecer, assim como seu passado. Daquela vida que havia deixado em Mariachi, juntos com todos os seus piores problemas. O homem idoso os invocava assim que o chamava de Marrie.

As mãos de Michael estavam marcadas com cicatrizes, mas estas estavam limpas e não sangravam. Tinham apenas uma casca, como se tivessem aberto há pouco tempo, mas voltavam a cicatrizar. Não caía mais sangue de sua cabeça, mas se passasse a mão na testa, sentiria a marca das feridas ali.

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25 Re: Manicômio Abandonado em Seg Set 16, 2013 1:00 pm

Marrí, Marrí, Marrí/ é garota mas queria ter pipi/ Menina pequena/ Da perna grossa / Vestido e saia/ Ela não gosta... [♪]

Não estava dormindo, seus olhos estavam bem abertos. Michael estava sentando no divã com o olhar distante, sua vista estava em descanso, focando um ponto inexistente da parede e deixando tudo ao redor desfocado. A mente estava carregada. Algumas crianças cantavam esse trecho da canção em Mariachi como se fosse uma parlenda, dessas que se canta enquanto brinca de ciranda. As vozes estridentes das cinco crianças com rostos embaçados levavam Michael de volta para sua cidade. O que, no entanto, o fez viajar até aquele velho vilarejo no Texas era um só nome: Marrie. Saiu do Texas para finalmente abortar essa aberração de garota. Michael nasceu em Mariachi, é verdade, mas naquela cidade ninguém havia o visto nascer. Ninguém enxergava Michael, só Marrie. E quando Marrie era chamada, ela aparecia e trazia consigo o que Michael mais detestava: insegurança, incertezas. Quando esse demônio iria morrer? Ela precisava morrer. Ele precisava fazer esse sacrifício..

- Deite-se, Marrie, para que possamos continuar.

Marrie, Marrie, Marrie. O nome ecoava como sinos badalando sem ritmo. Primeiro parecia um eco distante, mas depois ia se aproximando, badalando, ensurdecendo.

Mexeu as mãos de uma maneira inquieta e só então se deu conta das cicatrizes. Lembrou-se de tudo que aconteceu naquele quarto, naquele dia - como se tivesse passado dias, meses ou anos - tudo veio à tona em uma onda surreal de lembranças. Era tanta carga emocional e informação que seu corpo respondia à violência psíquica sangrando: seu nariz começou a sangrar.

Uma lembrança dolorida tomou conta de sua mente: estava no trailer de Mariachi, novamente. Tinha mãos cobertas pela juventude ainda, cerca de 15 anos. Eles estavam ali, não tinha mais como negá-los – dois seios maduros, crescendo conforme a canção da puberdade. Não eram grandes, mas não deixavam mais seu tórax liso. Tinha nojo deles. Não porque eram feios, porque não eram, eram lindos. Tinha nojo da Marrie e de tudo que estava ligado à ela. Tinha raiva do nome, do corpo e da identidade. Um corpo errado. O espelho do banheiro voltou a embaçar com o vapor quente do chuveiro recém desligado. Enxugou-se rapidamente e foi até a cozinha de toalha. Não havia ninguém em casa. Embaixo da pia, no pequeno gabinete, pegou a fita adesiva prateada [silvertape] e voltou ao banheiro.

A fita deixava marcas de vermelhidão em sua pele tão pálida. Passou a fita em volta do busto, apertando-a com força contra o corpo e contra outras camadas. Apertou os seios para dentro da fita, escondendo, negando-os. Tornou-se liso, como deveria ser.

Voltou para a sala médica como se tivesse saído de um longo mergulho na água. Segurou-se no estofado do divã e respirou desesperadamente. As coisas estavam fora de foco. Lembrava-se vagamente do padre Wallace falando-lhe sobre a necessidade de um ato filantrópico, mas não se lembrava de quase nada. Olhou ao redor e viu o homem. Alto, pálido, mórbido. Seja lá quem ele fosse, estava chamando por alguém que Michael não conhecia, alguém que Michael tinha matado mas que insistia em ressurgir das cinzas, de seu passado sombrio, da dor. Marrie não existe.

Não sabia quem era o velho, mas agora olhando-o, tinha medo dele. Não porque tinha um aspecto mórbido, mas porque sabia coisas que ninguém mais deveria saber. Como sabia de Marrie? Como sabia do sonho com a mulher? Como sabia de seu passado?

- Des...culpe. Acho que o senhor está me confundindo... Como... Como eu vim parar aqui? Onde estamos exatamente? Quem é o senhor? Quem... Quem é Marrie?

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