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Manicômio Abandonado

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26 Re: Manicômio Abandonado em Ter Set 24, 2013 9:28 pm

– Seu nome não é Marrie Clemorent? – O médico olha na prancheta para se lembrar do sobrenome de sua paciente, e continua lendo outras informações no papel que estava preso à fina tábua de madeira. – Nasceu em trinta de fevereiro de mil novecentos e oitenta e cinco, em Mariachi, no Texas? Se sim, não estou me confundindo. Deite-se. – O pedido, que soava como uma ordem severa, pararia por aí se o médico não houvesse se lembrado de suas boas maneiras de repente. – Por favor.

– Está em uma consulta psiquiátrica. Eu sou o Dr. Lambert, o seu médico. E estamos em um hospital psiquiátrico.
– Começou a explicar calmamente para sua paciente, com toda a paciência que deveria dispor um médico com conhecimento sobre a situação de um doente. - Está aqui para cuidar de diversos problemas, mas principalmente, do seu transtorno de identidade de gênero. É por onde devemos começar.

Tirou o óculos, cruzou as pernas e se curvou levemente para frente, pousando a mão que tinha o óculos pendendo sobre o joelho. A pose o fazia se aproximar mais de sua paciente, já que a explicação que se seguiria precisava de mais atenção por parte de Marrie.

– Você não se lembra de como chegou aqui, ou mesmo de nossa consulta, porque foi submetida a um procedimento chamado de hipnose. Estava sob transe hipnótico. Não são todos que são suscetíveis a esse procedimento, mas tivemos sorte, e conseguimos algumas imagens de seu passado. Experiências que podem tê-la levado a esse quadro psiquiátrico. E isso pode ajudar em sua cura.

O que o Dr. Lambert estava fazendo era algo comum na vida de Marrie. Dizendo que ela tinha um problema, e que ela devia ser concertada. Pela primeira vez alguém falava isso com propriedades científicas, dando nomes às patologias e propondo caminhos para que isso acontecesse. Podiam ser as crianças em canções jocosas, senhoras beatas que faziam o sinal da cruz ao passar por ela, ou até mesmo seu pai que queria lhe “curar” a força. Todos eles não conheciam muito além do que a própria Marrie. Não iam muito além daquele vilarejo, e tinham ideias limitadas demais para que pudessem ser levadas a sério. Mas agora era diferente. Uma pessoa estudada, um médico psiquiatra, conhecedor da mente humana, lhe dizia que ela tinha um problema. E isso podia pesar mais do que qualquer opinião que tivesse ouvido até agora.

– Agora vamos continuar, Marrie. Diga-me. Esta imagem feminina, esta figura que viu, por acaso lembra a sua mãe?

O doutor colocou novamente os óculos, e pousou a caneta mais uma vez à folha sobre a prancheta, para continuar a escrever, esperando a colaboração de Marrie.

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27 Re: Manicômio Abandonado em Qui Out 03, 2013 11:31 am

- ... Cura? Hipnose?

Cada vez que o doutor pronunciava o nome dela, Michael podia senti-la chegar. Marrie estava voltando para aquele mundo, chegando naquela nova cidade, entrando naquela pequena sala, invadindo o corpo invadido anteriormente por Michael, apossando-se de sua mente. Era uma menina insegura, tímida, reprimida e triste.  Não deveria existir, não era bem vinda pelo hospedeiro daquele corpo. Seu corpo estava ali, mas era outra alma que o ocupava. O nojo era recíproco, ambos sentiam nojo do que viviam, sentiam nojo um do outro. Michael tinha nojo do corpo de Marrie, tinha nojo de seus seios que fazia questão de esconder diariamente, tinha nojo de sua genitália, nojo de seu cheiro, de seus traços mais delicados. Marrie tinha asco de ser diferente, dessa dualidade tão latente dentro de si, tinha raiva de Michael.

A voz de Marrie ainda criança ecoava em sua cabeça, conversando com Michael internamente, duelando, provocando-o.

Michael. Michael. Não sabe que quem faz tais coisas não pode participar no reino de Deus? Não se deixe enganar; ninguém que viva na imoralidade sexual, que pratique a idolatria ou o adultério ou a homossexualidade terá parte no seu reino; nem tão pouco os espoliadores, os avarentos, os bêbedos, os caluniadores, os violentadores... Você sabe disso, não sabe, Michael?  

Era uma passagem de Coríntios (6:9-10), um dos versículos que Michael mais temia. Confessou-se uma vez na igreja por ter passado corretivo líquido em trechos que o negavam como indivíduo, que o condenavam por ser o que era. Ganhou outra bíblia e uma advertência severa de padre Terrence, afinal, “quem é você, menina, para apagar a palavra de Deus? O que está escrito, está escrito, assim como eu nasci homem e você menina, criança...”, ele disse.

- Minha mãe, senhor?

Ia falar que nunca teve mãe, que nunca teve pai e que nunca os conheceu. Mas era mentira, e mentir era um grande pecado, mas um pecado ainda maior era negar sua mãe e seu pai.  Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá. (Êxodo 20:12)

- ... Não, não era.

Você nos levará ao inferno, Michael. O reino de Deus estará fechado para nós, você sabe disso. Você nos transforma em uma aberração.

Sentiu um aperto no peito, um nó na garganta e um frio na barriga que parecia que nunca iria embora. Levantou-se do divã um pouco tonto. O mundo rodopiava e as vozes do doutor e de Marrie se confundiam entre as percepções de sons externos e internos. Não conseguia pensar, não conseguia se concentrar, não conseguia respirar.

Vá embora, Marrie. Vá embora, vá embora.

Lembrou-se de um de seus versículos favoritos:

Davi ficou profundamente angustiado, pois os homens falavam em apedrejá-lo; todos estavam amargurados por causa de seus filhos e de suas filhas. Davi, porém, fortaleceu-se no Senhor, o seu Deus...” (Samuel, 30:6). Essa era chave. Não tinha como confiar no doutor, não tinha como confiar em Marrie e também não tinha como confiar em padre Wallace, afinal, talvez tenha sido ele quem tenha marcado essa terapia, essa reabilitação, essa distorção. Não poderiam apagá-lo.

Caminhou até a porta e voltou-se ao doutor:

- Me desculpe, mas acho que ocorreu algum engano. Diga ao padre Wallace que eu agradeço por toda a hospitalidade, mas diga que não há cura nas obras de Deus.

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