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Mansão Longue Vue (Elísio)

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1 Mansão Longue Vue (Elísio) em Sex Jun 17, 2011 6:34 am


Primeiro andar

O Centro da cidade pode ter sido invadido pelos Ventrue, mas a mansão Longue Vue é a prova de que os Toreadores continuam soberanos ao menos no Garden District. Quando governavam sozinhos Nova Orleans os artistas se davam ao luxo de manter a mansão aberta para a visitação humana, espalhando a cultura por entre o rebanho e acompanhando os apreciadores e artistas que mais se destacavam entre eles. Com o começo do conflito entre eles e os sangue azuis, o local foi fechado para visitações, o site parou de agendar visitas e a nenhum outro humano foi permitido pisar na mansão sem a permissão expressa da Senescal (e também Zeladora do Elísio) Helenna De Vries.

Como inúmeras outras construções de Nova Orleans, a mansão Longue Vue é datada do século XIV, sendo tombada pelo patrimônio histórico americano. Ela pertence ao (a) Príncipe desde o início dos tempos, incluindo o terreno que serviria para base da casa e o tempo de construção também. É o maior símbolo da influência Toreador na cidade.



Segundo andar

Falando no(a) Príncipe, esse é um dos maiores mistérios no mundo sobrenatural de Nova Orleans (junto com os fantasmas que assolam a cidade). As histórias divergem quanto à identidade do governante de Nova Orleans. Enquanto a maioria delas conta a história do nobre senhor de Longue Vue, algumas pessoas trazem relatos detalhados de como a senhora da mansão era uma mulher de personalidade forte e pulso firme. Talvez com o conflito isso se esclareça, mas até hoje, quando perguntada sobre o assunto, Helena faz questão de encerrar a conversa.

Sobre a mansão em si... ela é grande. Grande, ricamente detalhada e absolutamente linda. São dois andares com dezenas de quartos, halls, salas e outros aposentos que especializam ao máximo tudo o que pode ser feito em uma moradia. Na área externa há um imenso (e também tombado) jardim, palco dos mais importantes eventos na mansão. Neste jardim, inclusive, há um labirinto com as paredes de pedra recobertas por trepadeiras, onde antigamente aconteciam várias caçadas a humanos para divertimento dos Membros e seus convidados. Os "Curatorial Offices" são as únicas salas efetivamente trancadas ao visitante Cainita, e a localização exata do dormitórios dos moradores é segredo de Estado. Um verdadeiro batalhão de carniçais empregados passam o dia inteiro e a noite limpando e colocando as coisas em seus lugares, servindo bebidas, atendendo chamadas e, principalmente, trazendo informação até Helena (que por sua vez informa ao(a) Príncipe). Há uma equipe de segurança especial, um esquadrão de elite dentre os carniçais, que faz plantão de 24/30/365 na mansão preparados para defender seus Senhores. Câmeras, infravermelhos e alarmes completam a segurança de Longue Vue que, se não chega a ser paranóica, pelo menos é extremamente eficaz.



Entrada da mansão e parte do jardim externo

Visitações não-agendadas de Cainitas amigos ou completos desconhecidos são permitidas, embora não há a garantia de que vá ser atendido. Uma simples ligação e uma rápida conversa com o secretário de Helena é o suficiente para que seja marcada uma hora de conversa. No mais, a ordem deve ser estreitamente respeitada na mansão, e aqueles que não seguirem as regras de civilidade e cordialidade poderão até mesmo sofrerem a Morte Final. Lembre-se de que esta é uma casa Toreador.


Conheça todo o Primeiro Andar AQUI.
Conheça todo o Segundo andar AQUI.


Não se esqueça de clicar nos números dos cômodos para obter maiores informações!

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2 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Dom Mar 04, 2012 2:01 am

Nova Orleans, Louisiana.

O último raio de sol passa pelo galho da árvore antes de dar adeus ao jardim. As plantas só teriam seu alimento dali a algumas horas, quando do raiar de um novo dia. Mas até esse dia aparecer novamente, é noite, e é na noite que os morto-vivos retornam à vida. É quando o sol recua além do jardim, para trás das montanhas que os serviçais humanos se retiram para o descanso; é quando o imponente relógio do hall de entrada retumba as oito badaladas que o interior da mansão se enche de não-vida. Os carniçais cozinheiros, faxineiros, seguranças e mordomos ficam em polvorosa, chocando-se um contra os outros na correria de terminarem seus afazeres antes que seus mestres vampíricos comecem a circular e a notar os descuidos. É noite sim, e é vida.

Da escuridão de seu túmulo Helena abre os olhos. E nada vê. Tateia o interior de pedra de seu sarcófago na tentativa de encontrar a brecha por onde puxar a tampa. Maldita hora em que resolveu comprar esse... essa... em que resolveu comprar isso! Desperta tão sonolenta, tão fraca que depende de um criado que lhe retire dali de dentro. O problema é quando ele se atrasa, como agora. Um grito, depois alguns tapas e mais gritos, e por fim, a liberdade chega na figura do servo que abre a tampa do sarcófago. Então, de repente, já não havia escuridão. A iluminação do cômodo é feita por lâmpadas no chão, de modo a não lhe ferir os olhos ao despertar. Lâmpadas móveis(não fixadas), porque senão seria impossível fazer a limpeza correta do solo. Cada uma alinhada a exatos 1,618 metros de distância da anterior e da posterior, devendo ser ajustadas novamente após serem manuseadas.

O carniçal, um sujeito que desaprendeu seu nome após anos sendo chamado de “homem” por Helena, presta a devida reverência à sua senhora.

- Desculpe-me, madame. Fiquei colhendo as últimas informações do dia e atrasei vosso despertar.

Ela parecia contrariada. Não havia sido nada bom acordar e se ver presa àquele túmulo de pedras, e provavelmente passaria o restante da noite com mau humor. Teria que ensinar o homem a ter pontualidade.

- Dê-me minha luva. – mesmo pego de surpresa, o criado se apressa em ir até a parede oeste do aposento arredondado e pegar as luvas de veludo luxuoso, entregando-o para Helena – Obrigado. Agora chegue sua cabeça para frente, por favor. – diz enquanto colocava as luvas; quando tem seu pedido atendido ela age rapidamente e bate com uma delas por vez no rosto do homem – Não se atrase mais, homem, ou da próxima vez eu coloco você ali dentro e fecho o... o... a pedra com você dentro!

Joga as luvas em cima do criado e então os dois caminham até a saída do aposento. Uma porta de chumbo com uma trava com leitores biométricos é a única entrada/saída do local, sendo que, no cômodo à frente do seu fica o local de descanso daquele(a) que reina Nova Oleans. Todas as noites Helena cumpre a sua rotina de despertar, ouvir os conselhos e diretrizes do(a) Príncipe, trocar de roupa e seguir até a Sala de Estar (Drawing Room) no segundo andar para receber as notícias do dia e repassar as ordens. E assim ela o faz. Demora quinze minutos com o(a) Príncipe, de onde segue para a troca de roupas. Um vestido coral resplandecente com um casaco de couro por cima, linda combinação para a noite. Antes mesmo de chegar na Sala de Estar os criados já haviam visto o brilho de sua roupa pelos vidros da mansão.

- Todos vocês, saiam. – bate palmas para apressar a saída das criadas da limpeza.

Em pé, à sua espera, estava o homem, com os braços postados para trás do corpo. Depois que os dois ficam a sós, Helena desaba sobre o confortável sofá e larga os pés sobre a mesinha.

- Como eu queria não ter acordado hoje. Ò, meu Deus... – esfrega a testa e faz uma cara de sofrimento beeem dramática – Antes de eu repassar minhas ordens, diga-me, homem, está tendo mesmo a reunião ‘deles’?

- Sinto lhe informar que sim, madame. Cada veículo de comunicação tem um representante no jantar que ‘eles’ ofereceram. Henry Freeman se confirmou como o porta-voz do grupo.

A “dor” de Helena piora, assim como sua cara. Os Ventrue estavam provocando, provocando e finalmente declararam guerra. Sim, “guerra”, porque o que eles estão fazendo é coisa da mais baixa! A antiga etiqueta moral entre Membros foi jogada para o lixo. Nova Orleans está forte sim sob o domínio Toreador, prosperando mesmo após um desastre, e agora eles querem usurpar o poder.

- Bando de maricas. – seus lábios se retorcem com fúria nas palavras – Dominamos a cidade desde que ela passou a existir, e sem a ajuda de ninguém. Vamos ver o que eles vão dizer na próxima reunião.

A história de Helena é rica e extensa, necessitando de algumas páginas a mais para ser explicada. Por ora, podemos dizer que ela é uma Toreadora por opção, ainda que o sangue e a loucura de Malkav corra em suas veias. Chega ao ponto de perder a razão quando lembrada de sua verdadeira linhagem. Sente que é uma Artista e pronto. Defenderá qualquer interesse Toreador até o fim, com os meios que foram necessários.

Muita coisa deverá ser estudada e planejada após a noite de hoje. Por enquanto ficaria à disposição para receber quem viesse se oferecer disponível para os Toreadores neste embate. Sente que a noite pode lhe trazer alguns bons peixes.

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3 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Qua Mar 07, 2012 4:05 pm

Movia-se nas sombras, pelas sombras. Exatamente como as próprias sombras. Sua presença, mesmo sem sequer ser notada, era motivo para que os lacaios do Elísio se retesassem e olhassem ao redor, tentando entender aquele estranho arrepio que lhes corria a espinha diante de algo seus olhos não registravam.

Sentia intenso prazer em provocar essas reações e jamais escondia tal fato. Na verdade, não escondia a parte de si que os ratos de praticamente todas as ninhadas mantinham sob tão rigoroso controle.

Era, sim, um rato. Tão asqueroso e repugnante quanto qualquer um deles. Mas era muito mais do que apenas um rato. Era o melhor dentre eles. Gostava de pensar em si mesmo como uma ratazana, um roedor de maiores proporções e força, mesmo mantendo o aspecto nojento de um ser das profundezas.

Os outros, seus pequenos, sua adorável ninhada, curvavam-se diante de sua presença com um respeito que mesclava o temor e a admiração por uma figura tanto enigmática como cruel. Entre muitos, era tido como um Carrasco, mas poucos se referiam a ele como algo além de O Xerife. Era sua posição, o que o definia, e que conquistara com muito custo e sacrifício, à mão de ferro.

Não poderia afirmar que a Maldição tinha mudado drasticamente a pessoa que Edgard von Astorff um dia fora. O impacto mais profundo em seu psicológico não poderia ser comparado aos que testemunhara em outras transformações durante todos os seus séculos de existência. Talvez seja pelo fato de que ele, Edgard, havia sido tão repugnante em vida quanto era em morte, e isso definira a continuação de sua personalidade sombria.

Tal fato o afastava um pouco da ninhada, já que o fazia ser um tanto diferente com relação ao sentimento de solidão e horror diante da própria aparência. Esse afastamento, porém, só servia para seu beneficio, já que os próprios membros de seu clã o viam como um ser superior e o colocavam num pedestal como exemplo a ser respeitado.

O que mais o satisfazia em sua posição social era que o poder fora conquistado dentro e fora de seu clã. Por mais que os outros Membros sentissem repulsa por sua presença, não eram idiotas o suficiente para tentar ir de encontro às suas vontades e imposições. Agia sob ordens diretas da Camarilla e pretendia que isso continuasse, por mais que a débil tentativa Ventrue de sabotá-los acabasse por tirá-lo do sério.

E esse era exatamente o motivo que o tirara de seu confortável refúgio.

Observava a perturbada Senescal em seu pequeno ataque de raiva diante da incompetência alheia. Achava-a sinceramente patética, apesar de ser uma cainita poderosa e astuta. A insistência em negar seu próprio sangue, tentando, inutilmente, transvestir-se como uma Hedonista, fazia com que a considerasse ainda mais digna de pena, já que isso deixava em maior evidência a loucura que contaminava sua mente.

Esperou que a conversa entre ela e o lacaio cessasse para então sair das sombras, revelando sua presença de forma abrupta e imediata. Olhou-a nos olhos por alguns segundos, dirigindo-os ao servo em seguida, e deixando que sua expressão enojada, por si só, o expulsasse do aposento. Apenas após sua saída aproximou-se um pouco mais da cainita, revelando então o motivo de sua chegada.

- Senescal. – Saudou-a com seu título, como lhe era habitual. – Percebo que já sabe de partes da notícia que venho trazer.

Esperou alguns segundos para observar cuidadosamente suas reações antes de continuar a falar.

- Seu idiota não está errado, mas existe um pequeno detalhe que deveria chegar ao conhecimento do Príncipe. Os Ventrue têm aliados. De alguma forma, conseguiram um pivete Gangrel para guardar Henry. – Declarou, sua repulsa sendo clara nas palavras pela forma com que as cuspia. – Não deve-se subestimar um inimigo que tem aliados, não importando o quão patético ele possa ser.

Caminhou lentamente, aproximando-se mais da Senescal e deixando que sua aparência e cheiro repugnantes fizessem efeito.

- É necessário agir o quanto antes. Não se pode impor respeito e temor nos Ventrue, ainda mais depois de tamanha audácia com aquela empresa ignóbil, mantendo uma aparência de fragilidade e falta de liderança. O Príncipe precisa se revelar se quiser o controle da situação. – Falou, atento a cada expressão no rosto morto diante de si. – Antes que seja tarde demais.

O silêncio que seguiu seu discurso era o suficiente para deixar que ela percebesse o peso real de suas palavras. Apesar de insana, a Senescal era inteligente e acabaria por perceber o que Edgard estava insinuando sem que a exata declaração precisasse deixar seus lábios ressecados e purulentos.

Os Nosferatu estavam com a Camarilla e continuariam a estar, mas a organização necessitava de uma base maior para que pudesse se sobrepor aos malfadados Intrusos do clã Ventrue.

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4 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Qua Mar 07, 2012 6:02 pm


Cada cidade tem sua própria identidade. Essa identidade é formada por um grupo de características peculiares ao local e aos seus cidadãos. Nova Orleans é conhecida por ser mágica. Das fazendas próximas ao Cajun County ao becos misteriosos do Quarteirão Francês; dos foliões mascarados no Mardi Gras às histórias de criaturas que espreitam na escuridão da cidade; das mansões no Distrito Jardim aos prédios assombrados por aparições, a cidade respira magia. A arte, mágica em sua essência, se apresenta na arquitetura histórica composta de fazendas centenárias e casas ao estilo francês e espanhol, quase todas altas e dotadas de varandas deslumbrantes em ferro forjado. O blues nasceu aqui, no delta do Mississipi, sendo aperfeiçoado nos pequenos bares da Bourbon Street no quarteirão velho.

Não foi há muito tempo atrás que a pequena cainita aterrisou nessas bandas. Nasceu do outro lado do mundo e foi criada na fria Vancouver, onde precocemente veio a conhecer a benção de Caim. Com o desaparecimento de seu Senhor não havia mais nada a fazer naquela terra de tantas boas e más recordações. Desceu ao sul até alcançar Nova Orleans, encantando-se com sua política de laissez les bons temps rouler. Fez do Prytania sua segunda casa por muitos e muitos anos, apesar do pavor que sentia ao andar sozinha pelas ruas do French Quarter. Deleitou-se ano após ano com o banquete que o carnaval lhe proporcionava. Mas, inevitavelmente, a Camarilla a encontrou.

Dava como certa sua “extradição” da cidade, ou até mesmo a Morte Final. O seu destino, porém, veio a cair nas mãos daquela que se tornaria uma verdadeira companheira: Helena, a louca. A filha de Malkav acolheu Ivica como uma própria cria. “Temos de cuidar dos nossos”, dizia uma delirante Helena ao se colocar como uma Artista. A acolhida varou muitas décadas adentro e acabou transformando aquela bizarra relação em uma amizade – ao menos nos moldes vampiricos. A posição de Harpia que Ivy conseguiu veio naturalmente, e consolidou-se quando esta conseguiu banir o apelido de “louca” da Senescal. Desde então esse virou um assunto morto; invoque-o e, na melhor das hipóteses, veja sua vida social despencar em um buraco sem fundo. Na pior, conheça a ira daquela que na prática governa a cidade e seja apresentado ao “Xerife”, Algoz em tempo não-integral.

Esta noite a pequena cainita desempenhará um papel importante. Através dela a posição da Camarilla, a de declarar os do clã Ventrue como não-desejados na cidade, espalhou-se a todos os vampiros acessíveis de Nova Orleans. No desempenho de suas funções, recepcionará aqueles que vierem ter com Helena. Para tanto, escolheu seu melhor vestido e os mais caros acessórios. Além de recebê-los, também faria uma filtragem rápida dos visitantes, pois não haveria espaço para tanta conversa em uma só noite.

Ivica deixa seus aposentos e caminha lentamente pelos corredores da Longue Vue. Os sapatinhos faziam “toc-toc” ao tocarem a madeira do piso em um ritmo desacelerado, graças à atenção desprendida pela pequena aos quadros, estátuas e móveis pelo caminho. A cópia de ”Terraço de café à noite”, de Vincent Van Gogh, faz com que ela parasse por estar desajustada na parede. Ivy encosta o colo na prateleira de madeira e fica na ponta dos pés para tentar endireitar o quadro. Não consegue altura suficiente, mas para a sua sorte um serviçal passava por ali no momento. A ordem lhe é passada pela imagem do dedo em riste apontando a obra de arte. Retoma a caminhada vagarosa até atingir o Hall de Entrada.

Dois mordomos ficam em pé no vestíbulo circular, o pequeno cômodo que fazia a transição da área externa da mansão com a interna. Ivica permanece no hall, alguns bons metros atrás. Observa que havia sido colocadas bandejas de prata de lei em cima de mesas, prenunciando cálices de sangue a serem servidos. ” Non, je ne regrette rien” era trazida de um outro cômodo através de uma vitrola. Essa era a música preferida de Helena, e sua execução dá a entender que a Senescal procurava por algo que lhe transmitisse o sentimento de familiaridade em tão tensa noite. A pequena aprova a decisão em silêncio.

Um dos serviçais se aproxima de Ivica prestando reverência.

- O Xerife está com a madame De Vries na sala de estar, senhora.

Ivica consente o recebimento da ação com um gesto afirmativo de cabeça, dispensando o empregado em seguida. Ela junta as duas mãos à frente do corpo, com braços relaxados e queixo erguido. Anda dois passos para o lado de modo a ficar exatamente no centro do Hall. Ficaria à espera dos convidados e manteria o primeiro a chegar ocupado enquanto o Rato estivesse com a Senescal.

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5 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Qui Mar 08, 2012 7:13 pm


A noite estava estrelada, apesar das nuvens escuras que insistiam em permanecer no céu, inibindo vez por outra que a lua aparecesse por completo. Por mais que as cidades mudassem, os anos mudassem, havia algo reconfortante em que a noite fosse sempre tão constante, amigavel quase imutavel. Eu gostava de dizer a mim mesma que eu era como a noite, imutavel mesmo com o passar dos anos, constante mesmo com os altos e baixos. Eu tinha que acreditar que eu ainda era a mesma estudante, extasiada e diferente dos anos 40, só mais inteligente e com mais poder do que eu nunca poderia ter imaginado, nem em meus mais insanos devaneios. Mas, é claro que isso não era verdade.
Diferente da natureza que era minimamente calculada para ser exatamente do jeito que deveria, eu nunca poderia dizer o mesmo. Eu era uma aberração, apesar de odiar essa palavra e várias vezes substituí-la por, excessão, não tem porque negar que a troca de palavras na verdade não mudava em nada o real sentido da frase. Eu não podia continuar a mesma, nem que eu quisesse. Com o passar dos anos, muitas das minhas emoções, reações humanas foram levadas como por uma onda. Óbvio que eu ainda posso lembrar de várias coisas, e as vezes até simulá-las, mas não era como antes, e caso eu ainda fosse aquela estudante simplória, eu realmente me importaria com isso. Mas agora, isso tinha perdido o valor. Tinha sido substituído por coisa bem melhor, mesmo que o custo para tal mudança tivesse sido meio alto.
Meu caminho até aqui, foi um tanto sinuoso, confesso. Desde a romantica Paris, a fria Vancouver até a multifaces Nova Orleans, e devo dizer que em cada uma delas me fazia ver coisas em mim mesma que eu nunca sabia que estavam alí, me faziam mudar, me adaptar e de certa forma crescer o suficiente para desenvolver alvos e alcançá-los. Como ancillae, e representante da casa tremere na cidade, eu dizia a mim mesma que, por enquanto eu estava no caminho certo.
No entanto, as coisas nem sempre são como nós queremos, e deveria dizer que quase nunca são. Nova Orleans estava sob ataque. E dessa vez não era desastre natural, por mais que o lugar de onde a ofenciva vinha, era realmente diferente. Não era da natureza Ventrue se voltar contra camarilla, da qual eles se diziam eternos defenssores, mas para confirmar minha teoria de que eles amavam mesmo era o poder, não importa como e nem o que fariam para conseguí-lo, a megalópole de Louisiana agora era centro de uma disputa entre Ventrues e Toreadores.
Foi nisso que um convite de uma antiga e singular amiga, foi parar em minhas mãos. Era para ser apenas uma noite comum, aonde eu teria me infiltrado em uma das aulas da faculdade, prestado atenção em aulas avançadas de antropologia ou sociologia, e procurado por algum prodígio que minha casa pudesse aproveitar, e ficar um tanto frustrada quando percebesse que ideologia não é tão valorizada atualmente quanto um corte de cabelo, ou o novo namorado de alguma famosa. No estado em que a situação estava, não havia nada mais digno que os toreadores comandassem por um tempo.Por essas razões e algumas outras, que no momento não são tão importantes para serem mencionadas, eu fiquei contente, ou tão contente quanto era possível, em procurar algo que Ivica não censurasse como da primeira vez que nos vimos, e que desse a impressão de que eu era bem mais que uma porta voz adolescente. A tarefa não foi fácil, já que moda era a última coisa que eu poderia me importar no dia a dia, mas também não desconsiderava o tópico totalmente, considerando que a primeira impressão não era obtida em uma conversa intelectual. Fiquei com o básico, um vestido preto reto e sem muitos detalhes até a altura do joelho, um casaquinho de cashimir também preto, meias e scarpin, o contraste vinha mesmo era com os meus cabelos ruivos ondulados, em contraste a aquele ataque de sobriedade.
Eu sabia que melhor que aquilo eu não conseguiria, pelo menos não sozinha, e por isso, peguei uma bolsa com tudo o que uma tremere iria precisar, e peguei um taxi, seguindo para a Mansão Longue Vue, aonde eu tinha certeza que encontraria aquela pequena figura que sempre me deixava nostálgica. O caminho nem foi tão longo, deixei o automóvel, e adentrei a mansão que sempre me deixava sem ar, com aquele sentimento de que há algumas décadas atrás, eu teria a estranha sensação de gelos na boca do estomago ao subir aquelas escadas. Meus sapatos altos, ecoavam no chão de madeira, e o som me deixou um tanto apreensiva se eu tinha exagerado na produção. Segui entre alguns corredores e percebi que eu não tinha mesmo muita idéia de onde ir. Foi quando eu a vi. Pequena, delicada, arrumada como uma mulher de alta classe em miniatura, ao vê-la foi impossível não conter um sorriso de canto. - Ivy! - Disse ao me aproximar da pequena loira, minha voz soou tão infantil quanto sempre soava, fina e quase cantarolada ao pronunciar o nome dela. Quando finalmente alcancei Ivica, percebi o quão aliviada eu fiquei em vê-la, mas felizmente não deixei que esse tipo de coisa atrapalha-se o que eu vinha fazer ali, enquanto isso, percebia pela minha visão periférica que não tinha quase ninguém na sala, e que eu era a primeira a chegar, sorri com isso e então olhei de volta para Ivica. - É muito bom te ver, Ivica... Você está fantástica! - Eu disse com sinceridade na voz, afinal ela estava mesmo incrível. - Mas acho que não foi porque você estava com saudades que eu fui chamada aqui, certo? - Arqueei minha sobrancelha, e coloquei uma mecha de meu cabelo para trás da orelha, enquanto esperava que tipo de bomba a pequena tinha a compartilhar. A pequena havia conseguido chegar a um patamar de destaque, e embora eu nunca tivesse duvidado do potencial da cainita, era sempre uma surpresa visualizar o quão longe ela tinha chegado, mesmo com as situações, tão similares com a minha.

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6 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Sex Mar 09, 2012 12:34 am

I V I C A


Hall Inferior.

O piso de tacos é antigo, mas manteve o brilho. Encostada na parede da esquerda, uma penteadeira com pátina. Acima dela, abajures Dominit de metal. A pintura do teto é ligeiramente dourada. Na outra parede, mais um abajur metálico, e embaixo dele uma cristaleira de onde sairiam as taças a servirem os primeiros convidados. Um pouco mais atrás está a mesa avermelhada de pau-brasil com as bandejas de prata.

No centro, Ivica, sozinha, em sua habitual pose de dama, observava os detalhes ao redor para criar uma distração em sua mente.

Com o fim da antiga canção francesa na vitrola, um silêncio tomou conta do primeiro andar da Longue Vue. Era só fechar os olhos e aguçar a audição que o cri-cri dos grilos no jardim podia ser ouvido com relativa clareza. Uma brisa adentra pelo vestíbulo circular e toma conta do hall inferior, inundando a pequena Ivica com os aromas do jardim. As pequenas partículas trazidas pela brisa tocam a face da criança e faz com que ela abra os olhos, despertando-na de seu breve transe. Ivy leva as costas da mão ao rosto e esfrega com força e morosidade, a ponto de avermelhar a área.

Havia um clima muito tranquilizador na mansão esta noite. Excetuando-se a sala de estar no segundo andar - onde a Senescal recebia o fedorento -, cada cômodo da mansão parecia querer transmitir paz através do vazio. A ausência do falatório tão comum por entre aqueles corredores é outro fator que causa uma positiva estranheza. Mas não dura muito. O secular telefone Lord irrompe o ambiente com sua estridente campainha de sinos metálicos. Miserável instrumento! Ivica se assusta de verdade com o tintilar incessante dos sinos, e não era a primeira vez que isso acontece. Enruga a cara como uma criança assustada e vai até o telefone. Suas mãozinhas se apertam fechadas, furiosas pelo susto desnecessário. Se os carniçais que estão do lado de fora estivessem mais perto viriam uma criança com uma cara muito da enfezada.

Sua altura insuficiente a atrapalha a tocar o telefone e a pouca força natural quase impossibilita de erguê-lo. Pelo peso e idade, devia ser feito de chumbo... Irritante ou útil, é obrigação da Harpia atendê-lo, e assim Ivica procede. A voz esgarçalhada do outro lado da linha mata todas as regras linguísticas existentes, sem contar com a falta de educação em atropelar frases e até mesmo idéias inteiras. O que poderia ser transmitido facilmente em vinte segundos por alguém minimamente instruído, levou quase dois minutos para ser entendido pela pequena. E quando ela se deu por conta do conteúdo decifrado quase caiu para trás.

Ivica bate o telefone com força contra o gancho. Com as pequenas e delicadas mãozinhas ergue a barra do vestido para que não tropeçasse, e então começa uma corrida desajeitada pelos corredores vazios da Longue Vue. O “toc-toc” dos sapatos agora ia longe. Ela sobe as escadas para então desacelerar o passo ao dar de cara com a entrada da sala de estar. Imediatamente larga a barra do vestido e o alisa sem muita paciência. Aproxima-se do cômodo como quem teme pela presença de algum animal de caça, com a cabeça à frente, a postos de detectar o perigo - nesse caso, o Xerife. Ele estava de pé próximo ao sofá, enquanto que Helena parecia pouco à vontade, afastando-se dele não muito disfarçadamente.

- Minha senhora... – dobra o corpo em reverência – Perdoe-me pela grosseira interrupção de vossa renião; mereço ser repreendida em momento oportuno por conta deste deslize. Creio, no entanto, que é de suma importância que recebas a informação me foi entregue há pouco.

É tão impressionante à primeira vista testemunhar Ivica portando-se como alguém de mais de um século... São muitos os que já a conhecem e sabem de sua história, e que mesmo assim espantam-se com tamanha distinção. Afinal, a carapuça visível a todos é a de uma linda garotinha de dez anos de idade, de olhos cristalinos, pele de porcelana e cabelos loiríssimos. Uma “boneca viva” (que na verdade está morta e fala como uma princesa).

Após obter a autorização da Senescal, Ivica entra definitivamente na sala de estar. Ela olha para os pés do Xerife para localizá-lo corretamente no cômodo – tem medo de cruzar seus olhos com os dele - e faz a volta pelo outro lado, bem longe do fedor. Era um insulto ao bom gosto permitir que a criatura colocasse os pés em um taco do piso da Longue Vue, quanto mais caminhar sobre tão bela e histórica peça de tapeçaria onde batia seus pés.

- Os Ventrue estouraram sua cota de irresponsabilidades, madame. Eles compraram todas os nossos elísios no bairro. Disseram que vão nos desalojar! – empunha um tom de extremo espanto na voz; ora, os Ventrue eram mesmo inacreditáveis em sua ousadia – O bastardo do Henry Freeman mostrou sua verdadeira face. Segundo o relato, ele se vangloriou de nosso humilhação fazendo um discurso sarcástico e claramente dirigido à senhora. – como no ditado, “quem conta um conto, aumenta um ponto” – O mais intrigante ainda está por vir. Ele tinha um Gangrel ao seu lado. Espero que já tivesse sido informada da traição dos Selvagens, madame. – sabia a resposta, que “não”; o comentário foi destilado para colocar o Xerife numa situação constrangedora, uma vez que ele era o homem das informações quando o assunto era mato, imundície e selvageria.

Passado o recado, a criança pede licença mais uma vez e se retira sem olhar para o Rato. Sabia que ele devia a estar encarando, e se porventura cruzassem olhares, a pompa e confiança de Ivica definhariam com o medo que invediria sua alma. Ela não o entende, e como qualquer um que já foi mortal, teme aquilo que não entende. Deixa-o para trás ao descer as escadas rumo ao primeiro andar. Eis que ao atingir o piso inicial da mansão, uma figura conhecida aparece lhe cumprimentando.

- Ivy!

Aquela era Julliet Harrison, uma Tremere que contava com não muita idade. Sua voz era infantil e a alegria que até hoje sente e transmite ao esbarrar com a pequena, é de certa forma injustificável, pois não recebe recíproca alguma. Essa simpatia toda devia vir do tempo em que se conheceram, uma época onde a pouca idade havia mantido alguns sentimentos despertos em Ivica. Eram outros tempos, mas Julliet parecia não se importar com isso.

A pequena cainita observa as vestes da outra de cima a baixo. As roupas sóbrias pareciam uma escolha sábia se você considerar que não estão em nenhuma festa. Só nesse sentido.

- Você também está... – ameaça sorrir com o canto do lábio – fantástica.Ivy ergue a mãozinha para que Julliet a segurasse e passa a guiá-la para o cômodo de recepção das senhoras e senhoritas, uma sala espaçosa preparada para receber casacos, bolsas e demais aparatos do mundo feminino – Você está aqui por um motivo, Julliet: vieste renovar seu voto de confiança em nosso governante e sua representante, madame Helena. – a vozinha gostosa de Ivica escondeu um hiper polido “cala-te” – Mas terás que esperar um pouco, pelo menos até que ela termine a reunião em que se encontra. Não tema, eu te faço companhia. - largando do braço da Tremere e sorrindo pela primeira vez na noite, Ivica dá um pequeno pulo e cai sentada em uma cadeira, de onde balança as pernas assistindo à vampira arrumar seus pertences – Enquanto isso eu te conto como os Gangrel foderam com tudo.

Aquela sala era das duas: as duas amigas que tudo poderiam dizer e de todos poderiam comentar. Como uma garotinha e sua irmã mais velha, assim seriam Ivy e Julliet. Pelo menos era essa a ordem dos fatores que Ivica tentava transmitir à Tremere...

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7 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Dom Mar 11, 2012 1:33 am


Dizem que sou louca. “Helena, a louca” era como apunhalavam-me por entre estes corredores. Não mais. O jocoso apelido foi por minha querida Ivica banido para sempre, ou assim gostaria que fosse. Impensável existir maior injustiça do que essa, ora pois, como todos sabem, ou pelo menos como todos deveriam saber, Helena De Vries está curada do mal de seu sangue há pelo menos três séculos. É uma longa história da qual nunca me canso de contar.

Havíamos passado o verão na costa da Itália, em Puglia, o “calcanhar da bota”. Devia ser meado de agosto quando aconteceu. Por conta da comemoração de um fato do qual ironicamente não consigo me lembrar, estávamos eu e dois italianos, um de pele azeviche e outro apenas moreno, sozinhos em uma casa de praia. Eles haviam se entupido de vinho suficiente para saciar uma companhia inteira de guerreiros bárbaros em um banquete com três javalis e um leitão. A felicidade havia me tomado aquela noite. Eu possuía um corpo admirável à época, jovem, sem rugas ou marcas de idade como agora. Retiramos nossas roupas e decidimos reviver o amor humano em plena praia. Deitamo-nos e rolamos na areia em nosso ritual afetivo. Entreguei-me à volúpia por inteira. Volúpia, para um vampiro, significa “sangue fácil”. Provei do moreno primeiro. Até hoje não encontrei sangue mais quente que o seu. Meus lábios se deliciavam com o êxtase daquela experiência ao lado do corpo que jazia sem vida quando então surgiu o negro. Forte, corpulento o seu sangue, mas ainda sim doce. Esbanjei-me daquela suculenta sobremesa largada à beira-mar, com as ondas tocando meus pés e depois de alguns momentos, todo o meu corpo. Eu abria os olhos, e deitada de costas ao chão, via as estrelas indo de lá para cá em movimentos circulares sinuosos. Conforme minhas pálpebras subiam e desciam pesadamente, as estrelas viravam riscos luminosos no céu noturno.

Quando abri os olhos o negro me olhava sem vida, o moreno se afastava levado pelo mar e um visitante aguardava para falar comigo. Jamais esquecerei daquele Deus – sim, “Deus”, por conta de tudo o que ele representou para mim. Era um homem de meia-idade, de longos cabelos loiros e duas grandes esferas azuis nos olhos. Trajava um casaco justaucorps sobre um colete bordado, um calcão justo e um lenço volumoso no pescoço. Estava vestido como um lord inglês em pleno sul da Itália! Agachado, seus pés calçados eram tocados pela água sem no entanto se molharem. O sorriso estampado em seu rosto parecia como um quadro pintado em óleo: lindo e imutável. Ele aguardou até que eu tivesse os olhos abertos por completo e então me disse:

- Vá. Você está livre.

Ele me libertou. Aquele era o próprio Malkav dizendo que eu estava curada da maldição da loucura.

Pelos séculos e séculos pude gozar da minhas existência sem sucumbir às mazelas da insanidade. Viajei por mares, lutei guerras, socializei com todo tipo de pessoas e monstros sem sair de meu estado de plena capacidade mental. Naturalmente como uma dama que sou, descobri que o sangue original quecorria em minhas veias era o sangue Toreador. O luxo me pertence, o requinte me completa. Nasci vampira para governar pela e para a riqueza. Estamos em Longue Vue, um sítio de imensa história em Nova Orleans e também nomeado como o “paraíso na Terra” por aqueles Príncipes estrangeiros que visitaram nossa humilde casa. Tudo isso graças a quem? Graças a Helena, a artista, a magnata, a condessa de tudo que reluz. “Helena, a Toreadora.”

Superado o passado e conquistada a posição de prestígio, devo continuar esperta para as situações que se apresentam. Custou-me 545 anos e alguns dias para chegar onde cheguei, e também para me deparar com tamanha ironia. Os Ventrues querem me derrubar, querem passar por cima da Camarilla que eu governo e se impor como líderes de direito “conquistado”. Vê se eu sou mulher de deixar tamanha ousadia impune! Como se não fosse provocação suficiente, chega aos meus ouvidos, através da queridíssima Ivica, que seríamos desalojadas. Que atrevimento, senhor Freeman!

Afastei-me do Nosferatu usando meus exímios dotes artísticos para que não soasse desagradável. A notícia que ele havia dado antes da pequena fazer a interrupção não se provou nada além do que eu já esperava. Os Gangrels estavam insatisfeitos desde sempre. Se eles querem abanar os rabinhos e lamber as patinhas dos Ventrue, que seja. O que eu deveria fazer urgentemente e que não pude por causa da interrupção da criança, procurei fazer logo depois de sua saída.

Edgard havia começado a pressão sobre mim e o nosso superior. Pedia pelo Príncipe quando eu estava bem à sua frente, à disposição para ouvir ele e todos os queixosos. Como um dos membros de maior poder e integrante da Primigênie, é compreensível que ele tenha a ousadia de sugerir planos de ação - mas que o faça diretamente a mim!

Passo ao lado do sofá arrastando a mão sobre seu estofado, apegando-me à maciez do revestimento para que a repulsa do fedor que acompanhava o Rato não me fizesse vomitar sangue.

- Edgard, se contenha. Você já está falando com a pessoa certa. – meus olhos caídos tornam o olhar baixo, quase sinistro; a seriedade imposta na singela repreensão mostrava que ele não deveria voltar a tocar no assunto “Príncipe” – No entanto, acredito que tenha que ser dado um freio à situação e aos envolvidos.

Percorro com os olhos uma linha imaginária no chão, saindo de perto dos meus pés e indo em direção à porta, mas então ergo repentinamente o olhar e encontro a única coisa distantemente atraente no Rato, os seus olhos. Meus lábios se torcem como se fossem lhe falar algo, mostram dúvidas talvez. A quebrada com o pescoço por sua vez significa que eu estava ponderando minhas ações. Permameço muda e girando pelo sofá, voltando a reencontrar a linha no chão. Eu mesma já não acreditava que alguma decisão sairia de mim esta noite, mas então começo a falar.

- Traga-me Henry Freeman.

De primeira eu não tinha certeza se deveria mesmo dar tal ordem. Entre minhas dúvidas, pensei muito, e após pensar me resolvi. Sim, eu queria Henry Freeman esta noite na Longue Vue, e Edgard sabe que não adiantará tentar argumentar. O jeito pidão como lhe dou as ordens já lhe é conhecido, sendo mais motivado pelo respeito à sua figura do que por minhas incertezas.

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8 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Seg Mar 12, 2012 9:13 am

Ela adentrou o carro e não precisou dizer ao chofer para onde iriam, Vicenzo já havia lhe dado o trajeto antecipando sua impaciência para instruções, por este motivo, o carniçal - que com ela estava há um tempo anormalmente longo e por isso buscava evitar que ela precisasse mandar-lhe qualquer coisa que não pertencesse a sua rotina. Naquela noite ela se faria presente em Longue Vue para um encontro que de reafirmação de votos e definições de respostas ao que signora tinha explicado ser uma afronta às políticas locais, mesmo o servo não precisando de qualquer explicação para saber as implicações do que acontecia naquele momento. Acompanhava sua senhora há tempo suficiente para conhecer algumas estruturas daquela sociedade tão soturna que ele agora fazia parte (mesmo que tão hierarquicamente inferior).

O carro partiu e o carniçal retornou para seus afazeres considerando que a senhora parecia calma demais, independente do que acontecia... Lembrou quando ofereceu-lhe o jornal naquele dia, ele mesmo já pasmo com a notícia principal no caderno de negócios. Entretanto, apesar de seu alerta quanto ao conteúdo, ela leu o jornal como sempre, lendo as seções na ordem de sua preferência e quando chegou à polêmica notícia, nada fez, nenhuma reação sequer esboçou, exceto um erguer de sobrancelhas, apenas virou a página e continuou a ler. Terminando, fechou o jornal, dobrou-o e entregou para o servo, dizendo que estaria na sala de estudos pelo resto da noite. Não tardou que o telefone tocasse. A Primigênie era convocada para um encontro emergencial.

* * *

Isabela Sforza não estava há tanto tempo assim em Nova Orleans, tendo parado naquele pedaço ao sul da costa leste americana muito mais por curiosidade intelectual do que por procurar uma cidade onde pudesse estabelecer-se e ascender politicamente - ou seja, adquirir boa parcela de poder e usufruir dele, como parecia ser com a maior parte dos membros. E no estilo de vida que eram obrigados a levar, parecia que muitos acreditavam que poder significava maiores chances de sobrevivência. Quanto maior o rebanho à sua disposição, menor será sua preocupação com alimento, quanto maior sua preocupação com as economias da cidade, ganha-se um rebanho forte e saudável, e para influenciar o monstrinho da economia era preciso ter recursos para tal, portanto, dinheiro e a consequente responsabilidade pela tomada de decisões... culminando em status, olhos atentos em sua pessoa, atenção demasiada, no final das contas, um risco.Um paradoxo que a cansava quando parava para refletir. Poder igual a sobrevivência. Poder igual a risco.

Poder não era algo que ela procurava em demasia, portanto não era esta a razão pela qual estabelecera covil em Nova Orleans. Todavia, mesmo não procurando, muitas vezes as coisas acabam chegando de igual forma. E lá estava ela se envolvendo com um principado com o qual ela podia não se importar menos. E atuando num ramo da vida que ela não podia nutrir maior asco - política. Por isso, não nutria amores pela Camarilla, pelo que ela representava. Política, política em excesso e política do pior tipo. O uso irritante de todo tipo de máscaras a fim de agradar um governante vaidoso (ainda queria conhecer um que não fosse). Mas o que era a Camarilla senão uma máscara. Esta era sua diretriz primeira. Nada mais natural que as máscaras que ocultam as naturezas bestiais dos membros perante o rebanho se confundissem com as máscaras criadas pela desconfiança que tinham uns dos outros. Tirando a besta, nenhum membro da Camarilla é capaz de definir sua própria natureza, tanta é a simulação. Um príncipe apavorado que governa das sombras. Uma senescal que nada mais é do que um simulacro de si. Dois exemplos. Apenas dois e já dizem tanto. Talvez fosse por isso que o que menos lhe despertava a antipatia fosse o Xerife, tão insuportavelmente consciente do que era e do que representava para o mundo que não se dava ao trabalho de disfarçar. Num mundo como aquele, não usar uma máscara era um ato, no mínimo admirável - mesmo que não se tenha opção.

Naquela noite a discussão circundaria a patética empresa fundada pelo Ventrue, que com o ato, diziam, se desligava da Camarilla. Desligava-se? Opunha-se? De jeito nenhum. Via naquele Ventrue nada mais do que o desejo de manutenção da Camarilla, não uma oposição a ela e ao que ela representava. Tal qual é dar um golpe de estado em um país, substituir um método de administração por outro. E na medida em que príncipes não são eleitos, e o atual governa através de uma sombra de si, para mudar das tomadas de decisões é preciso ser extremista. Primeiro passo, assuste, faça-os correr de um lado para o outro, apavorados. Com o nome daquela empresa, ele conseguira a atenção do Príncipe e colocara em risco a diretriz primeira da Camarilla. Mas duvidava com todas as forças de seu ser que os Ventrue iriam em algum momento ultrapassar a fina barreira que impedia o mundo de conhecer suas bestas. A Camarilla estava segura se eles não fossem estúpidos, era o principado que estava na mira de suas estacas e seus súditos teriam que fazer votos de lealdade.

O carro parou na entrada da Mansão Longue Vue e ela deixou o veículo dirigido-se para a entrada. Logo que entrou um servente recolheu seu casaco e foi por ele guiada até onde os que chegavam se reuniam. Naquela sala estavam a Tremere e a Toreador-criança.

- Buona sera, signore, espero não interromper nada. - Cumprimentou-as com um tom de voz suave e repleto de cortesia. Apesar de seu inglês ser perfeito, ela não disfarçava um leve sotaque a revelar que ela pertencia à outro lugar.

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9 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Ter Mar 13, 2012 9:46 pm

Era mesmo uma noite tão agradável, que chegava a ser ridículo desperdiçá-la enfiado em um carro, janelas fechadas, sem poder olhar para as pessoas caminhando vagarosamente pelas calçadas largas, sem aproveitar o colorido típico do céu noturno na cidade – meio marrom, meio azulado, o céu das metrópoles é sempre algo interessante de se observar. É claro que perde toda a magia quando se lembra que isso é apenas um reflexo das luzes exageradas do carros, postes, casas e prédios de apartamentos. Mas não deixa de ser interessante. Conhecera uma vez um rapaz muitíssimo talentoso, que pintara (raros) céus daquela cor suja e exótica antes mesmo da luz poluir os céus das cidades. Um rapaz ótimo, realmente, embora de personalidade decepcionante. Tudo que tinha de fraco, sua arte tinha de forte. Mas morreu antes que pudesse conhecê-lo melhor. Uma pena. Algo que deve ser atribuído, com certeza, á sua ascendência vendeense. É claro, foi em Paris, onde mais?!
O céu de Paris é um espetáculo a parte. É sujo pela luz também, é claro, como os franceses gostam de luz! Mas não é esse sujo amarronzado que se encontra no Novo Mundo. Ah, não, é um sujo quase dourado, como se não fosse nem dia nem noite. Talvez por isso as noites de Paris o atraíam tanto. Lembravam demais a época que ainda podia ver a luz do sol. Não que sentisse falta desse tempo em específico, os seres humanos são muito cheios de coisinhas pequenas, questões tolas, problemas, intrigas... Oh, bem, os vampiros também. Talvez até mais que os humanos, se parasse para pensar. Mas são em sua maioria criaturas mesquinhas, é óbvio, que precisam preencher os séculos de suas não-vidas com joguinhos sociais tolos, política, política, política! Se não fosse por toda aquela tolice, poderia estar em algum lugarzinho alternativo no Bairro Francês, conhecendo melhor aquela belíssima garota de cabelo embaraçado (ela tinha dito que eram “dreadlocks”, ou algo assim, mas ele gostava de chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes) que fazia algumas esculturas divinas em rolos de pano colorido. Lembravam um pouco as obras daquela menina adorável, Louise Bourgeois, que fora a primeira artista de valor que encontrara quando se mudara para o Novo Mundo. Fora um prazer dar dinheiro a ela, e teria lhe dado a não-vida, não fosse tão covarde. Ela morrera no ano anterior. Um negro dia para a arte americana, sem dúvida. Cada obra era uma mistura de vísceras coloridas que praticamente gritavam aos olhos, e a ele trouxeram lágrimas de sangue. É claro, tivera que disfarçar, mas fazia parte de seu trabalho. Do trabalho que gostava, é claro, não do trabalho que agora o forçava a arrastar seus sapatos de verniz sobre a calçada de losangos avermelhados, a caminho de Longue Vue.
Era estranho pensar que depois de tudo por que passara, estava agora se envolvendo com algo tão vulgar como política. Parecia que estava decaindo em sua não-vida. Desde os tempos áureos em Paris, as breves viagens pelas capitais mundiais da arte – Berlim, Amsterdã, Munique, Viena, Roma, enfim, tudo o que a Europa poderia lhe oferecer de melhor; o tempo bastante frutífero em Nova Iorque, que, infelizmente, era uma cidade árida e estéril, mas que guarda em suas entranhas uma vida artística intensa e uma quantidade de pessoas interessantes a dar festas magníficas todas as noites, realmente incrível; e, finalmente, Nova Orleans. Um gostinho da França com um sotaque caipira, verdade, mas era praticamente Meca para seu clã no Novo Mundo. Ah, e o despontar de tanta gente talentosa... Tinha que admitir que, desde Duchamp, a Europa estava superada em termos artísticos. Se identificava com Duchamp, aquele charlatão. Aquele nunca fora um artista realmente, fizera pouquíssimo em termos físicos, mas que crânio! O conhecera, claro. E costumava dizer a quem quisesse ouvir que a grande façanha de Duchamp fora apostar consigo mesmo sobre a cultura artística e intelectual à qual pertencia. Apostou que poderia ficar marcado no mundo da arte sem fazer praticamente nada, apenas permanecendo sentado. E o bastardo impostor conseguiu! Hah, não é engraçado? Iludiu o mundo da arte com a lei do mínimo esforço! De certa forma, Franz também se sentia um pouco assim. Não tendo qualquer talento artístico, apenas muito dinheiro e um talento maravilhoso para conhecer grandes artistas só de olhar, e, é claro, escrever críticas deliciosas de arte sob vários nomes diferentes, estava conseguindo marcar uma influência profunda no mundo artístico. Era bom o suficiente. Mas, agora, a política! Se sua mentora o visse agora, caminharia para o sol em desgosto. Bom, talvez não. Talvez o forçasse a caminhar para o sol, soava mais como ela. Enfim.
Mas era uma questão de acomodação. Estava confortável em Nova Orleans. Tinha um bom nome, bons contatos, bons investimentos e muitos, muitos interesses artísticos. E era simplesmente inadmissível que os Ventrue, aqueles tolos sem sal, tirassem esses prazeres dele. Sim, porque tirariam. Eles simplesmente não compreendiam tudo o que os Toreadores tinham feito por aquele lugar. Provavelmente construiriam um daqueles horríveis prédios modernos de frente espelhada no lugar de Longue Vue! Era ridículo. A não ser, claro, que chamassem Zaha Hadid para fazer o projeto, aí sim, poderia ser interessante... Adoraria conhecê-la... Mas claro, não sobre a Longue Vue, no máximo do lado, era simplesmente inaceitável que destruíssem aquele lugar. Se alguma coisa o agradava na Primigênie, digamos assim, no mínimo exótica, de Nova Orleans, era o fato de que havia muitíssimo bom gosto por ali. Aquela filha de Malkav, Helena, interpretava muito bem o papel de Toreadora que se auto-impusera. Às vezes, até desejava que ela fosse mesmo sua irmã de sangue! Era leal a ela, claro, e a seus irmãos, contra os broncos ventrue. Não têm o mínimo de sofisticação, esses idiotas. Enfim, era esse o problema dos burocratas - tinham um mau gosto insuperável e sede de difamação, poder e todas essas outras coisas sujas. Não era seu problema. O máximo de sua contribuição era ser secretário, e que ninguém esperasse muito mais do que isso dele.
Parou na frente da Mansão e se deu alguns segundos para apreciar sua fachada. Já estava um pouco atrasado, mas tinha seus pequenos rituais para seguir e uma mera reunião não o impediria. Então, suspirou tranquilo na frente da mansão e entrou, não sem antes limpar as pontas dos sapatos com um paninho que trazia no bolso da calça especialmente para isso. Caminhou lentamente pelos corredores. Quem quer que fosse capaz de caminhar por aquele lugar sem dar nem uma olhada para os lados, sem parar para contemplar com prazer as belezas penduradas nas paredes, definitivamente não merecia respeito algum. Imaginava os anciões Ventrue passando a passos largos e rápidos por ali, os braços lotados de tabelas financeiras ou o que quer que fossem seus objetos de interesse na vida, sem olhar para os lados, e isso o enchia de um rancor amargo. Ah, não, eles não tomariam aquele lugar. Nunca. Nem que ele tivesse que largar um pouquinho seus jovens interessantes e se preocupar mais com a situação degradante da política na Primigênie. Depois de um tempo relativamente longo, finalmente chegou à Romanova, Sforza e Harrisson. Sorriu vagamente, pois achou que não era apropriado parecer alegre naquela situação.
- Mademoiselles. – beijou as mãos das três, ou melhor, fez o gesto para beijá-las, mas não ia relar sua boca, seria terrivelmente deselegante. Os Don Juans modernos não tem problema algum em babar nas mãos de suas pretendentes, mas ele fora instruído em etiqueta, graças aos céus! – Espero encontrá-las no melhor humour possível, dadas las conditions.
Não era francês, mas gostava de fingir que era. Afinal, depois de tantos anos, ninguém sabia sua nacionalidade ao certo, e, hoje em dia, o sobrenome já não diz mais nada, não é mesmo? Podemos encontrar vários “Schultz” até mesmo na América Latina! Além disso, falar alternando com o francês lhe dava um ar pedante, e quem não adora um pouco de pedantismo para dar cor ao dia?!

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10 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Ter Mar 20, 2012 12:15 pm

I V I C A



Conhecera Julliet há muito, muito tempo atrás. Eram humanas quando se encontraram pela primeira vez. Ivica, uma espivetada garotinha que fez a tímida Julliet se esbaldar de rir com suas tiradas. Quis o destino que as duas fossem amaldiçoadas com o sangue de Caim. Enquanto Criança, Ivica tinha a aura faiscando de tanta energia. Alegre, espontânea e dotada de um senso de humor afiado até para um adulto, fazia todas as coisas com enorme paixão, desde as simplórias às mais tensas. Essa mesma paixão foi o que a levou para o abismo. Conheceu o amor, do tipo mais fraternal e ideológico que existe, o qual alimentou com sua vivacidade, e então esse amor fez ela perder tudo. A partir daí as amigas se tornaram dois tipos completamente diferentes daquilo que um dia foram: de um lado, Julliet, a aprendiz que teve sua mente e poderes e expandidos; do outro, Ivica, a rancorosa e ranzinza “pequena aberração”.

Eis que estava ali sentada frente àquela da casa Tremere, balançando as roliças pernas de criança ao passo que observava a graciosidade da adulta Julliet. Ela devia ser muito feliz mesmo, tão graciosa em sua pose e com sua não-vida desde sempre resolvida. Toda vez que ela esbarra com a criança vem com aquele sorriso de felicidade de quem nunca não está com problemas. Ivica faz o seu papel; é simpática com a amiga de longa data, mas nem sempre consegue segurar uma espetada ou outra.

A sobriedade de Isabela Sforza interrompe o momento íntimo da conversa entre as duas cainitas. O sotaque em sua voz anunciava a descendência italiana, como de praxe em seu clã. Os Giovannis têm na figura de Sforza alguém de muito poder, podendo lidar com a legião de espíritos e fantasmas que fazem morada em Nova Orleans com uma mão nas costas. Além disso, ela é sábia o suficiente para ter se aliado à Camarilla na cidade, mas suscita dúvidas na pequena cainita quando o assunto é o esforço que empregaria no conflito. As Aparições de certo que lhe tomam todo o interesse de sua estadia em Nova Orleans. Felizmente com os Brujahs o assunto era o inverso. Sua lealdade para com Helena e os Toreadores é firme; trata-se de uma questão ideológica de seu representante, o mesmo Ancião de quem Ivica sente falta no momento, afinal, dava como certo que ele seria o primeiro a aparecer.

Ivica desceu da cadeira e ficou em pé. A informalidade que a relação com Julliet permitia não se estende à Isabela.

- Signora... - cumprimenta Isabela com um gesto assertivo de cabeça, em um único e longo movimento - Non c'è niente di fermarsi, né di scusarsi. - sua pronúncia não era tão boa quanto a de Isabela, visto a origem eslava de sua língua materna.

Com esta, deveria ser bastante formal e de poucos sorrisos, como o que abre ao ser recebida por monsieur Lorrimer. O secretário da primigênie não morre de amores pelo seu serviço, em contrapartida, a admiração que tem por Longue Vue, pelas artes verdadeiras e a fidelidade frente ao clã o tornam muito atraente. Seus modos são outro ponto a favor. Não são como a frieza ítalo-americana ou o pragmatismo Ventrue. Trata-se de alguém que realmente estudou as boas maneiras e sente prazer em aplicá-las diariamente, tornando qualquer convivência cainita algo mais agradável.

Após ser cordialmente cumprimentada, Ivica o recebe de forma adequada.

- Notre humeur un peu amélioré maintenant avec sa présence. – estende a mão para receber o cumprimento, recolhendo-a em seguida – Monsieur chegou no momento certo. Queira acompanhar a signora Sforza e nossa convidada, a senhorita Harrison, até a sala de reuniões. Avisarei nossa senhora de que a esperam. – abaixa a cabeça em cumprimento a todos – Com vossa licença.

Deixa os três para trás, na certeza que Franz agiria da melhor maneira possível.

Ivica lança um último olhar para a entrada da mansão, na esperança de ver o Brujah chegando. Nada. A preocupação com a possibilidade do clã ter mudado de lado cresce na ‘pequena’, isso, claro, se os boatos fossem verdadeiros. Teria que dar ao menos um palpite à Helena sobre esse caso. Ivica sobe a escada passo a passo, pensando no que falaria. Sua opinião poderia mudar muita coisa nesse conflito. Seria melhor para o bem de todos que o Brujah aparecesse logo.

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11 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Qua Mar 21, 2012 1:58 am

Eu estava de saco cheio dessa merda.

Ser governado por uma louca alucinada, receber ordem de uma pirralha inútil e, ainda por cima, ter que que ir prestar minhas homenagens pra um Príncipe que eu tinha certeza absoluta que se tratava de uma piração de uma mente insana era de arruinar a noite de qualquer um. Toda a sociedade cainita poderia dizer para mim que eu estava sendo um herege idiota com esse pensamento, mas a verdade era que eu estava pouco me ferrando para que o monte de imbecil achava.

Eu era aliado da Camarilla sim, assim como qualquer um no meu comando. Mas eu tinha um motivo especial para isso, que não envolvia florezinhas, cores e pinturas afrescalhadas.

Helena era esperta. Muito esperta. E eu gostava disso. Esse fato unia o útil ao agradável para mim, o que era o suficiente. Pelo que dependesse da minha pessoa, nenhum Ventrue filho da mãe ia colocar as patas abichalhadas naquela cidade e se tentassem, iam ter que passar por cima de mim. E isso, sinceramente, não seria trabalho fácil.

Levei o tempo que me conveio para chegar até o Elísio, andando calmamente pela cidade e observando os arredores. Eu tinha certeza de que a pirralha deveria estar arrancando as calcinhas pela cabeça, e tal pensamento apenas fez com um que um mínimo sorriso irônico despontasse pelos meus lábios. Ela que se fodesse. Jogo de morto não é brincar de casinha, por mais que a Senescal louca alimentasse os devaneios daquela mente infantil.

Odeio crianças. Sempre odiei e tenho certeza que, depois de tantos anos odiando, eu continuaria a sentir o mesmo pelo resto da morte.

Chegar no Elísio foi uma experiência entediante, como sempre o era. Eu evitava aquele lugar, todo aquele luxo desnecessário e ostentação ridícula, que só mascaravam uma decadência tão evidente que apenas os idiotas e os fúteis não conseguiam enxergar. Não que eu fosse contra a arte, o ponto não era esse. Eu era contra o mau uso da arte, já que não acho que algo feito para criar impacto no expectador deva ser usado para decorar parede em casa de madame.

Acho que se ainda fosse vivo, eu respiraria profundamente ao vislumbre da pirralha subindo as escadas. Estava evidente que ela havia me esperado até o limite e, devo dizer, isso me deixou profundamente satisfeito. Haviam outros ‘convidados’ para a ocasião, algo que não me surpreendia, mas que não me agradava muito menos. Identifiquei imediatamente mais um dos frescos e fiz uma visível careta ao notar que estaria cercado de pomposidade ridícula pelo resto da reunião. Era um carma, com toda a certeza, mas um fardo muito mais simples de se carregar do que um Ventrue no governo.

Só de pensar nessa possibilidade, meu sangue parecia ferver pelas veias mortas.

Caminhei ruidosamente em direção à fedelha, com visível cara de tédio, depois de observar rapidamente os outros presentes à distância.

- Estava correndo para a titia? – Alfinetei, tendo plena consciência de que isso poderia enfezar a garotinha.

Ergui uma sobrancelha enquanto a observava atentamente, subindo mais alguns degraus da escada e me aproximando dela o suficiente para que meu tamanho fosse intimidador, assim como meus olhos fixados nos seus. Eu queria incomodá-la, com toda a certeza, mas não ia exagerar na dose. Seria uma porcaria se o pingo de morto fofoqueiro fosse correndo para a saia da titia contar que o Brujah feio e bobo a tinha assustado.

Como eu havia dito anteriormente, Helena era esperta. E isso era algo bom e ruim ao mesmo tempo.

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12 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Sex Mar 23, 2012 12:54 am

Ultraje.

Toda aquela cena havia sido um perfeito e completo ultraje, tanto por si quanto por sua posição. E era algo que ele, Edgard von Astorff, jamais tolerara em toda a sua existência.

Seus olhos, malignos e frios, fitaram a pequena Ivica durante todo seu discurso, coberto de emoções falsas e dramas desnecessários com o único intuito de impressionar sua senhora e desmoralizá-lo. Tantos floreios, porém, só arrancaram um erguer de sobrancelha do rosto purulento e deformado do Nosferatu. A Senescal já havia sido informada do Gangrel, e a tentativa de alfinetada da menina não fora o suficiente para tirar seu moral diante da patética Malkaviana.

O problema estava na afirmação sobre os Ventrue.

A suspeita das intenções de Henry havia sido algo extremamente restrito ao clã dos Ratos, então se a informação fora passada a diante, era porque o idiota realmente tomara alguma atitude drástica.

Isso resultava em uma problemática, tanto para o Xerife, quanto para Henry. A autorização da Senescal fora frívola, já que ambos sabiam perfeitamente que iria perseguir o ancillae até os portões do inferno, mas as formalidades deveriam ser seguidas.

Fitou a Senescal diretamente nos olhos após a saída da Harpia, deixando que um minúsculo sorriso cruel despontasse por seus lábios ao perceber que ela havia se afastado de sua desagradável figura. A interrupção não o deixara responder sobre o que pensava de estar falando com a ‘pessoa certa’, mas talvez fosse melhor assim. Poupava-lhe ter de tolerar mais ataques de insanidades daquela cainita perturbada.

- Avise ao Príncipe que freios sempre são apenas temporários. Se ele quer uma solução definitiva, medidas drásticas devem ser tomadas. – Alegou, observando-a por mais alguns segundos, antes de se dirigir à porta do aposento. – Quem consegue um aliado, consegue mais. Não deixe que o Príncipe seja tolo o suficiente para subestimar esse fato.

Deixou o lugar sem mais nada dizer, permitindo que sua declaração cortasse o ambiente e perturbasse a mente já insana da Senescal. Sabia que a inquietude diante da face oculta do Príncipe seria um grande problema para os aliados da Camarilla, assim como um trunfo para seus inimigos, e não pretendia deixar que a Malkaviana acabasse por colocar todos eles em risco. Mas voltaria a tratar daquele assunto em um momento mais propício.

Era hora de caçar.

Caminhou orgulhosamente pelos corredores do Elísio, sua aparência decadente e horrenda sendo um contraste quase cruel com a beleza das peças de arte e móveis antigos. Gostava disso, de intimidar os olhos alheios apenas com sua figura bestial, e não conseguia esconder o prazer que isso lhe trazia.

Deparou-se com a Harpia há poucos metros de si, nos degraus da escada, juntamente com o líder do clã Brujah. Achava-o tão desagradável quanto a garota, mas ao menos não precisava esperar frivolidades e cenas teatrais de um grosseirão estúpido.

Sorriu cruelmente, seus lábios ressecados rompendo um pouco mais da pele diante do esforço, diante da ideia que lhe tomou a mente. Dirigiu-se aos dois cainitas, aproximando-se apenas o suficiente para que fosse notado por ambos. Seus olhos, porém, cruzaram-se firmemente com os da Harpia, e sua mão, pegajosa e cadavérica, cobriu a dela, pequena e macia, que se encontrava no corrimão da escada.

- Devo agradecer pela gentileza que fez ao nos informar sobre o sacrilégio dos Ventrue, Harpia. Um trabalho digno de sua posição. – Declarou, apertando a mão abaixo da sua suavemente.

Sabia que a sensação de sua pele podre seria o suficiente para amedrontar a garota e isso fez com que se sentisse satisfeito consigo mesmo. Era menos do que ela merecia, mas o suficiente naquele momento. O Xerife ainda teria outras oportunidades.

Com um meneio de cabeça ao Brujah, soltou a menina e saiu do Elísio, adentrando a noite e retornando ao seu esconderijo, nas profundezas do esgoto de Nova Orleans.

Ainda tinha um trabalho a realizar. A noite estava apenas começando.

[Continua em Centro Empresarial]

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13 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Sex Mar 23, 2012 7:48 pm

Ora, ora, aquela garota não era mesmo magnífica? Simplesmente a adorava! Tão comportada, tão superior, tão versada em boas maneiras... Era realmente uma pena que tivesse aquela aparência bizarra de criança, de um bibelô-máscara para uma adulta completamente formada. Mas entendia quem quer que a tivesse abraçado. Criara uma obra de arte. Grotesca, sim, mas era definitivamente arte. Observou-a por alguns segundos, enquanto se afastava. Passinhos pequeninos. Pés pequeninos. Sorriu. Quem a criara era simplesmente um gênio. Esperava sinceramente que um dia fosse capaz de tal rasgo de inspiração.

Voltou-se para as outras duas, ainda com um sorriso no rosto. Não queria estabelecer nenhum clima de enterro, ou coisa parecida. Tinha certeza que não haveria, afinal, guerra nenhuma, talvez apenas um conflitozinho qualquer, provavelmente aquele Ventrue tolo, o tal Freeman, chegaria à morte final pelas mãos de algum dos capazes soldados da Camarilla e tudo ficaria bem, nada mudaria, enfim! Não estava realmente preocupado. Portanto, não havia motivo para todos aqueles semblantes sérios, graves.

- Queiram acompanhar-me, mademoiselles.

E, sem mais delongas, dirigiu-se à biblioteca. Certamente, aquele era o melhor lugar para as reuniões. Era confortável, elegante, belamente decorado e passava uma mensagem de pouca ostentação, se é que isso era possível na Longue Vue. Além disso, caso alguém se desinteressasse dos assuntos sempre tediosos dessas reuniões, sempre poderia deixar seus olhos vagarem sobre as lombadas decoradas, pintadas à mão, ler os títulos clássicos, desejar discretamente a coleção de livros de arte ou simplesmente se afundar na poltrona e deixar o tédio consumir sua mente. Era bom. Houve um tempo em que instituíram a sala de jantar como sala de reuniões, o que fazia todo o sentido; mas todos sentados em volta de uma mesa, olhando o tempo todo dentro dos olhos dos outros... Não dava certo. Brigas demais. Egos demais. Mentiras demais. Então, a mudança, e Franz não poderia ter ficado mais feliz com ela.

Passaram rapidamente pelo hall e ele pode entrever Ivica com mais dois membros. Aquele Brujah grosseirão, escroto e desnecessário, Gregor, que, assim como todos de seu clã, não passava de um tolo cheio de excrementos. Era tudo que poderia dizer daquela criatura. Mas ele era fiel à Helena, então, não havia nada que se pudesse fazer a respeito daquela criatura desagradável. E o outro, constatou sem surpresas, era o Xerife, Edgard Von Astorff. Conteve-se para não tremer de nojo e desgosto. Por sorte, sua passagem por aquele cômodo foi rápida e logo estava dentro da biblioteca. Afirmou o sorriso enquanto convidava as convidadas a sentar-se com um gesto complicado e cheio de floreios. Os muitos anos treinando o possibilitaram fazer aquilo com certa perfeição, o que provavelmente era uma tolice, mas ele gostava. Era divertido, lúdico e elegante, assim como ele próprio.

Andou pela sala brevemente, enquanto as mulheres se acomodavam. Passou os dedos levemente pelas lombadas dos livros, com calma, sem pressa. Não podia fazer nada enquanto os outros membros não chegassem, e, por sua experiência, sabia que não deveria tentar puxar algum papo sem importância enquanto esperava. Deteve-se em alguns livros. Abriu-os e, discretamente, cheirou-os. Adorava o cheiro de livros antigos, principalmente quando eram pintados a mão – cada letra era um retrato da alma do autor. Ah, a criação literária perdera muito com os computadores, certamente! Vulgares, vulgares, esses livros impressos aos montes, com erros de digitação e folhas recicladas de outros livros! O mundo estava mesmo quase perdido. Quase perdido! Finalmente, sentou-se em uma poltrona avermelhada – era sua favorita. O estofamento dela, descobrira numa certa noite, ao analisá-lo com calma, fora todo bordado Rechelier, a mão, e ele tinha muito respeito pelo artesanato também. É claro, não era arte, mas agregava valor à coisas, certamente. E sorriu, agradável, para elas. Sabia que elas não compreendiam um terço do que se encontrava naquela sala, e que não viam a beleza, o trabalho e a erudição, mas ele aprendera a tempos a não esperar mais nada das mentes inferiores. Era afável com elas, e pronto.

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14 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Sab Mar 24, 2012 9:11 pm

I V I C A




O Brujah finalmente apareceu em Longue Vue. A forma desleixada como atravessava os pés à frente do corpo , chocando seus calcanhares ruidosamente contra o piso de taco, era totalmente inadequada. A única utilidade de seu péssimo comportamento é mostrar a todos como o clã e sua ideologia barata estavam mortos. Se existiu um Brujah que algum dia mereceu debater assuntos importantes com um Artista, ele está morto há pelo menos dois mil anos – ou no mínimo se esconde há igual tempo. A selvageria de seus atos refletem apenas no campo de batalha, e mesmo assim são superados por pelo menos 90% dos outros clãs quando resolvem agir de cabeça quente. São uma praga em cada principado americano. Royce era o estereótipo dessa decrépita casa, assim como certamente ele acredita que Ivica seja para os Toreadores. Não há muito mais a ser dito sobre qual modelo merece ser seguido

- Estava correndo para a titia?

Ivica pára de subir as escadas, acuada com o corpanzil de Royce. A cabeça da criança caberia por inteira dentro de sua mão, o que destacava a disparidade de capacidade física. Era um bullying descarado de alguém que não tinha nada melhor para fazer do que assustar uma vampira duzentos anos mais nova e com 50% de seu tamanho.

- Boa noite, senhor Royce. – cumprimenta-o com a cabeça, meio sem jeito por estar tão acuada – Muito me entristece que nossos papéis de criança e de adulto responsável tenham se invertido em algum ponto do passado. – diz com a voz mais doce a cara mais cínica do mundo.

Pouquíssimo espaço havia lhe sobrado “debaixo” do gigante, mas ela acha uma brecha e escapa sem esbarrar em nada, graças ao seu diminuto corpo. Sobe a escadas vagarosamente, de costas, para que não fosse atacada de surpresa por um Brujah que foi colocado em seu devido lugar. A mãozinha pequena e delicada se arrasta corrimão acima, guiando a cega Ivica rumo ao topo dos degraus.

- Avisarei à Helena que o senhor e os outros já chegaram. – nesse momento Franz passa com os convidados em direção à biblioteca – Ah, que ótimo! Por favor, queira acompanhar o senhor Lorrimer. – aponta o Toreador com um gesto suave da mão livre – Descerei com nossa senhora dentro de pouco tempo.

A satisfação pelas respostas ao Brujah se transformou em pânico quando a pequena cainita virou-se e continuou a subir as escadas de frente. Deu de cara com O Xerife, o horror em pessoa. Pôde ver bem de perto as pústulas em sua pele, as veias mortas e ressecadas protuberantes naquele rosto deformado, pôde sentir o fedor que o acompanhava desde o abraço... Ivica ergueu o torax e os ombros de uma só vez. A boca se abriu em pavor com a proximidade daquilo. Estava em choque. Quando aquela pegajosa mão tocou em si, nem ao mesmo teve alguma reação. As palavras do Rato atravessaram o crânio morto da garotinha sem serem capturadas. Ivica se afundou ainda mais naquele terror quando Edgard apertou sua mão contra o corrimão.

- Devo agradecer pela gentileza que fez ao nos informar sobre o sacrilégio dos Ventrue, Harpia. Um trabalho digno de sua posição.

O horror não se desfez com a saída de Edgard. A ‘pequena’ ainda estava lá parada, estática, como um dois de paus. Permaneceu com a mente perturbada e os lábios tremendo, e depois de alguns segundos que pareceram uma eternidade, ela disparou em uma subida frenética pela escadaria. Sua vontade era gritar, gritar e gritar, e embora tal desejo fosse grande, exteriorizou o nojo em silêncio, esfregando as costas da mão contra o vestido inúmeras vezes.

Helena viu sua cara de assustada quando ela abriu a porta. Não tinha como disfarçar. Poderia apenas descontar com mais veneno destilado contra o Xerife, mas valeria o risco? Por outro lado, Edgard nunca havia tocado em um fio de cabelo de Ivica por saber que ela é protegida pela senescal. Ora, se ele quebrou sua regra era porque havia algo errado em alguma relação cainita na Longue Vue.

- Minha senhora... – cumprimenta com a cabeça apressadamente; ainda corria em seu sangue a euforia do péssimo encontro na escada – Todos estão presentes, madame. Estão sendo acomodados na biblioteca por Franz. – levanta o olhar e encara Helena de forma vacilante – Agora, se me permite emitir uma humilde opinião... Edgard nunca havia encostado um dedo em mim em respeito à senhora. Bem, acredito que ele tenha mudado alguns de seus conceitos.

Foi assim que ela passou o recado; para bom entendedor, meia palavra basta. Sem dizer mais nada, Ivica aguarda para descer as escadas junto à sua amada Helena.

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15 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Seg Mar 26, 2012 10:57 am


Não houve tempos para cortesias, pois logo o secretário da Primigênie surgiu no recinto e foi recomentado pela Harpia-Criança que acomodasse todos na biblioteca. Franz levou-as em silêncio tal qual a situação pedia, embora soubesse que gostasse de puxar assunto com todos, não era sempre que ele encontrava pretexto para falar com a Giovanni. Nada mais natural na medida que o clã de Veneza e seus gostos sempre foram algo que passasse uma sensação ruim para os cainitas que simplesmente assistiam de fora, ou melhor, tentavam assistir de fora. De fato, assim era melhor, permitia-lhe mais espaço para se concentrar nos diálogos que realmente lhe importavam.

Ao passar pelo hall de entrada percebeu alterações nas presenças na casa e com o canto dos olhos notou que o Brujah também se fizera presente e não sabia dizer se aquilo era bom ou ruim. Aliás, tinha que comentar que jamais entendera o que fazia naquela Primigênie... Ou melhor sabia, eles tentavam mantê-la sob seu controle, temendo a possibilidade que ela fosse comandar um exército de cadáveres e aparições para cima de suas cabeças mortas e apavoradas... Sabia que os cainitas em geral temiam que os Giovanni morriam de medo de seus experimentações com os definitivamente mortos, que isso resultasse numa maneira de colocar aqueles mortos pela metade sob seu controle. Era tudo baseado em controle. Ou pela falta dele. Então era isso que ela fazia naquela Primigênie, estava ali para que eles não a temessem, que achassem que suas meia-dúzia de palavras em votos de fidelidade à Camarilla iriam mantê-la com as cordas presas sob os dedos invisíveis de um príncipe mais apavorado do que todos.

Isabela não suportava medo, não suportava a incapacidade de alguns de superá-lo. Por isso não prestava qualquer respeito por aquele príncipe que podia, talvez, muito bem ser parte dos delírios de uma Malkaviana travestida de bons modos para terminar na piada do século.

Então, simplesmente abria a boca para agraciar-lhes os ouvidos com exatamente o que queriam ouvir e permanecia quieta, observando o rumo que a que as coisas iriam tomar. Aquela querela entre Ventrues e Toreadores era mais do que esperada. Numa cidade mal administrada em que o rebanho está morrendo - e é importante dizer que Isabela não fazia qualquer objeção a isto -, era normal que os administradores natos da Camarilla quisessem tomar alguma providência para manter o que lhes era tão sagrado para suas vidas. O Vitae. O rebanho estava se deteriorando. E quando o alimento é de má qualidade, que tipo de nutrientes é possível extrair dele. Portanto, todos estavam apavorados, sem o rebanho não eram nada além de bestas descontroladas, e ninguém ali podia esconder o terror de perderem o último resquício de humanidade que os ligavam àquele mundo que tentavam controlar.

Novamente o controle. Lá estavam o Rato e a Criança brincando de "o meu é maior que o seu", podia sentir nos olhares que mandavam um ao outro e o Brujah afastando-se escadas abaixo... O Brujah... Onde é que este fluxo de pensamentos tinha começado mesmo? Sim, no ancião Brujah, o explosivo Gregor que assim como os outros nunca demonstrara querer puxar assunto com ela. Exatamente como ela nunca demonstrara ter grande interesse no clã do ancião em questão.

Acomodou-se num canto da biblioteca enquanto aguardavam, Franz foi namorar qualquer livro e ela puxou de dentro de sua bolsa um pequeno bloco de anotações e uma caneta e começou a revirar dentro de suas próprias notas. Estava ficando impaciente com aquela demora, preferindo estar em qualquer outro lugar cuidando de assuntos que lhe interessavam mais a estar ali esperando a boa vontade de Helena para fazer qualquer coisa que seu príncipe de sombras quisesse que ela fizesse.

- Che spreco di tempo... - Ela suspirou e voltou o olhar para Franz, sua beleza cuidadosamente cultivada quanto aquelas obras de arte que ele tanto apreciava - Parlando di tempo, o signor secretário não acha que ele passa demasiado lentamente para nós? - E apoiou a cabeça nas mãos e o cotovelo no braço da poltrona, baixando o tom de voz para um sussurro. - Às vezes isso me incomoda, a você não?

Onde estava o problema de trocar palavras vazias... Mesmo naquele momento...

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16 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Qui Mar 29, 2012 10:50 pm


Naquele tempo de calmaria antes do furacão a cidade era mais agradável. Lembro-me de ser a senhora inconteste de todos em que Nova Orleans buscavam abrigo. É muito adequado expor suas críticas em meio à turbulência; no mínimo, é de se considerar como um ato oportunista. Hão sempre de ser maioria aqueles que adotam a comodidade das críticas sem sair de sua zona de conforto àqueles que se predispõe a tomar as dores e participar da luta ativa e dignamente. Helena deixa de ser “minha rainha” para virar “a louca” no primeiro sinal de um conflito. Nem Edgard, nem Royce, ou mesmo Isabela chegaram perto de conseguirem me enganar com suas falsas promessas de “vida longa à rainha”. Cada um deles, detentores de motivos personalíssimos para tal, não me inspiram a confiança de que preciso. Megalomania, cabeça quente e conveniência; desnecessário de minha parte ligar a coluna um à coluna dois. Apesar disso, todos eles dependem profundamente da Camarilla e são dos mais capazes Membros que se pode encontrar. Eles têm o meu respeito.

Tenho o Nosferatu à minha frente agora. Sem sombra de dúvidas, o melhor espécime que conheci em meus não poucos anos. Ele é arrojado e tem a mente aberta, o que não o impede de cair nos erros já citados. Acaba lançando uma provocação muito bem medida, devo admitir, tornando público aquele que deve ser o temor de todos da seita. A velha parábola da laranja podre que contamina as outras do cesto cairia como uma luva como embasamento de seus argumentos.

- Aquele que me repassa as ordens tem sapiência o suficiente para saber – e temer – que os Ventrue consigam mais aliados. Em seu nome tomarei as devidas precauções. – carrego na face a mesma melancolia de sempre quando devo passar uma ordem a qual preferia não ter que passar; sempre o mesmo olhar vacilante, a palavra que quase não nasce em meus lábios – Agora vá.

Olho em outra direção. As mãos no estofado macio do sofá são as âncoras a me segurar presencialmente ali, de tanto que vôo em pensamentos. Não acompanho Edgard se retirar, e sim fico a observar pela janela um casal de corvos a debandar em retirada da sacada da mansão. Seriam mesmo corvos ou pombas pintadas de preto? Não sei o que aconteceu com aquelas pombinhas tão brancas e simpáticas que nos faziam companhia. Talvez elas tenham nos abandonado, virado comida de Rato ou apenas foram devoradas pelos corvos, nunca dantes avistados em Garden District.

Meu repentino interesse nas aves que rodeiam Longue Vue não me cega os sentidos. Sou mestre naquela que deve ser a principal qualidade de um líder cainita: atenção à sua volta. Reconheço a voz de Franz e sua elegância, de Isabela e seu “interesse”, de Royce e sua implicância, de Edgard e sua rabugem e até mesmo da insípida Julliet, que se cala em seguida. Parada em frente à enorme janela de vidros da sala de estar, tocando o beiral com o umbigo e as pontas dos dedos, ouço tudo o que conversam entre si lá embaixo no primeiro piso, ajudada pelo fato de a biblioteca estar exatamente debaixo de meus pés. Consigo sentir através das vibrações que repercutem no piso de madeira que alguém de pouco peso sobe correndo as escadas. Ivica. A pequena é tão linda, tão maravilhosamente delicada e engenhosamente venenosa que não há como deixar de se engraçar pelos seus encantos. Deixo que faça seu relato como se aquilo tudo fosse novidade para mim. Ó, que gracinha que ela fica quando nervosa.

- Deixe Edgard comigo, Ivica, que eu me entendo com ele. – quando percebo já estou sorrindo para a pequena; aperto aquelas bochechas gostosas ao passo que dobro os joelhos para ficar na sua altura – Vamos esquecer todo o restante por ora. É melhor concentrarmos nossas forças na reunião agora, não é mesmo?

Minha fiel escudeira vai à frente, tendo minha mão repousada sobre seu ombro. Ivica me guia pela escadaria até a biblioteca, onde sem fazer nenhum grande alarde deixo que percebam minha presença. A criança permanece em pé parada próximo à porta, sendo sua responsabilidade cuidar para que não sejamos interrompidos. Aproximo-me de Franz e retiro o casaco de pele, entregando à ele em seguida. Um vislumbre em suas auras me diz o estado de espírito em que se encontram Ivica, Franz, Isabela, Julliet e Royce.

- Obrigado, Franz. – limpo minha expressão simpática antes de me virar novamente aos presentes; de sobrancelha arqueada dou início à nossa pequena reunião – Boa noite a todos. É sempre, um, prazer, ver que gozamos do mesmo interesse em relação aos assuntos internos da Camarilla.

Caminho de cabeça abaixada até o sofá mais confotável da biblioteca, aquele que Franz e todos os que realmente frequentam a mansão sabem ser meu. Não há porque perder mais tempo com protocolos pessoais, então sento com certa etiqueta e depois simplesmente deixo cair as costas sobre o encosto fofo.

- Os Ventrue são mesmo um pé no saco. – o prenúncio ilustra com perfeição o discurso que eu seguiria; balanço a cabeça de um lado para o outro lentamente – Eles não se contentaram mesmo em ver nosso sucesso em Nova Orleans. A cidade cresce depois da tragédia, temos os espíritos controlados – aponta Isabela com a mão estendida -, temos uma excelente rede de informações, servos leais e eficientes... Só não temos um Ventrue para nos esgotar a paciência na primigênie, então por isso “não servimos”.

Não focalizo a atenção para ninguém em específico; pelo contrário, concentro-me em manter o olhar baixo, sempre próximo ao chão, deixando claro que falo com todos ao mesmo tempo.

- Henry Freeman conseguiu os Gangrels ao seu lado, e esse é o motivo pelo qual não estão vendo nosso ilustríssimo ancião Selvagem aqui esta noite. – passo batida pelo assunto, já que não tinha mais paciência com aqueles traidores – Ele tem um guarda-costas com ele, mas não é só isso. Henry anunciou à cidade inteira que vai nos desalojar. Eles estão comprando as pessoas certas para o serviço, fazendo tudo conforme o protocolo Ventrue de ser.

- Enviei Edgard atrás de Henry e acredito que o teremos ainda essa noite. Mas precisamos ser mais rápidos ainda, estarmos sempre um passo a frente. – bato as mãos delicadamente contra os apoios do sofá e lanço o olhar vacilante para todos os presentes - Por favor, seria importante ouvirmos as reivindicações de todos os clãs presentes, bem como suas propostas perante tão delicado assunto. Saibam que os Toreadores estão completamente fiéis à Camarilla – olho para Franz por um segundo -, e que meu segundo passo será dado agora. Gregor, eu gostaria que você “contactasse” o advogado do senhor Freeman. Acredito que teremos muito o que conversar com ele.

Fico aguardando que todos eles expusessem seus pontos de vistas. Julliet também poderia emitir sua opinião como convidada, ainda que eu tenha certeza que ela se calará durante toda a reunião.

Continuo examinando a aura de cada um conforme expõem seus pensamentos.

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17 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Ter Abr 03, 2012 11:59 am

Tinha que admitir que temia consideravelmente Isabela Sforza. Diferentemente dele próprio, ela só abria a boca para falar o esperado, para as pessoas esperadas e no momento certo. O que não significava que fosse tola e deixasse as coisas escapar, não, pelo contrário, ela era esperta demais. Tinha calafrios quando a observava nas reuniões, parada e indecifrável como uma escultura neoclássica. Talvez por isso não conversasse com ela, a despeito de manter longos e inúteis papos com todos os membros, até mesmo os mais detestáveis. De certa forma, sabia que ela não engoliria sua pseudo-afetação, sua simpatia e seu pedantismo. Então, preferia ficar quieto. Ele também não era exatamente um estúpido e, bem, quando ainda era um neófito chegou a manter longas conversas com um grupo de vampiros franceses, Brujahs, que pregavam a morte a toda a família Giovanni. A ideia não lhe soara de todo má na época. O triste de se viver por tantos anos é perceber que, no fim, não mudamos nada, nada, em todo esse espaço de tempo. Ainda desconfiava. Estava se tornando um velhinho paranoico. Talvez por isso, a fala de Sforza dirigida a ele o sobressaltou. É claro, se recompôs rapidamente. Não era tão tolo a ponto de deixá-la perceber seu desconforto. De qualquer maneira, achava interessante que ela abrisse uma possibilidade de interação para ele. Talvez não fosse tão esperta assim, no final das contas. Sorriu calorosamente.

- Mais oui, mademoiselle Sforza. O tempo é duro pra nós. – deu um suspiro sentido que até o convenceu de que realmente sentia Mais comme jê l’ai dit le camarade Platão, “O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”. Assim o é. Para nós, fica só a eternidade imóvel, n’est-ce pas? Rien ne change...

E sorriu, mas para si mesmo do que para ela. Gostara de como aquela fala soara, simples, verdadeira e com conteúdo, como se estivesse representando. Era agradável. Não se cansava de se sentir impressionado com sua própria inteligência. Como já dito, os anos passam, mas nada muda. Continuava pedante como sempre fora, talvez até mais, agora que acumulara algumas toneladas de conhecimento.

Infelizmente teve que parar de se congratular mentalmente pelo incrível desempenho, com a chegada de Helena. Aprendera com o tempo que seria muito apreciado se ficasse quieto, sério, com as costas retas e fizesse o que mandassem sem maiores problemas. Como era um mísero secretário, nunca tinha muito o que fazer, então as reuniões da camarilla consistiam em postura endurecida, rija, costas retas, semblante sério, nada dos sorrisos falsos ou simpatia, todas essas coisas que fazem a não-vida mais suportável. Política era mesmo algo tedioso, mas já que já estava lá mesmo!...Levantou-se com a entrada de Helena e pegou seu casaco com tranquilidade. Não estava nem um pouco preocupado, e sabia que isso podia ser percebido por todos na sala, mas ora! Estava lá! Isso era o que importava.

Dobrou o casaco sobre o braço esquerdo e o acariciou com leveza. Era macio o bastante. Não se incomodou em examiná-lo. Helena não costumava usar coisas baratas ou falsificadas. Certamente era legítimo. Mas no que estava pensando? Deveria prestar atenção nas palavras da senescal. Voltou seus olhos para ela, atenciosos e bem abertos. Sabia o efeito positivo que alguém olhando com os olhos bem abertos podia fazer num interlocutor, principalmente um como Helena, ligeiramente tímido, pouco teatral e vacilante. Estava tão ocupado parecendo interessado que demorou para processar o sentido das palavras.

Helena já tinha terminado de falar quando finalmente percebeu o significado de tudo aquilo. Os Gangrel ajudando os Ventrue? Uma tentativa de desapropriação da Longue Vue? Mas aquilo era simplesmente um absurdo! Não tinha ideia de que a coisa toda fora tão longe! Mas era absurdo! Chegava a ser uma heresia... Não era possível que algum advogado realmente fizesse uma coisa dessas, entregar um patrimônio como Longue Vue nas mãos de uma empresa! Mas estava sendo tolo, é claro. Advogados são criaturas insípidas, sem o mínimo de sensibilidade, e que não entendem o valor de algo como aquela mansão. E o que é que eles queriam com isso, afinal, além de nos aborrecer? De repente, ficava preocupado. Talvez a situação não fosse tão simples como imaginara inicialmente.

Ah, agora sim, queria ficar cara a cara com Freeman, para um duelo de cavalheiros. Resolver aquilo com a força de seu florete! Mas estava fora de si, é claro. Jamais poderia entrar num duelo com alguém, e mal sabia usar um déjouer. Mas seria simplesmente perfeito se soubesse! Ah, se pudesse, que sensação bela a de um “Touchè!" no peito daquele tolo... Daquele maldito... A imagem surgia perfeitamente em sua cabeça. Que belo seria.

Mas não falou nada. Não queria correr o risco de ser mandado pra fazer o que imaginava. Olhou em volta, esperando que alguém falasse alguma coisa. Ele, como secretário, não devia abrir a boca. Além disso, a representante do clã era Helena.

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18 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Sab Abr 07, 2012 9:12 pm

Devo admitir que uma das coisas que mais me divertiam naquela Camarilla escrota era a vulnerabilidade e o complexo de superioridade da pirralha. Ela sequer tentava mascarar o fato de que era basicamente indefesa, mas ao mesmo tempo, ao se esconder debaixo das saias de Helena, ela pensava ter o direito de mandar e desmandar nas situações.

Só que pirralhice nunca foi o meu forte, então ela poderia ir brincar em outro lugar, porque eu não ia fazer o papel de tio bonzinho feliz por sua presença. Eu não era do tipo pedófilo e esperava mais era que ela se fodesse. Quanto mais longe de mim, melhor.

- Crianças, fedelha, só existem quando estão vivas. Você já não está a mais anos do que a vida de uma geração inteira, então não acho que se classifique como criança. Só um projeto de sanguessuga em miniatura, que nunca vai sair desse estado. Uma merda, né? – Disse, sorrindo forçadamente. – Ainda bem que eu nunca fui conhecido por ser um primor da ‘responsabilidade’.

Eu até pretendia alfinetar mais aquela coisinha minúscula, mas, no exato momento em que a minha frase terminou, um cheiro nada agradável me fez perceber uma nova presença nas proximidades. Virei-me a tempo de testemunhar a chegada triunfal do Xerife, sentindo um prazer enorme me invadir diante da perspectiva daquele encontro. A mão do feioso tocou a da pirralha e eu acho que nunca ri tanto e tão sinceramente desde que era vivo. Estava pouco me fodendo para o que ele tinha dito a ela, mas o olhar de puro horror, junto com a disparada num frenesi de horror, fez com que minhas gargalhadas seguissem a debandada da fedelha até a sala de sua protetora, ecoando pelos corredores.

- Grande Ed. – Saudei, após seu seco cumprimento com um menear de cabeça. O cara era feio e extremamente sério, mas meu respeito por ele era algo raro de se ver nas noites de hoje, simplesmente por ser sincero.

Não relutei em acompanhar o fresco para a sala de palhaçadas depois dessa cena. O riso ainda estava fresco em meu corpo morto, melhorando significativamente meu humor. Depois daquilo, eu até poderia aguentar uns dez minutos de baboseiras daquela maluca.

Escolhi uma cadeira daquelas cheias de frufru idiota, e me sentei, apoiando um dos pés no estofado tentando me fazer confortável. Eu sempre soube que Helena era biruta, mas metade do seu discurso me fez rolar os olhos compulsivamente. Sim, os Ventrue eram um pé no saco, mas eu queria saber onde estava o tal sucesso que ela declarava em nosso nome na cidade. Aquela merda estava um caos total, caindo aos pedaços, e aquela doida nunca dava um passo para fora do seu castelo encantado para se tocar da situação.


A noticia sobre os Gangrel me fez franzir o cenho gravemente em desconfiança. Era uma situação tão improvável que apenas um caso dessa união, durante toda a minha longa morte, chegara ao meu conhecimento. Um caso tão detestável quanto um Ventrue velho demais. Eu não era do tipo que acreditava em coincidências, mas, diante daquele fato, eu estava preferindo acreditar só na intenção de parar de pensar naquela merda.

Nem mesmo Ed seria o suficiente se eu estivesse correto, mas enfim. Não ia continuar naquela hipótese, e admito que a proposta da biruta em ouvir o que nós tínhamos a dizer me animou consideravelmente. Só até a fatídica frase.

A porcaria da frase que fodeu tudo.

- Gregor, eu gostaria que você “contactasse” o advogado do senhor Freeman. Acredito que teremos muito o que conversar com ele.

Eu? Contatar advogado? Entrar em contato com um almofadinhas estúpido e suas merdas burocráticas?

Aquela maluca só podia estar de sacanagem com a minha cara.

- Vamos fazer um trato. – Propus, calmamente. – Você quer que eu vá atrás desse palhaço para ‘conversar’, e eu sinceramente espero que você olhe para a minha cara agora e diga que é uma pegadinha. Como eu sei que isso não vai acontecer, eu só aceito ir atrás do engomadinho em uma condição.

Dei uma pausa caracteristicamente dramática e proposital, fitando a louca nos olhos com firmeza.

- Eu quero liberdade de abraço. Se é pra rolar barraco nessa porra, que eu tenha meu próprio batalhão sem precisar vir aqui ficar de cerimonia idiota na sua frente. O Príncipe não dá as caras para autorizar nem ver porra nenhuma, então se você acha que tem autoridade o suficiente para comandar todo esse teatro estúpido, eu sugiro que você me dê essa liberdade. A Camarilla tá mais frágil que aquela pirralha que você chama de Harpia e qualquer ventinho tomba essa merda, mas se tivermos um batalhão decente de Brujah como linha de frente, os Ventrue vão ter mais problemas para chegarem ao topo. Tudo o que você precisa é de uma horda de idiotas que tenham paixão pela causa, não é mesmo? Porque aqui dentro, se tiverem 3 ou 4 que ainda acreditam em sucesso é muito. A grande maioria não passa de um monte de velhote desiludido e sinceramente desesperado com a perspectiva da tomada de poder, e me incluo nessa. Ninguém quer ficar do lado perdedor, não é mesmo? Então pense nisso. Pense no seu exército.

Terminei meu discurso após trocar o pé que apoiava no estofado de veludo velho e caro da cadeira. Se Helena queria me sacanear, que me desse algo valioso em troca, porque eu sinceramente já estava de saco cheio de toda aquela palhaçada. Não nasci pra ser servente de fresco, muito menos de fresco maluco, então era melhor ela conseguir colhões para autorizar meu pedido. Era o mínimo que ela poderia fazer.

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19 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Dom Abr 08, 2012 12:34 pm

O secretário sobressaltou-se, é claro. Isabela trazia um sorriso cordial e educado na face. Por vezes ela era tão educada e cordial, sempre tão bem arrumada e com gestos bonitos e delicados que se assemelhava demais com uma Toreador. Mas eles não se enganavam e sabiam que por trás da beleza se escondia, camuflado por perfumes caros, o cheiro podre de quem mexe com a morte. E Isabela mexia com a morte, cantava, dançava e comungava com ela até o surgir da alvorada. Portanto, um Toreador autêntico, observador e com algumas perspicácia se sentiria incomodado em sua presença, mesmo sem saber porquê.

Ele respondeu puxando uma citação de Platão. Ele achava que ela se impressionava com filosofia? Não filosofia grega e muito menos Platão com seu mundinho de ideias... Ela estivera observando o Mundo Inferior por tempo demais para perceber, que, apesar de ter bons pensamento, o mundo de Platão estava muito longe de ser tão ideal quando queria que fosse. Não, ela não gostava de Platão, ou de qualquer pessoa que julgasse saber qualquer coisa sobre espíritos, almas ou fantasmagorias quaisquer baseados apenas em intuições patéticas.

O sorriso dela se desfez e ela já estava a tirar palavras da boca quando percebeu a aproximação dos outros.

- Que bom, então, que movimentamos esse tempo inútil e paramos de desperdiçar nosso enfado. - Ela disse para ver Helena se posicionando para seu pronunciamento.

Em silêncio ouviu a Senescal dizer o óbvio. Como sempre. Muitas vezes ouvia entre os visitantes do Elísio dizerem o quanto Helena inteligente. Talvez até devesse dar o braço a torcer para a Malkaviana recalcada, mas era obrigada a admitir que não se impressionava, e era em situações que fugiam ao seu controle que sua insegurança se revelava. Helena podia ser inteligente, mas não usava isso ao seu favor ao jogar fora todas as vantagens que seu admirável Clã lhe dava. Os spiritti raramente podem ser considerados sãos por quem habita o mundo dos vivos e é isso que os torna tão terríveis. Sob sua nova perspectiva podem muito bem ser chamados de loucos, insanos, traumatizados, etc., e assim são... imprevisíveis. Os Malkavianos com quem cruzara o caminho nestes quatro séculos de vida e que conseguiram de fato lhe despertar algum tipo de apreensão eram assim. Um era mais entediante que um Ventrue burocrata, tamanha a racionalidade, mas ele não negava a maldição de seu clã e Isabela sabia que ele era capaz de qualquer coisa. Helena tinha a mesma vantagem ao fazer de tudo para ser sã, mas deixava de lado aquilo que a tornava forte. Pelo seu próprio bem e pelo bem da Camarilla que ela tentava defender que ela soubesse usar sua loucura a seu favor, pois apenas aparentava que era escrava de seu próprio medo do caos que somente o Clã de Malkav é capaz de experienciar.

Ventrues são chatos, mas necessários à Camarilla. Não se fazem burocratas como um verdadeiro Ventrue. Portanto, ter um no poder era sempre muito útil. Eles fazem o que tem que fazer. Ponto. Se o Príncipe deseja manter seu trono na escuridão, que o faça, mas ponha alguém com maior capacidade de lidar com o inesperado. O tempo já tinha passado depois de Katrina e Isabela ainda encontrava almas perdidas para aprisionar. Sem dúvida a morte faz o fantasma e aqueles sabiam como fazer um rebuliço a sua volta. O trauma também fora violento e a cidade ainda não se recuperara e, para piorar, suas estruturas ainda estavam fracas. Helena assumia um pretenso sucesso, mas era incapaz de enxergá-lo. O que via era a pilha de cadáveres aumentando nos necrotérios. Na terra prometida, quando a promessa é negada, o que o rebanho faz? Qualquer ignorante pode responder isto.

Os Ventrue tinham até convencido os Gangrels a seguir do seu lado. Aquilo sim foi uma grata surpresa. Gangrels sempre são tão ariscos quanto gatos selvagens. Esperava que se mantivessem quietos esperando que a Camarilla se deteriorasse por completo e pudessem viver na independência que tanto procuravam. Mas se tinham resolvido tomar partido, aquilo apenas deixava tudo mais interessante. Ao menos os brutamontes teriam serventia ao ter em quem bater.

Por falar em brutamontes ouviu Gregor se pronunciar ao ser enviado para a linha de frente. Franziu o cenho de leve quando ele pediu liberdade de abraço em troca de sucesso em sua missão.

Quando ele terminou toda a sala ficou em silêncio aguardando a reação de Helena e Isabela resolveu dar a ela mais alguns argumentos para ponderar.

- Sou indiferente ao seu desejo de prógenie, Royce, mas tenho que dizer que não creio que um bando de infantes numa coleira irá fazer alguma diferença significativa na situação. - Disse, esforçando-se para eliminar o sotaque italiano da língua e então, pausou para unir as mãos em frente ao queixo e cruzar as pernas, voltando a falar antes que o Brujah resolvesse tomá-la como opositora naquele argumento. - Porém, tenho que concordar com você que as coisas não estão bem, aliás não estão nada bem. Posso estar com a visão embaralhada, mas não consigo enxergar tamanho sucesso. E vamos fingir que a constatação estapafúrdia de que isso pode ser chamado de sucesso não foi feita. Não posso bater palminhas quando tudo que vejo é um navio afundando e acredito todos aqui presentes são culpados por isso, pois preferimos ignorar a situação e prestarmos nossas atenções no que mais nos interessava. Preferindo salvar apenas o interesse pessoal de cada um.

Neste momento ela pausa e volta seu olhar para Helena, deixando um tempo para que todos engolissem o que falava.

- É por isso que devemos agradecer ao Ventrue "pé-no-saco" por terminar de jogar a merda no ventilador e fazê-la espirrar em nossas caras e, finalmente ver que por baixo desses belos papeis de parede, as estruturas estão ruindo. Não dá mais para ignorar e, Helena, apenas conter os danos, não vai ser suficiente e, sinceramente, espero que você não esteja acreditando que vai. Depois de Royce assustar o advogado o suficiente para demovê-lo da continuação de seu trabalho e depois que Edgar trouxer o Ventrue para prestação de contas sobre sua deslealdade, o que vai ser? Vamos voltar a tocar nossas vidas tal qual antes? Voltando a ignorar que problemas, sim, existem? Os Ventrue são um pé-no-saco mas eles estão dizendo algo que devemos considerar e apenas colocar um bandaid na situação não vai ajudar.

- Se estamos aqui é porque alguma disposição resta para consertar o que resta desse governo. Portanto, eu pergunto, Helena, o que de fato o Príncipe, ou você, ou quem quer que mande aqui vai fazer antes que nos enchamos dessa porcaria toda e nos voltemos para o outro lado?

Terminando, Isabela desvia o olhar da senescal e olha rapidamente para cada um dos presentes, por fim voltando seus olhos para ela. No fundo, bem no fundo ansiava por vê-la ceder a sua natureza e voltar a ser forte, mostrar que não estava ali apenas como um fantoche de um covarde.



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20 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Dom Abr 08, 2012 4:18 pm

Trechos em Palatino Linotype por Ivica Romanova


O que é o que é um monte de cadáveres de centenas de anos de idade que ainda andam sobre a terra, conspiram e desconfiam de sua própria sombra? A Camarilla. Há muito se perdeu a simplicidade das decisões dentro desse seleto grupo. O “sim” e o “não” moldaram-se em formas muito mais complexas, burocráticas, que emperram a engrenagem e apenas fazem acumular problemas que poderiam se resolver com uma única palavra. Naquele tempo em que o sangue de Malkav ainda se sobrepunha às minhas raízes Toreadoras, recebi a “iluminação” de que tantos falam. Pude entender os padrões óbvios mesmo nas questões filosóficas mais obscuras, e tal qual a função verdadeira dos padrões, eles seguiam uma mesma linha e que sempre culminava em uma resposta clara e objetiva. Acho que acabei perdendo esse conhecimento, pois a cada noite me sinto mais próxima do modo de agir desses à minha frente.

Vejamos Royce. Pelo senso comum desfavorável ao seu clã, ele teria se irritado e saído da sala de forma abrupta com minha ordem. Prefiro acreditar que ainda resta naqueles de seu sangue a necessidade da boa discussão. Talvez alguns “por quês” fossem dirigidos à mim na ânsia de resolver dúvidas que deixaram lacunas em seu raciocínio. Nada disso. Ele quis negociar comigo – o que sinceramente acho de uma decadência avançada. Seu áspero palavreado causa sobressaltos em mim a cada xingamento proferido. Que deselegância, senhor Gregor! Percebo também que ele insistia em manter os pés sujos sobre a mobília onde se encontrava. Faça um gesto com o dedo indicador chamando Franz ao meu lado, e ao pé de seu ouvido ordeno que ele tome uma providência para acabar com a total falta de postura do ancião Brujah. Não pude eu mesma tomar a referida providência por conta da Giovanni ter dado início aos seus argumentos.

Isabela causava desconfortos em muitos, isso não é novidade. Seja por seus modos requintadamente sinistos ao lidar com seus semelhantes, ou a graciosidade do funesto papel de guardiã dos mortos, a presença da anciã italiana transforma o clima mais alegre em uma ocasião fúnebre - não que esta fosse uma ocasião alegre. As poucas palavras que profere a cada encontro tornam seu ponto de vista sempre algo a se considerar, e ao vestir o mesmo ponto de vista que tenho sobre o pedido de Gregor – sobre o qual me pronunciarei mais à frente – ela captou minha confiança em seu posicionamento. Mas bastou seguir em seu discurso para comprovarmos que ela na verdade está do lado dos burocratas. O olhar outrora vacilante que eu portava passou a demonstrar minha total incredulidade em suas palavras. De sobrancelhas erguidas e boquiaberta, exteorizei minha reação com o que eu achava disso tudo. Ao menos assim procurei me expressar, visto que suas auras e intenções já não haviam escapado dos meus aupícios desde o início da noite e bem antes disso também.

- Isabela, se me permite chamá-la assim – toquei o meu colo pedindo desculpas pela intimidade requerida -, você conseguiu me surpreender com suas palavras. Como assim a estrutura está ruindo? – bati com com pouca força minhas mãos sobre os encostos de braços do sofá e fiz a mesma pose incrédula de antes – Por acaso você não tem conseguido contato com seus mortos? Por acaso o Garden District não tem se reerguido com restaurações? A Nova Orleans que eu vejo prospera sim! – cruzo as pernas e apóio o queixo com um dos punhos, cotovelo no apoio do sofá; retiro meu olhar da ingrata e passo a me concentrar num pedaço qualquer do chão que com certeza seria mais agradecido à mim do que ela o é – Se eu fosse interessada naquelas planilhas humanas repletas de números, porcentagens, lucros... Repletas daquela chatice – gesticulo repetidas vezes com a mão livre ao falar “chatice” – vocês veriam que temos taxas de emprego e crescimento muito adequadas ao restante do país. – passo a olhar os presentes um por um - Nosso rebanho prospera é feliz por conta da qualidade de vida da qual gozam aqui, com nossa cultura extremamente rica e tradicional, que, aliás, desde sempre foi bancada por nós, Toreadores. Pensem nisso, mesmo que seja difícil de admitir no começo.

Bufaria se pudesse, mas estou morta e não tenho mais um pulmão. Dois pulmões, melhor dizendo. Meu tom de voz subiu um pouco, tenho vergonha em dizer isso, mas também não fui desrespeitosa com ela ou proferi o apelido pejorativo das fezes humanas, assim como ela o o outro fizeram. Sabendo ter fixado minha opinião da melhor maneira possível, prossegui no raciocínio já com mais parcimônia.

- Acredite em quem está aqui há mais tempo que vocês. – eu. – Temos uma jóia de cidade em mãos, e mais do que ninguém eu quero o melhor para todos do rebanho e de nossa sociedade. – recomponho a postura perfeita – Infelizmente os boatos e a falta de informações corretas fizeram com que vocês acreditassem em inverdades. Parte disso é culpa minha. – viro-me em direção à porta onde está meu pequeno amorzinho – Ivica, querida, de agora em diante tu serás a mensageira de cada decisão tomada na Longue Vue, devendo se apressar em levar os informes ao senhor Gregor e à Isabela.


Quanta indelicadeza eu ouvi essa noite... Gregor é um canastrão, mas se superou hoje e ainda anseio pela resposta de seu pedido absurdo. Isabela foi quem mais me surpreendeu, e por quê não, fez com que eu temesse pelo futuro. Vejo a anciã se aliando aos Ventrue depois de seu discurso de hoje. Rezo para que apenas tenha “forçado a barra” para conseguir algo a mais de Helena.

Minha senhora se dirigiu à mim, pedindo que eu fosse o canal de comunicação Longue Vue-Primigênie. Ótima idéia. Espere sentado por meus relatórios, senhor Brujah.

Aceno um “sim” com a cabeça sem desfazer a postura que mantinha.



- Muito bem. Sobre o seu pedido, senhor Gregor, acredito que é uma proposta destinada ao fracasso. Como todos sabemos, somente o Príncipe pode dar tal ordem, e eu recebi orientações explícitas em sentido contrário. No entanto, arriscando-me a sofrer consequências por tal decisão, eu, Helena de Vries, senescal do Principado de Nova Orleans, extrapolando das atribuições que me são de direito, autorizo que mantenha consigo um, e somente um pupilo sob sua tutela, sem a necessidade de pré-aprovação ou de apresentação imediata. – olho vacilante para Isabela – Se for de seu interesse, poderás fazer o mesmo. Já sobre o pedido de ações práticas... Acredito firmemente que devemos contragolpeá-los tomando o controle sobre o escritório por detrás das desapropriações. Já a presença do senhor Freeman nos permitirá agir pelo caminho reto, sentando e conversando com um Ventrue. Acredito que todos nós concodamos em manter mais de uma linha de ação, não é mesmo?

Estava para dar a palavra à Primigênie novamente quando me lembro do deplorável “problema Gangrel”. Quase suspiro em desgosto, contentando-me em revirar os olhos na falta do ar.

- Ah, sim. Não podemos nos esquecer dos Selvagens. Aqueles que se encontrem apoiando os Ventrue nessa revolta, novos ou velhos conhecidos, deverão ser caçados e destruídos. Ordens superiores. Na verdade as ordens mencionavam algo sobre “cabeças em bandejas de prata”, mas acabei achando piegas demais essa parte. Enfim... – volto-me para a Giovanni; levo o indicador à boca tentando me recordar de alguns fatos passados – Isabela, se bem me lembro, há alguns fantasmas na área de Lakefront. Concordas que seria de boa monta uma investida naquela área, não? Se você pudesse controlá-los e orientá-los a se manterem atentos à movimentação dos Selvagens nas áreas selvagens de nosso território, seria perfeito.

Aproveito a pequena pausa para passar telepaticamente um lembrete para meu estimado Franz. Os Toreadores também teriam seu papel no embate, afinal.



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21 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Qui Abr 12, 2012 4:28 pm

O ancião Brujah falava, e falava e falava, e tudo o que Franz conseguia ver era seu pé enorme e grosseiro apoiado em cima de um estofado elisabetano feito a mão, que podia muito bem se acomodar perfeitamente a um Shakespeare no ano de sua estréia, isso é, se eles usassem cenários então. Como era possível que alguém fosse bruto, grosseiro e nojento a ponto de destruir um trabalho artesanal de real valor apenas por um pretenso conforto – sim, porque supunha que o escroto tentava se colocar confortável, o que não fazia sentido algum, considerando que a posição mais confortável sempre é em pé, com a coluna ereta e os ombros balanceados, de preferência dentro de roupas confortáveis e um sapato de verniz. Sinceramente, não entendia o porque alguém se dera ao trabalho de agraciar com a não-vida a uma criatura como Gregor, mas, enfim, o malfeito já estava feito e, bem, custava a admitir, mas já estava feito há mais tempo do que ele próprio! Haveria muito poucos vampiros se apenas os realmente merecedores fossem abraçados, e precisavam de massa de manobra para sobreviver, infelizmente! Mas, é claro, Helena entendia. Ele deu um sorriso verdadeiramente animado ao receber a ordem e, pomposo, se dirigiu ao brutamontes. Não tinha muita certeza de qual tipo de atitude deveria ter em relação a ele, e tinha quase certeza de que seus esforços seriam infrutíferos, mas era sempre bom tentar. Pousou levemente a mão sobre o ombro do Brujah e abaixou-se a altura de seu ouvido esquerdo, para sussurrar pomposamente – afinal, não se deve perder a classe, nem a educação, e Sforza estava falando. Mas é claro, não era nada importante. Nem se deu ao trabalho de ouvir.

- Gregor, por favor, tenha modos. Tire esse pé da cadeira, se ainda gosta do formato que ele tem.

Pronto. Simples, objetivo, com uma ligeira insinuação de violência para que o babaca compreendesse. É claro, não seria ele que daria um jeito no pé de Gregor caso ele não o tirasse dali, mas isso já não era mais problema seu. Endireitou sua postura, ainda olhando reprovadoramente para o grosseirão. Sentia que tinha que agir com ele como se fosse com uma criança. Lhe daria umas palmadas, se pudesse. A idéia lhe deu vontade de rir, e ele torceu os lábios para evitar uma gargalhada num momento totalmente inapropriado. Imaginara Gregor com as calças arriadas, levando umas palmadas no traseiro como se faz com moleques mal-educados. Que engraçado .

Voltou a perceber o que estava acontecendo já no fim da fala de Sforza e conteve um arregalar de olhos ao que ela disse. Então era isso? Bem diziam que deveríamos matar todos os Giovanni com requintes de crueldade e, é claro, de uma maneira que eles não voltem. Afinal, eles tem essa péssima mania. Impressionante como eram ardilosos e mercenários, era isso, eram mercenários. E pensar que chegara a ter Sforza em alta conta, mesmo tendo percebido que ela não se impressionava com Platão, o que denotava uma mente bastante menos evoluído do que o que ele a atribuía. E ela vinha com esse papinho agora! Voltou seus olhos para Helena e ouviu com alegria suas palavras contundentes contra a possível e escrota traidorazinha. Ah, era por isso que não devia se meter com política! Já estava se enchendo de sentimentos desagradáveis em relação aos outros membros. Mas, é claro, isso não o impediria jamais de ser cordial.

Perdeu-se em reminiscências durante a fala da Senescal. De fato, não se importava muito com aquilo tudo. Mas a voz de Helena dentro de sua mente, trazendo uma bela notícia, o tirou de seus pensamentos e filosofias do absurdo para lhe dar um sorrisinho leve ao rosto. Então, poderia escolher alguém? Já fazia algum tempo mesmo que pensava em abraçar alguém, é claro, uma pessoa cordial, bela e educada, com todos os pontos utilizáveis da finesse, alguém que realmente merecia a não-vida... E criaria uma obra de arte andante e eterna, como a pequena Ivica, por exemplo. Seria ótimo. De alguma coisa toda aquela situação estava servindo. Voltou a mergulhar em seus pensamentos, com um sorriso leve brincando em seu rosto agora. Não ia mesmo conseguir prestar atenção naquela reunião inútil.

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22 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Sex Abr 27, 2012 12:02 am

Gostei dessa dona Sforza. Mulher de atitude, falou o que tinha em mente cheia de classe, mas sem pudor nenhum. Mereceu meu respeito, ainda mais por eu concordar com a sua visão. Gosto de mulheres com atitude.

Aquela cidade estava uma zona generalizada e, pelo discurso de Helena, pude perceber que ela era ainda mais maluca do que eu imaginava.

Como assim ela não conseguia perceber o que acontecia de baixo do seu próprio nariz? Porque nem mesmo perfume francês chique e caro, essas porcarias que com certeza ela devia colecionar, conseguem disfarçar o cheiro de merda. Ela ia continuar com suas palhaçadas e alucinações, mas a Camarilla não era governada por ela, ou pelo menos, não deveria ser, e nós tínhamos o direito de reclamar diretamente com alguém que se importasse.

- Onde está a porra do Príncipe? Vai ficar se escondendo até quando? A dona Sforza falou bonito, a Camarilla na sua mão está virando um caos e não vejo vossa senhoria se importando. Continua com as mesmas ilusões precárias de que tudo está bem, mas sequer dá um passo fora da sua casa de bonecas para constatar isso. Eu vivo nas ruas, madame e o que eu vejo não é um rebanho feliz. – Declarei, após seu discurso idiota. – Não são boatos que estão fundamentando o que está sendo dito, são fatos. E não adianta você tentar mascarar com um discursinho medíocre o que está tentando jogar debaixo do tapete. Essa cidade está uma merda e se continuar assim, não vai ser difícil pra Ventrue filho da puta nenhum tomar conta. Porque é isso o que eles fazem. Abre os olhos, Helena. Não se afoga no seu delírio de ‘tudo bem, tudo lindo’ ou senão vamos acabar todos fodidos.

Eu estava com raiva, o que era óbvio. Não sou criança para tentar ser enganado com argumentos infundados, muito menos para ficar sendo manipulado como fantoche. A intenção dela de me agradar, se fazendo de uma falsa autoridade ao me dar o direito de uma cria, quase me fez rir da sua cara de sonsa. Helena era, sim, uma grande e hipócrita sonsa.

Estou nessa cidade há eras e nunca vi cara de Príncipe nenhum. Não me surpreenderia se ela surgisse com uma escultura milenar e dissesse que era ele o aclamado governante que se comunicava com ela. Mas, se isso ocorresse, teríamos um grande problema.

Eu pretendia falar mais. Tinha muito a ser dito, na realidade, ainda mais com a dos fantasmas me apoiando. Um Brujah sozinho é sempre o rebelde sem causa, o anarquista inconsequente. Um Brujah acompanhado, ainda mais por uma Giovanni, era uma história completamente diferente.

Percebi que a louca cochichava com seu fiel escudeiro, o Fresco, mas nem liguei para tal fato no momento. Até aquele desgraçado resolver que era uma boa oportunidade de abrir sua boca miserável, no mínimo achando que eu tinha cara de babaca.

- Gregor, por favor, tenha modos. Tire esse pé da cadeira, se ainda gosta do formato que ele tem. – Foi o que ele falou.

E eu tinha a certeza de que ele ia decidir não ter dito.

Meus olhos se fixaram nos dele enquanto eu esfreguei o coturno com mais força no veludo estúpido do estofado, sem fazer movimento algum para retirar meu pé do local. Um sorriso extremamente desagradável surgiu em meus lábios, enquanto eu me esparramava ainda mais confortavelmente na cadeira.

- Você quer que eu enfie aonde, fresco? Na sua cara? Porque você pode ter a certeza de que se ele não for parar no meio dessa sua fuça inútil, ele vai continuar aqui tendo o mesmo formato que tem. Não vai ser você quem vai mudar isso.

Eu queria ver se ele era inteligente o suficiente para entender o recado, se ainda quisesse manter aquela cara de pelicano com seu enorme nariz intacto.

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23 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Sex Abr 27, 2012 10:58 am

A fala de Helena serviu para me mostrar o quão insuficiente se tornara para aquela cidade. Vivendo ainda presa num mundo anterior ao caos, num mundo em que ainda não tinham visto as forças maiores revelarem o quão insignificantes eram todos, cainitas ou rebanho. Todos que ali estavam tinham ouvido o rugir dos céus e viram paredes ventosas com vontade própria derrubar limites e fronteiras. O mundo que conheciam tinha afundado debaixo das águas sujas da tormenta. Não, o mundo deixa de ser o mesmo quando o teto de concreto, monótono e estável, é arrancado de cima de nossas cabeças para dar vistas ao teto verdadeiro, tempestuoso e indomável, um teto que grita e se move conforme sua própria vontade, independente de leis e dos designios do homem, vivo ou morto.

Isabela, sempre procurando pela morte, constantemente visitava localidades devastadas pela natureza. Havia algo naqueles espíritos que tinham suas vidas consumidas pelo caos que a fascinava. Mas em Nova Orleans, fora a primeira vez que ela mesma sobreviveu a um desastre natural. Ao ver o mundo sendo devastado deu-lhe a sensação de que as finas membranas do mundo inferior finalmente tinha se rompido. Fora uma experiência única que não trocaria por nada, mas um mínimo instinto de sobrevivência a fazia gritar que não queria viver de novo. Aquele relance do mundo inferior, imaginário ou não, a fez perceber que aquela terra fora remexida para nunca mais voltar ao seu estado natural. Mas ninguém ali parecia perceber, ou sentir. Depois de tamanho trauma não há nada a fazer senão curar-se pela assimilação das cicatrizes. Maquiá-las não é certo. É ofensivo.

Com a expressão impassível ouviu a tréplica da Senescal. Apesar das suas esperanças, não se surpreendeu com a veemente negação do ponto de vista dos outros. Arrogância, insegurança desmedida ou delírio desesperado? Talvez ela não estivesse tão distante de seu clã quanto fazia parecer. Isabela antecipava já a sua retirada mandando todos a merda, se o príncipe fizesse questão de sua serventia, que viesse ele mesmo dizer. Seu problema, era importante deixar claro, não era com o suposto príncipe mas com sua suposta senescal. Queria ver outro com mais competência em seu lugar, alguém que realmente agisse como a função pedia, como um secretário e porta-voz, nada além disso. Helena passava dos limites ao autorizar o abraço para Gregor, certamente apenas para acalmar o Brujah, mas não se dá o agrado para o cachorro enquanto ele ainda late. E Gregor ainda latia.

Sem desviar o olhar de Helena, ouviu as palavras dele novamente a afirmar que as coisas iam mal.

- Isto está errado... Dois membros desta Primigênie lhe trazem reclamações e você fecha os ouvidos, sequer leva em consideração o que lhe dizemos, sequer pede mais informações sobre a situação que relatamos. - Uma pausa. - Não é assim que você trata aqueles que seguram a coroa sobre sua cabeça, com descaso e desdém. - Ela falou lentamente, com um tom semelhante ao que se usa com alguém que tem dificuldades de entendimento, com uma criança, talvez com um louco. - Sim, cara mia, enquanto você está aqui dentro rodeada por suas lindas obras de arte, suas salas ricamente decoradas, usando suas jóias e peles, olhando da janela seus jardins mantidos por paisagistas... nós, seus representantes estamos lá reproduzindo seu discurso vazio: “Está tudo bem, vejam como os canteiros estão floridos”. - Outra pausa e Isabela se inclinou para frente e procurou manter o mesmo tom, o que levou sua fala durar o dobro de tempo. Será que Helena ia se irritar e interrompê-la num ataque de fúria? Era exatamente o que estava esperando. - Bem, sinto tornar a dizer: Nova Orleans não se resume a Garden District e suas mansões, aliás, é o que menos importa. Você já perdeu a credibilidade com dois clãs. Mas por que nos preocuparmos: - Eleva o tom de voz num falsete: - ”Eles são tão chatos, estamos melhor sem eles para estragar nossa brincadeira com estatísticas chatas, que brinquem sozinhos com seus cãezinhos, temos lindos quadros para contemplar.” - Será que já tinha desrespeitado-a o suficiente? Podia ver os Toreadores presentes arregalando os olhos com sua ousadia e ao mirar Ivica de relance pensou numa Tzimisce que conhecera certa vez, também artista, que adorava usar crianças como sua matéria prima, uma coisinha tão deformada quanto aquela iria ser magnífica.

- Um conselho de amiga, ainda estamos aqui, ainda estamos do seu lado. Mas por quanto tempo? Papéis-de-parede não seguram estrutura, e a estrutura do seu governo está ruindo. E veja que aquele Ventrue chato e sem-graça ainda nem começou a agir de fato. Apenas com o lançamento de algumas ideias ele já conseguiu ruir este governo. Mas não vamos congratulá-lo, é você quem merece os aplausos. Afinal, foi você (na ausência do Príncipe) que deixou as coisas chegarem nesse ponto...

Um leve sussurro em seus ouvidos, fez com que virasse a cabeça noutra direção, desviou sua atenção para outros acontecimentos e levaram sua mente a pensar o que acontecia em outro canto da cidade. Sussurrou de volta na língua que apenas os verdadeiramente mortos poderiam compreender.

Retornando sua atenção para os meio-mortos. - Os mortos simplesmente não respeitam os assuntos dos vivos. Não adianta o quanto tentemos educá-los, simplesmente fazem o que querem. - Disse com um meio sorriso no rosto e um ar despreocupado. - Sobre Lakefront, cansei de bancar a adestradora de fantasmas. Se quiser domá-los faça-o você mesma ou arranje outro meio de conseguir suas informações, pois tenho outros planos para eles..

Descruzou as perner, ergueu a coluna e bateu de leve as mãos nos joelhos.

- Agora, Helena, você vai levar em consideração algo que eu disse ou vai resumir tudo em uma série de asneiras e deixar para lá? Se não quiser considerar, apenas fale logo para que eu possa dar por encerrada esta perda de tempo.

Já estava com a bolsa em mãos, pronta para se retirar do recinto. Mas não sem antes lançar um brevíssimo, mas significativo olhar para Gregor e anunciando que era uma causa perdida.

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24 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Seg Abr 30, 2012 4:29 pm

- Vão para o inferno vocês dois, seus filhotinhos de merda! Pensam que são quem para falar assim comigo? Deveriam agradecer pela chance que dei aos dois aqui nessa cidade, e ao invés de abrirem a boca para exteriorizem diarréias mentais, deveriam se ajoelhar e venerar pela minha piedade em deixá-los pisar na cidade. Malditos ingratos!

Não, não foi o que eu disse. Dei meu corpo para destilarem seus venenos, quieta, mantendo a expressão de quem está assustada e sem entender nada. Com o cotovelo no apoio do sofá e o queixo apoiado na mão, assisti suas apresentações medíocres sobre um estado caótico imaginário. Por Caim, eu juro que esperava pressão em relação ao assunto Príncipe – disco arranhado -, mas tamanha animosidade vir de encontro a um suposto desequilíbrio na cidade e em seu rebanho foi algo inesperadamente imbecil. Eles só podem ser loucos. Ao que tudo indica, Malkav expurgou a doença em mim e teve que cuspí-la em mais alguém, só para equilibrar as coisas. “Não há Sabá na cidade, seus ingratos”, é o que eu mais repetia em minha cabeça ao ouvir aqueles impropérios. Fomos destroçados por um furacão e nos reerguemos, mesmo que tenha demorado um pouco mais da conta. A minha vontade é de pedir por um exemplo do tal caos de que tanto fazem alarde; infelizmente seria dar murro em ponta de faca em se tratando desses dois. Não há tumultos generalizados, ou lupinos à solta, ou Sabá conspirando, ou caçadores espertos, ou fantasmas como num filme dos Ghostbusters... Mas nada disso parece entrar na cabeça desses dois. Obrigada, Malkav, por "equilibrar as coisas".

Os Ventrue expuseram nossas fraquezas? Sim, porque esse é a merda do trabalho deles. Existe administração perfeita? Não, pois nem Caim, nosso pai, foi perfeito. Então ao invés de sentarem e discutirem o assunto Ventrue com delicadeza, sapiência e criatividade, cospem besteiras ofensivas a torto e a direito em minha direção. Se eles pensam que desagradar a Senescal vai tornar as coisas fáceis para eles, estão muito enganados. O que fizeram comigo foi um desrespeito total, a que a tradição vampírica exige punição. Talvez pudéssemos resolver isso juntamente com outra pendência, a do Principe. Não é o que tanto queriam?

Respostas deveriam ser dadas. Prefiro ignorar a má educação de Gregor perante a mobília da Longue Vue e tentar ser breve no recado a ser passado.

- Primeiramente, não sejam estúpidos de achar que minha postura implica em falta de respeitabilidade. Eu sou a chefe de vocês dois aqui e exijo respeito ao tratarem comigo. Segundo... – volto-me somente para Isabela – Não sou sua amiga; sou sim sua superior. Sou mais velha, mais experiente e mais poderosa que você. Mais inteligente também, ao que parece, pois jamais iria expor minha opinião personalíssima sobre alguém em uma reunião de primigênie. Tais reuniões são específicas para tratarem de assuntos urgentes e não velhas picuinhas.

Levanto-me do sofá e caminho ereta por entre os insurgentes completamente despida do “disfarce” de frágil que tenho o costume de adotar; tal disfarce serve para não espantar os menos poderosos de perto de mim. Lembro-me do vampiro que me doutrinou nos ensinamentos Toreadores, e em como ele dizia que depois de dois séculos finalmente eu havia conseguido aprender por completo o truque de respeitabilidade de seu clã. Dizia também que eu brilhava quando parecia determinada: meu cabelo reluzia, os dentes tornavam-se pérolas brilhantes e os olhos ardiam com a chama da determinação. Por mais de uma vez fiz com que outros se ajoelhassem em minha presença, implorando pela minha aprovação. Falta pouco para que eu utilize esse expediente contra Royce e Isabela; o que me impede de fazê-lo agora é que prefiro esgotar minhas alternativas racionais antes de acabar com a honra de ambos.

- Não conseguiremos nos sincronizar enquanto não resolvermos algumas pendências. – passo uma rápida ordem mental a Franz, continuando com o discurso em seguida - Estão tão cegos em relação ao “caos da cidade” quanto afirmam que eu estou. O meu problema é com os Venture; o de vocês dois é com o secretismo do assunto “Príncipe”. Nossos problemas parecem nos cegar de diferentes formas, em diferentes níveis. – uma pequena pausa – Gregor, você tem sua ordens. Gostando ou não delas terá que cumprí-las. Independentemente do senhor Freeman passar a noite conosco, seus advogados são um assunto à parte, devendo ser “orientados” por nós devidamente. Não quero ter que lembrá-lo dessa ordem de novo, Royce. – foco em seus olhos e vejo como eles deixavam o Brujah com um ar pueril.

Caminhava de um lado ao outro, de Isabela para Royce, sempre olhando de cima a baixo e impondo a devida respeitabilidade que o poder de meu sangue me fornece. Não pisco, não desvio o olhar, não faço um movimento não calculado com o corpo. Sei que a perfeição da postura pode me dar ares de louca, mas não é assim que me tratam? Pelo menos prendo a atenção de todos até a revelação pela qual tanto ansiavam.

- Pois bem, vamos nos encontrar com o Príncipe.

Observo a reação de suas auras com a notícia bombástica, para saber o que realmente pensavam sobre isso – ainda acho que apenas gostam de me encher o saco com esse blá-blá-blá incansável.

- Mas há algumas condições... Terá que ser um por vez, obviamente. Quero também apoio incondicional na empreitada contra os Ventrue, bem como que me tragam exemplos das ruas sobre esse suposto estado de caos do qual fazem tanto alarde. Vai ver meus incontáveis servos deixaram passar algum reporte importante que não tenha escapado ao conhecimento de vocês. E é claro... – volto-me para Isabela com um ar aristocrático maior do que ela jamais terá - ...há a questão do rispetto per la gerarchia a ser resolvida. Querida Giovanni, venha comigo para que recebas sua iluminação quanto ao assunto Príncipe. O próprio em pessoa vai lhe dizer como reparar sua ofensividade e ironias com a Senescal da Casa Toreador em Nova Orleans.

Aproximo-me da porta e da pequena Ivica, parando com a mão sobre seu couro cabeludo.

- Venha, Giovanni. Não temos a noite toda.

Espero que Franz tenha seguido minhas ordens com rapidez, afinal, temos muito mais coisas a fazermos esta noite. Espero também que Gregor e Sforza parem com o joguete de implicância e que possamos dar seguimento às ações, já que é isso o que tanto almejam.

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25 Re: Mansão Longue Vue (Elísio) em Seg Maio 14, 2012 8:52 pm

Ignorou Gregor obstinada e completamente, por dois motivos. O primeiro, e mais óbvio, é que não tratava com animais. E, é claro, não animal no sentido bom e agradável, como a maioria das metáforas em línguas latinas, num sentido que ampliasse alguma qualidade marcante, não, não era isso realmente. Mas animal no sentido do grosseiro, do grotesco, do pouco evoluído, enfim, quase no sentido imperial de sujo, baixo ou reles. Não perderia mais nenhum precioso segundo com aquela criatura que não parecia ter mais do que meia dúzia de neurônicos recalcitrantes que vez por outra se juntavam para cuspir frases escrotas e palavras de baixo calão – o máximo da capacidade criativa daquele cérebro digno de pena, que obviamente não gastara nem sequer um segundo do amontoado de anos que era sua vida vazia para adquirir alguma erudição. Seria engraçado se não fosse trágico.

O segundo motivo, esse um pouco mais grave e definitivamente mais surpreendente, foi a imobilização involuntária de seu maxilar frente às palavras de profunda estupidez que Sforza dizia. Sabia que travar os ossos da região da mandíbula era um indicativo de raiva, mas certamente raiva era o mais comum dos sentimentos numa situação como aquela. Mas, é claro, faziam mais de cinquenta anos desde a última vez que sentira uma comoção tão grandiosa e aquela lamentável vontade de bater a cabeça de alguém contra a parede até que os miolos se espalhassem numa mistura colorida de massa cinzenta, pus, sangue e cabelos. Não tinha orgulho nenhum disso, e estava honestamente pasmo com essa situação. Quase podia sentir o cheiro mais do que agradável de miolos e concreto. Mas, é claro, jamais faria tal coisa. Primeiramente porque já sabia de experiências anteriores que não era capaz de literalmente estourar a cabeça de alguém contra a parede sem sujar suas mãos, e também porque não seria correta numa situação como aquela, uma reunião política entre pessoas esclarecidas, tal demonstração de violência de sua parte, logo ele!

Contudo, se pensasse bem, aquela não era realmente uma reunião de pessoas esclarecidas, podia perceber agora. Já esperava de Gregor toda a rebeldia sem embasamento teórico, aliada a uma quantidade de grosserias e burrice generalizada. Mas definitivamente não esperava de Sforza, alguém que ele sempre achara fina, correta, quase elegante; e que supusera ter algum cérebro, embora comprometido com coisas devastadoramente áridas, tamanha demonstração de estupidez. Aquela reunião era quase a confirmação de sua tese de que sem arte o cérebro fenece na barbárie. Infelizmente, Helena não estava demonstrando seu agradável brilhantismo nessa noite, Ivica estava calada e a Tremere, de quem podíamos esperar sempre algumas frases interessantes, bem, era como se nem estivesse presente! Na verdade, até se esquecera de sua existência! E ele, bom, ele não podia falar, senão cairia na tentação de estourar os miolos de alguém, nem que fossem seus próprios!

Graças aos céus, Helena estava falando. Mesmo que não estivesse mostrando sua bela mente superior naquela noite, sua voz era como bálsamo naquela selva de grasnados sem sentido de Gregor e Sforza. Seu maxilar já estava relaxando, enquanto ouvia as palavras duras dirigidas aos dois babacas. E, ah! Como ficava bela quando mostrava sua verdadeira face! Era realmente uma mulher incrível, aquela Helena.

Antes que relaxasse totalmente, recebeu a ordem da Senescal e, com uma aceno de cabeça que não escondia seu alívio em sair daquele ambiente sufocante, venceu os oito passos que o separavam da porta e saiu com pressa, rangendo os dentes. Ao sair para o hall principal, quase sentiu vontade de suspirar, e se reservou o direito de dar uma risadinha de todos os seus sentimentos desencontrados. Afinal, um suspiro seu agora seria apenas um sopro forçado de ar com cheiro de morte, vindo de pulmões atrofiados. Puxou os punhos da camisa e subiu as escadas apressado. Imaginava que teria ainda algum tempo, até Helena terminar de dar um sermão no casal da insatisfação, mas tinha que se apressar, já que não sabia exatamente onde estava o carniçal. A sala do Príncipe sabia bem onde era, embora ele também nunca tivesse visto a criatura. Não o interessava, realmente. Nada daquilo o interessava, nem vagamente. Mas tinha seu trabalho a cumprir, e um dia as parcas o diriam o por quê.

Depois de uma rápida passada de olhos pela mansão, encontrou o ‘homem‘, como a própria Helena o chamava, vagando próximo à sala de estudo. Trocou com ele algumas poucas palavras vagas – gostava de perder tempo com carniçais tanto quanto com membro estúpidos; e se dirigiu à frente do cômodo do príncipe, agora ligeiramente animado com as possibilidades de acontecer algo excitante nessa noite. Esperaria.

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