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Arnaud's Restaurant

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1 Arnaud's Restaurant em Qua Jan 04, 2012 1:07 am


Datado de 1918, o Arnauld's foi fundado por um vendedor de vinho francês que acreditava que a busca dos prazeres da mesa é tão digna quanto qualquer outra aspiração pessoal, mesmo as mais nobres delas. Foi pensando nisso que ele criou o principal e mais respeitado restaurante de comida creoule (e hoje em dia internacional também) de toda a cidade.

Após a morte do fundador, o restaurante passou para o controle de uma tradicional família italiana, mantendo o estilo europeu adotado pelo francês Arnauld. Os Giovannis operam o Arnauld's primando pela qualidade de seus serviços. Eles têm sido tão bem sucedidos que não só as histórias das delícias ali cozinhadas andam se espalhando pela cidade...

Mais de um frequentador foi surpreso ao ver um senhor vestido com uma roupa da virada do século XX em pé no canto esquerdo da sala de jantar principal, próximo às janelas de vidro chanfrados. Ele aparece quando o restaurante está mais movimentado e mais exuberantes, sorrindo com um ar de propriedade.

Acreditam tratar-se de Conde Arnaud, o fundador, embora somente os Giovannis saibam a verdadeira identidade e a intenção do fantasma. Alguns funcinários alegam ter visto um grupo de senhores vestidos de forma semelhante alegrando o bar nas primeiras horas após o fechamento.

As histórias - verdadeiras no fim - ajudam a dar vida e nome ao restaurante enquanto dizem que "até os fantasmas gostam do Arnauld's".

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2 Re: Arnaud's Restaurant em Sab Mar 24, 2012 12:37 pm

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Mar 18, 2012 - Área Residencial Luxuosa


A arquitetura está em todos os lugares. Por detrás de cada construção, do mais humilde casebre ao mais exuberante arranha-céu, existe um projeto arquitetônico. Rabiscos feitos em folhas de oficio, desenhos técnicos, plantas baixas, plantas tridimensionais, maquetes...o nível dos materiais usados na composição do projeto não importa tanto, o fato é que a arquitetura está por toda a parte, uma forma de arte tão presente no cotidiano humano que, muitas vezes, passa despercebida.

O táxi seguia pelas ruas de Nova Orleans rumo ao Arnaud's Restaurant enquanto eu observava as construções pelo caminho. Repetia o mesmo percurso todos os dias, mas não me cansava de admirar as obras de arte que rodeavam aquelas ruas, principalmente, em Garden District.

Mansões de Arquitetura Antebellum se erguem por toda a extensão do distrito histórico, imponentes, guardadas por jardins projetados para serem belos, porém sem ofuscar o encanto das residências. Tenho um profundo respeito por essas construções, elas presenciaram duas Grandes Guerras, assistiram o furação Katrina destruir Nova Orleans e permaneceram firmes, ostentando a força de suas estruturas. Sentia um aperto dolorido no peito só de imaginar que essas construções pudessem sofrer algum tipo de dano.

O táxi parou diante do restaurante, na Bienville Avenue, paguei a corrida e desci do carro, observando a linda fachada do restaurante por um tempo, antes de me dirigir ao maitre. Apreciava a excelente comida, mas não podia me dar ao luxo de ser frequentadora assídua do Arnaud's, o trabalho em Nova Orleans paga bem o bastante para me manter com conforto, mas não o suficiente para que eu me permita jantares no Arnaud's com a frequência desejada.

A culinária também é uma forma de arte, assim como a arquitetura, presente, mesmo que sem ser notada, em todos os momentos da vida humana. A diferença entre as duas é que a arquitetura é uma arte eterna, já a culinária é momentânea. Enquanto a arquitetura é musica petrificada, a culinária é uma pintura que se desfaz em poucos minutos.

Cumprimentei o maitre com um aceno de cabeça e um sorriso educado deixando que me conduzisse à uma mesa disponível. O restaurante estava menos movimentado que de costume, naturalmente, devido ao jantar organizado pela Vestrue.

Me acomodei na cadeira, cumprimentei com o garçom que veio me servir e dispensando o cardápio, fiz o meu pedido:

- Aguá com gás. E para o jantar, a sugestão do chef para esta noite. Obrigada.

Confio na cozinha do Arnaud's, por isso não costumo, sequer, olhar o cardápio, deixando por conta do chef de cozinha a escolha do meu jantar, já que, obviamente, ele é muito mais entendido nesta área do que eu.

Beberico a água enquanto espero o jantar ser servido, aproveitando para observar a pequena, porém, constante movimentação no restaurante.

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3 Re: Arnaud's Restaurant em Qua Jun 13, 2012 7:22 pm

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Paolo dirigia o carro, um Volkswagen Jetta, pelas ruas de Nova Orleans, enquanto eu apreciava a paisagem no banco do carona. Eu estava trajando minha roupa de costume, ou seja, uma calca Jeans, sapato, camisa manga comprida e um blasé bege. O trajeto da minha casa até o restaurante foi realizado em pouco mais de uma hora, visto que o transito já estava ficando carregado. Assim que chegamos Paolo parou o carro e eu desci.

Caminhei até a recepção e a jovem recepcionista me conduziu até a mesa. Aonde eu esperaria pacientemente pelos meus convidados. O garçom retirou meu pedido que naquele momento era uma soda limonada com muito açúcar e gelo.

Passou-se alguns minutos até que ele chegou com a bebida. Como percebi que meus ilustres convidados iriam demorar, resolvi fazer uma refeição. Pedi um prato típico da cidade, o famoso Jambalaya, que é uma variação versátil, saborosa e muito bem temperada de risoto ou de paella. O Jambalaya, é uma contribuição da cultura espanhola a tão rica coultura negra crioule. A cozinha cajun-creole tem a marca da história da região de Nova Orleans pela presença de diferentes povos e culturas.

O prato chegou, e como de costume apreciei primeiramente com os olhos aquela sempre esplendorosa refeição. O Jambalaya é um prato de aspecto rústico que mistura cubos de frango, rodelas de lingüiça defumada, tudo delicadamente envolvido com arroz de cor vibrante devido ao açafrão. Pode ou não levar camarão frito, depende da receita.

Parecia que estava faltando alguma coisa para completar aquela refeição. Ao dar a primeira garfada lembrei o que era. Sim estafa faltando o Gumbo, que não é nada mais que o segundo prato mais tradicional da cidade e que é um ótimo acompanhante para o Jambalaya. O Gumbo é um ensopado com quiabo e camarões, que no estilo cajun, leva rodelas de tomates vermelhos.

Quando o Gumbo, chegou me refestelei, apreciando demoradamente cada garfada.

Teminada a refeição foi a vez da sobremesa, e lógico eu não poderia deixar de comer as deliciosas Bananas Foster, a sobremesa mais tradicional da cidade.

Bananas Foster é feita com banana e baunilha sorvete, regados com o molho feito de manteiga , açúcar mascavo , canela , rum escuro , banana e licor . O mais interesante do método de preparo realizado no neste restaurante é que essa sobremesa é feita na mesa. Posso dizer que sempre que vejo a cena da preparação me surpreendo. Primeiro A manteiga o açúcar e as bananas são cozidas e em seguida o rum é adicionado e inflamado, e é na hora de flambar a molho que fico abobado. O pessoal do Arnould’s é artístico nesse quesito, fazendo as chamas dançarem, como se estivessem queimando um corpo em movimento. Toda vez que vejo isso me lembro deliciosamente, como é bom atear fogo em uma pessoa viva e ver ela correndo lutando pela vida enquanto as chamas correm a pele e a carne e essa lembrança me deixa emocionado, fazendo eu me lembrar da minha juventude em Matamoros.

Terminada sobremesa deleitei meu paladar no delicioso Café Brûlot, bebida marca registrada do Arnouds’s. Seu preparo é praticamente um show a parte. Seu preparo envolve todo um ritual. Assim como as bananas foster, o drink é flambado na sua frente e leva laranja com casca, limão, cravo, canela e é flambado em Brandy e Orange Curaçao. Digamos que uma mistura bem diferente.

Agora enquanto apreciava a aquela majestosa bebida, ficava esperando meus convidados.

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4 Re: Arnaud's Restaurant em Sex Jun 29, 2012 12:10 am

Continuação de
http://nola.forumeiros.com/t33-cajun-country-village#1068

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O caminho foi tranquilo. Já passava um pouco da hora de pico. O grã-fino com quem tinha falado no telefone marcara uma conversa as 20 horas no Arnaud’s. Estranhava estar a caminho de uma conversa diretamente com o financiador da exposição. Geralmente financiadores eram instituições enormes com intensão nenhuma de promover arte e cultura e apenas de poupar um pouco de dinheiro que seria para impostos pagos à receita federal. Escolhera um vida difícil, agir em um mercado saturado de idiotas onde o que realmente importa, ninguém liga. Mas se o cara da grana queria saber onde estava investindo seu dinheiro, iria por um sorriso na cara dizer o que ele queria ouvir. O que queria era um espaço para expor sua arte. Quem sabe encontrar um verdadeiro apreciador, não apenas um burguês a fim de enfeitar a sala.

Estacionou o carro na quadra anterior a do restaurante, para poder economizar uns trocados com estacionamento e gorjeta para o manobrista. Sua situação financeira não era ruim, mas considerando as despesas que tinha com as suas obras e que sua mãe sofria dores na coluna por passar horas sentada costurando e não podia trabalhar tanto quanto antes, agora tinha que ajudá-la - todo dinheiro era dinheiro. Seu carro era um Renaut Kangoo, um carro grando o suficiente para transportar suas peças maiores, mas ainda de manutenção barata e não era ridículo como aquelas minivans que mães de suburbio dirigiam para levar os filhos para a escola. Tinha alguns de seus quadros que pretendia expor, devidamente embrulhados em papel bolha e papel craft caso o cara quisesse avaliar por conta própria no que estava investindo. Ele tinha plena confiança naqueles quadros, mas esses endinheirados só queriam saber de ter certeza de conseguir retorno com seus investimentos. Portanto, estava ali para fazer o cara comprar a ideia daquela exposição.

Bateu a porta do carro, travou as portas ao ligar o alarme, ajeitou sua boina, os óculos, deu uma olhada em seu reflexo na lataria do carro.

- É isso aí, vamos impressionar o cara. - Disse para seu reflexo. Estalou os dedos como era seu tique quando estava ansioso.

Atravessou a rua e adentrou o restaurante. A recepcionista o cumprimentou sorridente.

- Estou procurando por Peter O’Connor. Ele está a minha espera. - Informou.

Ela prontamente o guiou para a mesa onde o encontraria. Antes de alcançar a mesa chegou rapidamente o horário no celular. Não estava atrasado.

- Boa noite, Sr. O’Connor. - Cumprimentou-o estendendo a mão. - Sou LeRoy Blanchard - como ele odiava aquele nome, - nos falamos ao telefone sobre a exposição que o senhor quer promover.

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5 Re: Arnaud's Restaurant em Sex Jun 29, 2012 4:33 pm

Estava no restaurante esperando a advogada e outra pessoa que poderia me ajudar em um dos muitos empreendimentos que idealizava investir. O dinheiro das drogas é fácil de ganhar, mas muito difícil de utilizar, pois qualquer descuido a Receita Federal pode cair encima. Todos conhecem a história do maior traficante e mafioso do mundo, o “digno” senhor Al Capone, que foi preso não por causa de seus negócios, mas sim por causa de sonegação. Não pretendia cometer o mesmo erro, por isso sempre arrumava métodos diferenciados para deixar meu “rico dinheirinho” bem “limpo”. Existiam algumas coisas que facilitava “lavar o dinheiro”, eram shows e artes. No caso em questão eu esperava por um artista. Não era muito conhecido, mas estava começando se destacar, oportunidade que deve ser aproveitada.

Chamei para os negócios um produtor de filme pornô, mas esse recusou meu convite.

Estava apreciando o Café Brûlot, quando a recepcionista se apresenta frente a minha mesa, acompanhar de um sujeito usando boina e óculos. Este sujeito deveria ser o tal artista.

- Boa noite, Sr. O’Connor.
-Ele estendeu sua mão para me cumprimentar e correspondi. - Sou LeRoy Blanchard, nos falamos ao telefone sobre a exposição que o senhor quer promover.

- Boa noite, Leroy! – Aponto para uma cadeira, para o artista sentar. Volto-me para a recepcionista, antes que ela se afaste. – Por favor. Providencie um Café Brûlot, para meu ilustre convidado. – Volto minha atenção para LeRoy. – Essa bebida é, simplesmente, uma delicia.

Analiso o olhar do Leroy, bem como suas expressões, antes de prosseguir.

- Senhor Leroy, tenho grande interesse em suas obras de arte, não só em patrocinar uma exposição sua, mas também pretendo ser o representante que realizará as vendas das suas obras. – Faço uma ligeira pausa, recostando minhas costas de forma mais confortável no encosta da cadeira, juntando as pontas dos dedos, demonstrando que eu falava sério. - Mas antes de falarmos sobre negócios e artes, eu quero conhecer o artista, quero saber sua história, quem você é, de onde veio, e principalmente quero que você me diga o porque devo ser patrocinador de sua obras.

Assim que termino de falar, observo o garçom, que começa a fazer os preparativos para servir a bebida de Leroy.

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6 Re: Arnaud's Restaurant em Dom Jul 01, 2012 6:44 pm

Sentia-se uma estrangeira naquela cidade. Habituou-se muito rapidamente ao ritmo alucinante de DC e apreciava muito a sua vida desafiadora, repleta de casos difíceis e enriquecedores. Não que Nova Orleans não tivesse as suas particularidades, os seus mistérios. Não que Nova Orleans deixasse de exalar conspirações e corrupção – coisas que Alice muito cedo se habituou a lidar e, conforme os seus interesses, a defender. A sua terra natal também tinha os seus segredos, mas eles pareciam mais discretos e mais fechados do que os da capital.

Alice simplesmente detestava não saber o que se passa ao redor, não perceber os mistérios e os perigos ao redor. Era uma control freak, não poder controlar tudo o que acontecia ao seu redor deixava-lhe inquieta e quase irritada. Estava acostumada a manipular e ter esse poder era um verdadeiro prazer. Um desejo quase luxurioso. Nesse novo ambiente, sentia-se apenas agitada, um pouco sobressaltada, prestando atenção a tudo e sempre formulando hipóteses e tentando ler os olhos, as ruas e todas as entrelinhas.

Chegando a sua casa num fim de tarde, logo descalçou os saltos e sentiu a textura do chão sob os pés brancos. Era uma dependente dos sentidos. Foi à cozinha e serviu um copo de água com gelo e, antes de ligar o computador, foi ver se havia recados ou chamadas perdidas no telefone de casa. Um pouco surpreendida, mas reconhecendo o tipo de gente que era, ouviu a mensagem de O’Connor.

- Alo! Doutora Alice Miller?... Boa tarde!... Meu nome é Peter O’Connor, provavelmente a doutora conhece meu nome, mas se não conhece vou me apresentar, sou o perfil de pessoal que a senhorita costuma atender.. Estou te ligando pois pretendo investir meu sanguinário dinheiro em novos negócios e quero contratar os teus serviços de advogada. Se a doutora estiver interessada fico lhe aguardando no Arnaud's Restaurant. Até mais.

Bebeu dois goles de água, pensativa. Foi à cozinha, despejou a água fora e suspirou. Não lhe agradava receber esse tipo de mensagem, com intenções tão explícitas. O traficante só poderia ser um grande tolo. E é óbvio que se trata de um traficante: esses modos de gente rica que não sabe como agir, nem como se dirigir às pessoas. Demonstra bem a forma como arranjou o dinheiro e o poder que adora ostentar, sem qualquer classe ou dignidade. Tolinho. E se a advogada tivesse o telefone sendo vigiado? Tolinho. E se aquilo fosse um bluff para que Alice descaísse e admitisse que o dinheiro é a voz do poder? Realmente acharia que seria assim tão simples?

Tolinho.

Refletiu por dois momentos se deveria aceitar o convite e a verdade é que, apesar de tudo, não seria a primeira vez que alguém recorreria aos seus serviços dessa forma pouco discreta. Típico de muitos de seus clientes. Clientes responsáveis pelos sapatos caros que deixara na entrada de casa e por muitos outros pequenos e grandes luxos que Alice Miller tinha o prazer de possuir. Decidiu ir ao encontro do homem, com toda a sua classe, cautela e atenção. Conferir o que ele quer, ler as intenções, definir o quanto enriqueceria com isso e se aventurar um pouco mais no instigante mundo da defesa dos criminosos poderosos. Prazer de viver.

Respondeu à mensagem, esclarecendo que estaria lá às 20:00.

Não, não estava com pressa para lá chegar. Não tinha dúvidas de que ele esperaria por ela, mas gostaria de saber como obteve o número de casa, sendo que Dra. Alice Miller respondia pelo celular profissional e pelo número fixo do escritório.

Tomou banho calmamente, escolheu um tailleur preto com calças retas e compridas, que alongavam as pernas e marcavam a silhueta. Escolheu sapatos vermelhos de verniz e a bolsa social a condizer. Prendeu os caracóis delicados num coque frouxo, deixando pequenas mexas soltas para desenhar o rosto. Recolheu papéis importantes, guardou o tablet na bolsa vermelha e passou o perfume habitual, seu preferido.

Olhou para o relógio. Já deveria estar no restaurante. Não tinha o hábito de se atrasar, porque era rigorosa e metódica, mas dessa vez abriu uma exceção e achou ideal não chegar lá com ares de quem tinha pressa e curiosidade.

O caminho, no entanto, foi curto e, por esse motivo, o atraso não se prolongou. Com o pescoço alongado e os ombros alinhados entrou no restaurante onde encontrou uma moça jovem e bonita. “Tenho uma reserva em nome de Peter O’Connor. Já deve estar à minha espera.”, disse Alice sem cumprimentar.

Foi guiada a uma mesa onde estavam sentados dois homens. Reconheceu O’Connor sem dificuldades. As calças jeans, o casaco, o ar descontraído, com aquele olhar típico. Não fazia ideia de quem era o outro. Um negro com estilo um pouco alternativo. Não captou imediatamente a relação entre os dois e, teve de admitir para si própria: estava curiosa e queria saber o que se passava ali e porque fora chamada.

É hora de trabalhar. A sede de poder e manipulação sempre falava mais alto e Alice Miller estava desejosa em saber qual desafio lhe chamava agora.

Aproximou-se sem sorriso e com olhar forte. Sem pressa, mas com passos firmes e decididos. Manteve-se de pé ao se pronunciar:

-Muitas boas noites, senhores. Sou a Doutora Alice Miller. Deve ser o Sr. O’Connor. Agradeço a ligação, mas gostaria de ter sido mais esclarecida. Espero que essa seja a oportunidade ideal para dizer porque necessita dos meus serviços. – Voltou-se para o outro homem – Boa noite, senhor… Doutora Alice Miller, advogada.

Aguardou que a educação deles oferecesse um lugar para sentar e não demonstrou a ansiedade. “Vamos, Nova Orlenas, mostre-se para mim. Quero te conhecer.”, pensou.

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7 Re: Arnaud's Restaurant em Seg Jul 02, 2012 6:48 pm

O homem tinha cara de latino e acentuava as palavras de um jeito que parecia que não era falante nativo de inglês ou aprendera a falar com pessoas de sotaque carregado. Assim estranhou a figura e o nome que ela tinha. Pela conversa ao telefone imaginava, no mínimo, um cara branco. Mas vai saber a história do sujeito, entrentanto, logo conseguiu perceber pelo tipo que fazia que estava no grupo dos esbanjadores, daqueles que achavam que o dinheiro era feito para gastar. LeRoy não discordava plenamente deste argumento, mas, infelizmente, não tinha dinheiro suficiente para fazer uso de tal ditado.

O’Connor indica a cadeira para ele se sentar e enquanto LeRoy se acomoda, pede que a recepcionista providencie para o recém chegado a mesma bebida que consumia. Não gostava muito de pessoas dizendo-lhe o que fazer ou consumir, mas naquele momento estava à disposição da vontade de O’Connor e, específicamente, de sua vontade de gastar dinheiro. Sabia que o sujeito estava tentando ser agradável, mas ele tinha aquele jeito que pessoas endinheiradas têm de achar que só porque tinham dinheiro de experimentar mais coisas, consequentemente sabiam de mais coisas, portanto, para quê a educação de perguntar se a pessoa a sua frente, pobre, pé-rapada e a implorar a sua ajuda, se realmente desejava beber a mesma coisa.

LeRoy agradeceu a ele e à recepcionista para que ela se retirasse. Então O’Connor tomou a posição ativa no diálogo. Entendo que o interesse dele vai além de apenas promover uma exposição, ele deseja ser o intermediário na efetuação das vendas dos quadros. Já era capaz de ver boa parte do valor das vendas sendo transformada em comissão para o boa pinta. De alguma forma esperava ele mesmo poder fazer as negociações... Mas tudo bem, pensou, de qualquer forma valerá a pena, mesmo o dinheiro sendo pouco, estaria se promovendo e as pessoas que gostassem de seu trabalho poderiam tornar a procurá-lo e comprar outras peças em seu site.

Ele se encosta, então, na cadeira e junta a ponta nos dedos ao mesmo tempo que sua expressão se torna séria. Ele pede que o artista se apresente e diga-lhe por que merece ser patrocinado. Ok, chegou a hora da vadia mostrar o seu produto.

Sorri de maneira simpática, tentando aliviar um pouco a tensão de “mesa de negócios”, acima de tudo estava ali para tratar de artes, não de comércio.

Ao lado deles, o garçom começa um monte de firulas para preparar a bebida que O’Connor tinha pedido.

- Bem, Sr. O’Connor. Minha história não é muito diferente da de qualquer pessoa tentando ganhar a vida, acho que só me diferencio dos outros pela maneira que enxergo o mundo. - Explica com simplicidade. - Nasci aqui em Nova Orleans, cresci no meio da comunidade cajun, acho que você já deve ter percebido pelo sotaque. Tive uma vida tão simples quanto minha mãe, costureira pôde dar. A arte que eu faço acho que vem da minha curiosidade e da maneira que eu trabalho aquilo que aprendo todos os dias. Gosto de pegar as coisas simples e ordinárias e virá-las de ponta cabeça, dando-lhes outras significações, outras possibilidades de leituras. Duchamp fez isso com ao pintar bigodinhos na Gioconda e chamando de arte um mictório. Acredito que podemos pensar diferente. Talvez isso seja um pouco consequência dos preconceitos que sofri por ser negro e caipira. Não sei...

O garçom terminou a bebida de preparo espalhafatoso e serviu para LeRoy, que deu um gole e em seguida deu um gole na taça com água.

- Você deve me patrocinar ou porque vê nas minhas obras uma boa fonte de lucro ou porque você tem alguma empatia com aquilo que eu crio, porque rola identificação... ou as duas coisas, sei lá. Você tem que me patrocinar porque é seu dinheiro e o que você acha que vai reverter para você. É só dinheiro? Isso é bom para nós dois, você tem seu lucro e eu tiro meu trocados para pagar as conta da casinha da minha mãe. Mas se você acha que pode investir naquilo que eu estou expressando porque também acredita nisso e quer passar a minha mensagem a diante, para mim é perfeito.

Deu outro gole na bebida que O’Connor perdira e esperava pela resposta quando uma loura bonita, vestida em trajes sociais, se aproximou. Ela cumprimentou O’Connor de maneira polida e educada, então virou-se para LeRoy e se apresentou. “Doutora Alice Miller, advogada”. Aquilo o fez erguer uma sobrancelha. Doutora? Advogada? Quem teria perguntado? Achou meio pedante da parte dela apresentar-se como uma doutora. Com certeza ela tinha seus motivos para se gabar, assim como LeRoy tinha, mas era desnecessário fazê-lo na primeira frase que trocava com alguém.

- Prazer em conhecê-la, Srta. Miller. - Respondeu, mas fazendo questão de não utilizar o título que ela tão sutilmente tinha instruído-o a fazer uso. - Sou LeRoy Blanchard. - Informou apenas, sem dizer o rótulo profissional que se aplicava a ele, se ela quisesse saber que perguntasse. Se O’Connor quisesse que sua “ocupação profissional” fizesse parte da conversa que dissesse. Embora ligeiramente incomodado com a situação, procurou manter no rosto a expressão tranquila e despreocupada que usava como máscara.

Perguntou-se de O’Connor iria chamar o garçom para brincar com fogo e fazer malabarismos.

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8 Re: Arnaud's Restaurant em Ter Jul 03, 2012 1:48 am

A bebida que pedi para LeRoy começou a ser servida. Voltei meus olhos para o artista, para observar suas primeiras expressões, pois elas costumam dar pistas para identificar os diversos tipos de pessoas. Ele sorriu. Parecia querer demonstrar simpatia, quebrar o clima de negócios que impus. Retribui o sorriso com outro. Era esse o tipo de atitude que esperava de quem faz negócios comigo. Aprendi que no mundo dos negócios existem dois tipos de pessoas, as de sucesso e as fracassadas. As pessoas que o fracasso persegue, são aquelas que se acostumam com as situações impostas. Aos meus olhos ele começou bem.

Ele começou a me contar sobre sua vida de forma resumida e bem consistente. Logo nas primeiras palavras senti certa simpatia por ele. Quando ele citou a comunidade cajun, vieram algumas lembranças do lugar. Tenho vários “negócios” por lá e ajudar alguém do local poderia ser útil. Ele citou um artista que nunca ouvi falar e uma obra que nem o nome conhecia. Dei uma risada baixa quando falou do mictório, mesmo não fazendo idéia do que falava. A história dele realmente não diferia da maioria das pessoas.

Depois de experimentar o fantástico café que o restaurante oferecia, ele entrou no porque deveria patrocinar seu trabalho. Realmente não me interessava muito no que ele estava falando, mas fiz cara de encantado por suas palavras, demonstrando total interesse pelo que dizia. Não era nem o lucro, nem o interesse pela arte, mas tão somente o desejo de lavar meu dinheiro, e evitar que meus ganhos futuros ficassem descobertos e me delatassem.

No mesmo instante que ele terminou de falar, a recepcionista se posta frente a mesa acompanhada de uma bela mulher.

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa ela se pronunciou. Era a advogada, que chegou ostentando para todos na mesa, sua elegância, educação, vocabulário se seu título de doutora advogada. Não importava o seu título, simplesmente, não deixaria impor seu status sobre Leroy, coisa que fez, implicitamente, na fala dirigida para ele, porém, ele rapidamente demonstrou que sabe como revidar. Em vez de cumprimentá-la com o título de doutora, tratou-a como senhorita.

Era chegada a hora de eu assumir, antes daquele pequeno atrito se tornar em algo maior.

- Boa noite doutora Alice. É um enorme prazer conhece a senhorita. – Abri um sorriso ao falar. Não me levantei, para saudá-la, ao invés disso apontei a cadeira sentar. – Queira sentar-se conosco. – A recepcionista, dessa vez, esperou eu lhe fazer algum pedido. – Por favor, chame o garçom. Vamos fazer os pedidos. – Eu já tinha me refestelado com as comidas do restaurante, mas meus convidados não, e como manda a etiqueta o anfitrião deve acompanhar os demais.

Enquanto esperávamos o garçom, resolvi fazer um comentário oportuno. Olhei para os dois antes de começar.

- Por favor, me chamem de Peter, simplesmente, Peter. Não gosto de ostentação de títulos, além do mais, esse foi o nome que minha “madre querida” me deu. Peço a permissão de tratar a ilustre advogada simplesmente por Alice e ao senhor por Leroy. Pode ser assim?

Esperei a resposta de ambos antes de continuar.

- Antes de tudo, creio que a senhorita deseja saber o motivo do meu convite, estou certo? – Olhei com ar de seriedade, enquanto recostava no encosto da cadeira, da mesma forma que fiz com o artista. Olhei suas expressões antes de prosseguir. – Convidei-a porque estou ampliando minha gama de negócios, saindo dos incomuns e indo para algo mais legal. – Aponto e olho para Leroy. – Nosso amigo aqui é um sujeito que pretendo patrocinar, ele é um artista. Não conheço o mundo das artes, não conheço o mundo jurídico, só conheço o mundo dos meus negócios. Por isso preciso ter o respaldo legal para me envolver em novas atividades, bem como preciso de alguém que ame o que faz, assim sei que esse novo negócio dará certo. Conheço a sua fama Alice, bem como escutei falar muito de suas obras Leroy e agora conheço sua história, a qual me fez simpatizar por você, e sei que esse meu novo negócio, renderá bons frutos para todos nós.

O garçom chegou, e se colocou ao meu lado.

-Mas antes de falarmos de negócio, vamos cuidar de nossos estômagos. Por favor, façam os pedidos. O que vocês desejam comer?

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9 Re: Arnaud's Restaurant em Qua Jul 11, 2012 6:28 pm

O homem que se apresentou como LeRoy Blanchard ergueu uma sobrancelha após a apresentação de Alice Miller e a advogada riu-se por dentro. Deixara uma “bela” primeira impressão, mas não se importou com isso. Logo viu que o senhor era um ingênuo e não sabia bem o que estava acontecendo ali. Ele tentou se impor, mas se Alice conseguisse sentir pena, essa poderia ser uma boa descrição do que sentia por ele. Ignorou-o.

Sim, sim, Alice também não tinha certeza sobre o que lhe esperava, mas sabia que fora tratar de negócios. E sabia qual era a espécie de negócios que a esperava. Admirou o teatro de Blanchard e a sua expressão forçosamente calma, que Miller tão bem conhecia de sua experiência de trabalho.

O’Connor cumprimentou-a sentado, apontando uma cadeira, à guisa de convite. Alice sentou-se e sorriu.

- Por favor, me chamem de Peter, simplesmente, Peter. Não gosto de ostentação de títulos, além do mais, esse foi o nome que minha“madre querida” me deu. Peço a permissão de tratar a ilustre advogada simplesmente por Alice e ao senhor por Leroy. Pode ser assim?

A imposição disfarçada de pedido não lhe incomodava e Alice respondeu com simpatia:

- Claro, meu caro Peter, não há nenhum problema nisso. Muitos dos meus clientes preferem um tratamento mais formal, mas é confortável ser bem recebida pelo senhor, dessa forma.

Alice sabia conduzir um jogo fazendo-os pensar que estava sendo conduzida. Não agiria diferente simplesmente por ainda não saber em qual jogo estava entrando. Era preciso controlar a situação. Para o seu contentamento, a sua curiosidade foi prontamente saciada pelo latino.
- Antes de tudo, creio que a senhorita deseja saber o motivo do meu convite, estou certo? – Respondeu o olhar sério com outro interessado e assentiu lentamente com um vestígio de sorriso no rosto, sem o interromper. - Convidei-a porque estou ampliando minha gama de negócios, saindo dos incomuns e indo para algo mais legal.

“Humm… Certo.”, pensou Alice, antecipando o que deveria vir a seguir.

– Nosso amigo aqui é um sujeito que pretendo patrocinar, ele é um artista. Não conheço o mundo das artes, não conheço o mundo jurídico, só conheço o mundo dos meus negócios. Por isso preciso ter o respaldo legal para me envolver em novas atividades, bem como preciso de alguém que ame o que faz, assim sei que esse novo negócio dará certo. Conheço a sua fama Alice, bem como escutei falar muito de suas obras Leroy e agora conheço sua história, a qual me fez simpatizar por você, e sei que esse meu novo negócio, renderá bons frutos para todos nós.

E fez-se luz! Tal como pensara, Leroy estava ali para encobrir negócios que podem não ser tão bem vistos pela sociedade do que o incentivo a um jovem artista sem rumo, com esse pseudotalento “revolucionário” que vemos pelas ruas. Batido. Esse incompreendido artista via a sua frente a sua oportunidade de ver o seu trabalho valorizado. Saberia ele do motivo da valorização? Certamente não pensava que o nosso latino simpático é apenas um bom samaritano querendo expandir os negócios ajudando gente como ele, não é?

Para o seu próprio bem, seria bom que Blanchard não fosse assim tão ingênuo.

Para o bem de O’Connor, quanto mais ingênuo, melhor.

Para o de Alice… Se for tão tolinho quanto el señor Peter, já será o suficiente para dar tudo certo e acrescentar uns zeros à direita das suas contas bancárias.

-Mas antes de falarmos de negócio, vamos cuidar de nossos estômagos. Por favor, façam os pedidos. O que vocês desejam comer?

Alice admitiu para si própria que poderia estar perante uma proposta interessante e uma oportunidade de conhecer mais o submundo da cidade, mas que também esperava algo mais “explosivo” depois das palavras utilizadas ao telefone. Todos nós sabemos que agora, em meio social, há eufemismos desejáveis e necessários, portanto, decidiu seguir em frente. Escolheu um prato leve, frutas e frango, agridoce, bem como uma água sem gás. Pediu, no entanto, para que o anfitrião escolhesse um vinho. Não sentia fome, mas é preciso seguir convenções sociais e sabia que um jantar, muitas vezes, são essenciais para deixar as pessoas mais à vontade para conversar.

- Peter, quando surgiu essa ideia de apoiar um artista? Gosto muito da sua iniciativa, é uma pena que haja poucas pessoas com ideias como essa. E você, Leroy? Vi que cheguei tarde demais para ouvir a sua história de vida e peço perdão por não me recordar de nenhum dos seus trabalhos, mas terei muito prazer em saber que tipo de inspiração busca e o que o motiva a expressar-se através da arte. Eu só aprecio, os meus talentos artísticos são bastante limitados, infelizmente. – Propôs o início de uma conversa, tentando não falar dos negócios, mas sem fugir demasiadamente do tema, visto que a outra alternativa para falar com desconhecidos seria comentar de como o clima anda louco para essa época do ano. E Alice não suportava conversas de elevador.

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10 Re: Arnaud's Restaurant em Qua Jul 18, 2012 3:47 pm

O’Connor finalmente explicou o que reuniria um empresário boa pinta, uma advogada, e um artista em busca de algum reconhecimento. O homem provavelmente precisava fazer o dinheiro circular para se livrar da receita e nada mais inocente do que investir em arte. Já estava acostumado com isso, embora, na maioria das vezes as empresas preferissem direcionar seu dinheiro para as mãos mais capazes de realizar o milagre da multiplicação de dinheiro em Hollywood. A arte pela arte no fundo era o que menos importava, se era para o dinheiro andar, não havia problema em se reproduzir também. Assim, perpetuando todo o drama de artistas plásticos que pouco ou nada conseguiam atrair a atenção de um grande público, os incentivos eram sempre poucos. Portanto, não iria recusar a proposta de O’Connor, apenas iria ler qualquer contrato com bastante atenção. Não tinha estudado tudo que estudara para ser tratado como trouxa. Portava-se como o neguinho caipira ingênuo, mas sabia ver as malícias de umas coisas ou outras. Por isso acabara como um artista faminto e não como um traficante tentando sucesso, mas que cedo ou tarde acabaria na prisão (os neguinhos sempre se fodem nessas horas) - obviamente os tapas que tomara de sua mãe o ajudaram a mantê-lo no bom caminho.

Cederia suas peças e seu nome para ilustrar uma suposta exposição e obteria sua parte do dinheiro com as vendas, e seu envolvimento com O’Connor e a advogadazinha metida pararia no mesmo ponto.

Sua cabeça funcionava enquanto ouvia Alice e mantinha na face aquela cara de neguinho caipira bocó. Às vezes a ignorância era uma benção e na possibilidade de futuros encontros com os investigadores da receita, eram uma dádiva. Quanto menos tivessem interesse de integrá-lo, melhor.

O’Connor ofereceu-lhes comida. E Leroy não pôde deixar de sorrir com a mania que algumas pessoas tinham de querer constantemente ver bocas mastigando e barrigas enchendo. Sua mãe era igual. Fazia mundos de comida e saia oferecer para todos que a visitavam, e quem, por mais educado que fosse, recusasse acabava levando um xingão. Isso fazia-o pensar se O’Connor usava essa liberação da comida como forma de extravasar alguma frustração ou se era apenas um grande apreciador de gastronomia assim como ele próprio era de arte - e perturbava a todos que visitavam seu ateliê mostrando não apenas suas peças mas coisas relacionadas a artistas que admirava.

Para ser sincero não estava com fome, mas recebeu um xingão da mãe em pensamento e escolheu um prato de pouca influência cajun - comia isso todo santo final de semana, se podia variar...

Deu um sorriso aparentemente deslumbrado quando Alice lhe perguntou sobre sua arte. Embora ela tivesse se dirigido primeiro a O’Connor, com a permissão deste, tomou a liberdade de dar o prosseguimento ao diálogo.

- Não há limite para capacidades artísticas. Apenas o saber apreciar já é uma arte por si só, e cada vez mais rara, se me permite dizer. - Respondeu-lhe. - Eu não parei para pensar se um dia me tornaria pintor, escultor ou mesmo escritor, essas coisas foram acontecendo naturalmente e minha mãe me incentivou bastante, pois quanto mais eu me interessava por arte, menos eu me interessava em estar nas companhias erradas. Isso não foi bom para minha popularidade na escola e na faculdade, já que me levava a passar a maior parte do tempo em ateliês, galerias e bibliotecas, mas me ajudou a construir um bom arcabouço.

Por mais que tentasse parecer bobo e ingênuo quando se tratava daquilo que mais amava: arte, não tinha como esconder como seu peito inflava, seu coração batia mais rápido, seus olhos brilhavam e seu tom de voz parecia apaixonado. Amava aquilo que fazia. Amava fazer arte e estudar teorias e filosofias da arte. Antes que pudesse dar conta já estava explicando como seu interesse atualmente estava numa arte quase... pedagógica (na falta de palavra melhor), pois queria expor essas teorias em peças e fazer esse conhecimento atingir as pessoas de outra forma que não fosse apenas através da exposição descritiva.

- Por que para gerar reflexões temos que partir desses descritismos chatos? Isso, ao invés de elevar a capacidade de pensamento das pessoas, apenas diminui na minha opinião. Eu tenho lido bastante sobre o pós-estruturalismo francês e, apesar de ser uma escrita insuportável. O fato de eles se afastarem dessa mera descrição de sistemas do estrururalismo e irem para além isso. Para além do sistema leva essas teorias para muito próximo da poesia. São textos bastante difíceis de serem lidos, pois eles removem muitas regras basilares da forma de pensamento ocidental, mas minhas piras vão de encontro a isso. E tenho buscado colocar isso no meu trabalho. Não é apenas expressão. Não tenho uma mensagem para passar. Não. Isso é informativo, pura publicidade. O artista tem que ir mais além e gerar, choque, estranhamento...

Percebeu que falava demais e sorriu para os dois. - Acho que estou roubando a cena aqui... - Riu-se - Coisa de artista, apesar de tudo somos absurdamente vaidosos e adoramos falar de nossa área de atuação. Mas não deixem que isso se transforme num monólogo, por favor.

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11 Re: Arnaud's Restaurant em Seg Jul 23, 2012 9:49 pm

Meus convidados fizeram seus pedidos, agora restava o meu. Escolhi um prato bem mais leve, uma salada de folhas verdes, tendo em vista que já tinha me refestelado com alguns magníficos pratos preparados pelo restaurante. Pedi para o garçom trazer para nossa mesa uma jarra de suco de morangos silvestres, bem como o tipo certo de vinho para os pratos de Alice e Leroy. Não bebo álcool, não fumo e não uso drogas. Aprendi de “nino” que essas porcarias acabam com um homem. Meu negócio é ganhar dinheiro com o vício dos outros e não morrer como os burros que se viciam.

Escutei atentamente as falas dos dois, reparando no na postura de cada um. A maneira de se colocar da advogada era o que eu esperava alguém que deseja ganhar dinheiro, e isso ela não precisava falar, pois sua expressão facial e seu olhar diziam isso, assim como dizia que ela fazia o gênero perigoso, pois gostava de deter o controle da situação. Leroy mostrou que é mais culto do que eu imaginava. Não entendi metade do que falou, mas o pouco que entendi de seu falatório era que ele é um apaixonado por arte, e que entende muito sobre esse universo.

As bebidas chegaram, como de costume, antes da comida. O garçom despejou um pouco de suco em um copo e me entregou, na seqüência serviu as bebidas dos outros. Tomei um gole do suco, olhei para LeRoy e disparei a primeira oferta de negócio.

- Leroy, o que acha de uma porcentagem inicial de vinte por cento das primeiras dez obras vendidas na exposição que pretendo lhe fazer? Sei que é pouco, mas são só sobre as dez primeiras, depois passamos para outros percentuais maiores, até o limite de sessenta por cento. O que me diz? – Esperei um pouco para escutar sua resposta antes de me voltar para a advogada. – Agora, o que vou pedir para você Alice, é que arrume as papeladas para as vendas, e sobre cada venda, você vai ganhar um percentual fixo de cinco por cento. Topa? – Tomei mais um gole de suco esperando pela resposta da “rubia”. Voltei meus olhos para LeRoy, coloquei minha mão direita dentro do blazer e de dentro dele retirei um pequeno maço de dinheiro, o qual coloquei na frente do artista. – Aqui estão mil dólares, para mostrar que estou disposto a investir em você, acredito que uma parceria entre nós será muito lucrativa – Repeti a mesma seqüência de gestos, enquanto olhava para a advogada. – Esses mil dólares são para você Alice, pelo seu tempo de vir até aqui, e digo se quiser trabalhar comigo, garanto que esse valor aumentará muito.

Assim que vi o garçom se aproximando, tomei mais um gole de suco e parei de falar. Ele serviu as refeições. Saboreei a salada. Deliciosa.

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12 Re: Arnaud's Restaurant em Seg Ago 06, 2012 9:18 pm

LeRoy quase se perdeu em deslumbramento ao falar da sua arte. Tentara manter alguma inocência ao explicar a dificuldade em encontrar pessoas com capacidade de admiração artística. Falhou completamente com os seus olhinhos brilhantes por detrás dos óculos de grau. Meio doentio.

Apesar de tudo, o rapaz era quase adorável com toda essa postura defensiva contra a advogada e deslumbrada com a sua vida profissional. Os dois tinham algo em comum: nenhum deles esperava o fim-de-semana para ser feliz. O trabalho ideal é aquele que preenche a vida pessoal. Ele só precisava ser um pouco mais racional, mas nenhum artista o é. Ou não seriam artistas e perceberiam que arte há muito está morta e hoje em dia só se encontram repetições inúteis ou “inovações” sem significado. A felicidade de Alice não é, nem nunca seria, uma felicidade efusiva e estampada no rosto, na alma e nas roupas, mas a advogada era exatamente tudo que gostaria de ser. Com excepção dos empecilhos e imprevistos da infância e da carreira, é claro. E do passar do tempo, porque não queria que a sua beleza fosse embora. Consolava-se ao lembrar que a inteligência e competência permaneceriam, mas, no fundo, tentava aceitar todos os desafios da sua juventude.

Mas aquele encontro não fora nada do que estava à espera. Habituada a casos perigosos e importantes, não via aquilo como algo desafiador, era até relativamente simples. Estava começando a ficar aborrecida porque O’Connor prometera demais com aquele telefonema misterioso de palavras agressivas.

Alice Miller prestou atenção ao traficante quando ele, finalmente, começou a fazer as suas propostas. A percentagem que oferecia ao artista era mínima. Até parece que O’Connor precisava dessas migalhas das obras de LeRoy, mas Alice não se intrometeu. Quando o latino virou-se para a advogada, Alice ergueu uma sobrancelha e inclinou ligeiramente a cabeça para o lado, como quem presta atenção a algo absurdo. “Não, não ‘topo’.”, Pensou Alice.

Viu Peter levar a mão ao bolso interno do casaco e, por um segundo, achou que ele retiraria uma arma e arrependeu-se prontamente de não ter trazido a sua. Quase pior do que isso, o homem tirou um bolo de dinheiro vivo e ofereceu à advogada, como quem paga uma prostituta, agradecendo pelo “seu tempo”.

Foi com algum cuidado que respondeu. Não tinha medo de criar inimigos, mas evitaria atritos explícitos se fosse possível. No entanto, não disfarçou a sua frieza ao escolher as palavras.

- Não sei o que o senhor quis dizer com o seu telefonema, mas devo admitir que ficou muito aquém das minhas expectativas. Trabalhos mais complicados do que esse necessitam a minha total dedicação. E, como conhece a minha reputação profissional, certamente percebe que a sua proposta é praticamente indecente. Agradeço o jantar e a conversa, mas obviamente não iremos em frente com esse caso. – Levantou-se e por fim, com uma nota de desprezo, disse - Esconda esse dinheiro da mesa, é absurdamente deselegante.

A seguir, voltou-se para o artista e disse:

- Foi um prazer conhecê-lo e ouvir um pouco sobre o seu trabalho. Boa sorte com a sua Arte, espero sinceramente um dia encontrar suas obras e ter a honra de dizer a quem me acompanhe que eu conheço o artista. Boa noite.

Foi assim que a advogada pegou as suas coisas e saiu do restaurante, sem olhar para trás. Provavelmente com um novo desafeto na sua cidade natal.

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13 Re: Arnaud's Restaurant em Sex Ago 10, 2012 9:46 am

TRECHOS EM ITÁLICO POR PETER O'CONNOR

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Ele escutou O’Connor colocar sua proposta na mesa enquanto colocava para dentro um gole de seu vinho. Por sorte o sujeito escolhera para ele um vinho suave com uma dose de álcool bastante moderada. Certamente LeRoy gostaria de estar sóbrio para experienciar o que viria a seguir dotado de todas as suas faculdades mentais de outro modo não saberia se desataria a cuspir todo o vinho na cara dele, gargalhando histericamente, ou se sairia correndo do restaurante no mesmo momento desejando que o homem se engasgasse com a comida.

O’Connor propôs repassar para ele uma percentagem de 20% sobre as dez primeiras peças comercializadas. Posteriormente poderiam rever esse balanço. Mas isso apenas revelou para LeRoy que o homem não conhecia o produto, nem o mercado com que estava lidando. LeRoy Blanchard era até que razoavelmente conhecido entre os apreciadores de arte, mas era pouco, e muito pouco, ainda tinha muito nome por conquistar para que suas artes se vendessem por nome. No circo capitalista em que viviam, uma boa marca fazia boa parte do trabalho de vendas. Mas LeRoy ainda precisava fortificar a sua para que sua vida se tornasse mais fácil. Sonhava com o dia em que seria procurado para expor suas peças e não o contrário, com o dia que pudesse apenas vender suas peças pela internet e não precisar ficar batalhando espaço em leilões de arte. Portanto. Numa exposição de pequeno porte, o que seu nome tinha condição de sustentar. Vender dez peças era sucesso absoluto. O que significaria que ele não lucraria muito naquele negócio. Observava o companheiro de mesa com atenção para ver se conseguiria aumentar um pouco mais aquela percentagem. Pois, pragmático do jeito que parecia ser, o homem não investiria em arte por muito tempo. Este claramente não era seu interesse, percebeu isto pela forma como ele não dialogava com LeRoy quando este falava de seu trabalho ou de seus interesses. Ele logo voltava o assunto para sua área de especialidade, os negócios, sua curiosidade era meramente prática. Era só mais um empresariozinho a se fazer de bom moço com marketing cultural.

Vinte por cento. E as obras ainda tinham que passar pelo crivo de um avaliador para mensurar um preço por cada peça. Ele já tinha uma ideia aproximada de quanto seria, e isso não lhe renderia muito a longo prazo. Olhou para O’Connor e depois para a advogada. Práticos... Burocratas... Não havia qualquer indício de paixão em seus olhos. Aquela seria uma fonte que secaria rápido. Uma oportunidade, provavelmente única. Portanto não tinha muito a perder, deveria pedir mais.

Ele comunicou que a advogada deveria cuidar da burocracia, como já era esperado. E o absurdo veio depois. O que deixou a mulher completamente irada e ele com uma sensação absurda de incredulidade. O homem teve a audácia de oferecer um barão para cada um. Apenas como um gesto de cortesia para confirmar seu interesse numa “parceria”. Aquilo cheirava a outra coisa. Marketing cultural é o meu rabo, pensou.

Aliás, a moça só faltou mandar o homem enfiar o dinheiro no rabo. De certa forma, o fez, mas de um jeito mais educado e saiu da mesa decidida, deixando para trás um silêncio desconfortável.

Guarde seu dinheiro, Sr. O’Connor. São minhas peças que eu disponho para vender. Não minha pessoa. Seja lá o que quiser comprar com esse “gesto de boa fé”, não precisa se preocupar. A única coisa que quero é ter meu nome circulando e que as pessoas venham conhecer meu trabalho. Se o senhor quer financiar uma exposição, tudo bem, mas o senhor vai ter que confiar no meu profissionalismo.

Por um lado era uma pena ter que mandar embora um barãozinho. Mas aquele seria um barão problemático. Como dizia sua mãe. Dinheiro nunca vem de graça, e quando vem demais e por pouco é porque está sendo oferecido pelo diabo.

Ouvi atentamente cada disparate que a loirinha tinha para falar. Ela não sabe o que estava falando e nem com quem estava falando. Ela pode se considerar uma verdadeira vaca de sorte. Se tivéssemos marcado esse encontro lá pelas bandas de Lakefront, o papo iria terminar de outra maneira. Ou uma bala enfeitaria seus miolos, ou um lindo traço aberto decoraria sua garganta. Talvez um ou dois pulmões perfurados com um picador de gelo. Ela não me conhecia, e não sabia o que existia por trás da minha proposta de chatices burocráticas. Tenho ao meu lado um de marginais, homicida e estupradores. Criminosos de todos os tipos sedentos para dar a vida por uma boa defesa no tribunal. Se aquela loirinha achava que tal insulto iria ficar barato estava muito enganada. Meus olhos faiscavam raiva. Tinha ido para esse jantar levemente irritado por causa do bosta do produtorzinho e agora emputecido pela vadia loira. Eu estava por um fio, mas tinha que me controlar. Não podia deixar transparecer para aquele artista, minha futura maquina de lavar, que por traz do polido senhor O’Connor, estava adormecido Pedrito El Sanguinário.

Respirei fundo e tomei uma longa golada do suco. Fechei por um segundo meus olhos e encarei Leroy. As palavras do artista não contribuíram nem um pouco para o meu bom humor. Mas podia admitir que o sujeito tem mais fibra do que aquela lapida doutora.

Escutei atentamente sua balela sobre não estar preocupado com o dinheiro, o que importava para ele era tão somente a sua arte. De certo ele estava querendo negociar, mas o percentual fora oferecido. Ele não sabia sobre que tipo de negocio eu queria propor, e nem quanto iria lucrar. Eu iria dar minha ultima cartada e se esse tal Leroy não aceitasse iria mandar ele pra puta que o pariu e colocá-lo a mesma lista de desafetos a qual acabava de entrar puta que deixou o restaurante.

- Fique com o dinheiro! – Falei com um leve tom de ordem. Abri um largo sorriso antes de começar a falar. Mudei a voz deixando ela mais suave, pois o que iria falar não seria tão suave. – Você esta preocupado com sua arte? Pois saiba que as dez primeiras obras que forem vendidas serão doadas ao museu da universidade Loyola. Como sei disso, simples. Eu serei o comprador delas. Ofereço ao senhor quatrocentos dólares por peça. O Senhor irá ganhar em uma noite quatro mil dólares meus. Suas obras já serão vendias inicialmente por dois mil dólares. A partir da décima peça os percentuais mudam como já falei. Isso que estou dando agora ao senhor é só um incentivo. Nada mais. Compre um terno, telas, tinta, argila. Gaste com uma garota, - Vidrei meus olhos nos dele, para saber o quão sério era aqueles míseros mil dólares.- mas não recuse, pois assim será uma ofensa a minha pessoa.

As cartas estavam lançadas. Agora era pegar ou largar. Se ele largasse estaria assinando a sua sentença de morte.


Ele ouviu com cuidado a continuação da proposta de O'Connor e a coisa continuava boa demais para ser verdade. Portato, LeRoy hesitava, franzia o cenho e praticamente maneava em incredulidade.

- Não, eu não vou aceitar. Vamos fazer a exposição, o senhor pode comprar as obras se quiser, e me passe a percentagem que achar que meu trabalho vale. Sempre aprendi que dinheiro não deve vir fácil. Agradeço seu gesto, mas me contentarei com o dinheiro que a exposição render. Seja lá o que o senhor esteja temendo que eu faça ou diga, eu não farei nada, não direi nada. Não o conheço e nem sei o que vocé faz. E, honestamente, depois disso não tenho interesse em conhecer... Como dizem, a ignorância pode ser uma benção. Assim, você consegue o que precisa e eu também. - Disse, tomando o cuidado de não dar nomes aos bois, mas deixando a entender que já sabia qual era o jogo posto naquela mesa. E era um jogo perigoso, portanto, quanto menos aceitasse do sujeito, melhor.

A fala de LeRoy foi o que eu esperava. Receio em aceitar aquele dinheiro que eu oferecia, mas aceitou o negocio proposto. Pronto, não precisava mais matar esse artista. Ele entendeu perfeitamente o que eu estava propondo. Realmente gostei do sujeito.

- Pois bem LeRoy, façamos do teu jeito. – Pego o dinheiro e guardo novamente. – Mas saiba que por causa do que você falou e demonstrou aqui serei teu padrinho, isso significa que quando precisar pode me procurar. – Sorri largamente enquanto guardava retirava do bolso blazer uma caneta. Pequei um guardanapo, anotei o número do meu telefone, mas anotei meu nome. – Peque esse isso. Caso queira, ou precise falar comigo, este é meu telefone. Poucos o têm, então não espalhe.

Quando guardava a caneta no bolso senti o celular vibrando. Retirei do bolso e olhei o identificador. Não conhecia o número.

- LeRoy um minuto por favor! – Sai da mesa e caminhei até perto da porta para atender o aparelho.

- Alo! – O sujeito usou o nome o qual eu era conhecido alem da fronteira. - Quem está falando? – Não conhecia nenhum Jason, mas o nome que ele falou a seguir me fez escuta-lo. - O que quer? Seja rápido! – Puta que o pariu, o cara ta usando meu padrinho para tirar ele de uma encrenca com os “polícia”. Ele estava nos strip club mais conhecido da cidade. Sorte dele eu estar perto. – Quédate donde estás. Yo ya estoy por venir. – Falei em espanhol antes de desligar.

Caminhei a paços largos até a mesa. Não me sentei. Retirei os mil dólares do bolso coloquei na frente de LeRoy.

- LeRoy, sinto muito mas tenho que ir. Irei acertar tudo para nossa exposição. Por favor pague a conta. Até breve!

Dei as costas para ele e caminhei. Enquanto ia para a saída pensei. “Agora ele vai ficar com o dinheiro”


LeRoy observou-o partir com alívio e ficando com a impressão de que a partir daquele momento sua viva saía de seu controle. Que cagada. Que cagada das grandes acabara de fazer. Sempre tomara cuidado para não se meter com bandidagem, mas lá estava um xicano filho de uma puta querendo pagar de poderoso chefão com ele. PUTA QUE PARIU, teve vontade de gritar, mas deu apenas um leve soco na mesa, o que fez o bolo de dinheiro pular. Filho da puta mais uma vez.

Ergueu a mão para chamar o garçom e fez o sinal para pedir a conta. Quando a capinha de couro com a nota chegou, nem se deu ao trabalho de chegar a extensa lista depedidos. Assinou a nota com o nome Peter O'Connor e colocou todo o dinheiro lá dentro. Em seguida deixou o restaurante.

Para todos os efeitos, O'Connor esbanjara no Arnaud's Restaurant e jamais tentara enganá-lo a aceitar um suborno. LeRoy apenas venderia suas peças para o homem, que tinha todo o direito de comprá-las se quisesse e depois daquela maldita exposição, que pela primeira vez não fara absolutamente nada para divulgar - quanto mais fracassada fosse, mais fácil O'Connor partiria para a próxima, por mais que apenas desejasse fazer lavagem de dinheiro, ainda precisaria de lucros para que isso acontecese e LeRoy não contribuiria para isso.

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14 Re: Arnaud's Restaurant em Ter Abr 04, 2017 8:13 am

Crônica "Um Gato entre Pássaros"

"Até essa porra de fantasmas, que só aparecem na hora errada, gostam do Arnauld’s". É o que pensa Justin, sentado a esperar pela comida, enquanto olha desconsolado para aquele canto onde, dizem as lendas urbanas, o espírito do Conde costuma aparecer.

Ele era um rapazola de 18 anos quando entrou naquele lugar pela primeira vez. Foi solicitar à direção do estabelecimento uma autorização para fazer filmagens no local. Seria a primeira matéria do Supernatural Stories, um canal do Youtube com programas feitos por estudantes de jornalismo sobre criaturas e fatos inexplicáveis. A primeira negativa da casa foi incisiva; a segunda já veio com um tom meio ameaçador… Acabaram optando pelo Plano B, muito mais custoso e difícil, que era fazer o programa Zumbis do Pântano.

Quando o vídeo bombou, Justin e os três amigos que trabalhavam com ele no canal se sentiram vingados: "a italianada esnobe é que perdeu!". Partiram para o segundo vídeo, Supercroc Vive?, que tratava das histórias dos cajuns sobre um aligátor gigante no pântano. E a popularidade do canal foi num crescendo por mais de dois anos. Conseguiram até o patrocínio de pequenas empresas para financiar viagens a outros lugares do país onde coisas sobrenaturais supostamente tinham acontecido. A Casa Apavorante, filmado em Providence, foi o vídeo de maior sucesso. Depois, A Mansão Chapelwaite, a uns poucos quilômetros de Portland. E a lenda mais inacreditável foi a dos ratos gigantes, cegos e sem pernas, que viveriam nos subterrâneos de Gates Falls.

O patrocínio lhes rendeu algum dinheiro. Mas o ganho de verdade só apareceu quando o canal lançou uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo no Kick Starter para fazer a matéria O Culto do Leopardo, no Gabão. Matéria que não chegou a ser produzida por causa de um twiter!

"Tudo perdido por causa da minha piada estúpida", ele pensa, enquanto prova o couvert. "OK, foi uma piada realmente muito idiota e de péssimo gosto, mas que teria sido perdoada depois do meu décimo pedido de desculpas ao público se o politicamente correto não tivesse tornado todo mundo assim tão intolerante, tão cheio de espírito inquisitorial".

Ele balança a cabeça para os lados de maneira quase imperceptível, como se pudesse expulsar aquelas lembranças repetitivas e amargas por um processo físico. "Concentre-se na comida...".

Depois que a piada destruiu sua reputação profissional e pessoal e ainda fez o canal fechar, mesmo após a devolução do dinheiro arrecadado e a saída de Justin, tudo o que ele tem feito para viver é administrar a pizzaria da sua família. Contabilidade, folha de pagamento, impostos, reposição de estoque… Todas essas coisas sumamente interessantes para um ex-jornalista do sobrenatural são de sua responsabilidade. Ao seu pai, cabe a tarefa criativa de inventar receitas de pizzas gourmet (tarefa nem sempre bem compreendida, já que muitos clientes americanos veem a pizza só como fast food). E, de vez em quando, Justin vai jantar no Arnaud’s e em outros restaurantes de nível para informar seu pai das novas tendências culinárias da cidade.  

Ele anota mentalmente o que vai contar ao pai sobre a nova iguaria creole lançada pelo Arnaud’s enquanto a aprecia. Esse exercício o distrai das lembranças insuportáveis. Mas, quando termina de comer, olha distraidamente para o mesmo canto onde poderia surgir um espírito: "como é emocionante a minha vida"!

Uma sensação de vazio angustiante o agarra e domina. Sente-se sem passado e sem futuro, etéreo, como se ele é que fosse um fantasma do Arnaud’s. E já tinha se sentido assim antes! Foi na véspera de uma crise de ansiedade que o acometeu logo depois de sair do canal, por exigência dos outros integrantes, e que durou meses.

Para afastar aquela sensação horrível, pediu um café e, ligeiramente trêmulo, abriu a página do The New Orleans Advocate no smartphone. A primeira notícia que leu falava numa possível vítima de vampiro encontrada no Audubon Park…

Uma voz começa a gritar na sua cabeça "NEM PENSE! NEM  PENSE!", enquanto uma outra sussurra “sim… sim… ou você vai morrer”. Os minutos se arrastam enquanto Justin fica a olhar para as paredes como se não as visse e a se digladiar consigo mesmo. Nesse tempo, a segunda voz vai ficando mais alta, mais assertiva, enquanto a primeira míngua aos poucos.

"Matt  Sledge é o nome do autor da matéria… Não custaria tentar falar com ele…".

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15 Re: Arnaud's Restaurant em Qua Abr 05, 2017 6:17 pm

A comida estava deliciosa, melhor ainda do que das outras vezes. O molho agridoce que cobria parte da salada foi um dos melhores que Justin provou em sua vida, o que certamente lhe rendeu uma anotação mental a respeito de sabores agridoces para novas pizzas. Esse pequeno momento, os segundos em que levou pensando sobre o molho enquanto terminava seu prato, lhe trouxe um pouco de paz interior. Ele já havia decidido falar com o jornalista, e tal decisão lhe dera uma injeção repentina de adrenalina, acelerando seu coração e fazendo suas mãos suarem. Por isso aquela o pequeno momento de paz veio tão a calhar.

Justin paga a sua conta e se retira do Arnauld's, mas não sem antes ver um antigo fantasma. Ele recebe uma notificação em seu celular sobre um novo e-mail recebido. Aquela conta de e-mail era a que Justin usava na época de seu canal do Youtube, e que por algum descuido de seus amigos, ainda mantinha sob seu controle. Como ele havia sido desligado do Supernatural Stories já há um bom tempo, a frequência dos e-mails foi ficando rapidamente cada vez mais rara. Eventualmente algum spam ainda o incomodava, mas ao ver que não se tratava de um, velhos fantasmas vieram à tona.

No campo 'remetente' constava o endereço 'mvpps2@gmail.com', e no assunto constava 'alex, tenho uma quente!'. Alex era um dos fundadores do Supernatural Stories, e aquele era certamente um e-mail destinado à ele que erroneamente acabou sendo enviado a Justin. Isso acontecia muito quando pessoas viam os seus e-mails publicados no Canal e tentavam entrar em contato com eles na época em que bombavam.
e-mail escreveu:"gato, tô com uma quentinha dessa vez. se eu te disser que tô com acesso ao corpo encontrado no parque, você me daria aquela chance? é gostoso transar contigo, mas isso não paga minhas contas. quero meu posto de fotógrafa nesse seu novo projeto de entretenimento tongue
mas não demora muito senão vão me expulsar daqui de dentro, e tá muito frio aqui tb >.<

bjinhos de sua pussy pussy"

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