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Prytania Theatre

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1 Prytania Theatre em Qua Jan 04, 2012 1:35 am


O que dizer do Prytania... Relatar suas caracerísticas e histórias fantásticas? Que é um dos lugares mais estilizados da Terra? Que é cult até a alma? Nada disso poderia resumir a experiência que é a simples existência desse recanto no Bairro Francês.


Para começar a entender a importância do Prytania você deve voltar ao tempo, nos dias em que os cinemas só tinham uma sala e as cadeiras eram do mesmo nível. Uma época em que o próprio dono recepcionava a clientela na porta do estabelecimento e depois puxava a cortina para dar início à peça. Um lugar assim é perfeito para os saudosistas e apreciadores da verdadeira arte. Dotado de melhorias técnicas atuais, o Prytania tem uma história da qual se orgulhar.


Fundado em 1915, é uma casa clássica do Bairro Francês. Clássica, mas não completamente parada no tempo. Recentemente recebeu melhorias como elevação automatizada das fileiras de cadeiras (para melhor ver a tela/palco, e somente acionada em ocasiões especiais), suporte à 3D, amplo backstage (os atores sofriam no antigo cubículo), refletores e sistema de som 5.1 Dolby Surround.


Filmes antigos e novos e peças antigas e novas dividem um disputado espaço no Prytania. Seu palco histórico e estilizado tem sido bastante procurado, não só por amantes do clássico mas também por grandes companhias. Premieres (estréias com tapete vermelho) de filmes atuais tem sido exibidas com fequência e peças famosas já agendam apresentações especiais nas próximas semanas.

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2 Re: Prytania Theatre em Qua Mar 07, 2012 3:24 pm

Sempre que entrava no bairro francês, não havia uma exceção sequer em sua memória, sua mente começava a tocar os acordes de Padam Padam. Aquela costumava ser sua música preferida, algo para se ouvir quando está feliz, ou triste, ou entediado, ou cansado... Enfim, música para todos os momentos. Eram tão poucas as que se enquadravam nessa categoria, que quando alguma surgia em sua mente ela se agarrava a ela. E, bem, acabava sempre se agarrando ao Padam. A voz de Edith Piaf cantava em sua mente acompanhada por seus “cent mille musiciens”, e, sem perceber, os passos de Emilie se ajustavam ao ritmo da orquestra em sua cabeça e seus lábios se moviam junto as palavras – mas ela tomava cuidado pra que sua voz não escapasse. A música durava quase três minutos, e aqueles costumavam ser os três minutos mais agradáveis do dia, em que um sorriso sempre escapava de seus lábios, satisfeito, vigoroso, inteiro. Como é belo o poder transformador da música! Mas, uma vez que a canção terminava, tudo voltava ao normal, infelizmente.
Não que estivesse deprimida. Deuses, não! Já estivera numa situação bem pior do que essa de agora. Pelo menos conseguia algum dinheiro, não é? Comprava uns dois cigarros por dia, bebia um café morno e sem açúcar no bar, entrava escondida no vestiário da universidade num horário que sabia não haver ninguém, e tomava um longo banho, penteava os cabelos, lavava suas roupas. Aparentemente, até que estava bem decente. Estava se recuperando. O que a entristecia nem era em grande parte sua situação, ela estava lidando com aquilo, com a perda, com o passado que cada vez mais se tornava só isso – passado. O que a entristecia em verdade eram seus destinos.
Gostava do bairro francês. Ele lhe dava sensações interessantes. Gostava de, em tempos, sentar-se nas calçadas largas e observar o movimento de pessoas pra lá e pra cá, as cores, o clima, o ambiente... Achava tudo muito bonito. Gostava de andar sem rumo de um lado para o outro e, vez em quando, tirar dos bolsos do casaco as grandes bolas coloridas e fazer algum malabarismo, que era a maneira que descobrira para ganhar uns trocos. Estava afastada da atuação. Não podia atuar, não conseguia. Malabarismo não é um trabalho criativo, não exige nada além de técnica e um pouco de concentração, e as pessoas lhe atiravam algumas moedas por isso. Era o suficiente. Não era arte, mas ela se felicitava pela capacidade de fumar e manipular as bolas ao mesmo tempo, o que aumentava o espetáculo também. Trabalhar com a fumaça se enroscando nos olhos determinava um estilo grosseiro, bruto, que a divertia intimamente por não ser, de maneira alguma, quem ela era. Se escondia atrás daquela máscara específica.
Mas, no fim, tudo aquilo não deixava de ser uma grande porcaria. Estava se forçando a sorrir. Estava se forçando a ficar feliz! Entregava os pontos, se acostumara a pouco, ao quase nada, a ficar distante de sua arte. De certa maneira, a pessoa que era quando era apenas uma mendiga fedorenta a se lamuriar pela perda de seus anos dourados lhe agradava mais do que essa nova, alegrinha e fraca Emilie Qorpum que se apresentava. Talvez fosse por isso. Se detestava. Mas não tinha forças para voltar a chafurdar em sua infelicidade, não tinha coragem de voltar ao seu ser grotesco. Estava tocando pra frente, tentando... Talvez o teatro voltasse a sua vida. Talvez pudesse voltar para onde pertencia, e então seria quem realmente era de novo, rindo alto, perdendo a compostura e chocando as pessoas. Ah, sim, voltaria... Mas, por hora, fazia seu malabarismo, três bolinhas subindo e descendo, verde, roxa, laranja, até o dia em que sua máscara caísse!
Apesar de tudo, nas quintas-feiras, se forçava a um ato masoquista e se dirigia ao Prytania. Era uma maneira de se manter dentro do mundo, pois assim se forçava sempre a saber os dias da semana, e também um mecanismo de lembrança. Para sem lembrar quem fora. Para se lembrar quem, não importava o tempo que se passasse, jamais deixaria de ser. Nessas noites ela se deprimia um pouco. Colocava a música que ecoava em seu cérebro de lado e deixava que seu passado desfilasse em frente a seus olhos marejados. Chegava bem no começo da noite, para acompanhar toda a movimentação, a excitação, o público chegando, todas essas coisas. Tá certo que, na maioria das vezes, eram apresentados apenas filmes. Mas, quando acontecia de ser uma peça, ah! Sorria tristemente. Deixava a amargura tomar conta de si. Fazia parte da vida, e ela não queria esquecer, simplesmente.
Sentou-se no chão, apoiando as costas contra os tijolinhos da fachada do prédio, e acendeu um cigarro tranquilamente. Não tinha pressa. Passaria a noite inteira ali. Era bem início de noite, e, tirando os olhos do lusco-fusco da rua e do postes de iluminação que começavam a acender, olhou para o céu. Uma lua minguante surgia, tímida, no céu azul-royal. A fumaça lhe enroscava nos olhos. Sorriu quando sentiu o salgado da primeira lágrima lhe chegar à boca, e limpou impacientemente os olhos. Em algumas coisas, ela nunca mudaria.

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3 Re: Prytania Theatre em Qui Mar 08, 2012 10:51 pm

Rodou pelas ruas por horas a fio, mas pelo menos, conseguiu tudo o que pretendia. Entre cobrar favores e fazer mais alguns outros, seus bolsos se encheram com dinheiro o suficiente para passar o fim de semana e encher o tanque de sua adorável e bela Harley.

O sorriso em seu rosto, satisfeito, deixava evidente o quanto seu humor estava em estado de pura elevação. Dinheiro era bom, fazia bem, e o deixava bastante feliz, por isso, pensou em fazer algo um pouco diferente naquele começo de noite. Harley o guiou em direção ao Prytania, na intenção de conseguir alguns cigarros no bar do teatro, já que conhecia um dos caixas e ele não ousaria negá-lo qualquer coisa. Talvez até um copo gelado de cerveja alemã, ou um par de entradas para o próximo filme.

A agitação que percebeu quando chegou ao local fez com que Travis se desse conta de que aquela noite seria badalada no local, fazendo-o considerar seriamente sobre a opção de conseguir ingressos. Poderia ser uma boa oportunidade para a sua ilustre pessoa. Diversão nunca era demais, muito menos quando se tratava de ocasiões que poderiam beneficia-lo.

Com o pensamento vibrando em sua mente, estacionou Harley em um local seguro e guardou o capacete, colocando a chave no bolso de sua calça e caminhando até a entrada do Prytania. Seu bom humor radiava pela expressão despreocupada enquanto abria espaço entre os corpos em movimento frenético na mesma direção em que seguia.

Tal felicidade, porém, não foi o suficiente para que deixasse de notar uma pessoa sentada no chão próximo a entrada do teatro. Franziu o cenho em confusão, aproximando-se um pouco mais para uma melhor visualização. A mulher, pelo que pudera perceber, exibia uma expressão absolutamente miserável no rosto. Era óbvio que a coitada andara chorando, já que o rubor e inchaço em suas feições não deixavam espaço para enganos.

Ergueu uma de suas sobrancelhas, se perguntando por que aquela mulher tão bonita em tal estado, sentada diante do teatro, em meio a toda aquela confusão, mas sem adentrá-lo. Talvez a pobrezinha houvesse sido abandonada por um amante de péssimo coração, ou mesmo marcado um encontro com alguém que simplesmente não aparecera. Nesse caso, ele, Travis, não poderia ficar parado observando a miséria alheia. Oh, não. De forma alguma.

Andou, decididamente, em direção a ela e suspirou ao alcança-la, sentando-se em seguida ao seu lado sem qualquer tipo de hesitação. Retirou seu ultimo Marlboro da carteira e procurou o isqueiro no bolso, praguejando baixo ao perceber que não sabia onde infernos havia colocado o bendito. Virou o rosto para a mulher e ofereceu-lhe um sorriso, estendendo o cigarro em sua direção.

- Ajuda? – Perguntou, em tom de troça, esperando sinceramente que ela acatasse com seu singelo pedido.

Isso, é claro, se ela simplesmente não o enxotasse de seu cantinho de solidão, obrigando-a a deixa-la em paz, mas Travis Beningthom não era conhecido por desistir fácil das coisas. Jamais. Não tinha a intenção de sair daquele lugar sem antes saber quem fora o idiota que partira o coração daquela adorável moça. Ou qual fosse o motivo de tamanha tristeza em uma noite tão agradável.



Última edição por Travis Beningthom em Qui Mar 08, 2012 10:58 pm, editado 2 vez(es) (Razão : Correção de erro de formatação/assinatura)

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4 Re: Prytania Theatre em Sex Mar 09, 2012 6:39 am


A limusine era dirigida por Demetre, meu segurança e companheiro ítalo-mafioso que rumava ao Razzoo, localizado no iluminado e multicolorido Bairro Francês, ou para os habituados, French Quarter.

A noite já tinha caído há muitas horas e a madrugada não tardaria em chegar.

De repente, as luzes, de mercúrio com tonalidade amarelada, que iluminam as ruas de Nova Orleans começam a perder espaço para algumas luzes de neo e os letreiros luminosos daquele bairro verdadeiramente noturno.

Tínhamos chegado ao fabulo Bairro Francês e mais alguns quilômetros a limusine estacionaria em frente ao meu local favorito na noite daquela cidade, estaria em frente ao Razzoo Bar & Pátio, a melhor casa noturna da cidade.

Olhava para o exterior do carro através do vidro, o qual não permitia ver nada do interior do veiculo. Meus pensamentos divagavam, lembrando-se de cada palavra anteriormente dita por Henry Freeman. Não só as palavras que ele disse a mim, mas também o que ele discursara a pouco no jantar da Vestrue. Ele queria reestruturar uma das regiões mais tradicionais de Nova Orleans. Garden District não era somente um bairro como os outros, era antes de qualquer coisa, o bairro onde as pessoas mais ricas e poderosas da cidade moravam e acima de tudo era o bairro, aonde eu residia. Quais serão os planos que a Vestrue Co. teria para desapropriar aquelas casas. Tentava puxar pela memória quem eram os moradores dos locais que iriam ser desapropriados. Vagamente conseguia lembrar quem era, mas sabia que eram pessoas de certa importância para a cidade.

Nessa tentativa por descobrir o que a Vestrue queria com o local, meus pensamentos se fundiam com os andamentos dos processos que levariam as desapropriações, bem como a um gordo honorário para meu escritório e quem sabe até mesmo a fidelização da Vestrue como cliente da minha rica carteira.

Estratégias mirabolantes possuíam o meu cérebro, enquanto minha mão percorria o bolso do terno a procura da minha droga predileta, o cigarro. O efeito que aquela ferramenta tóxica que consiste em um cilindro de papel com tabaco, que possui uma brasa em uma ponta e um tonto na outra, para mim era de reduzir um pouco a aceleração que meu cérebro atingia ao ver-se em plena atividade, ele não entorpecia os meus sentidos, somente me fazia concentrar em quais eram os meus verdadeiros objetivos, me focando para aonde realmente interessava conduzir meus pensamentos.

Foi no bolso interno que o encontrei a caixa de Marlboro vermelho, bem como o meu isqueiro estilo zipo. Lentamente retirei a do bolso. Abri e escolhi um cigarro que estava a esquerda do maço. Levei até a boca, porem não o acendi. Voltei a me perder por mais um tempo em meus pensamentos antes de empestear o interior do carro com a fumaça nada agradável que o dito cujo liberava.

O carro fez uma leve curva a esquerda. Estávamos entrando na rua do antigo, porem moderno Prytania Theater. Seus letreiros eram vistos ao longe. Não dei muita importância ao que ele dizia.

Voltei minha face para frente.

- Demetre, por favor, pare próximo ao Prytania, pois quero queimar um pouco do meu dinheiro, com meu vicio favorito e não quero que o cheiro desagradável do cigarro tome conta deste carro. – Lembrei nesse momento que não fazia nem um mês que havia comprado ele. Lembrei do carro que vendia pouco antes, em que tinha perdido vinte por cento do valor, justamente por ele ter o fétido aroma do tabaco.

O carro não demorou a chegar ao local indicado. Joe desceu primeiro e abriu caminho para que eu dissesse. Ao me levantar do lado externo do veiculo, tratei de aprumar corretamente o terno e o nó da gravata. Levei a ponta marrom claro até a boca e com um quase inaudível clicar a chama do isqueiro brotou. Aproximei-a do cigarro e com uma deliciosa e demorada tragada sorvi o máximo de fumaça quente que meus pulmões poderiam agüentar. Lentamente liberei a fumaça pela boca.

Guardei o isqueiro e a caixa de cigarro no bolso.

Meus olhos vagarosamente percorreram os arredores, enquanto me preparava para mais uma tragada. Pude ver ali no canto, recostada no canto ali na parede do prédio, a alguns metros de onde me encontrava, uma jovem estava olhando para o céu enquanto algumas gotículas estavam fazendo o sinuoso percurso em sua face, indo dos cantos dos olhos até as laterais do lábio. Eram lágrimas.

Pelo jeito que esta vestida não parece ser uma moradora de rua. Seus cabelos, não estão ensebados e não tem marcas de sujeira nas roupas.

Um sujeito montado em uma moto Harley-Davidson parou a alguma distância. Ao desmontar do veiculo passou a caminhar em direção a jovem. Seus passos demonstravam o quanto decidido estava em alcançá-la. Pude perceber que ele retirava do bolso algo. Em um primeiro momento fiquei apreensivo, contudo não passou de um alarme falso. O rapaz retirava um maço de cigarros do bolso e ofertava à jovem. Ele retirou do bolso um ofereceu um cigarro para a garota.

Curioso com tal situação eu resolvo, a passos firme e seguros, nem um pouco apressado, ir falar com a jovem. Talvez ela estivesse passando por um momento difícil. E momentos difíceis eu compreendia muito bem. Quem perdeu os pais enquanto é jovem e tem praticamente um império para comandar, sabe muito bem o que é dificuldade. Pessoas te querendo ver pelas costas, capaz inclusive de tentar lhe matar para usurpar o que é seu. Outras pessoas, tentando insistentemente puxar o tapete para assumir o comando daquilo que lhe pertence. Até mesmo risco de vida já corri para defender o que era meu, isso porque eu ainda estava na faculdade aprendendo a ser um bom advogado.

No momento em que cheguei um pouco mais próximo aos dois simplesmente escutei o jovem pronunciar.

- Ajuda?

Pelo jeito que falou com a jovem, parecia que também não a conhecia. Pelo que entendi deveria ser uma alma caridosa. Parei ao lado dos dois. Ela sentada recostada na parede e ele de pá. Voltei-me ao rapaz em uma postura bem cordial.

- O que entristece a bela dama? – em meu olhar eu tentava passar respeito, calma e tranqüilidade para os dois. Retirei do bolso o maço de cigarros com o isqueiro e ofertei ao rapaz como sinal de cordialidade sem interesses, assim como um fumante faz ao outro, quando este um esta fumando e o outro não. –Aceita um cigarro? - me virando para a jovem que tinha intuito de amenizar seu pranto – ou quem sabe uma bebida poderá lhe trazer um sorriso aos lábios.

Queria poder fazer alguma coisa para não deixar aquela jovem tristonha. Sei que não costumo ter o coração mole, mas de vez enquanto tenho o coração um pouco menos gelado.

– Se quiserem aproveitar esta noite, podem me acompanhar até o Razzoo. Garanto que a jovem irá se sentir bem melhor. O que me dizem?

Esperava que a jovem e o rapaz concordassem com meu pedido, mas não estranharia nem um pouco se eles recusassem. Imaginei se uma cena dessas acontecesse comigo, certamente no mínimo eu iria estranhar. Não é todo dia que aparece uma pessoa em uma limusine e oferece a um estranho que esta na rua uma bebida em uma das casas noturnas mais badaladas da cidade.

Agora só me restava torcer principalmente que ela tenha acreditado nas minhas mais sinceras palavras e que aceitasse o meu convite. Quem sabe o Razzoo poderia fazer brotar naquela face linda, porem lamuriosa, um radiante sorriso.

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5 Re: Prytania Theatre em Sab Mar 10, 2012 12:01 am

O mundo não é nem um pouco estático, por mais que seja esse o desejo de tantos. O desejo de Emilie, em verdade, naquele exato momento, era apenas ficar ali quieta, sozinha, e contemplar o brilho falso das pérolas de seu passado, garimpar seu cérebro por boas lembranças e afastar as crises e problemas e, acima de tudo isso, esquecer que o mundo gira. Esquecer que as horas passam. Esquecer que em algum momento iria amanhecer, ou então ela ficaria com sono e teria que procurar um espaço mais macio de chão para poder dormir, antes que a agitação do dia vindouro interrompesse seu sono. Só isso. Abandonar seus olhos sobre a multidão colorida e maquiada que passava por ela sem se perceber de sua presença, para entrar no Prytania, fumar lentamente seu cigarro... Mas, bem, o mundo não é estático.
Apenas um minuto atrás, encarava a multidão com olhos vazios de quem não estava ali e, em sua mente, relembrava os calorosos aplausos de uma audiência na França, mais ou menos seis anos atrás, depois de seu monólogo como Lady Macbeth... Seus lábios, sem se aperceber do movimento, contornavam as palavras que gritava em seu cérebro “Vem, deusa noite! Apaga-te na bruma dos infernos, pra não ver minha faca o próprio golpe, e nem o céu varar o escuro para gritar-me ‘Para! Para!’”, e o teatro inteiro se levantava, os aplausos ensurdecedores invadiam seu ser enquanto ela ofegava na ribalta, os cabelos caídos sobre os olhos arregalados, os braços abertos, o coração espancando seu peito, pulsante... E então, de repente, sem mais nem menos, seu triunfo é interrompido não por um, mas por dois, dois! Dois tarados!
Eis o maior problema de uma mulher quando vive na rua. Se bem que, antes, quando a depressão a impedia até mesmo de se mover e ela não tomava banho, dormia ou lavava as roupas, ninguém queria se aproximar. Ah, não, queriam era distância do ser repugnante que havia se tornado e, honestamente, ela também queria. Não sabia ainda que força era aquela que a fizera sobreviver. Mas, enfim, sobrevivera e se tornara alguém quase ‘decente’. Quem diria agora que ela vivia na mendicância? E, depois dessa transformação, eles surgiram. Vindos de todos os lados, nos momentos mais aleatórios, convidando-a para uma bebida, tocando seu cabelo sem permissão, oferecendo cigarros e caronas, chamando-a de coisas como ‘docinho’, ‘linda’ e ‘dama’. Mas esses eram quase inofensivos. Nem todos se tornavam violentos com um não. O grande problema é que, na distância, ninguém diz que Emilie é uma moradora de rua mas, uma vez próximo, olhando bem dentro dos olhos dela, as marcas estão lá, inegáveis, a roupa está puída, os machucados na lateral esquerda do rosto denunciam que o asfalto é o colchão... E ninguém quer ser desprezado por uma indigente, não é mesmo? Fere o ego. Aí mora o perigo.
Os dois chegaram ao mesmo tempo, um de cada lado, falando praticamente juntos, se enfiando sem permissão nas lembranças de Emilie usando um polido pseudo-cavalheirismo para se aproximar, e ela congelou. Não soube o que fazer. Estava encurralada. Encostou-se com tal violência na parede que soube no mesmo segundo que ficaria com os tijolos marcados nas costas. Tentou não arregalar os olhos. Essa espécie de homem é ardilosa, e, demonstrando seu medo, eles provavelmente só ficariam mais excitados. Engoliu em seco. O que seriam? Assaltantes? Estupradores? Quando ainda morava em Londres, houve uma época em que os jornais se ocupavam imensamente desses estupradores que andam em grupo. Mas não podia ser... Não, estavam no meio de um monte de gente, na frente do Prytania, não era possível que eles fossem fazer alguma coisa ali, atacá-la ou sei lá. Estavam mesmo tentando levá-la para outro lugar, mas ela não sairia dali, não por vontade própria. E, se eles tentassem alguma coisa...

- Eu não tenho dinheiro. – sua voz saiu sufocada, baixa, como se uma mão de ferro estivesse apertando sua garganta – Vão embora. Por favor, vão embora.
Malditos! Destruindo o que podia ser uma das noites mais bonitas que tinha desde que chegara a Nova Orleans. Céu claro, liso como um quadro de rococó, salpicado de estrelas tão pequenininhas que nem pareciam estar ali, uma lua minguante faceira, chão seco, tempo agradável, apenas memórias agradáveis se lhe ocorriam, o Prytania estava estreando uma peça e tivera o privilégio de acompanhar a chegada dos atores, o corre-corre com figurinos e adereços e até mesmo uma breve conversa entre duas atrizes que saíram para fumar, descalças, descabeladas e com a maquiagem pela metade. Estava sendo uma noite linda! Porque, porque tinham que aparecer agora? Os detestava, detestava mais do que tudo, mas, infelizmente, não podia fazer muito contra eles. Enfiou as mãos nos bolsos e apalpou suas bolas de malabarismo. Se fizessem qualquer movimento brusco, atacaria eles a boladas, o que fosse. Não ia ser novamente... Não deixaria... Não... Engoliu em seco novamente.
- Se vocês tentarem alguma coisa... – tentou soar o mais ameaçadora possível, mesmo com a voz estrangulada - ... Eu grito. Eu juro que grito.
E respirou fundo. Sentia que seu coração estava quase parado, como que suspenso, esperando o momento certo em que bombearia adrenalina e ela correria desabaladamente. Estava inteira gelada de medo. Um gesto, ela se repetia mentalmente, um só gesto brusco e daria o fora dali. Onde estava aquela sua força de Lady Macbeth agora que ela precisava? “Vem, deusa noite...”

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6 Re: Prytania Theatre em Dom Mar 11, 2012 1:33 am

Muitas coisas passam na cabeça de quem tem dinheiro e m relativo poder sobre os acontecimentos ao seu redor. Quanto mais dinheiro, quanto mais status quanto mais favores prestados garantem ao seu possuidor mais poder, e com o poder as coisas mais incríveis acontecem. Qual seria o melhor lugar do que no Bairro Francês, ou melhor, na Rua do Prytania Theater para que algo quase inimaginável acontecesse.

Os pensamentos que tomavam conta da minha cabeça a minutos atrás, agora tinham momentaneamente se dissipados. O cigarro que apouco acendera, queimava lentamente. O que passou em minha cabeça? O que passava em meu coração ao ver aquela jovem sentada no chão? Não fui dono dos meus sentimentos no momento que a avistei. Eu que quase sempre fui feito de aço frio, inflexível e de pouco sentimentalismo, tinha me aproximado de dois completos estranhos por que avistei uma jovem dama sentada chorando. Onde eu estava com a cabeça? Aonde estava o astuto, rico e poderoso advogado que mais parecia uma pedra de gelo naquele momento? Sinceramente não sei o que responder. Acho que o sentimentalismo tomou conta de mim por alguns segundos.

Não acreditei no que acabei de fazer, oferecer cigarro a um estranho que parecia querer ajudar um mulher chorosa na rua. Oferecer uma bebida a uma estranha que chorava. Não esse definitivamente não podia ser eu.

Enquanto esperava a resposta do rapaz quanto ao cigarro que ofereci ao rapaz e a resposta da jovem quanto a bebida, notei algo que me fazia começar a retomar o meu verdadeiro eu. Fazia lentamente o calor momentâneo do sentimento de fraternidade ser congelado pela razão inescrupulosa que adquiri com minha pouca experiência de vida.

Foi incrível estar vendo aquilo, a jovem se contraindo em direção aos tijolos daquela parede. O que será que ela estava pensando. Pela sua face de expressão levemente controlada, transparecia um pouco de medo e nervosismo.
Por fim veio a atitude fatídica, em poucas palavras, digamos que não muito sonoras, escutei algo que finalmente vou a trazer a pedra de gelo da razão ao coração.

Dos delicados lábios da tristonha mulher saiam às em tom de quase inaudível as seguintes palavras:

- Eu não tenho dinheiro... Vão embora. Por favor, vão embora.

Minha mente se tornou perspicaz para os detalhes. As mãos da jovem adentraram seus bolsos. Medo talvez? Provavelmente. Novamente imaginei quão estranha era a cena em que estávamos atuando. Realmente alguns teriam medo.

Tentei trazer átona novamente o caloroso sentimento da fraternidade, porem a fina camada de frieza que se formava em meu coração deu lugar passou a dar lugar a uma verdadeira pedra de gelo. Não pude acreditar na reação dela.

- Se vocês tentarem alguma coisa... Eu grito. Eu juro que grito.


Ela estava pensando que eu queria prejudicá-la. Mas porque motivo. Realmente aquilo não me fez bem. Ouvir aquilo fez minha garganta queimar, como se tomasse água fervente. Agora tinha ficado um tanto quanto magoado. Eu que raramente demonstrava um gesto de solidariedade verdadeira, ou seja, sem nenhum interesse, estava sendo maculado como alguma espécie de mal feitor. Chega, não podia mais escutar aquilo quieto.

Resolvi falar em tom ameno porem com a revolta que sentia por aquela mulher chorosa e assustada, frustrar uma das minhas poucas boas ações.

- Realmente pesa que fosse te fazer algum mau mulher? – levando a mão direita que continha entre o dedo indicador e do meio o cigarro já na metade e a dirigindo ao peito. – Acha que eu Victor Calarram, o maior advogado do Estado de Luisiana... – pelo menos era assim me intitulava e que muito se referiam a minha pessoa. - e dono do de um dos maiores escritórios de advocacia do nosso país, iria querer fazer mal a você? Pobre alma! – jogando o cigarro no chão enquanto me lembrava de um grande ensinamento de meu pai. – Realmente eu deveria seguir a frase que meu falecido pai me ensinou. “Não é problema meu”. Se eu não tivesse a ingenuidade de tentar te ajudar, quem sabe eu poderia já estar cuidando de meus negócios... - Não podia ficar ali mais nenhum minuto. Me virei e comecei a seguir rumo ao carro, onde Joe já esperava com a porta aberta. – mas em vez disso resolvi pensar com o coração e me preocupar com uma pessoa, com uma mulher chorosa. Eu realmente não sirvo pra usar o coração.

Entro no carro e espero que Joe entre. Demetre olha para mim e aguarda o sinal para partirmos.

- Pode seguir Demetre.

Nesse momento minha mente agiu rápido, e o coração resolveu interferir.

- Não Demetre! Pare!

O carro parou bem em frente à jovem e ao rapaz. Pressionado o botão na porta do veiculo, fiz o vidro escuro da janela se abrir.

- Me desculpem pelo desabafo. – Mas que porcaria de arrependimento que é esse. Pelo que estava me desculpando? – Reitero minha oferta anterior. Querem ir o Razzoo Bar&Pátio? – Mais que coração intrometido. Porque ele queria agir dessa maneira?

Bem já havia me decidido. Se eles aceitarem minha oferta, talvez eu consiga fazer minha boa ação do ano. Agora se declinassem, sinto muito, fecharia a janela e tocaria para o Razzoo, aonde provavelmente teria algo que fizesse bem ao meu ser. Um copo de uma bebida bem elaborada, e uma agradável conversa sobre estratégias processuais. Algo que provavelmente colocaria com certeza uma quantia de dinheiro bem generosa nas minhas contas bancaria.

Agora só me restava esperar pela decisão das duas figuras.

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7 Re: Prytania Theatre em Ter Mar 13, 2012 12:06 am

Não fazia ideia do que o deixava mais surpreso. O fato de um engomadinho ter estacionado sua bela limusine diante do Prytania e resolvido acudir a jovem chorosa, além de ter interagido com ele, Travis, ou o acesso de loucura do homem citado. Também havia a acusação da mulher, que o ofendera profundamente, ainda mais se tratando de tanto sacrilégio.

Travis Beningthom poderia declarar oficialmente que aquela noite estava virando um circo de horrores.

Sua mente deu um pequeno solavanco diante do convite para bebidas gratuitas, mas, diante de toda a sua experiência de vida, sabia que estar com um sujeito rico, mentalmente instável, juntamente com uma mulher traumatizada o suficiente para acusar o pobre Travis de ser um homem vil e cruel não seria lá uma oportunidade muito boa.

Mas, cerveja grátis era sempre cerveja grátis. Sentia que deveria estar ponderando um pouco mais sobre o assunto, mesmo que toda a sua repulsa pelo engomadinho fosse quase evidente. Mas a verdade era que a falta de tato do senhor nariz empinado o estava incomodando. Ok, oferecer bebida era ótimo, porém, qual era o sentido de oferecer bebida a uma mulher que acabara de demonstrar tamanho medo de seres do sexo masculino? Era basicamente escrever ‘estuprador’ na testa e rir na cara do perigo.

- Caríssima senhorita, ou senhora, felizmente, eu já tenho dinheiro por essa noite, então não incomodaria sua ilustre pessoa por isso. Quanto ao amigo aqui, – Disse, referindo-se ao riquinho com um aceno de cabeça. – não posso afirmar nada em seu favor, mas eu desconfiaria sinceramente de alguém que oferece bebida de graça, bem... de graça.

Lançou um sorriso debochado em direção ao homem, antes de colocar as mãos nos bolsos da calça.

- Sinto muitíssimo em recusar seu convite, senhor. Nada pessoal, entende? Só não gosto muito do ambiente.

Voltando-se para a mulher novamente, deu um suspiro visivelmente doloroso ao olhá-las nos olhos com uma expressão desolada.

- Não tive intenção em lhe perturbar, minha cara, mas saiba que Travis Beningthom jamais faria mal a qualquer dama. É só perguntar pela vizinhança.

Ao observá-la por alguns segundos, franziu o cenho gravemente ao sentir uma leve pontada de reconhecimento. Era algo distante e vago, mas sua memória raramente lhe pregava peças.

- Aliás... já devo ter cruzado com sua ilustre figura por essas bandas. Seu rosto não me é estranho. De qualquer forma, tenha uma ótima noite e mil perdões pela péssima impressão. – Declarou, meneando levemente a cabeça em direção a ela e virando o olhar na direção do homem em seguida. – E você, meu caro, sugiro que não mexa com a moça. A rua tem olhos e bocas, e dinheiro não é o suficiente para calá-las.

Virou-se de costas, na intenção de retornar à Harley e seguir seu caminho. Depois de tudo o que havia se transcorrido em frente ao Teatro, Travis não sentia mais vontade de continuar por ali. Cinema nunca fora seu forte, na realidade. Preferia peças teatrais, mas, ultimamente, estas andavam escassas por ali. Era uma pena, realmente.

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8 Re: Prytania Theatre em Qua Mar 21, 2012 12:23 am

Realmente não sabia o que tinha passado pela minha cabeça. Por que eu Victor Calarram, um ilustre advogado milionário fui me importar por uma mulher estranha e chorona, e acima de tudo por que fui oferecer bebida a ela e a um rapaz desconhecido?
Tal atitude não fazia sentido, nem mesmo para mim que a tomei, imagine para eles.

Em minha mente estava torcendo veementemente para que o rapaz e a moça declinassem a minha oferta. E durante a minha torcida em pensamento, pude reparar que o rapaz falava algo para a jovem, algo que fiz questão de não dar atenção. Sendo que segundos depois se voltou para mim, que me mantinha aguardando as respostas no interior da limusine, e proferiu:

- não posso afirmar nada em seu favor, mas eu desconfiaria sinceramente de alguém que oferece bebida de graça, bem... de graça.

Vi o sorriso estampado na fase do sujeito e tive a certeza de que ele iria recusar agora só esperava que ele manifestasse a recusa expressamente, o que não demorou a acontecer.

- Sinto muitíssimo em recusar seu convite, senhor. Nada pessoal, entende? Só não gosto muito do ambiente.


Ele já o tinha feito, era um alivio. Olhei para a jovem que permanecia sentada no chão chorosa e com cara de cachorro assustado, sem se mexer, sem se manifestar. Nesse momento decidi que não esperaria ela nem se manifestar, principalmente porque o insulto que ela desferiu a minha pessoa ainda estava entalado na garganta.

“Pronto! Agora já posso ir embora”, pensei. Mero engano. Já posicionava meu dedo para pressionar o botão que acionaria o fechamento automático do vidro do veiculo, o rapaz falou rapidamente algo para mulher, algo que novamente não ouvi e voltou-se novamente me dirigiu a palavra:

- E você, meu caro, sugiro que não mexa com a moça. A rua tem olhos e bocas, e dinheiro não é o suficiente para calá-las.

Simplesmente acenei com a cabeça em sinal de positivo enquanto um ligeiro pensamento tomou conta da minha cabeça: “O que? Este jovem que eu nem conhecia acabou de me ameaçar. Curioso. Muito curioso. Há muito tempo ninguém me ameaçava abertamente, e muito menos eu tinha sido ameaçado por alguém para aparentemente quer proteger outra pessoa. Gostei da atitude desse rapaz, muito louvável, mas agora não posso perder mais tempo aqui”.

Ele começou a se dirigir para a sua moto, e eu tratei de fechar a janela do carro. Assim que ela estava fechada por completo, me voltei para Demetre.

- Agora sim Demetre! Toque para o Razzoo, pois coisas melhores me aguardam lá, principalmente o meu drink predileto, o Martini Topázio.

Prontamente o carro começou a se mover, e em pouco tempo a fachada do Teatro Prytania já tinha sumido da minha vista, e assim, novamente, a Vestrue Co. tomava conta da minha mente. Todas as estratégias judiciais e os processos que seriam movidos, os subornos, as trapaças legais e a maior brincadeira de todas o jogo de manipulação. A partir daquele momento, que me deixavam ansioso, minha mente trabalhava freneticamente pensando em todas as possibilidades dessa brincadeira deliciosa, porem perigosa, que iria começar.

De tão mergulhado em meus pensamentos nem me dei conta que adentrávamos a rua do Razzoo, foi quando Joe me retirou do transe, colocando as mão em meu ombros e disse..

- Senhor, já estamos chegando.


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9 Re: Prytania Theatre em Qui Mar 22, 2012 12:03 am

E quando se começa a pensar que já se viu de tudo nessa vida, que não há nada de novo no mundo, que os seres humanos se tornaram máquinas e reagem sempre do mesmo jeito, se repetem, são previsíveis; bom, aí sempre aparece algo para nos colocar novamente na realidade estranha da vida. Algumas coisas acontecem, e quem poderia imaginá-las. Honestamente, não Emilie. Não naquele momento. Mas, já dizia o bardo, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”, ou, parafraseando-o com uma espécie de liberdade poética, “há mais coisas em relação às pessoas do que supõe nossa vã antropologia”.
Tinha se tornado uma criatura assustadiça. Não era forte, quer dizer, não fisicamente, pois se não tivesse uma mente forte não se manteria sã. Mas, enfim, não era forte, perdera há muito os quilos que lhe davam algum vigor, os músculos elásticos treinados em anos e anos de palco, o fôlego... Mas era leve, e consideravelmente rápida de pensamento, o que funcionava bem sob efeito de adrenalina, quando estava acuada. Talvez exatamente por isso, se acostumara a reagir sempre na defensiva, a esperar o pior das pessoas, a bombear adrenalina e correr. Correr, correr, sua sobrevivência dependia daquilo. Então, no fim, tudo dava no mesmo: um moleque sem um dos braços armado com uma peixeira, uma mulher alta com roupas masculinas e olhar malévolo, um homem tatuado com dentes de ouro e músculos saltados, no caso, dois potenciais estupradores que, na verdade, não passavam de dois caras sem nada pra fazer além de utilizar seu privilégio de ser homem pra ter uma atitude protecionista com uma mulher bonita; tudo aquilo era uma possível ameaça. Como poderia saber, divisar as diferenças entre eles nos primeiros momentos? Não sabia. Não aprendera ainda... Não.
Então, se deu á liberdade de se sentir patética enquanto apertava as bolas coloridas em suas mãos longas e frias. Patética enquanto sentia os tijolos ficando em seu corpo como tatuagem. Patética, enquanto ouvia o ainda mais patético desabafo do engomadinho. Eram todos iguais, esses homens de sucesso. Vinham com aquele discurso, sempre o mesmo, sobre como ele normalmente era frio e insensível, e como ela era ingrata em recusar seu incrível gesto de bondade, e como ele, o grande homem, o cara, não deveria perder tempo com uma mulher pobre e idiota como ela. Era ridículo como esses caras são todos iguais. Não falou nada, apenas observou as costas metidas num terno escuro a se afastar com certa dureza. Já ia tarde. Era só mais uma pessoa banal, e Emilie não precisava de gente assim em sua vida. Já estava bastante ruim.
Olhou novamente para o céu enquanto ele batia a porta da limusine. De repente, não era mais o céu-rococó azul Royal, a beleza sumira. Tolice. Talvez nunca estivesse lá, para começar. O que confere beleza às coisas são nossos olhos, e os olhos de Emilie não podiam ter visto outra coisa que não isso, resplandecentes como estavam de brilhos dourados e cortinas se abrindo. Via o céu de seu passado... Se não fossem aqueles dois, o choque de realidade, a volta abrupta ao chão, o medo, talvez ainda estivesse com os olhos cheios de estrelas... Não olhando para aquele céu cinzento. Suspirou.
A limusine voltou, e o homem colocou a cabeça pra fora da janela, convidando-os para beberem. Baixou os olhos do céu de novo, entra chocada e com vontade de rir. Aquele ali era um tolo de marca maior. Mesmo ela, afastada do convívio social há algum tempo, sabia que o mínimo depois daquele ataquezinho que ele dera, o melhor era desaparecer no mundo e trocar de calçada sempre que a visse andando por aí. Mas, mostrando uma incrível falta de senso, ele voltava e os convidava para uma bebida! Pobre homem. Agora via que seu medo era ridículo. Embora, até onde soubesse, indivíduos sem a menor consciência social eram normalmente sociopatas. Então, era melhor prevenir do que remediar. Fez que não com a cabeça. Esperava que fosse o bastante. Não o viu partir depois.
O outro já atalhava uma frase qualquer, que ela perdeu o começo porque, é claro, divagava. Sua mente estava indo cada dia mais longe... Mas, enfim, quando finalmente pode colocar seu foco sobre o rapaz que permanecera, pode apenas vislumbrar uma fisionomia intrigada e uma frase instigante. “Aliás... já devo ter cruzado com sua ilustre figura por essas bandas. Seu rosto não me é estranho.” O resto se perdeu no turbilhão que se tornara a mente de Emilie. Seu rosto não lhe era estranho? Seu rosto não lhe era estranho? Teria aquele homem de aparência vulgar e gesto pouco polidos reconhecido a grande Emilie Qorpum? Mas, sim, sim, era completamente possível, fora muito conhecida, é claro. As pessoas agora apenas pensam que havia desaparecido no mundo. Uma vez por ano seu rosto ainda aparecia nos jornais, in memoriam. Ele podia ser um estudante de teatro. Essa sempre fora uma arte conhecida por abrigar todo tipo de gente e, principalmente, é claro, aqueles que se permitiam criatividade, liberdade, etc. A polidez vem depois. Talvez a tivesse estudado na escola de Arte Dramática. Talvez a tivesse visto em um livro. Ou em uma gravação de suas peças! Talvez tivesse ficado marcado por seu corpo energizado, brilhante em cena como o fogo do centro da Terra, os olhos faiscantes, a voz...! Mas ele estava indo embora. Desceu de seus doidos desvarios e, com a voz rouca da atriz que ainda existia dentro de si, alta, robusta, potente, chamou-o.

- Espere! – avançou e tocou-lhe o ombroEspere... Disse que me reconhece... De onde?
E sorriu sem mostrar os dentes, numa tentativa de ser simpática, mas com os olhos em brasa de glória e antecipação.

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10 Re: Prytania Theatre em Sab Mar 24, 2012 7:20 pm

Post Anterior:
Mar 22, 2012 - Hilton Hotel

Hilton Hotel

Me preparar para a noite é um ritual demorado e prazeroso que sempre me faz recordar das tardes em Las Vegas, na companhia de Melanie. Sentia saudades, de verdade. Minha mãe adotiva era a única pessoa no mundo por quem eu nutria sentimentos sinceros.

Sequei os meus longos cabelos castanhos com o secador morno, separando as mechas com os dedos, o deixando ondulado e natural, charmoso.

Espalhei loção hidratante no rosto e no corpo massageando com as pontas dos dedos até o liquido ser absorvido pela pele. Passei primer no rosto, no contorno dos olhos e nos lábios, para fixar a maquiagem, e então comecei o delicado e divertido “trabalho”.

Corretivo para esconder as olheiras causadas pelas noites mal dormidas e outras pequenas imperfeições, base e pó facial para dar uniformidade e um tom aveludado à pele.

Duas sombras, uma em tom rosa-pink e outra em tom purpura criam um esfumaçado degradê sobre os olhos (sem duvida, a parte mais difícil do processo, é preciso ser uma verdadeira artista para manipular pinceis estando com apenas um olho aberto), kajal preto e rímel incolor finalizam a maquiagem dos olhos e acertam as falhas nas minha sobrancelhas. Delineador labial e batom dão cor aos meus lábios e o blush em tom de pêssego dá brilho e vida às maças do meu rosto. Finalizo com pô compacto e com perfume suave, com aroma de rosas, e admiro o resultado em meu reflexo no espelho. Acredite, quando dizem que metade da beleza feminina desaparece com água e sabão, é verdade.

Um vestido “tomara que caia” rosa claro, com a saia drapeada pouco acima do joelho, uma sandália salto 15, brincos pequenos de flor, um colar de ouro com o pendente em forma de rosa e uma bolsa de mão completam a produção. Fiquei satisfeita com o resultado e em algum lugar das minhas lembranças podia ouvir a voz de Tomás, em tom jocoso.

- Você está uma princesa, Rafa. Quem é a vitima de hoje?

Mas não haviam vitimas esta noite, pelo menos, não por enquanto.

Desço para a recepção do Hotel e apanho um táxi, rumo ao Prytania Theatre. Aprendi a apreciar o teatro e o cinema com Melanie. Gosto de ópera, dos musicais da Broadway, das peças shakesperianas e de filmes com bad boys maravilhosos, tipo Velozes e Furiosos. Sou eclética, até por que, o meu estilo de vida me obriga a isso. Desejava, e precisava, conhecer Nova Orleans e o Prytania me pareceu uma excelente local para começar minha excursão pela cidade.


Prytania Theatre

Desci do táxi e observei a fachada, estilo década de 20, do teatro. Era bonito, mas não chegava os pés dos teatros e cassinos de Las Vegas. Respirei fundo, ajeitei o vestido e caminhei em direção a entrada do Prytania, mas parei para acompanhar uma movimentação curiosa que acontecia a poucos passos metros de distância.

O que me chamou a atenção foi a mulher. Tive um verdadeiro déjà vu ao olhar para ela. Não sabia onde nem quando, mas tive uma forte sensação de que já a tinha visto em algum lugar. Acompanhei seus passos com os olhos, tentando me lembrar de onde a conhecia. As roupas maltrapilhas, o cabelo mal cuidado e o rosto com expressão sofrida não ajudavam em nada, mas não escondiam que se tratava de uma mulher bonita, com porte. Essa combinação inusitada de estampa e pobreza foi o bastante para despertar minha curiosidade.

- Espere... Disse que me reconhece... De onde?

Apenas depois que a ouvi falar com o motoqueiro foi que me atentei para a sua figura. Bonito, possuía o charme de motoqueiro selvagem que acompanha a maioria dos homens que pilotam uma Harley Davidson, o charme é todo da moto, na verdade, mas o homem era interessante.

Dei alguns passos em direção ao casal, mantendo uma distância segura mas ficando perto o suficiente para ouvir a resposta do rapaz, talvez ela me ajudasse a lembrar onde eu tinha visto aquela mulher.

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11 Re: Prytania Theatre em Sab Mar 31, 2012 4:16 am

Não soube precisar exatamente o que o assustou mais. Talvez fosse a voz forte vinda daquela mulher frágil, que o fez parar imediatamente em seus passos. Ou então a mão que lhe tocou o ombro, vinda da pessoa que acabara de acusa-lo de um dos mais horrendos crimes.

Travis não era santo, jamais o fora, mas as senhoritas que passaram por sua vida nunca tiveram do que reclamar. Sua querida mãe – que Deus a tenha – o ensinara o suficiente sobre a sensibilidade feminina e cavalheirismo para que fosse um rapaz bem educado, apesar de... bem, tudo. Mulheres eram seu forte, mas ao mesmo tempo, seu ponto fraco.

Virou-se para a melancólica dama, analisando suas feições com o cenho franzido. Queria realmente se lembrar de onde a reconhecia e responder-lhe a pergunta, mas sua memória cheia de faces e lembranças de muitas experiências vividas lhe falhava ocasionalmente. O que era uma pena.

Se já houvesse conhecido a senhorita de forma mais intima, sabia que ela o reconheceria imediatamente, além de jamais o acusar do crime que ousara proferir. Então, tinha a certeza de que seu encontro com ela fora algo distante, talvez platônico, que o fizera observar de longe aquela figura exótica.

Em sua mente, porém, não era aquela forma decadente que via ao tentar recordar-se daqueles olhos e, principalmente, da voz. Não era a melancolia que era exibida em sua memória, o que, sinceramente, dificultava o reconhecimento. Aproximou-se um pouco mais, erguendo uma das sobrancelhas em reflexão. Era melhor ir pela praticidade.

- Se me disser seu nome, talvez eu possa responder sua pergunta.
– Declarou, finalmente, levando uma das mãos ao queixo em sua expressão pensativa. – Um rosto familiar nas ruas pode ser algo bom e ruim, mas um nome familiar é sempre útil.

Enquanto conversava com a mulher, podia notar que estavam ambos sendo observados. O peso do olhar alheio, sendo percebido depois de anos de experiência, era sentido com precisão, fazendo-o imediatamente tentar localizar com a visão periférica a origem daquele magnetismo. Não pretendia virar-se e buscar a pessoa que os fitava, já que isso poderia ser uma manobra pouco táctil, mas não precisou de muito esforço para localizar a fonte de seu desconforto.

Ou não tanto ‘desconforto’ assim.

Uma mulher absolutamente exuberante se encontrava parada a pouquíssimos metros de onde ele e a ‘senhorita melancolia’ estavam, observando-os avidamente. Queria acreditar que era pelo fato de ele, Travis, possuir uma vistosa figura, mas, ao virar-se um pouco mais em sua direção, pode perceber que os olhos dela estavam presos em sua atual acompanhante. Aquilo o fez estranhar. Pelo visto, ela também estava preocupada com o bem estar da dama que encontrara na rua. Ou talvez pudesse tê-la reconhecido, o que era uma grande pista.

Supostamente famosa. Decadente. Sentada diante do teatro com uma dor tão profunda em seus belos olhos que chegava a ser desconfortável de se ver. Conhecia o tipo, já vira aquela decadência vez ou outra pelas ruas. Tinha uma boa ideia do que poderia se tratar.

- Você é artista. – Arriscou. – Pela localização, eu diria que o teatro ou o cinema fazem parte de sua vida. Ou fizeram um dia.

Estava quase certo de que sua suposição fora correta, mas ainda assim não conseguia assimilar o rosto. Talvez estivesse apenas lidando com uma mendiga louca com mania de grandeza, mas aquele desespero e, principalmente, aquela voz o faziam crer que era algo muito além disso. Não deveria ser a toa que uma mulher do porte da que os observava estava ali, vidrada, na presença da outra. Algo tinha na suposta mendiga e, ao aguçar a curiosidade de Travis Beningthom, gerava a certeza de que aquele mistério seria desvendado.

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12 Re: Prytania Theatre em Dom Abr 01, 2012 12:38 am

Não podia dizer que não era decepcionante. Em algum lugar obscuro de seu ser, o orgulho e a prepotência já há muito relegados ao esquecimento se uniram para assumir que, bom, o peso de seu olhar expressivo seria suficiente para que o mundo inteiro, incluindo o rapaz a sua frente, a reconhecesse. É claro, se esquecera do mais óbvio. Já não atuava há cinco anos. O peso de sua voz diminuíra, assim como o calor de seu olhar e, obviamente, também suas qualidades físicas. As mentais provavelmente eram as mesmas, abonadas agora pelo conhecimento de um lado da vida que ela não conhecera anteriormente, o que poderia fazer bem à sua filosofia e antropologia quando voltasse a aplicá-las. Mas o que estava pensando? Provavelmente não voltaria a aplicá-las jamais. Sua chama criativa morrera no calor do inferno em que se encontrava, seu intelecto era agora abstração frente à fome que roia seus ossos semana sim, semana não.
É, já não era mais a mesma. Guardava alguma semelhança com a antiga Emilie Qorpum, mas estava muito mais magra, as faces encovadas, o rosto pálido e doentio, com olheiras saltando. Os lábios que costumavam sorrir abertamente nas campanhas publicitárias e entrevistas agora se voltavam para baixo, sucumbindo à dor e à tristeza. Não que estivesse deprimida, não. Ou talvez estivesse? Isso tudo era tão subjetivo... Bom, estava triste, é claro. Não tinha mais motivos para sorrir. Vivera apenas para o teatro durante tantos anos; respirava, comia, bebia, fumava teatro. Transava teatro. Sua vida era uma sucessão de cenas, performances e textos. Quando perdeu isso, o sentido de tudo simplesmente sumiu. Que lhe restava fazer agora? Ganhar alguns trocados, comer um salgado vagabundo num bar mais vagabundo ainda, sentar e olhar a lua, esperando a morte. Morta em vida, e não via mais nada além de sua própria desventura. Talvez fosse por isso. Lembrava-se daquela garota baixinha, de cabelos claros e grande talento, dizendo-lhe depois do ensaio ‘o que nos acontece é o que nós sempre pensamos’. Boa menina aquela. Amine, era esse o nome. Ela também morrera, mas fisicamente, uma morte mais agradável que a sua, supunha. Morrera no auge, com sua alma criativa ainda em chamas. Já Emilie, bem, quando a morte a viesse visitar, encontraria apenas um corpo vazio. As moiras tiraram tudo que prestava nela, deixando apenas um vazio gigantesco e alguns defeitos incômodos. Mas divagava.
Não importava o quanto estivesse na merda. Não sabia exatamente o que acontecia no mundo, mas seu nome ainda era conhecido. E, quando finalmente o proferisse, talvez ele ligasse os pontos e a reconhecesse. Ou talvez apenas pedisse desculpas e saísse de fininho, amaldiçoando os loucos na mendicância. Bem, o que fazer? Era um risco que corria. Sua esperança era que ele a reconhecesse, se agarrava a isso como náufraga da louca esperança que era, não custava nada, não custava nada acreditar, quem sabe, quem sabe, um raiozinho de luz em seu presente negro? Controlou as emoções e afastou as lembranças, dando um leve sorriso de lado. Não tinha certeza se parecia alegre, mas era um sorriso.

- Ou fizeram um dia... De fato. Mas, talvez não conheça meu nome. É... – engoliu em seco. Fazia tanto tempo que não o dizia em voz alta que nem sabia como soaria. Tentou colorir a voz, enquanto sentiu que sua já pálida face descoloria. – Meu nome é Emilie Qorpum.
Sentiu que seu queixo subiu levemente, e tratou de baixá-lo o mais rápido possível. Não era o momento de parecer orgulhosa. Não tinha nada de que se orgulhar. Tudo o que tinha de bom em si fazia agora parte do passado, assim como o nome que dissera com dificuldade. As luzes da ribalta, o cheiro de suor e sexo dos camarins, as festas, as orgias, os porres homéricos, as crises, as lamúrias, as discussões com diretores/ditadores, a alegria de pisar no palco, e a madeira vibrando sobre seus pés desnudos quando o público aplaudia e batia os pés e gritava “Bravo! Bravíssimo!”, tudo isso era agora mera lembrança, tecida a ouro por Mnemósine. Ah, as musas a tinham agraciado, mas agora... Agora... Engoliu as lágrimas que tentaram aparecer. Seus olhos ardiam. Mas não ia chorar. Não mesmo. Guardaria toda sua má água para a remota possibilidade de voltar a subir em um palco antes de morrer de pneumonia ou tuberculose, essas coisas românticas das quais morrem os artistas no esquecimento. Firmou o olhar no rosto do rapaz, buscando algum traço de reconhecimento em seus músculos faciais. De repente, sua felicidade dependia disso. Dramático e exagerado, porém verdadeiro.

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13 Re: Prytania Theatre em Qua Abr 04, 2012 7:43 pm

Post Anterior:
Mar 24, 2012 - Prytania Theatre


- Meu nome é Emilie Qorpum.

- Está brincando?!

Fiquei surpresa ao ouvir o nome da mulher, tanto que me esqueci de que não fazia parte daquela conversa, sequer tinha certeza de que qualquer um dos dois houvesse percebido a minha presença, apesar de ter a sensação de estar sendo observada pelo motoqueiro. Seja como for, me fiz ser notada.

- Emilie Qorpum? Foi esse o nome que disse?

Caminhei devagar em direção ao casal, o suficiente para ficar de frente para a mulher, o que me fez parar ao lado do motoqueiro. Fitei a figura magra e deprimente com um sorriso surpreso e descrente.

-Desculpa me intrometer, de verdade, eu costumo ser mais bem educada, mas isso é sério?

Vi Emilie Qorpum no palco uma vez. Tinha 20, talvez 21 anos de idade, em uma época em que as trapaças em mesas de poker ainda me satisfaziam, e isso faz muito tempo. Acompanhei Melanie em uma visita à França, um breve abre parênteses na vida agitada que levávamos em Las Vegas. Assistimos uma encenação de Macbeth, de Shakespeare, e naquela noite vi um teatro inteiro ficar em êxtase com o monólogo de Lady Macbeth. Lembro de ter dividido a minha atenção entre o palco e Melanie, que parecia estar a beira de uma sincope de tanta emoção. Gostei da peça, mas a teria esquecido na semana seguinte se Melanie não houvesse se apaixonado por Lady Macbeth. A acompanhei em outras duas apresentações da mesma peça e passei meses a ouvindo falar em Emilie Qorpum. Em pouco tempo, Melanie sabia tudo que se podia saber a respeito da atriz e havia se tornado sua grande fã.

O tempo relegou as lembranças de minha curta temporada de férias na França em algum lugar ermo de minha memoria, visto que, de fato, não foi algo importante. Ouvir o nome da atriz trouxe as velhas recordações à tona, junto com a sensação de que aquilo estava errado, não poderia ser sério.

Me forcei a lembrar da atriz no palco, das fotografias em revistas, sua fisionomia, suas expressões. O que os meus olhos viam não era Emilie Qorpum, ou era? Banho, maquiagem, roupas novas, somei alguns anos, diminui alguns quilos e...É, podia ser.

-- Nossa! É você?! Mas você não devia estar morta? - Perguntei, mesclando o espanto com alguma descrença.

Aprendi a não duvidar de nada e, ao mesmo tempo, duvidar de tudo. Lembrava de ter ouvido algo sobre a morte da atriz, de jornais e revistas lamentando a perda de uma estrela, infelizmente, não conseguia lembrar de detalhes. Alguma coisa estava fora do lugar, afinal, atrizes europeias não andam vestidas em farrapos pelas ruas dos Estados Unidos.

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14 Re: Prytania Theatre em Qui Abr 05, 2012 7:32 pm

Ações autorizadas pelo player de Travis Beningthom


________
________Hilton Hotel & Harra's Casino

________As notícias trazidas por Cassy são preocupantes. Se os Ventrue realmente arriscaram tal manobra é de de esperar que a Camarilla não fique de braços cruzados e inicie um contragolpe à altura. Em efeitos práticos, nem uma vírgula da rotina de Marie iria se alterar com o conflito iminente. O Masquerade continuaria a funcionar normalmente todas as noites como tem feito nos últimos anos; drogas e sangue continuariam a ser negociados dentro do clube e fora dele também, até onde alcançem os braços da Setita pela cidade. O único porém nessa história é o baile de daqui a pouco. Marie não quer bancar a anfitriã feliz enquanto o submundo da cidade está em polvorosa, interagindo com o nada interessante rebanho quando poderia estar, no mínimo, a adiantar os seus próprios assuntos.

________Perante um Masquerade vazio Cassy atrai os olhares dos funcionários com a sua aproximação sedutora e incisiva. A beleza e a juventude preservada da carniçal e sua relação com a desejada Marie atiça tanto o ciúme nas outras pessoas quanto o ciúme que sente em relação a sua senhora. Em um meio onde o conceito de autocontrole inexiste, a dona do Masquerade tornou-se a obssessão de muitos humanos influentes e cainitas descuidados, quase o mesmo podendo ser dito de miss Campbell.

________Marie se permite ser enlaçada pela cintura. Ela encosta a testa e o nariz nos de Cassy, dando-lhe a entender que corresponderia o amor demonstrado.

________- Ponha-se no seu lugar, serviçal. – distancia o seu rosto com o da funcionária e empurra o colo dela com o braço esticado à frente, com toda elegância que tal grosseria permite – Não é da sua conta o que pretendo fazer ou não, muito menos diga “nós”. Aliás, hoje você já fez o máximo que suas capacidades permitem. Fique aqui e tente não estragar com tudo.

________Ao deixar tudo nas mãos de Cassy e sair pela porta da frente, Marie deixou claro para ela que teria negócios a fazer. Sozinha. Confere a quantia de dinheiro que tinha na bolsa, aproveitando para pegar o celular e discar um dos números favoritados. Os contatos que lhe vendiam em grandes quantidade são leais aos Setitas que estão contra ela, restando como uma alternativa os pequenos fornecedores. É justamente o seu mais confiável “pequeno fornecedor” que atende o telefone.

________- Travis? – pausa para ouvir a resposta - Onde você está agora?



Prytania Theater

________O táxi deixa Marie em frente ao Prytania. O cabelo vermelho é a primeira característica a chamar a atenção quando ela desce do carro. Trata-se da marca que confirmava sua lealdade a Set - por mais que seus perseguidores no clã pensem ao contrário. "O Senhor dos Céus do Norte" é conhecido por vários outros nomes, dentre eles, o “deus vermelho”, e aqueles que levam a marca de Set em suas cabeças mostram grande respeito à ele.

________O arrebatamento que a setita causa naqueles ao seu redor se ampara não só nos trajes luxuosos que ostenta em um lugar relativamente mais humilde; o fascínio provocado por seus poderes do sangue também ajudam-na a ser o foco de atenção. Marie caminha solitária por entre as primeiras pessoas em seu trajeto até avistar Travis conversando com duas mulheres. Segue em direção ao grupo, sem se esquecer de aquecer seu corpo morto.¹

________- Boa noite.

Ela sorri para as companhias do rapaz e então faz algo inesperado; puxa Travis pelo pescoço e o beija longa e profundamente; enquanto o fazia, abre os olhos acinzentados e penetrantes e os fixa com tanto afinco na moça de cabelos longuíssimos (Rafaella Ayala) que deixaria qualquer um encabulado.

________Ela arrasta Travis durante o beijo uns quatro passos para trás, o que significa que ainda continuavam bem próximos às duas mulheres. Além de retirá-lo de uma provável conversa enfadonha e de evitar que as moças façam uma nova aproximação, Marie certamente conseguiu a total atenção dele. Mas quando põe fim ao beijo, parecia que nada daquilo havia acontecido. Ela mantém a “pressão” em cima do rapaz prendendo seus olhos aos deles e colocando a mão em seu peito, transformando o que era “amor” em algo um tanto intimidador.

________- Eu quero o que é meu agora. – o tom em sua voz mostrava autoridade – Entre comigo e faça a troca lá dentro.

________Enquanto esperava que ele a acompanhasse até o interior do Prytania, Marie notou um cheiro característico vindo de seu corpo. Mas as pupilas de Travis estavam normais, assim como a pele, as unhas, o batimento cardíaco e a pressão arterial. É... Ficaria tudo mais chato se ele estivesse realmente "limpo".
________


_____________________________________________
¹ Gasto de 1 Ponto de Sangue

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15 Re: Prytania Theatre em Sex Abr 20, 2012 4:38 pm

Os olhos escuros de Travis se arregalaram suavemente diante do nome dito pela mulher. Lembrava-se, sim, daquela figura, mas pensou se não seria um delírio de uma moradora de rua há muito entregue à vida. Era uma grande possibilidade, por mais que o rosto semelhante lhe marcasse a memória. Talvez fosse exatamente por isso; a senhorita havia se dado conta de como parecia com a ilustre Qorpum e resolvera brincar no seu próprio teatro.

Essa ideia foi posta em cheque pela reação da bela dama que os observava anteriormente e que, após ouvir o tal nome, intrometeu-se no assunto veementemente, demonstrando toda a sua surpresa e prazer pelo que ouvira. Travis sentiu os cantos de seus lábios subirem em um sorriso diante da felicidade e espanto daquela voluptuosa senhorita. Queria ter incrementado a situação com algum comentário pertinente, mas o celular, como sempre, interrompeu-o em um momento chave, fazendo com que se afastasse de suas adoráveis companhias.

Não praguejou, como qualquer outro homem normal faria em seu lugar. Olhar para o visor do aparelho apenas o fez assoviar em surpresa e atender a ligação imediatamente.

- Travis? – A voz forte e poderosa, que lhe causava arrepios sinceros, fez-se ouvir do outro lado da linha.

- O próprio, minha cara. Em que posso lhe ser útil? – Perguntou, solícito, sabendo que uma boa oportunidade poderia surgir daquele telefonema.

- Onde você está agora?

- Prytania. Algo que... – Tentou continuar, mas o telefone foi desligado antes mesmo que concluísse sua humilde pergunta.

Típico.

Suspirou dramaticamente e guardou o aparelho, apreciando o ar noturno. Sabia, diante de sua experiência em lidar com aquela mulher, que ela estava a caminho, mas isso não o impediu de voltar para perto das moças com seu melhor sorriso no rosto.

- Perdão, caríssimas. Não tive a intenção de ser rude. – Pediu, erguendo uma sobrancelha imperceptivelmente. – Devo fazer coro à surpresa demonstrada por esta dama, senhorita Qorpum, que, aliás, adoraria saber como se chama. – Questionou indiretamente a mulher desconhecida. – Não acreditava na possibilidade da grande Emilie Qorpum ainda estar entre nós.

Sua declaração era sincera, transmitindo toda a confusão que sentia. Como aquela atriz havia se tornado uma moradora de rua? Como chegara em tal estado deplorável de decadência?

Seus questionamentos ficaram sem respostas, quando a arrebatadora presença de Marie acabou por novamente interromper a situação. A mulher chegara, causara a impressão que sempre causava, e simplesmente o beijara na frente de todo o mundo. Travis quis rir, mas não o fez, fingindo retribuir o beijo que era tão falso quanto sua vontade e sendo simplesmente arrastado para longe das outras.

Marie não conhecia a palavra discrição. E, pelo preço que lhe pagava, Travis não tinha muitos problemas com isso.

- Eu quero o que é meu agora. Entre comigo e faça a troca lá dentro. – Ela declarou com sua característica autoridade, fazendo com que ele sorrisse.

- Seu delicado pedido é uma ordem, caríssima. – Declarou, em leve deboche, enquanto dava-lhe as costas após uma suave reverência, e se dirigia até sua moto para buscar o que lhe era ordenado.

Era realmente um homem sortudo, mas tudo graças à sua habilidade de andar sempre prevenido. Qualquer momento poderia ser um bom negócio, e era por isso que aquela mulher poderosa o procurava naquela noite. Ela sabia. Ela o conhecia.

Pegou o que lhe fora pedido e colocou no bolso interno de seu casaco, seguindo para dentro do teatro ao encontro de Marie. A noite estava realmente tomando um novo rumo, e um bastante lucrativo, algo que Travis jamais fora capaz de recusar.

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16 Re: Prytania Theatre em Qua Abr 25, 2012 4:18 pm

Um sorriso. Um sorriso enorme, luminoso, de orelha a orelha, mostrando todos os dentes, iluminando as faces encovadas e colocando algum brilho nos olhos. Sentia que suas mãos tremiam incontrolavelmente, num desejo de gesticular, mas ainda não era o momento... Não, não era o momento ainda. Tentou ficar o mais centrada possível, para que o tremor não subisse para seus ombros. Não conseguia parar de sorrir nem mesmo para responder as indagações da mulher – ou seria um anjo? Se ela acreditasse em tais seres, não haveria um mais adequado para aquela criatura que lhe causava o primeiro sorriso verdadeiro em cinco anos. Seu coração batia tão forte contra seu peito esquálido que ela se sentia próxima de uma síncope. Sua coluna novamente estava ereta, dolorosamente ereta, apresentando a público – de duas pessoas – toda a sua altura, seus ombros largos, seu pescoço longo. Uma postura que há tempos não assumia. Mas não ia pensar nisso agora. Não quando alguém finalmente a reconhecia!

Mas não estava totalmente cega pela felicidade e adrenalina (e pelo possível começo de um ataque cardíaco, pensou, pressionando o peito que agora doía com o trabalho intenso de seu coração desesperado). Via o ar ligeiramente descrente que envolvia Rafaella e a sobrancelha levantada de Travis. De certa maneira, eles acreditavam mais na hipótese de uma mendiga doida querendo se passar por uma atriz famosa. Mas ela entendia. Se estivesse na situação deles, provavelmente não acreditaria também. Mas eles a tinham reconhecido, e isso já era maio caminho andado. Além, é claro, de provar parar seu subconsciente pessimista que as pessoas ainda conheciam seu nome, que ainda era famosa, que marcara o mundo de alguma maneira. Podia sentir sua prepotência voltando. Conteve-a. Ainda não era o momento. Precisava dizer alguma coisa.

Enquanto tentava pensar em algo para dizer às insinuações de que deveria estar morta, se divertia em pular seu olhar do rosto de Travis para o de Rafaella, lançando sorrisos e parcelas de segundos iguais para ambos. Só agora percebia como eram belos. Rafaella era, sem dúvida, uma mulher belíssima. Travis tinha uma beleza quase brutal. A noite estava lindíssima, realmente. E como era bonito o prédio do Prytania! Como era possível que ela viesse ali tanto e não percebesse como aquele lugar era maravilhoso? E todas aquelas pessoas na frente do teatro, todas tão bonitas! O mundo é realmente lindo. E o aparecimento da mulher de cabelos vermelhos só confirmou isso. Quer dizer, ela era maravilhosa. Chegou até a prender levemente a respiração com o aparecimento daquela pessoa, mas foi tão rápido e ela sumiu com Travis para algum lugar que, bem, no momento que ela saiu das vistas de Emilie, foi esquecida. Estava muito ocupada com sua própria situação para gastar preciosos neurônios pensando na beleza alheia. Voltou seu olhar para Rafaella, fazendo um esforço gigantesco para se soltar dos ganchos invisíveis que puxavam os cantos de seus lábios irresistivelmente pra cima.


- Sim, eu mesma. Emilie Qorpum, a seu dispor. – estenderia a mão num cumprimento, mas imaginava que não seria muito agradável para a outra apertar sua mão grossa e calejada. Fez apenas um gesto rápido com a cabeça – E, não, não estou morta, embora concorde com você que eu deveria estar. Digamos que apenas tive muito azar nos últimos tempos. – sorriu. Não podia evitar. – Mas fico muito feliz que meu nome ainda signifique algo para alguém. Por acaso a senhorita chegou a me ver no palco?

A curiosidade de sempre. Como seu nome chegara tão longe de sua terra natal, como pessoas tão... Tão diferentes a conheciam? Certo, aparecera na televisão algumas vezes. Fizera alguns filmes. Mas sua carreira fora no teatro, e lá fizera um nome e seus melhores trabalhos. Nunca chegara a se apresentar no novo mundo, afinal, o desastre acontecera antes de qualquer coisa. Mas, não importava realmente. Tinha assuntos mais graves a tratar.

- Mas talvez você não acredite completamente em mim. Quer dizer, eu não acreditaria. Posso ser só mais uma louca de rua, não é mesmo?... “Mas eu tenho no peito o que não passa, meus trapos são o adorno da desgraça”.

Sorriu. A fala de Shakespeare já devia significar alguma coisa. Nem todos os mendigos citam Shakespeare, pensou, e riu consigo mesma.

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17 Re: Prytania Theatre em Dom Abr 29, 2012 8:59 pm


Ali estava uma excelente história para ser contada nas mesas de carteado de Vegas. Emilie Qorpum, a grande estrela teatral europeia, vagando, vestida em farrapos, pelas ruas de Nova Orleans. Como bem dizia Tomás: Vivemos para nos surpreender.

Fui ter a verdadeira noção de quanto o dito de Tomás era perfeito para a ocasião com a chegada triunfal da mulher de cabelos vermelhos. A mulher carregava um charme natural, um fascínio que, antes mesmo de se aproximar de nós, já havia chamado a minha atenção. Aparentava ser o tipo de pessoa suficiente em si mesma, altamente confiante, decidida. Qualidades que, por buscar para mim, aprendi a apreciar nos outros.

Observei boquiaberta e com uma pitada de inveja, a aproximação arrebatadora da mulher e o beijo inesperado dela com o motoqueiro selvagem. Prendi a respiração quando a vi olhar na minha direção, um olhar indecifrável, penetrante o suficiente para me deixar constrangida, o que era estupidamente raro de acontecer. Encarei a mulher, com os braços cruzados e os lábios levemente erguidos em um sorriso maroto. Posso até ficar encabulada, em situações, digamos, extraordinárias, mas seria preciso mais que isso para abalar a minha confiança.

Acompanhei com os olhos enquanto o casal seguia para o interior do Prytania, para, em seguida, voltar a minha completa atenção para Emilie. Abri um sorriso largo ao ouvir a mulher apresentar-se, novamente, como Emilie Qorpum.

Posso mudar de cidade, de país, porém o que eu sou e a minha maneira de encarar o mundo não muda. Oportunidade. Emilie Qorpum, se fosse verdade, eu estava diante de uma excelente oportunidade. Chega a ser engraçado. Minha mente trabalha de maneira involuntária e as vezes, sem que eu perceba, estou montando estratagemas para me beneficiar das pessoas e das situações. Passei as mãos pelos cabelos, um movimento trivial e distraído, mas que escondia a intenção de afastar o amontoado de ideias que se atropelavam na minha cabeça. Precisava pensar em uma coisa de cada vez. Primeiro, eu precisava ter certeza que a mulher na minha frente não era apenas uma mendiga com delírios teatrais.

- Mas talvez você não acredite completamente em mim. Quer dizer, eu não acreditaria. Posso ser só mais uma louca de rua, não é mesmo?... “Mas eu tenho no peito o que não passa, meus trapos são o adorno da desgraça”.

Dei um sorriso confiante para a mulher. Se era louca, era a mais consciente que já havia conhecido. A cada momento tinha mais certeza de que estava, realmente, diante de Emilie Qorpum.

- Hamlet! - Deixei a voz sair com uma pitada de surpresa. - Porém eu a conheço por outra obra de Shakespeare, Macbeth.

- Estive na França, há uns 6 ou 7 anos atrás. Assisti ao melhor espetáculo teatral da minha vida nesta época. Lady Macbeth foi, simplesmente, magnifica!


Me aproximei da mulher, a observando com cuidado, estudando sua fisionomia.

- Você é uma mulher com traços marcantes, mas os últimos anos parecem ter sido cruéis com você. Desculpe se fui rude quando disse que você devia estar morta. Não quis dizer que era uma obrigação sua estar morta. - Encolhi os ombros, como se estivesse envergonhada por tê-la ofendido.- É que pouco depois que deixei a França ouvi noticias sobre a sua morte, então, fiquei surpresa por encontrá-la em Nova Orleans.

- E antes que eu me esqueça.
- Abri um sorriso educado, mudando de assunto.- Me chamo Rafaella Ayala. É um imenso prazer conhecê-la. - Estendi a mão em forma de cumprimento para Emilie.

- Agora, me diga, o que uma estrela do teatro europeu está fazendo na América?

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18 Re: Prytania Theatre em Seg Abr 30, 2012 9:39 pm

- Ah!... Sim, sim, Lady Macbeth.

Seus olhos saíram de foco. Sim, Lady Macbeth, o papel de sua vida, o auge de sua carreira, de sua inspiração, de suas habilidades físicas e mentais. Um ano e meio de processo. Três anos circulando a peça. Quinze prêmios de melhor atriz em Festivais de Teatro Europeu. Dois prêmios do Festival de Avignon. Mil seiscentas e quarenta e cinco horas de palco, apresentando. Sete horas de ensaio por dia, sete dias por semana. Trezentos e vinte e nove mil espectadores. Milhares de crises, uma luxação no joelho esquerdo, três cortes fundos no lábio superior, um calo nas pregas vocais e duas coxias pegando fogo. Mas colocando nesses termos, não se compreende a beleza, a fascinação, a força de Macbeth. Aquela montagem... Aquela montagem era o motivo pelo qual não conseguia desistir totalmente do teatro, era a razão da sua esperança. Balançou a cabeça levemente e voltou a focar seu olhar na bela mulher com quem conversava. Por alguns segundos, perdera o rumo. Macbeth!

Ela lhe estendia a mão num cumprimento. Ela realmente lhe estendia a mão num cumprimento. Seus olhos incrédulos foram da mão estendida para a expressão completamente... completamente educada e normal. Nada de asco. Ela não parecia ter nojo de entregar sua mão limpa nas mãos de uma moradora de rua. Realmente... Ainda havia esperança para a humanidade. Abrindo um sorriso que afastou por completo as lembranças de Macbeth, apertou com firmeza a mão que lhe era oferecida. Alegria.


– É um prazer... Rafaella.

- Agora, me diga, o que uma estrela do teatro europeu está fazendo na América?

O sorriso de Emilie congelou no mesmo segundo em que a pergunta entrou por seus ouvidos. Como responder a isso? Sentiu que sua mão tremia, então largou a mão de Rafaella, que ainda segurava, com certo ímpeto de violência mal controlada. Sentiu-se gelar, mas ao mesmo tempo sabia que não tinha razão nenhuma para todo esse alvoroço interno. A pergunta dela fazia muito sentido. Todo o sentido do mundo. Aliás, todo mundo pra quem ela contasse que era Emilie Qorpum ia lhe perguntar a mesma coisa. A reação... Sua reação... Era só por ser a primeira. Só por isso. Suspirou.

– De certa maneira, eu sabia que esse momento ia chegar... – sussurrou isso mais para si mesma, tão baixo que tinha quase certeza de que Rafaella não ouviria.

Mas se recompôs rapidamente e sorriu indulgentemente para o nada antes de fixar seu olhar sobre Rafaella e elevar a voz como se fosse contar a mais terrível das tragédias gregas. Bem, para ela, era quase isso mesmo.


– Bom, de certa maneira, foi por causa de Macbeth. Aquela peça começou como uma experiência, só para vinte apresentações no fim do processo... Mas o sucesso foi estrondoso. Recebemos dois grandes prêmios ainda na Inglaterra, e fomos convidados para o resto da Europa. Foram três anos... Pulando de cidade e cidade e apresentando... Possivelmente a nossa melhor peça. Mas isso nos subiu à cabeça, é claro. E fui nutrindo cada vez mais o desejo de vir para o Novo Mundo, circular por aqui... Passar mais alguns anos com Lady Macbeth. – respirou fundo. Agora era a parte desagradável, e sentia que ficava cada vez mais grave – Nosso primeiro convite foi pra cá, Nova Orleans. Mas nós chegamos junto com o furacão. Nosso acampamento foi atingido, e foram todos morrendo... Toda a minha trupe, atores, diretor, maquiadores, todo mundo. Só eu sobrevivi. - deu um sorriso frouxo e torceu as mãos – Não consegui mais atuar. Tenho vivido na rua desde então e faço malabarismo pra sobreviver. É isso. Não sou mais a grande dama do teatro europeu.

Se segurara para não falar mais do que o estritamente necessário. Fazia tanto tempo que ninguém se interessava pelo que ela dizia, que agora se alguém fazia uma mísera pergunta ela revelava toda sua vida! Estava carente. Mas achava que tinha se saído bem. Não revelara demais nem escondera o essencial. Sentiu seus olhos brilharem enquanto examinava com seriedade os músculos faciais de Rafaella, a procura de reações adversas. Mas logo desistiu e deu de ombros, acompanhando o gesto com uma risada ligeiramente coquete.

- Mas acho que falei demais... Então, Rafaella, você é francesa? Porque abandonou a Europa? – sentia que ela não era francesa coisa nenhuma, mas precisava desesperadamente tirar o foco da conversa de si mesma, antes que... Antes que...

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19 Re: Prytania Theatre em Ter Maio 15, 2012 4:23 am

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________Marie é uma cria relativamente nova. Ela se lembra perfeitamente de quando ainda andava pelo sol. Naquele tempo, sentia seu coração acelerar após uma speedball¹ direta na veia, as pupilas palpitando e a boca secando com o uso constante de narcóticos. Hoje tudo nela é seco. Sem coração, fluídos, sem vida alguma, Marie transformou-se em mais uma maldição de Deus contra Caim, fadada a vagar pela Terra sem gozar de alegrias verdadeiras ou prazeres completos. E é justamente seu tempo vivido no teatro, aquilo pelo qual ela luta para perder na memória, o que lhe traz mais perto de revisitar seu passado. Através de joguetes sociais, como o que acabara de produzir na frente do Prytania, ela consegue reviver o seu tempo áureo na dramaturgia. Bem ao estilo dos dias em que lotava casas de show em Vancouver com um público ávido por assistir suas apresentações densas e dramáticas, esta noite arrebatou alguns espectadores com a cena do beijo dado em Travis. Pronto. Por algum breve instante tornou-se novamente a protagonista, dessa forma conseguindo preencher com algum sentimento a danse macabre que tem realizado por décadas a fio.

________Cochichos eram ouvidos nos quatro cantos em volta de Marie. “Você viu o que ela fez?”, "De onde ela surgiu?", “Que cara de sorte!” Os comentários não saíam muito do lugar comum, o que não é nenhum empecilho no caminho de inflar o ego da serpente. Tendo arrebatado a atenção de muitos e o coração de alguns, caminha de queixo erguido por entre os mortais, tratando em demorar-se na inevitável troca de olhares com a senhorita Ayala. Ouvira a humana se apresentar à mendiga segundos atrás, por isso sabe seu nome. Ouvira também a apresentação da mendiga, e com ela, a maior surpresa da noite: Emilie Qorpum estava bem ali na sua frente, em carne e osso. Marie chegou a ver uma apresentação dela uma vez em morte. Boa atriz. Ótima memória e entrosamento com os companheiros de palco. As palavras saíam como se não viessem de textos, mas sim de dentro dela própria. Palavras sem sal, é verdade, como ela também deveria ser. No entanto, ver a outrora bem sucedida atriz em frangalhos não ajuda na reparação da imagem de tonta que Marie faz dela.

________Cruzou com Emilie sem se importar em ser reconhecida por ela – de fato, não havia a mínima chance disso acontecer, por diversos motivos. Tornou a olhar a senhorita Ayala mais uma vez, munida de um quase sorriso nos lábios e a postura de dama já refeita após a cena do beijo. Toma cuidado para não acabar espantando a mortal com algum olhar invasivo ou demorado demais, e para tanto resolver entrar de vez no Prytania. Nada de convites ou bilhetes de entrada; apenas se deixa ser reconhecida pelos funcionários. Aproveita a ocasião e deixa um recado com um deles: que ele avisasse à senhorita de vestido “tomara que caia” na cor rosa claro que Miss Radelle queria que ela fosse sua convidada esta noite, e que poderia trazer Emilie Qorpum com ela.

________Enfim adentra o Prytania. Mais do mesmo. Estivera no teatro muitas outras vezes antes, fosse em busca de drogas, sangue ou diversão. Gostava do público que frequentava o lugar, formado normalmente por pessoas cultas e excessivamente confiantes em sua capacidades mentais e sociais: o tipo de presa mais fácil para a serpente. Esta noite não poderia deixar de ser diferente, tendo pessoas muito bem trajadas nos estilos “fino” e “moderninho”. Marie sequer sabe o que raios será apresentado esta noite; seu maior interesse é receber a isca para sangue das mãos de Travis. Falando nele, logo ele se aproxima da setita, estando ambos no movimentado hall de entrada do Prytania.

________Marie tem uma expressão de quem está neutra, mas aberta a cumprimentar com um sorriso quem lhe cumprimente. Mesmo com essa neutralidade, seus olhos cinzas são tão grandes e arredondados que parecem dispender uma enorme atenção ao motociclista e aos seus movimentos.

________- Desculpe por meu temperamento lá fora. Você sabe que uma pessoa como eu não pode ficar esperando. – mexe na bolsa que trazia consigo e retira uma revista de moda de dentro, entregando a Travis em seguida – Quem são aquelas suas amigas? O que você sabe delas? Também posso lhe pagar por essas informações.

________Estava claro que era para ele colocar a droga dentro da revista, enrolá-la e devolver à Marie, tanto que ela nem perde tempo lhe fazendo sinais ou enviando outras dicas inúteis. Ao invés disso, ela prefere enfim olhar em volta e tentar reconhecer rostos cainitas familiares no recinto. Tem a certeza de que com uma guerra fria acontecendo no outro lado da cidade, o Prytania estaria completamente fora da rota de conflito. Mas prevenir ainda é melhor do que remediar.
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¹ Speedball é um termo popular para a mistura de heroína ou morfina com cocaína ou metanfetamina.

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20 Re: Prytania Theatre em Ter Jul 03, 2012 8:06 am

Alguma coisa mudara. Jogou as bolas para cima sem muito ânimo. Verde, laranja, roxa. Laranja, roxa, verde. Roxa, verde, laranja. E continuava assim eternamente. Já anoitecera, e a luz do poste mais próximo a cegava tanto quanto o cigarro que permanecia corajosamente no canto de sua boca, vomitando fumaça contra seu olho esquerdo. Não precisava mais olhar para as bolas para conseguir manobrá-las. Fazia como se não estivesse fazendo, nada mudava dentro de si, ou fora. Mordia o cigarro concentrada, deixava seus olhos cegos presos no movimento e registrava as cores sem pensar muito. Estava entediada, como sempre, mas sabia que não podia aparentar ou ninguém lhe daria nem um mísero centavo. Era o máximo que fazia de atuação ultimamente, fingir que estava animada com seu malabarismo medíocre. E qualquer um que entenda um mínimo de teatro sabe que fingir não é atuar. Mas escurecia, rapidamente. Seu olho esquerdo lacrimejava. Aparou as bolas e curvou-se ao nada, agradecendo. As partes mais coloridas de seu dia voltaram para dentro de seu bolso, e ela enfiou a mão dentro da lada enferrujada a seus pés. Duas notas amassadas. Algumas moedas. Poderia jantar um daqueles salgados de palmito, fazia muito tempo que não conseguia dinheiro o suficiente para um! E talvez um refresco... Meia dúzia de cigarros vagabundos. Estava satisfeita. Mas alguma coisa mudara.

Sim, alguma coisa mudara. Ontem mesmo, durante a tarde, fizera seu malabarismo e aquilo fora o suficiente, ela se alegrou vagamente em comprar uma empada num bar fuleiro e beber uma coca-cola morna. Mas agora... Suspirou dolorosamente. Quem dera não tivesse ido ao Prytania na noite passada, e nunca tivesse falado com aquela mulher! Aquela... Rafaella... Lhe fizera muito mal. Sim, lhe fizera muito mal, porque... Se lembrara...

Era muito fácil viver com suas lembranças e se lamentar vagamente por seu presente. Era fácil dizer pra si mesma que não conseguia mais atuar, que as pessoas achavam que estava morta, e pronto! Sentava-se nas calçadas do Bairro Francês, olhava para o céu com os olhos marejados, encantada por sua própria dramaticidade, por sua desgraça, por sua suposta força em permanecer viva! Mas era uma covarde... Nunca imaginara isso, mas era uma covarde. Afinal, era a grande Emilie Qorpum! A grande dama do drama europeu! O que a impedia de dar a volta por cima, que não ela mesma? A tal Rafaella provavelmente nunca saberia a extensão do encontro breve entre as duas. Uma conversa trivial apenas, e ela logo entrara no Prytania para cuidar de suas próprias coisas, deixando para traz a mendiga sem lhe dar muita confiança. Era simplesmente natural. E ela, Emilie, tinha saído andando desnorteada pelo resto da noite, com a cabeça fervendo de pensamentos contraditórios. Fora reconhecida. Se fora reconhecida, o que a impedia de fazer qualquer coisa?

Tinha que pensar. Vivia na rua e, obviamente, não conhecia ninguém. Mas já era o momento de começar a arquitetar sua volta às artes cênicas. Estava cansada de sua autocomiseração, de sua fraqueza, do sofrimento que se forçava a sentir. Lady Macbeth, Ofélia, Nora, todas elas ficavam para trás. Precisava reconstruir sua carreira. Tinha muito material humano agora. Anos de laboratório, embora não acreditasse muito nisso. Queria voltar a ser quem era, com seu sorriso expansivo, seus olhos grandes, sua voz forte e seus braços abertos. Queria novamente seu peito batendo no ritmo caloroso da arte, e seus pés sobre a madeira, e todas as suas roupas com cheiro de poeira de palco. Queria beijar o palco e lhe sussurrar o quanto sentira sua falta, o quanto era doloroso ficar longe, e como ele era seu único amor... Sim, o palco era seu único amor. Como podia se privar conscientemente de seu amor, de sua paixão, de seu tesão, sendo que estava tão perto, que estava a seu alcance? Como era tola! Como era tola...

As ruas iluminadas lhe sorriam. Sim, sua hora chegava novamente. Nova Orleans, aguarde! Emilie Qorpum está de volta. Bom, a primeira coisa de que precisava era contato com artistas novamente. Agora, onde encontrá-los? Ou talvez devesse começar contando ao mundo quem era? Começou a andar sem rumo, sua mente fervilhando de possibilidades, esperando que aquilo a levasse a algum lugar.

Seus passo febris na noite pararam bruscamente, e ela levantou os olhos para a fachada do Prytania. Voltava ao mesmo lugar, no fim. Bom, talvez devesse mesmo começar por ali. Haveria algum diretor de teatro ou algo assim naquele lugar? Enfiou a mão no bolso e puxou seu último e amassado cigarro, acendeu-o com tranquilidade e olhou interrogativamente para o prédio. O que faria agora?

Um sorriso brincava em seus lábios. Já não era mais a mendiga louca. Sua postura, seu rosto, sua energia... Era, novamente, Emilie Qorpum.

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21 Re: Prytania Theatre em Sex Jul 06, 2012 11:03 am

A vida pode ser muito boa para quem cuida de si mesmo, acredito que seja por essa razão que ela só começou a se mostrar boa nos últimos três anos. Antes de conhecer Cassius Almond eu a havia perdido para a tragédia, não tenho muita memória de como sobrevivi após o furacão, sem família, sem emprego, sem dinheiro. Lembro apenas de flashes. Garrafas de cerveja vazias caídas numa mesa de bar, punhos vindo em direção ao meu rosto, olhares femininos de pena. Cenas recorrentes durante um bom tempo... Quanto tempo foi? Três anos? Quatro? Parecem-me que foram bem mais que isso...

- Kevin? Está me ouvindo?

Uma voz distante e conhecida me chama, trazendo-me de volta das minhas divagações. “Tenho que me desligar disso, o passado não me traz nada!” Tento recuperar o foco no momento atual, no qual desconhecidos vem em minha direção com câmeras fotográficas, gravadores ou papel e caneta para me perguntaram mais do mesmo, como em todas as outras vezes.

- Esta luta foi travada na técnica, você sentiu dificuldades contra um oponente que gastava mais tempo te evitando do que te atacando?

- Você deve mais esta vitória a que?

- Dizem que você...

Procuro em meio a multidão por Louis, o encontro sentado em uma das cadeiras desocupadas pela multidão que parte após o evento da noite, com o olhar de orgulho que conheço bem. Durante dez minutos, que me pareceram uma hora, tive que responder a perguntas imbecis que os jornalistas locais me faziam, e, então, consegui chegar até ele.

- Tentei falar com você lá no ringue, mas desisti. Bom trabalho, garoto, você mostrou a eles quem manda em New Orleans!

Respondo com um olhar de agradecimento, sem sorrisos, esta luta foi apenas mais um desafio vencido. É assim que vivo: cada oponente tem um vazio no lugar do rosto, onde visualizo meu antigo lar destruído, meus pais mortos.

- Amanhã tire o dia de folga, não me apareça no Crescent para treinar, você merece esse descanso.

- Obrigado. – Respondo educadamente. Eu não tenho ideia da hora que levantarei amanhã e não me importa, hoje derrotei o Katrina, mais uma vez, e amanhã lá estará ele de novo.
Quando penso que ficarei sozinho, meu padrinho me chama:

- Kevin! Belíssima luta, como sempre!

- Obrigado, Cassius!

- Venha, quero lhe apresentar alguém!

- Padrinho, se me perdoa, hoje eu realmente gostaria de descansar mais cedo. – Parece-me rude a forma como respondo, mas eu realmente não queria falar com ninguém no momento.

Felizmente ele me entende o suficiente para não me pressionar e parto, finalmente, para o vestiário.

Após um banho demorado, me visto e saio. Meus pensamentos voltam a se perder no passado... Por alguma razão, ultimamente tenho tido estas regressões com mais frequência. Talvez uma mensagem do passado, talvez melancolia, talvez apenas uma ligação por eu finalmente estar achando meu lugar no mundo, como eu achava ter quando ajudava meu pai no seu trabalho.

Minhas lembranças me tiraram do rumo e, em vez de ir para casa - aquele cortiço onde eu guardo minhas coisas e durmo, torcendo para que alguém não o incendeie – e acabo por ir no sentido oposto, noite adentro, as luzes alaranjadas das ruas logo dão espaço ao neon de um letreiro luminoso. E, então, volto ao presente:

- O Prytania Theatre? Por que aqui?

Meus pais me prometeram na minha infância inúmeras vezes que um dia me levariam para ver um filme ou, se eu tivesse sorte, uma peça de teatro. Nunca sobrou dinheiro para isso, para minha frustração infantil, hoje eu entendo como era uma vida difícil que levávamos, mas aparentemente parte de mim ainda se apega a isso. “Será que eu tenho como pagar por um ingresso?”

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22 Re: Prytania Theatre em Sab Jul 07, 2012 10:30 am

Começo a andar, lentamente, como se receoso de estar fazendo algo errado, em direção à bilheteria. Nunca sequer estive a quatro quadras daí e agora o via pessoalmente! Isso é algo emocionante, se meu pai e minha mãe estivessem aqui, seria perfeito! Assistir a um filme com eles, os únicos que realmente gostavam de mim.

Certo, Louis me treina, mas se eu não seguir a rotina ou os ensinamentos, poderia dar adeus como ele fez com John Colbert tempos atrás. E Louis gosta de mim porque tenho futuro nas lutas profissionais, ele foi de certa forma um segundo pai, devo muito a ele por isso, mas não o convidaria para o cinema comigo. Seria, no mínimo estranho.

Entro na fila para os ingressos, minuto a minuto me aproximo do vendedor, estou aqui de verdade. Começo, então a olhar ao redor, pela primeira vez saboreando um momento digno de lembrança que não seja negativo. As pessoas bem vestidas, os sorrisos de quem espera para descobrir o que verá lá dentro, o cheiro de comida no ar, as cervejas vendidas no balcão para quem tem o suficiente para pagar por elas, até quem não pode estar aqui tem seu brilho. Não falo por mim, mas pela malabarista que parece tentar ganhar a vida: percebe-se que não deve ter mais recursos que eu, mas tenta ganhar seu pão com arte perto de um local que oferece arte, nada mais justo, e seu rosto traz um olhar distante, acho que já vi esse tipo antes... Talvez em algum drama na Hallmark.

O ingresso me custa caro, mas não volto atrás, faço isso em memória a meus velhos, acho que terei que assistir ao filme sem comprar uma bebida. Dou uma olhada no bilhete para descobrir o que vou ver: "Entrevista com o Vampiro".

Vampiros? Não, obrigado! Não quero ver um filme com criaturas que deveriam estar mortas e que seguem vivas, isso é autoflagelação demais para mim. Tento desistir da compra, vou até a bilheteria para falar com o rapaz que me vendeu o ingresso, mas não tenho tanta sorte assim.

Das duas, uma: cometo uma ação de autopenitência por não ter estado junto aos meus pais quando deveria, destruindo o que poderia ser a primeira boa lembrança que teria após a tragédia, ou jogo fora o bilhete, pago com uma grana que eu não deveria ter gasto desde o começo? Enquanto eu me decido começo a olhar novamente as pessoas do local, em seus trajes bem arrumados, todos perfumados, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar. Por alguma razão isso me incomoda agora. Decido pela segunda opção.

Quando me aproximo de uma lata de lixo, vejo correndo em direção à calçada onde o Prytania se instala a mesma malabarista que anteriormente jogava com suas bolas e o olhar distante e triste. Não parece a mesma pessoa, mas a reconheço pelas roupas, que destoam um pouco do resto. Está, agora, com uma força interior renovada, percebo isso pelos seus olhos bem abertos, o sorriso estampado no rosto... Já vi isso em pessoas que esperam que algo de bom vai acontecer. Olho para o ingresso em minhas mãos e decido dar um fim mais nobre a ele.

Ponho-me no caminho da pobre criatura, devo tê-la assustado, não sei ao certo, e a seguro no ombro, firme, para que ela não me escape, olho para ela nos olhos para ver aquele brilho que eu gostaria de ter, abro as mãos da mulher e coloco o ingresso, sem tirar os olhos dos dela, como se tentasse absorver um pouco dessa força de vontade para eu caminhar em paz, fecha suas mãos e a deixo ir e, antes que ela pudesse me dizer qualquer coisa, eu ponho-me em direção ao cortiço onde moro.

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23 Re: Prytania Theatre em Seg Jul 16, 2012 11:08 am

Cruzando o Atlântico a bordo de um navio, rumo à terra prometida, Cécile imaginava como seria o “american dream” visto de tão perto. A América nunca fora a sua primeira escolha, tampouco era a segunda, terceira ou quarta. Sentia que o mundo estava tão atrelado ao estilo de vida daquele povo que não encontraria nada de diferente do que já vira na França. Pois bem, aproveitou o longo tempo livre entre a carga de grãos para pesquisar o inverso: o que aquele país teria da França? Descobriu que Nova Orleans possuía muito mais história e cultura em comum com sua terra natal do que poderia ter esperado, e tal fato por si só já a animou bastante para se esforçar em ter sucesso. Poderia não ser o Peru, mas ainda assim teria o seu valor, afinal.

A chegada na América, se por um lado transcorreu sem problemas, por outro não trouxe mágica alguma. Um porto, estivadores, máquinas, caminhões, pessoas apressadas se movimentando de um lado para o outro gritando em um idioma que na prática é alienígena para Cécile... Foi somente ao ganhar as ruas que ela enfim pôde se sentir parte de algo novo. O rosto das pessoas possuía uma forma diferente, mas, principalmente, seus corpos foram que lhe chamaram a atenção. ”Beaucoup de gens obèses!”

As andanças da jovem francesa a levaram até um lugarzinho simpático, cujo letreiro gritava em fortes luzes o nome “Prytania”. Já aquela palavra que o acompanhava, “Theatre”... ”Théâtre”! Nada mal, Cécile, nada mal. Os seis meses em que trabalhou em um théâtre em Paris durante a adolescência poderiam lhe render algum serviço caso o Prytania precisasse cumprir a cota de deficientes- e se a América possuísse cota para deficientes. Arriscaria pedir por um emprego ao povo do teatro, já que são tão festivos e consideravelmente menos arrogantes do que as pessoas normais - ao menos na França. Tomou a calçada lotada para que circulasse em meio àquele povo, ainda que seu excesso de insegurança a fizesse desviar o olhar à mínima encarada. Cécile é bastante preocupada em não incomodar as pessoas, em não lhes causar desconforto algum.

Caminhava pela calçada do Prytania desviando das pessoas e de seus olhares e gestos espalhafatosos. Um daqueles desconhecidos tinha ares de familiar. Era uma mulher, bonita ao seu modo, mas um pouco mais abatida do que a própria Cécile. A feição e o nome dela vão se clareando conforme caminhavam uma na direção da outra. “Emilie Qorpum!”

Emilie passa batido por Cécile, que vira o pescoço para trás para lhe acompanhar com a vista. A sumida atriz é abordada por um rapaz que lhe entrega um ingresso, provavelmente do espetáculo da noite. O breve encontro silencioso entre os dois lembra uma cena de um clássico do cinema mudo: “Cendrillon”, de 1899. O encontro de estranhos que dividem um mesmo e único bom momento para então se despedirem e não mais se encontrarem. Tal como no filme, o homem se despede sem pronunciar uma palavra sequer, deixando Emilie novamente livre. Cécile aperta o passo com a mão no colo, evitando o sacolejar dos seios em sua pequena corrida. Ela estica o braço e toca o cotovelo da mulher, chamando sua atenção.”Ó, meu Deus...” Estava diante de uma pessoa famosa e só agora se tocou que lhe chamara a atenção. No breve momento de demora entre o toque e o giro da mulher, Cécile se desespera. Os olhos se arregalam; ombros e cabeça apontam para o alto, buscando uma postura mais digna para o trato com alguém como a senhora Qorpum. Quando finalmente recebe o olhar, parecia uma maluca com sua expressão assustada e olhos esbugalhados.

O que fazer? O que fazer?

Cécile encara muda o rosto de Emilie. Ora essa, pensaria que se trata de uma lunática agindo dessa forma. Teria que tomar uma providência e torcer para que se entendessem no fim das contas. Nervosa, a jovem francesinha inicia uma sequência de gestos da linguagem universal de sinais, ainda que as chances de ser entendida fossem remotas. O constragimento do ato se estende por uma ou duas sentenças inteiras, sendo o suspiro de Cécile a decretar o final daquela loucura. Agora definitivamente parecia uma louca, não precisando mais se preocupar em manter as aparências. Cécile relaxa o corpo e a expressão. Por fim, mostrando um desânimo por não ser entendida, aponta com o indicador para a própria testa e depois para Emilie. A conhecia e queria unicamente demonstrar isso, mas a dificuldade de comunicação é algo com que ela jamais se acostumará.

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24 Re: Prytania Theatre em Ter Jul 17, 2012 3:37 am

Novamente o bairro francês. Novamente o cigarro pendurado no canto da boca, queimando lentamente. Novamente os olhos fixos no Prytania, e o apelo do passado, e as luzes, e as pessoas, e a noite, e o céu azul-royal tranquilo e sem estrelas, e os cent mille musiciens a tocar animadamente em seu cérebro, brutalmente, quase machucando-a com os acordes altíssimos que a deixavam surda aos sons naturais de uma rua movimentada. Tinha ganas de gritar, mas não o fazia. Não o fazia mesmo. Com sorte, ainda faria novamente, mas onde fosse permitido. Afinal, era basicamente isso: o teatro nada mais é do que o manicômio permitido pela sociedade, o espaço libertário por natureza onde um grupo de pessoas definitivamente insanas libertam seus monstros e suas dores para criar algo que se pode chamar de obra de arte, mas nada mais é do que sofrimento humano pulsante e assustador, para uma elite aplaudir sem entender. O Panis de nossa sociedade Circensis. Só quando se aceita essa realidade, pode-se fazer teatro. E era o maior prazer possível.
Um trago longo no cigarro limpava sua mente desses pensamentos. A filosofia teatral a assustava e machucava. Ela aceitava, mas não queria pensar nisso agora. Queria apenas voltar. Se enfiar numa sala de ensaio, chão preto, paredes pretas, e gritar por horas consecutivas. Depois se deitaria no palco e o beijaria com ardor. Em breve, teria novamente sua própria companhia, e beijaria a testa de todos seus novos atores, e montariam Titus Andronicus! Nada como um pouco de sangue para unir um grupo. Aqueles pensamentos a acalmavam e lhe davam forças para manter sua postura. Os sonhos são o que há de melhor para manter o fôlego. Baixou os olhos rapidamente do letreiro do teatro e jogou fora o que sobrava de seu cigarro, já estava fumando o filtro. Pisava distraidamente o filtro do cigarro quando um homem vindo do nada se colocou na sua frente.
Sua primeira reação foi um pulo de susto mal contido, uma exclamação baixa que lhe escapou dos lábios e um passo incerto para trás. Mas foi tudo muito rápido para que ela fugisse. Ele a segurou pelo ombro com força e ela, sem nem conseguir pensar no que era exatamente aquilo, o que acontecia, onde estava, quem era aquela pessoa e em que mundo se perdera, o olhou nos olhos. Não conseguiria fazer outra coisa, de qualquer maneira. Mas seu medo não durou nem meio segundo. Sentia, de alguma maneira, que o rapaz não estava ali para lhe fazer mal ou qualquer coisa do tipo. Sentiu que ele forçava algo em sua mão, e, logo depois, ele continuou seu caminho em silêncio, com uma velocidade desconcertante, sumiu na esquina mais próxima, seus pés fazendo um barulho surdo contra os tijolinhos da calçada. Ela acompanhou seu andar, confusa, e só quando ele desapareceu reagiu o suficiente, abrindo a boca numa expressão perdida.
Baixou os olhos para o que ele colocara em sua mão. Um papel amassado. Alisou-o. Um ingresso para o Prytania! Seus olhos brilharam. Há quanto tempo não entrava num teatro? Fascinada, ela examinou o horário e o dia no bilhete. Era uma entrada para a sessão de exibição de filmes clássicos, dali a meia hora. Entrevista com o vampiro. Ela se permitiu abrir um sorriso. Sentiu um toque leve em seu cotovlo e, supondo que se tratava do rapaz que resolvera voltar para lhe dizer seu nome e ouvir um ‘obrigada’ ou algo assim, se virou para ele com um sorriso luminoso.
Não era ele, contudo.
Ela piscou algumas vezes, com o sorriso congelado, enquanto observava os olhos arregalados e assustados de alguém que ela podia dizer que era, sem sombra e dúvida, a pessoa mais bonita que ‘falara’ com ela nos últimos tempos. Tinha uma graciosidade que lhe lembrava alguma coisa, vagamente, e sua expressão de susto era quase agradável. Parecia um pouco louca. Bem, Emilie gostava de gente doida. E talvez isso significasse que ela fazia teatro? Talvez houvesse alguma possibilidade de contato profissional ali? A garota ficou em silêncio por um tempo que Emilie caracterizava como quase longo e, mudando o sorriso congelado para um menor, mas honestamente simpático, toma a iniciativa da conversa.

- Perdão...?
A isso a garota respondeu com uma quantidade assustadora de gestos, ao que Emilie arregalou levemente os olhos, sinceramente confusa. Demorou alguns segundos para processar o que acontecia, mas percebeu num estalo. Ela era muda! Mas isso era definitivamente algo complicado. Nunca falara com um mudo. Seria ela surda também? Observou estupefata a sequencia de gestos que não compreendia de maneira alguma e acompanhou as expressões da garota – sim, garota, pois parecia não ter mais que vinte anos. Sempre ficava impressionada quando via alguém falando na linguagem de sinais. O rosto era parte integrante da fala, e era sempre tão expressivo! A garota desistiu com um suspiro sentido, e Emilie se sentiu mal por não entenda-la. Imaginava como devia ser difícil. O gesto final da garota, desanimado, ela entendeu.
- Certo. – ela fez uma pausa pensativa – Espero que me perdoe, mas não compreendo a linguagem de sinais. – sabia que se a garota fosse surda, não adiantava de nada falar alto, então manteve o tom de voz de sempre, mas articulou bem as palavras. Talvez ela fosse capaz de ler seus lábios – Você escuta? Entende o que digo?... Ah, me desculpe, não quero ser grosseira... Muito prazer, sou Emilie Qorpum. Mas suponho que você já sabe disso, não é?Falou sem nenhum tom de afetação ou qualquer coisa parecida. Só queria que a garota entendesse que tinha entendido que ela a conhecia de algum lugar.

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25 Re: Prytania Theatre em Ter Jul 17, 2012 5:00 pm

A admiração pela atriz leva Cécile a examinar por completo sua feição, sem que isso a atrapalhasse em ler os lábios precisamente mexidos de Emilie. “Sim, eu escuto o que você diz”. A afirmação mental veio acompanhada por um gesto afirmativo de cabeça. Cécile ouve sons, mas eles são tão fraquinhos, tão fraquinhos que ela quase se esquece que eles existem. Se fosse viável, andaria com uma plaquinha escrito “eu te ouço, mas ainda sim seria melhor se falasses devagar.” A prática na leitura labial mostrou-se muito mais eficaz do que o esforço em tentar ouvir os sussurros que passavam pelos seus ouvidos.

Cécile se mostra feliz de verdade quando lê nos lábios de Emilie que ela havia se apresentado. A empolgação aumenta ainda mais quando da pergunta retórica de que já a conhecia ("...já sabe disso, não é?"). “Sim! Sim!”, dizia um agitar frenético e espontâneo de cabeça. Então a barreira da comunicação inicial fora quebrada. A famosa à sua frente entendeu o recado mesmo que a garota tenha se enrolado bastante para transmití-lo, e o melhor, aceitou e até se mostrou simpática à sua abordagem. Agora tinha Emilie Qorpum como seu primeiro contato direto em terras novas. Quanta honra! Imagine como ficariam impressionadas as suas amigas do instituto após saberem dessa história. Se bem que a senhora Qorpum anda tão sumida que pode ter desaparecido também das memórias das garotas. E vê-la agora, tão misturada às pessoas e em trajes tão incompatíveis com sua posição social, acabou fazendo com que a francesinha assustada se sentisse mais próxima da outrora reverenciada artista. Duas pessoas que não pertenciam àquele lugar, iguais por um momento em suas vidas. A sensação fez um bem danado à jovem.

Ah... O que a confiança não faz pelas pessoas...

Desalojada da preocupação inicial, Cécile agora é toda empolgação. Estufa o peito, chegando inclusive a virar o corpo um pouco de lado. Em um gesto fluente, leva a mão ao próprio coração e depois toca no de Emilie. Isso tudo foi feito sem deixar de fitar a atriz. Adorava aquela mulher e queria que ela soubesse disso, ficando a cargo do olhar extremamente confiante de Cécile dar o ar de admiração da mensagem, para que não fosse confundido o gesto com amor ou paixão. Contudo, se acabasse se demorando demais em elogios, poderia passar uma imagem equivocada. Decide podar as expressões extremas em algo mais suave, mais contido. Passa a mão nos cabelos que caíram pela testa depois da pequena corrida. Assim como o gesto quando tocou o coração, este é muito fluente e leve. Braços, dedos e mãos leves, que pareciam flutuar no ar; olhos impregnados de expressão. Cécile se lembra do que lhe diziam os amigos, em como poderia se tornar uma boa atriz com sua expressão corporal tão acentuada e acaba corando com o pensamento, afinal, estava diante de uma profissional!

A “conversa” estava a ponto de morrer de novo se algo não fosse feito a respeito. Olhando nas mãos de Emilie, notou que é de fato um ingresso que ela carrega. "Então ela não está somente de passagem, nem a trabalho”. Enxergou aí uma chance de maior aproximação com o seu ídolo. Cécile apontou para si mesma e depois para a entrada do Prytania. Mas seria um esforço hercúleo explicar que iria procurar emprego, e não assistir o filme. Decide fazer algo que raramente faz: movimentar os lábios. Normalmente ela se sentia uma doente mental agindo assim, porém a confiança lhe embassou o raciocínio. E com todos os “bicos” da língua francesa, ela fala, sem no entanto projetar som algum.

- Je cherche du travail.

Aprendera a articular palavras no instituto onde estudara. Não que fosse de grande valia, mas em certas situações, como esta, pode ajudar na comunicação. Agora era tocer para que Emilie aceitasse seu convite subliminar para entrarem no teatro - e que não pensasse que Cécile estava procurando por um emprego de atriz!

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