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Prytania Theatre

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26 Re: Prytania Theatre em Sex Jul 27, 2012 1:38 pm

Era sempre agradável observar a transformação de uma pessoa em ato. Durante algum tempo, quando era mais jovem e se achava feia demais para atuar, se imaginara como diretora. Os diretores têm, em verdade, grandes privilégios. O primeiro deles é ganhar dinheiro e reconhecimento sem muito esforço. O segundo é observar, de camarote, as verdadeiras transformações que ocorrem em ação durante os ensaios. Quando o corpo, a atitude, a energia de alguém muda completamente, e isso é visível, palpável. Claro, com o tempo, percebeu que era muito mais divertido ser a criatura mutável e rasgar completamente seu ser, se desconstruindo – embora isso doesse muito – do que simplesmente ficar sentada assistindo. E, mais do que isso, ela descobriu que era possível assistir isso em menor grau fora da sala preta, na vida real, com pessoas não envolvidas com o teatro. E isso também era muito interessante. Bom, agora era só mais um hobbie que havia abandonado. Mas podia reconhecer uma transformação legitima quando topava com ela inesperadamente.
Observou com prazer a garota a sua frente, sentindo os cantos de seus lábios subindo irresistivelmente. Ali estava a personificação de seu hobbie e, considerando-se que ela não poderia mesmo falar nada, tudo o que Emilie podia fazer era ficar atenta aos detalhes das diversas mudanças sutis de energia. Isso a ajudaria a compreendê-la, e também seria divertido. Embora não fosse ser tão difícil, considerando-se que a garota era muitíssimo expressiva, do tipo demonstrativo. Se falar e ouvir não fosse tão importante para o teatro, ela provavelmente poderia ter sido uma ótima atriz. Foi se apegando as mudanças. Os olhos arregalados e assustados foram sendo substituídos por uma expressão graciosa, o nervosismo mudou-se em animação... Podia acompanhar o caminho que ela estava descrevendo com se estivesse assistindo uma cena. E então, rufem os tambores! Ela atingia o ápice e, confiante, enchia o peito, levantava a cabeça, crescia no espaço, levava a mão ao coração... E a ribalta se acende toda, o público aplaude de pé, e...
Sentiu o toque leve em seu peito e isso a fez voltar para o chão com um baque de realidade. Mas fora uma experiência interessante, e ela observou fascinada os gestos leves da garota e o último resquício de admiração que ela lhe voltava no olhar. Tolice, pensou, nada tinha a ser admirado por hora. Mas aquela garota era uma joia, certamente. Seu olhar finalmente caiu especificamente sobre os olhos da garota, que agora se voltavam para suas mãos – suas detestáveis, longas e ásperas mãos. Baixou o olhar também, para o ingresso meio amassado que ainda segurava com firmeza, o seu pequeno tesouro. Tinha que entrar logo, para não perder o ingresso, e ao mesmo tempo não queria deixar a garota para trás. Se interessara por aquela criatura expressiva perdida no meio do mundo. Mal esses pensamentos lhe ocorreram, se viu acompanhando os gestos da garota novamente e, não sem alguma surpresa, observou que mexia os lábios. Ficou esperando por um som que nunca veio, e isso a confundiu um pouco, mas era compreensível. Tentou se esforçar para compreender o que ela dizia.
A princípio, sentiu a boca crispar em frustração quando percebeu que não entendera nada. Mas, antes que a irritação a dominasse, a compreensão se espalhou por sua mente e seu rosto. Ora, então ela era francesa! Deveria ter imaginado, ela tinha isso praticamente estampado no rosto! Demorou um pouco mais para atinar com o sentido da frase, mas assentiu com a cabeça quando compreendeu. Então ela procurava por um trabalho no Prytania. Isso era muito bom. Significaria, talvez, um teste? Estaria procurando ela por um trabalho de atriz? Bom, isso explicaria sua expressividade. E o fato de conhecê-la. Era a noite das boas notícias, pensou, e sentiu que um amplo sorriso lhe surgia na face. Sim, era uma ótima notícia, acompanharia a garota ao teste e conseguiria um trabalho. Era o retorno de Emilie Qorpum! Sentiu suas costas se endireitarem na espera do triunfo, seus olhos brilharam sobremaneira, sua antiga energia que usava nos palcos voltou numa onda e ela sentiu que ocupava aquela rua inteira. Era a presença de uma atriz que nunca morreu, ocupando cada espaço possível.

- Você também é atriz então? Ótimo! – sua voz retumbou em um dos pontos de irradiação que aprendera há muitos anos – Vamos indo então!
E, com mais ânimo do que jamais esperaria de si mesma, segurou a mão da garota e avançou para o teatro, com um sorriso de orelha a orelha.

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27 Re: Prytania Theatre em Qua Ago 01, 2012 9:19 pm

Quisera Cécile que aquele momento durasse para sempre. Sentia-se amiga de uma grande estrela só por tê-la feito se sentir melhor, sentimento este demonstrado em foma de um grande brilho nos olhos da atriz. Não poderia esperar mais de sua primeira noite em terras estrangeiras. Cega pelo momento mágico, quedou-se distraída observando os lábios avermelhados à sua frente se movimentarem.

Emilie parecia ter sido resgatada da escuridão em que se encontrava; agora mostrava uma postura à sua altura, exibia a presença que dela era esperada. Cécile imagina que fez parte desse pequeno momento de renascimento e se dá ao direito de receber créditos por isso. O melhor de tudo é que fora compreendida novamente! Uma grande dama como a senhorita Qorpum não poderia se dar ao luxo de desconhecer a língua francesa, mãe de todos os romances, trovadora mor de histórias sobre amores e paixões. Porém o entendimento não fora completo, e agora a francesinha deveria lidar com um baita de um mal-entendido. “Muito bem mesmo, Cécile. Agora ela vai esperar mais do que você pode oferecer. Deixá-la pensar que és uma atriz? Parabéns pela burrada”. Restava à ela retratar-se com Emilie, pedir desculpas e se esforçar para transmitir a idéia correta dessa vez. Não conseguiu. Teve a mão tocada pela outra, sendo arrastada até a entrada do cinema.

Ícaro voou muito alto com suas asas e acabou morto. Cécile recebeu pouco, é verdade; suas benções não se equiparam às asas da mitologia, mas ainda sim a chegada em Nova Orleans tem sido muito acima das expectativas. Boba e acanhada como é, tem medo de "voar para muito perto do sol" e ter o mesmo destino que o grego, então decide que, assim que elas estivessem dentro do teatro, contaria a verdade: que o trabalho que procura é como vendedora, atendente ou faxineira – qualquer coisa bem longe do glamour da atuação. Esperaria ansiosamente que a verdade não mudasse a boa interação que vinham tendo.

O ingresso permitia a entrada de uma só pessoa. Imaginando que Emilie poderia argumentar com o funcionário da portaria que Cécile também era atriz e que estava à procura de trabalho, resolveu por conta própria iniciar a argumentação com o dito cujo de modoa não criar ainda mais confusão. Danou a fazer gestos da linguagem de sinal, tão rápidos e variados que serviriam para confundir o rapaz. Estava claro que ela era deficiente, pelo qual lhe foi permitida a entrada – ainda mais porque o funcionário não tinha tempo a perder debatendo a questão quando tinha muitos afazeres profissionais por resolver.

Pronto, havia entrado e estava bem acompanhada. Permite ser guiada por Emilie enquanto vislumbrava o interessante interior do Théâtre, com seus pôsteres de filmes antigos pendurados em quase todas as paredes. O deslumbramento só não era total porque estava mentindo ao consentir que veio para o teste. Não poderia mentir para Emilie, muito menos para a sua própria consciência. Os grandes olhos de Cécile pareciam um pouco mais tristonhos mais uma vez. Ela espera a oportunidade ideal surgir para desfazer o toque de mãos sem que seja perceptível – ou ao menos, de modo que não pareça rude. Precisaria de suas mãos livres para transmitir a mensagem correta dessa vez.

Com o trânsito de pessoas indo e vindo é natural que haja uma separação entre as duas. Talvez Emilie quisesse falar com alguém sobre trabalho – e na verdade Cécile deveria se preocupar com isso também -, então a jovem francesa se mantém à distância para que não sufocasse seu ídolo. Foi nesse distanciamento que ela acabou vendo parte do telão com a exibição do filme. “Pena que não terá legendas e eu não vá entender nada”. Sequer o pôster lhe era familiar.

Pois bem, assim que o movimento de pessoas baixou um pouquinho, Cécile buscou novamente a companhia de Emilie. Espera uns poucos segundos para ver se receberia alguma novidade da boca da atriz, emendando na sequência mais algumas “palavras mudas” – acompanhadas de muitos gestos, é claro. As mãos subiam e desciam fazendo desenhos abstratos no ar, mas não muito espalhafatosos, afinal, estava em um lugar de classe. Explica com certa tristeza no olhar que não era atriz e que procurava por um trabalho "comum". Procura explicar também que gostaria muito de acompanhá-la pelo restante da noite caso ainda não tivesse companhia. Queria estar por perto para que pudesse testemunhar toda aquela magnificência emanar da senhorita Qorpum mais uma vez.

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28 Re: Prytania Theatre em Sex Ago 24, 2012 5:02 pm

Tudo aconteceu muito rápido. Antes que pudesse se dominar ou mesmo se compreender, agarrou a mão miúda da outra, sem se preocupar com as coisas que normalmente a impediam de tocar outras pessoas, como a consciência de que a palma de sua mão era áspera como o asfalto que afagava ao dormir, e que não era imaculadamente limpa como se supõe que a mão de uma dama deve ser, aliás, não passava nem perto disso. Se acostumara a olhar para sua mão e ver os dedos longos e cinzentos, com manchas amareladas de nicotina. E pensar que já fora considerada uma mulher bela! Ninguém poderia dizer que aquelas mãos pertenciam a uma mulher bonita, jamais. Mas, ignorando tudo isso numa empolgação inesperada, sim, agarrou a mão esquerda da desconhecida, não sem reparar como era absolutamente mais macia do que a sua, e mais quente. Aquilo quase lhe trouxe lágrimas aos olhos.

Se dirigiu ao Prytania quase correndo, andando tão rápido que parecia ter molas nos sapatos, quase pulando, como se estivesse andando em sonho. Tinha noção de como era uma mulher forte, e de que estava provavelmente arrastando a garota pela calçada, mas não conseguia parar nem mesmo para considerar quão estranha era a situação, ou quão louca parecia, ou em como devia estar assustando a pobre criatura que arrastava para dentro do teatro.

Diminuiu levemente o ritmo ao entrar no teatro, até parar quase bruscamente no meio do salão. Não tinha certeza do que sentia, mas era algo muito próximo do terror. As paredes cor de creme, as colunas douradas de inspiração helênica, o chão de madeira encerada e brilhante refletindo as luzinhas do lustre do saguão de entrada, o carpete vermelho, os pôsteres de filmes clássicos, as poltronas de veludo, as máscaras de metal nas paredes, até mesmo as lixeiras de alumínio escovado. Sentiu que arregalava seus olhos instintivamente, e quase sentia suas pupilas retraírem pelo excesso de luz a que definitivamente se desacostumara. Sua garganta fechou em terror e ela apertou com mais força a mão que segurava. Precisava sentir que não estava sozinha.
Mas foi por pouquíssimo tempo. Por algum motivo, o calor daquela outra mão humana, aquele apoio morno que era, na verdade, a única razão porque conseguir dar os cinco passos da porta até o meio do saguão, se foi. Sutilmente, discretamente, o que validava sua empolgação e o que a impedia de ter uma síncope desapareceu. Não teve nem coragem de olhar em volta. Não teve coragem de procurar pela garota. Ela tinha ido embora, como todas essas pessoas que ultimamente andavam surgindo, pessoas que diziam “Emile Qorpum?!” com algum ânimo e reconhecimento e sumiam no mundo depois, que queriam apertar levemente as mãos grossas da celebridade caída para depois voltarem para o conforto de suas casas e se esquecer da atriz que um dia tinham admirado, caída na sarjeta! A luz excessiva do lugar a cegava, e ela forçou todos os músculos faciais para não chorar. Não ia chorar. Não ia chorar. Que tolice, que estupidez, se transformara em uma chorona. Não bastava mendigar sua sobrevivência, tinha também de mendigar afeto? Estava tão sozinha que um simples rosto bonito a olhando com admiração se tornava o máximo de contato humano e atenção que ela podia ter.

Antes que pudesse pensar em qualquer coisa, duas lágrimas escaparam de seu olho esquerdo. Antes que pudesse entender o que acontecia, seu corpo cresceu no espaço, e sua mão, tensionada, aberta numa posição elegante que não fazia havia tempos, começou a puxar seu braço. Seu corpo respondia. Se rosto se colocou na luz como nos velhos tempos, o gesto se prendeu na altura de seu peito, tensionado, firme – finalmente estava fazendo o que sabia. Tinha a certeza absoluta, mais do que isso, tinha total confiança em si mesma. Porque não era ela mesma agora. Porque a energia que a inundava não era apenas a de Emilie Qorpum.


- Eu – sua voz ressoou por todo o saguão e, se alguém ainda não tinha sido atraído pela movimentação estranha daquela pessoa parada aleatoriamente, seria pela voz firme e clara de uma atriz treinada que nunca tinha feito nada na vida além de tocar corações desconhecidos por suas palavras – Eu, que não fui moldada para jogos nem brincadeiras amorosas, nem feita para cortejar um espelho enamorada. Eu, que rudemente sou marcada, e que não tenho a majestade do amor para me pavonear diante de uma musa furtiva e viciosa, eu, que privada sou da harmoniosa proporção, erro de formação, obra da natureza enganadora, disforme, inacabada, lançada antes do tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e de tal forma imperfeito que os cães ladram quando passo, coxeando, perto deles. – sua voz amaciou, tornando-se quase dolorosa – Pois eu, nesse ocioso e mole tempo de paz, não tenho outro deleite para passar o tempo afora espiar minha sombra ao sol e cantar minha deformidade. E assim, já que não posso ser amante que goze esses dias de práticas suaves, estou decidida... Estou... decidida..¹ – sua voz falhou e as lágrimas desceram livremente por seu rosto. Sentiu os joelhos fraquejarem.

A garota surgiu novamente no seu campo de visão, gesticulando, e suas forças a abandonaram por milésimos de segundos, mas logo ela avançou, ainda em cena, os olhos em fogo, as lágrimas lavando seu rosto machucado, as mãos estendidas para a pequena.


- Você! Você me põe doente! Pois eu não consigo saber por que você está comigo, se é porque eu tenho dinheiro, se porque te abro oportunidades ou por que... por que... Você me ama?²

E, chorando desconsoladamente, caiu no chão, se deitando em posição fetal. Finalmente quebrara o que lhe restava de sanidade.





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¹ - Trecho extraído de ‘Ricardo III’, Shakespeare
² - Trecho extraído de ‘As lágrimas amargas de Petra Von Kant’, Fassbinder

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29 Re: Prytania Theatre em Seg Set 03, 2012 8:26 am

Como estar feliz perante a miséria pela qual aquela mulher pasava? Emilie Qorpum, a outrora renomada atriz, brincava em uma gangorra de emoções. Enquanto Cécile estava por perto a lembrando de seu passado glorioso, a atriz era jogada para cima; bastava uma distração, um momento onde a jovem “descesse da gangorra” e ela afundava ao chão. Como quando Cécile se desvencilhou por um momento das mãos de Emilie para lhe dar um pouco de espaço e acabou desencadeando uma reação constrangida em meio à multidão. Aquelas palavras eram claramente referência à algum texto teatral, cuja autoria é completamente desconhecida para a jovem, que por alguns segundos apenas observava, atônita, a espontânea apresentação. Mas logo o sentimento de culpa, de ter influenciado aquela reação toda, subiu pelo peito de Cécile e lhe ardeu a garganta, impulsionando-a a fazer algo para melhorar a situação.

Aproximou-se de Emilie com gestos atabalhoados, já tendo desistido da explicação sobre sua busca por trabalho. Sua intenção agora é acalmá-la, muito embora se mostre tão nervosa quanto a atriz. As mãos descem, sobem, giram, cruzam de um lado ao outro e fazem uma grande variedade de gestos completamentes alienígenas e de que nada adiantam. Os enormes olhos inseguros da francesinha se mostram ainda mais inseguros, nervosos até, ansiosos por ajudar a outra a superar aquele mal estar por qual passava.

Emilie termina sua pequena apresentação. Ela vira o rosto em lágrimas e oferece as mãos para Cécile, as quais são devidamente seguradas e apertadas em conforto. A preocupação genuína estampada na expressão assustada da jovem, entretanto, não é suficiente para lhe poupar de uma repreensão. Aquele “você me põe doente” foi um balde de água fria. Os ombros de Cécile caíram na mesma hora; os olhos se afundaram; a alma amargurou. Mas não durou quase nada, pois logo em seguida o restante da sentença deixava claro que Emilie estava desregulada da cabeça. “Você está louca? Eu mal lhe conheço!”, foi a resposta que Cécile gerou em sua mente ao ouvir o “você me ama?”. Tal pensamento novamente lhe fez se sentir idiota, pois estava claro que era apenas uma interpretação e que não deveria sequer ter sido avaliada mais a fundo. A jovem balança a cabeça negativamente para espantar as idiotices em seus pensamentos e se concentrar em prestar auxílio efetivo.

Ao fim da cena, Emilie estava ao chão. Cécile se esforça em levantá-la e tirá-la dali, afinal, poderiam reconhecê-la depois dessa. Mediante olhares curiosos e de repreensão, elas deixam o salão onde estavam. A francesinha precisava esconder a atriz para lhe poupar o máximo possível de dignidade que porventura tenha sobrado. A escolha mais óbvia era o banheiro, e para lá Cécile parte com seu “fardo”. Ela leva a outra até a pia e liga a torneira. Puxa um tufo de folhas de papel de secar a mão e molha na água que escorria, em seguida passando aquilo debaixo dos olhos de Emilie para limpar suas lágrimas e tentar melhorar a vermelhidão do choro com a água fria. Fazia aquilo com muito esmero, tendo aprendido cuidar dos outros ao cuidar dos irmãos pequenos em sua adolescência.

Cécile permanece ao lado de Emilie segurando sua cabeça e preparada para ampará-la em uma nova queda. Quando percebesse alguma melhora que fosse no aspecto geral da atriz, faria o gesto de “ir embora”, sinalizando que seria melhor saírem daquele lugar antes que mais tormentos as aflingissem.

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30 Re: Prytania Theatre em Qua Set 12, 2012 12:35 pm

Foi quase como se tivesse desligado um interruptor, um dispositivo qualquer dentro de si, pois no momento em que caiu no chão extremamente encerado já não era mais Emilie Qorpum a atriz, mas sim a mendiga malabarista – papel no qual já estava quase confortável e com o qual se acostumava. E, sendo que voltava ao seu papel, seu choro era ainda mais doído do que o da atriz, era o choro por saber que aquela era apenas uma pequena mostra de que não era mais uma atriz, uma demonstração medíocre de atuação, era por sentir que o chão do Prytania era o lugar mais confortável em que se deitara nos últimos anos, por saber que era ridícula, e patética, e uma chorona, e uma fraca, e que a única coisa que tinha em comum com Petra Von Kant era a falta de cérebro pra lidar racional e logicamente com uma situação facilmente contornável. Afinal, ela era Emilie Qorpum, não?

Mas tais pensamentos passaram por sua cabeça como flashes, muito rápido, porque no segundo seguinte alguém a levantava e arrastava para algum lugar, e ela se deixou ir, passivamente, ou, melhor dizendo, apaticamente, os olhos desfocados, as lágrimas lavando seu rosto sem que desse por isso. Automaticamente, abraçou-se ao corpo que a carregava, sentia que pesava, que puxava para baixo e se negava a ir inconscientemente, mas por fim era só um saco de ossos e já não tinha massa o suficiente para impedir alguma coisa.

Nem percebeu o banheiro suntuoso. Os olhos cheios de lágrimas não viam nada que não um leve brilho cor de creme, e os sapatos de solado já gasto demais davam o tom do novo ambiente – gelado e liso. Encostou-se a parede gelada de azulejos e relaxou. Era boa a sensação de calma que o frio lhe impunha, a sensação de que agora não devia se mover mesmo, além da clara intenção em combater a febre que lhe acometera – sim, a febre teatral, essa que nos arregala os olhos, que nos enche de energia, que nos cega para todo o resto. Seu corpo estava inteiro febril. Emilie apoiou as mãos contra a parede e fechou os olhos, se forçando a respirar calmamente.

Sim, estava tudo bem agora, e as lágrimas morriam antes de sair de seus olhos. Estava bem.

Sentiu o toque gentil da água gelada sobre os olhos fechados e os abriu com calma calculada, apenas para encarar o rosto da garota francesa, compenetrado, que lhe segurava a cabeça e lhe limpava as lágrimas. Era realmente impressionante que ela ainda estivesse lá, que não tivesse achado que ela era completamente insana depois do acontecido do salão do teatro. Teve vontade de sorrir para ela, mas não soube como. Também pensou em tocar seu rosto, tão próximo, mas colocou a ideia de lado rapidamente. Não queria causar nenhum mal entendido.


- Comment t'appelles-tu ? – Emilie se viu perguntando, subitamente tímida, mas não tinha certeza se fora clara, se sua voz saíra firme, ou se a garota vira que falava. Afinal, ela estava lidando com o papel molhado naquele segundo. Logo em seguida, ela fez um gesto que provavelmente significava “vamos embora”.

Bem, não tinha escolha. Agora não queria mesmo deixá-la ir. Segurou sem firmeza na mão da outra e deixou que a conduzisse para fora do teatro, com a cabeça baixa e algum medo de sucumbir novamente. Tentaria andar o mais rápido possível.

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31 Re: Prytania Theatre em Seg Out 08, 2012 3:11 pm

Dos campos de lavanda de sua família na França, direto para um banheiro frio a um continente de distância de sua casa. Se não fosse a preocupação exclusiva com o bem estar da outra, a cândida moça do interior se veria em puro desespero com tamanha estranheza a lhe cercar. É acostumada a coisas simples, como colher flores, a tecer fios de algodão em peças simples e a cuidar de uma casa e de seus ocupantes, e por muito por conta disso cuidava de bom grado da sanidade de Emilie Qorpum.

O tempo passava lentamente dentro do sanitaire. Ele jorrava rápido e intenso das lágrimas da atriz, mas apenas para perder forças ao passar por um gargalo muito eficiente: a afeição com que Cécile lhe prestava socorro. As lágrimas eram contidas por um toque carinhoso debaixo de seus olhos. Por mais que sentisse o mundo desabando, Emilie tinha certeza de ter um porto seguro ao seu lado. E ela acabou percebendo essa verdade bem rapidamente, pois retribuía o gesto amoroso com um olhar semelhante. A pergunta que quase morreu antes mesmo de nascer só é entendida por Cécile por estar a ler os lábios da outra.

Alegrou-se. Imaginou por um momento poder falar com a senhorita Qorpum como falara com suas amigas do instituto: “eu me chamo Cécile, como Cécile de Volanges em ‘Les liaisons dangereuses’”. Sim, aquela Cécile é uma personagem muito inocente e pura que é explorada por pessoas maldosas; mas ela também representa a beleza, a simplicidade o amor em seu estado bruto. Gostava de pensar assim. Decide se apresentar, no entanto, da forma mais burocrática – e prática – possível. Apalpou os bolsos de suas roupas até encontrar seu documento de identidade original da Franca e o entregou à Emilie. Tinha os olhos bem abertos na expectativa da resposta da senhorita Qorpum...

Assim que recebeu o documento de volta o guardou com cuidado no bolso da frente do casaco. Estava sorridente agora, mas não muito, senão poderia passar uma má impressão para a outra. Depois de um tempo onde as duas nada fizeram, Cécile se levanta e se prontifica a auxiliar na caminhada da senhorita Qorpum até o lado de fora do sanitaire e depois do teatro. Por sorte a exibição do filme já havia avançado no tempo e sugado todos os espectadores aos seus assentos, deixando o caminho livre de qualquer possível embaraço. Fizeram tanto para entrar no Prytania... Foram tantas sortes, tantas emoções, e jogar tudo fora começa a parecer irracional para Cécile. Uma força começa a surgir dentro dela; passa pensar de forma rebelde, a ter idéias rebeldes, como ficar e assistir ao filme pouco se lixando para o que os outros digam pelas suas costas.

Novamente a onda de gestos pouco inteligíveis para Emilie surge na sua frente. A francesa interiorana tentavalhe dizer, de uma maneira mais intuitiva – e pouco efetiva, na verdade – que deveriam ficar e assistir ao filme. Um puxão no braço e um dedo indicador apontando para o lado da sala de exibição por fim se encarregam de esclarecer as coisas quando todo o restante dá errado. E após ser entendida, Cécile gesticula mais algumas palavras. “Fique e me conte mais sobre você”, é o que quis dizer e o que, como por mágica, Emilie pode compreender sem esforço. Talvez fosse o que ela mais desejasse ouvir, afinal.

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32 Re: Prytania Theatre em Seg Out 08, 2012 9:43 pm

Cécile era o nome dela. E, pelo que pode ver no documento que ela lhe estendera, também era mais velha do que supusera. Mas quem poderia imaginar, pensou, pousando seus olhos na figura à sua frente, pois se ela parece uma menina! Tão bonita, e ainda com o frescor calmante da juventude! Cécile. Um nome bastante apropriado. Sorriu para a garota – não conseguiria jamais se referir a ela de outra maneira – com um carinho inesperado. Também era um alívio não ter que falar nada, apenas olhar para a menina bonita que lhe levava pelo teatro e gesticulava.

Não podia dizer que a mudança de planos a desagradava. Não tinha bem certeza do porque chorara após a cena espontânea que fizera no saguão, já que agora que as lágrimas tinham finalmente secado e o conforto do toque da mão de Cécile voltara não havia porque chorar. Ainda era capaz de atuar, ainda era capaz de fazer arte. Estava destreinada, despreparada, é bem verdade, e aquela intervenção não tivera metade da energia de seus tempos áureos, mas ainda era possível. Ainda era Emilie Qorpum. Não perdera totalmente seu lugar no mundo; seus talentos que, por tantos anos, ela sentia escorrer por suas mãos, ainda estavam inteiros e sólidos. Sentia-se capaz de dar um mortal naquele exato segundo. De escalar a parede. De gritar alto o suficiente para mobilizar toda Nova Orleans. E sentia com alguma gratidão que o ambiente do Prytania era acolhedor, aconchegante, macio e quente, e que poderia viver ali para sempre. Cada passo para a saída lhe doía no coração. Assim, quando Cécile gesticulou para que ficassem e assistissem o filme, ela balançou a cabeça afirmativamente com prazer. Não era o melhor filme do mundo, mas seria bom ver gente atuando depois de todos aqueles anos.

Entendeu a última sentença de Cécile com muita clareza. Provavelmente porque vê-la gesticulando o tempo todo já estava lhe dando alguma experiência em compreender todos aqueles movimentos. E também porque a expressão facial dela era muito clara. Mas continuou quieta e, puxando a garota levemente pela mão, entrou na sala de exibição, se dirigindo à primeira fileira de cadeiras, de frente para a tela. De repente, não queria falar sobre si. Os frangalhos de seu ego de nada valiam frente à garota ao seu lado, e compreender que ainda era capaz de atuar mudava tudo. Não tinha necessidade de afirmar para aquela garota que era Emilie Qorpum, ou macular seu olhar tão puro com tristeza ou falsas condolências por sua história trágica e deprimente. Normalmente queria contar sua história para qualquer um que cruzasse seu caminho e que estivesse disposto a ouvir, mas agora isso não fazia sentido. Tinha reencontrado seu lugar no mundo. Que importava o que acontecera antes?

Sorriu. Bela garota. Ela não precisava saber. A fome, a sujeira, o medo, o nojo, não precisavam tocar sua fronte imaculada. Os horrores que vivera não precisavam machucar a mente daquela pessoa. Sua vida, percebia agora, tinha sido uma sucessão de incidentes desagradáveis, pessoas grotescas, mortes e pensamentos obsessivos. As únicas coisas belas em sua vida eram as peças, os pés sobre a madeira do palco, a luz dos refletores esquentando suas bochechas, as palmas do público. O resto pouco importava agora.

O que poderia contar de bom sobre si? Já comera uma salada de flores. Amava o teatro com tanta força que chegava a doer. Seu coração batia descompassado quando olhava para o céu da cidade. Era muito gostoso pisar descalça no asfalto morno durante a manhãzinha. Tinha muito medo e nojo do ser humano. Estava gostando de olhar para Cécile. Seu maior desejo era ouvir novamente Edith Piaf fora de sua cabeça. Acreditava na insustentável leveza do ser.


- Não tenho nada para contar sobre mim. Minha vida é bastante tediosa. – fez questão de olhar para ela ao sussurrar e contornar bem as palavras com os lábios. Queria ser compreendida. – De qualquer maneira isso não importa, Cécile. Eu fui Emilie Qorpum, consequentemente, fui muito rica e muito tola. Coisas ruins aconteceram e eu não atuo mais, nem tenho dinheiro, e minha fama foi pro espaço. Meus antigos fãs acreditam que estou morta. Basicamente é isso.

Queria saber a história dela, isso sim, mas já entrevia as dificuldades de comunicação. De qualquer maneira, não custava nada tentar, certo? Queria saber como era possível existir uma pessoa tão linda num mundo tão feio. Se tivesse um grupo de teatro, a chamaria para integrar o elenco como musa. Sentia-se profundamente inspirada por perto de alguém com uma aura tão incrível.

- Por favor, me conte sobre você.

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33 Re: Prytania Theatre em Seg Out 15, 2012 1:52 pm

Soube que havia feito a escolha correta no momento em que viu o brilho no olhar de Emilie. Uma atriz nunca abandonaria o barco da forma melancólica como as coisas se encaminhavam; uma hora ou outra o espírito rebelde e teatral voltaria a tona e guiaria a jovem francesa a mais uma aventura emocionante. Como quando foi puxada sala de exibição adentro para sentarem-se na primeira fileira de cadeiras. Cada pequeno incômodo que causavam às pessoas ao redor - os olhares curiosos e o som dos calçados apressados a rangerem as madeiras do piso - a deixavam mais eufórica por transgredir. Porque não basta estar dentro de um teatro sem ingresso; há de se chamar a atenção de todos no processo.

Já devidamente acomodada no seu lugar, Cécile evita saltar seus olhos para a tela do filme. Ao invés disso, ela prefere passear pelos detalhes da arquitetura do Prytania e admirar o tanto de bom gosto que consegiu vislumbrar ali dentro. Percebe o quão diminuta era a tela do teatro e em quanto isso não fazia a mínima diferença na qualidade da exibição. Por alguns minutos contemplou a beleza dos famosos americanos em papéis charmosos, inspirados em alguns pontos por pessoas de sua terra. Pôde constatar que a Louisiana já era um lugar muito bonito há séculos atrás, e que as mesmas influências que ditaram a moda à época ainda estavam presentes nos poucos prédios históricos com que teve contato.

Cécile estava mesmo a apreciar o filme. Era um outro estilo, uma outra abordagem, mas o cenário e aquela criancinha cruel do filme prendiam sua atenção. E foi em um momento de tensão no filme que Emilie quebra o pacto de silêncio e assusta Cécile. Nem mesmo percebera que a (ex?) atriz estava a observando!

O que vem da boca de Emilie não pode ser chamado de “evasivo”. Soou mais como se estivesse em um consultório e fosse desafiada a falar verdades sobre si, coisas que, por sinal, não deveriam ser comentadas com uma estranha. Cécile tira o sorriso do rosto para não parecer escárnio, e com atenção nos lábios da outra, ouve atentamente a pergunta que veio logo depois.

“Conte-me sobre você.”

“Ora essa! Quem ela acha que eu sou para falar de minha vida em tão imprópria hora?”

Ironicamente foi Cécile quem fizera a mesma pergunta instantes atrás. Poderia dar um resumo – detes fazê-lo – ou se arriscar a atrapalhar os outros espectadores com seus gestos espalhafatosos. Escolheu a segunda opção por respeito à sua “amiga”.

O dedo incador se entorta ao tocar o próprio peito com relativa força; a esse gesto se segue uma expressão facial de desprezo. Levanta o braço e puxa o ar para perto, como se trouxesse algo de longe para perto; em seguida faz um gesto de que ela própria é pinel...

A ginástica perde ritmo quando Emilie precisa de mais tempo para compreender um ou outro gesto específico, e em um acordo tácito elas passam a acompanhar o filme e a conversarem alternativamente – como só duas mulheres sabem fazer. Ao término da exibição, havia conseguido explicar que veio para a América por falta de opções em sua terra e que não possuía grandes aspirações, estando satisfeita por conhecer uma pessoa a quem já admirou muito. Logo estavam praticamente sozinhas dentro da sala de exibição, com as luzes apagadas e a programação semanal do Prytania tomando conta da tela após os créditos finais. Sente-se bem. Por ela, continuaria a saber mais do teatro e da vida particular e/ou pública de Emilie Qorpum, já que a sua não tinha nada de empolgante.

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34 Re: Prytania Theatre em Sex Out 26, 2012 1:22 am

O público sentado espaçadamente pela pequena sala de exibição começou a se levantar para ir embora, no mesmíssimo segundo em que os letreiros finais começaram a aparecer na tela; e ela se permitiu sentir desprezo por aquela gente. Isso lhe trouxe um sorrisinho cheio de si aos lábios, que vinha acompanhado de uma boa dose de saudosismo. Nunca se imaginara desprezando alguém novamente; imaginava que os anos na rua tinham lhe dado alguma compreensão da alma humana, além de ensinar alguma humildade. Agora via que o desprezo que sentia por si mesma apenas sobrepujara o desprezo que sentia pela humanidade. Bastava se colocar numa poltrona confortável, numa situação vagamente mais privilegiada do que a que vivia normalmente, e lá estava ela pensando que esse povo sem cultura que vai ao cinema e sai mal o filme acaba como se estivesse cumprindo uma espécie de dever penoso e que nem aproveita o escuro para tecer considerações filosóficas antropológicas e sociológicas sobre o que acabou de assistir, humpf!. Era risível. Ainda se tinha na mais alta conta.

Recostou-se com prazer na cadeira, sabendo que ainda tinha entre cinco e sete minutos para ficar ali até que acendessem as luzes e fechou os olhos por alguns segundos. Não queria ir embora dali, de maneira alguma. Se dormisse em uma daquelas poltronas, teria a noite mais confortável dos últimos cinco anos. Lembrou-se do lugar onde dormia novamente, um beco do outro lado do French Quarter, já bem limpo e organizado para quando voltasse. Provavelmente alguém já teria tomado o lugar, era bem mais tarde do que o horário que se recolhia normalmente. Teria uma boa briga para recuperá-lo, seu querido espaço no chão. Só a ideia de abandonar aquela poltrona de estofamento vermelho, quente e confortável, para brigar com algum maluco esfomeado por meia dúzia de papelões limpos, já a desanimava e quebrava a magia do lugar onde estava. Sua fronte contraiu-se. Não queria pensar nisso.

Abriu os olhos e olhou para Cécile. Como queria ter aquela aura calma, aquela face desimpedida, aquela história de vida tranquila... Mas, pensando bem, jamais poderia não ser Emilie Qorpum. Afinal, era simplesmente genial, e as coisas se acertariam no momento certo. As coisas já estavam se acertando. Estava dentro do Prytania, não?

Os créditos finais foram substituídos por alguma espécie de propaganda a que ela não deu importância alguma, pois uma ideia linda começou a tomar conta de sua mente. Poderia ficar ali. Dormir numa daquelas poltronas, ou na madeira do teatro, como fazia nos velhos tempos. Podia pegar algo para comer da bombonière do cinema, é claro, algo que ela não comesse a tempos, como chocolate ou balas de goma daquelas bem coloridinhas ou sorvete. Sentiu que seus olhos brilhavam. Olhou bem para o pequeno palco. O cinema do Prytania era no estilo anos cinquenta, com um palco de poucos metros de profundidade e uns trinta de boca de cena, cortinas de veludo vermelho, três pares de pernas pretas não muito altas em duas coxias rasas. Provavelmente as coxias davam acesso a um pequeno camarim, atrás da tela.

Não teve muito tempo para pensar num plano. As luzes se acenderam, piscando um pouco nos primeiros segundos, e ela se levantou de um salto assustado e correu para o palco, puxando Cécile pelas duas mãos. Se escondeu atrás das cortinas no exato momento em que dois seguranças entravam na sala de exibição para ter certeza de que não havia ninguém moscando por ali. Fazendo esforço para não fazer barulho ao respirar, ela agradeceu mentalmente o comprimento das cortinas – que se arrastavam no chão – e gesticulou sem muita lógica para que Cécile ficasse quieta e a seguisse.

Moveu-se muito devagar e silenciosamente por trás das pernas do teatro, e descobriu, não sem surpresa, que as pequenas coxias davam para um espaço de uns dois metros entre a parede de tijolinhos e a tela. Sorriu aliviada ao ver uma espécie de rotunda que encobria a entrada para o fosso do palco. Ainda devia haver peças por ali. Num gesto hábil, abriu a portinhola e se enfiou ali de gatinhas, sentando-se sem conforto ao lado de alguns adereços de cena. Tentou remover sem fazer barulho alguns pedaços de madeira que pareciam parte de um cenário, para que Cécile se sentasse também. Ninguém as procuraria ali.

Era só esperar que fechassem o teatro e fossem todos embora para que ficassem com o prédio só para elas. Uma noite gloriosa a esperava.

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35 Re: Prytania Theatre em Dom Dez 02, 2012 3:46 am

I V I C A



Era uma excelente noite para uma caçada, sem sombra de dúvida. A oportunidade de sangue culto, saudável, a facilidade imposta pela figura frágil e carismática de criança... Os acontecimentos sugeriam um final trágico para o talentoso artista desconhecido, embora não tivesse sido avisado o destino. E foi esse grande traquina que poupou a vida do filho da Mama quando a pequena vampira soube do sumiço da líder do clã dos Ventrue. Uma pena, pois retornava ao elísio cheia de más intenções. Leroy ficaria para outra hora, estava decidido. Despediu-se dele com apressada elegância e pôs-se a saber das novidades na Longue Vue. Ouviu da boca de Helena que ela havia “resolvido” o problema com a tal senhorita Blake, e que, além disso, Gregor e o Rato haviam sido exonerados de seus cargos. Um enfraquecimento colossal da estrutura da Camarilla que certamente iria gerar comentários por muito tempo – tanto tempo quando um vampiro interessado no assunto quisesse. Seria de se supor que a Harpia colocaria em prática seu trabalho de engenharia social, mas não foi isso que aconteceu. O senhor Franz Lorrimer, secretário da Camarilla no principal refúgio da cidade, havia desaparecido e deveria ter seu paradeiro descoberto “para já”. A preocupação de Helena era tamanha em sua feição que Ivica ficou envergonhada por perceber tão facilmente as impressões dela; aquela estava sempre tão compenetrada no joguete permanente de ser Toreadora que não havia espaço para falhas na sua interpretação.

A noite seguiu seu rumo e Ivica pôde realizar sua próxima manobra sem esperar o raiar de um novo dia. De acordo com um contato seu – que era comum a Franz -, o Toreador-investidor teria sido visto no pequeno Prytania Theatre, a umas poucas milhas de distância do bairro nobre de Garden District. Poucas vezes Ivica teve que visitar aquelas ruas repletas de vulgaridade do French Quarter, e, felizmente, na maioria dessas vezes ela visitou exatamente o Prytania. Por mais que não fosse um ideal de beleza e requinte, o velho teatro tinha um “quê” de charme vintage.

Ivica aguardou pacientemente no carro enquanto a multidão se dispersava. O evento havia terminado e Franz não estava dentre aqueles que deixaram o local. Os olhos curiosos de menina percorreram cada rosto do rebanho em busca daquela fisionomia caricata que aprendeu a adorar, mas não obtiveram êxito. Depois que o último cliente deixou a casa, depois que o funcionário apagou a última luz que deveria ser apagada, só então Ivica deixou a segurança do veículo e ganhou a calçada. A boneca viva-morta caminha solitariamente a passos pequenos até a entrada do teatro. Uma olhada, duas olhadas e enfim avistou um guarda do teatro que se encaminhava para trancar uma outra porta em um outro canto. Em um piscar de olhos - literalmente – ela estava de pé atrás do homem. Ele buscava em seu bolso um molho de chaves para fechar aquela porta quando percebe o vulto atrás de si com o canto dos olhos. Em um sobressalto ele gira rapidamente, deixando o molho cair ao chão. Mas Ivica já não estava mais lá; com toda a sua velocidade sobrehumana ela passou por ele e entrou pela porta ainda aberta. Talvez ela não tenha sido tão rápida, pois o homem começa uma busca na área para achar o tal vulto que havia visto, se recusando a acreditar que estava a ver coisas. Quase achou a vampirinha encostada num canto próximo, mas dessa vez a sorte sorriu à pequena. Ele se deu por vencido e foi-se embora ter com sua esposa em casa - e talvez contar como o estresse do trabalho tem afetado sua cabeça.

A criança percorre os corredores de um silencioso e sombrio Prytania. A parte infantil de sua mente relembra dos velhos jogos de pique-esconde e de como era boa em se esconder em lugares assim. Pois bem, não chamaria por Franz; permaneceria oculta e o acharia antes, ganhando o jogo exatamente como fazia em sua infância. Os macios sapatos ajudavam-na a andar sem produzir ruídos e seu tamanho pequeno era outra grande vantagem, ainda mais contando com as sombras ao seu redor. Ela passa por corredores repletos de cartazes desisnteressantes, de peças exdrúxulas até, sem perceber sinal algum de Franz. Mas havia uma presença naquele teatro. O olfato apurado capta a sutileza no ar de que ela precisava para se certificar de que não estava só. Continua andando até alcançar o salão principal onde eram exibidos filmes e peças. De repente, risos, seguidos de passos de dança descompassados. Não era Franz, e sim humanos. Seu amigo quase que certamente havia abandonado o barco, Ivica conclui, haja vista que ela acabara de lembrar de situações onde o senhor Lorrimer reclamava de quanto Nova Orleans estava chata e que prometia sumir de vez. Algo que se aproxima de decepção passa pelo peito ôco de Ivica; uma filha navalha de desapontamento corta sua carne. Ele se foi.

O barulho ganha volume. Eram duas mulheres que giravam e tiruleavam animadamente no palco vazio. Uma delas não é estranha à Ivica. Conheceram-se há anos atrás, mais de dez, e depois a conheceu de novo mais recentemente. Seria só coincidência ou um golpe de sorte do destino? Estaria perdendo um amigo e ganhando uma companheira?

A criança caminha lentamente pela escuridão que permeiava as poltronas do teatro até ficar bem próxima do palco, onde luzes que vinham de cima dele o iluminavam fortemente. Permanece ali parada, rija em sua pose de boneca, sinistra em seu trajes combinados à bizarrice da situação. Deixaria para que a primeira reação viesse de sua amiga, senhorita Emilie Qorpum, pois certamente sua presença seria notada em pouco tempo.

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36 Re: Prytania Theatre em Qui Dez 27, 2012 10:05 am

Postagem em conjunto com Cécile Monet.

Era impressionante. Alucinante. Não parecia real, simplesmente; era como algum sonho bizarro ou coisa do tipo. Afinal, quem diria que ela terminaria a noite ali, dentro do Prytania, segurando firmemente as duas mãos macias e pequenas de uma linda garota praticamente desconhecida? Jamais poderia supor algo assim. Menos de quatro horas antes, estava com os pés nus numa calçada morna, os olhos fixos no movimento das ruas do bairro francês, manipulando suas bolas de malabarismo sem muita atenção e sofrendo de uma de suas típicas depressões de fim de tarde. Tudo aconteceu numa velocidade quase vertiginosa, rápido demais – não parecia real. Tinha mesmo gritado aquelas palavras no hall do teatro? E aquele homem aleatório que lhe dera o ingresso e partira sem dizer uma palavra que fosse? E Cécile, ali, girando loucamente com ela no centro do palco iluminado? Como tudo aquilo acontecera?

Embora interrogações girassem e dançassem na sua cabeça tão loucamente quanto giravam e dançavam no palco, estava mais feliz do que estivera nos últimos anos. Estava num teatro novamente. O palco era pequeno e precisava urgentemente de uma manutenção, mas mesmo assim sentia-se feliz e eufórica como se ainda fosse uma jovenzinha. Seu coração batia forte e estava arrepiada até os cotovelos, era uma boa sensação. Sua mente parara de repetir os acordes de “Padam Padam” para trocar pelo ritmo dançante de “La Foule”. Sim, estava feliz.

Mas se lembrava vagamente da última vez que sentira algo equivalente à animação que sentia agora, talvez um pouco mais melancólica e menos desesperado do que a atual. Os motivos, contudo, eram muito diferentes. Balançou a cabeça, tentando espantar os pensamentos. Tinha um pouco de medo daquela lembrança, já que ainda não a conseguia definir. Diminuiu um pouco o ritmo dançante de seus pés, olhando atentamente para Cécile. Em verdade, também não conseguia definir exatamente a situação que estava vivendo agora. O que é que era aquilo afinal? Bom, em breve seria apenas sua segunda lembrança feliz no novo mundo.

A primeira lembrança feliz estava nebulosa em sua mente. Quanto tempo faria, talvez três, quatro anos? Foi logo no começo. Naquela época estava bem mais maltratada do que agora, magra a ponto de poder dedilhar suas costelas, machucada pelas sucessivas brigas por território e por sua vida, suja e fedorenta. E aquela criança... Era uma criança? Talvez fosse uma anã. Parecia muito uma adulta... Enfim, aquela criança lhe pagara um jantar opulento, a ela, que nem se lembrava a quanto tempo não consumia comida de verdade, digo, algo que não fosse tirado do lixo ou que alguém ainda não comera uma parte. Um prato grande de boa comida italiana, vinho e ouvidos genuinamente interessados em saber de sua história deprimente. De alguma maneira, sentira então que aquela garota (ou anã? Podia mesmo ser uma anã) a tiraria do lixo, a ergueria das cinzas, lhe ofereceria uma nova vida. Contudo, a criatura a deixara para trás no restaurante, falando coisas completamente sem sentido. Mas não havia motivos para lembrar de algo assim agora, ou dos olhos claros dela que brilhavam sinistramente e pareciam sugá-la para dentro de um abismo. Fazia muito tempo. A criança nem devia se lembrar dela agora, aliás, nem devia ser uma criança mais. Não tinha motivo algum para pensar nisso agora.

Sorriu para Cécile. Sim, os motivos eram diferentes. Cécile era uma mulher adulta, bela e de mãos macias, que lhe dava uma felicidade tranqüila e apenas a acompanhava. No encontro com a anã, contudo, Emilie é que fora a coadjuvante. Não era algo necessariamente ruim, mas era diferente. Foi diminuindo o ritmo daquela "dança" por alguns segundos, até parar completamente. Já não tinha fôlego como antigamente.

Foi quando a viu.

Primeiro levou um susto que a fez dar um pulo para trás e se desequilibrar um pouco. Depois fechou os olhos com força, esperando que se estabilizasse, pensando que provavelmente era uma alucinação causada pelo giro e pelas lembranças. Contudo, quando abriu os olhos novamente, devagar e com cuidado, ela ainda estava lá. Parecia tão imóvel quanto uma estátua. Não mudara nada, não crescera nem um centímetro. Devia ser realmente uma anã, mas se parecia muito com uma criança.


- Ivica? – saiu como um sussurro descrente, e ela olhou interrogativamente para Cécile, tentando perceber se ela também estava vendo a criatura parada na platéia.

Ah, como era bom dançar! Cécile quase havia se esquecido do balançar improvisado dos ossos guiado pela mais pura felicidade. Em verdade não sabia ao certo se aquilo era mesmo uma dança; apenas seguia a espontaneidade da outra. Emilie, essa sim, parecia ter motivos para comemorar como faziam. Era uma atriz, quase "ex-atriz", que finalmente voltara ao palco principal em sua vida, ainda que por alguns poucos minutos de exibição para platéia nenhuma. Era bem estranho, portanto, que Cécile tenha se juntado àquele momento tão particular da senhorita Qorpum. Pensando nisso, pára quase que repentinamente de dançar e fica apenas a assistir a apresentação alheia com um largo sorriso estampado no rosto. Sentia-se bem em contemplá-la.

A dança acabou. Emilie virou o rosto para o lado da platéia e então pareceu entrar em choque. Os olhos curiosos da pequena francesinha seguiram pelas poltronas até encontrarem o motivo daquele espanto todo. Havia uma criança no recinto. Cécile encabulou-se e procurou se esconder atrás da atriz, usando seus ombros e costas como um escudo contra a defrontação com a menina. Deixaria que Emilie falasse e lidasse com a situação.

De certa maneira era uma sensação reconfortante ter Cécile se escondendo à suas costas. Se sentia poderosa, grande e capaz de proteger aquela bela criaturinha, embora a ameaça fosse apenas uma criança que não parecia, de maneira alguma, uma ameaça. Mas também era uma espécie de pressão para que agisse de uma maneira menos patética do que aquele frágil sussurro. Tossiu levemente, torcendo para que seu público ignorasse seu primeiro deslize de atitude.

- Ivica. Quanto tempo! – Tentou não soar artificial, mas tinha algumas dúvidas sobre isso ter dado certo. Não entendia seu temor, era descabido. Afinal, era alta o suficiente para intimidar aquela garotinha. Sorriu levemente. Não havia o que temer.

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37 Re: Prytania Theatre em Seg Jan 14, 2013 11:09 am

I V I C A



Foi uma beleza para Ivica vê-las dançar aquela dança desconjuntada, mostrar aqueles sorrisos verdadeiros, a verdadeira alegria humana e a mostra de sentimentos. Quanta emoção! Não para a criança, logicamente, que apenas podia assistir a tudo com uma ponta de saudosismo. Em seu tempo, foi uma pequena e bem sucedida bailarina, vinda de uma tradicional escola russa de balé. Foi dançando que atraiu o seu futuro Senhor, por isso que é tão emblemático ver a senhorita Qorpum se remexendo à sua frente. A mesma alegria, a mesma espontaneidade da outrora criança. Um roteiro bem escrito onde o final parecia querer repetir o começo da estória. O problema em tornar Qorpum sua companheira eterna é justamente a enorme semelhança: felizes em outros tempos, caricatas figuras de sua própria tragédia no agora. Duas criaturas que tiveram o mundo e cujas cascas represam toneladas de frustrações. Que futuro teriam?

Em relação á outra, Ivica pode perceber que se tratava de uma lindíssima jovem. Não tinha uma beleza chamativa, digna de modelos de passarela ou concurso de miss, mas era algo encantador. Sua primeira impressão dela foi tão boa que decidiu que ela não deveria ficar ali e testemunhar o que quer que fosse acontecer. Aproximou-se então alguns passos do palco com um olhar tímido e cabisbaixa.

- Oi, Emilie. Talvez tenha se passado um bom tempo para você, mas para mim não. Parece que foi ontem.

A pequena olha para um lado do palco, depois para o outro e começa a caminhar nessa última direção. Ela está num nível abaixo do palco e não queria ficar lá de baixo olhando para as duas em cima – afinal, quem é superior ali é ela. Mesmo andando, mantém a conversa acesa.

- Foi realmente uma surpresa encontrá-la aqui hoje, pois eu procurava por um antigo amigo que sumiu na noite de hoje. Eu tenho certeza que você iria adorá-lo.

Ivica começara a subir uma pequena escada lateral, e no momento em que as paredes e cortinas a tiram do campo de visão das duas mulheres, ela utiliza os poderes da Rapidez e faz o percurso em menos de um segundo. Como em um passe de mágica, já estava andando no palco, a alguns metros das duas.

- Porque ele é um amante das artes e seu trabalho é todo é focado nisso. Bem, mas ele se foi, então não há sentido em colocá-lo na conversa sob essa ótica.

A aparência da pequena não parecia mais tão melancólica. Ivica arrisca um pequeno sorriso ao terminar sua última frase, focando-se agora na outra mulher. Fica a analisá-la de cima a baixo, sem pudor.

- Você é muito bonita, moça. É como eu sempre quis ser. – aumenta o sorriso por um segundo, para em seguida ser um tanto descortês – Por favor, deixe-nos a sós, somente eu e Emilie. Volte aqui amanhã à noite para continuar a conversa com sua amiga. – alguns segundos de silêncio desentendido se passam entre a muda, a atriz e a criança, até que esta dá o veredito – É isso. Por favor... – estende a mãozinha em direção à saída.

Cécile não estava entendendo bulhufas, mas a voz da pequena lhe pareceu um pedido irresistível. Não tinha aonde ir, nem conhecia ninguém além de Emilie na cidade, e mesmo assim decidiu deixar o Prytania sem um motivo relevante além do “singelo” pedido infantil. Antes de sair, a francesinha tocou o ombro da atriz e lhe deixou um último amoroso olhar. Pronto, estavam as duas velhas conhecidas a sós. Ivica se aproxima de Emilie, mostrando que era bem real para ser uma assombração.

- Autoconfiança ainda não se tornou uma virtude em si, tenho visto. “É o que de melhor os indivíduos podem obter de si mesmos”. Mesmo assim, tu ainda não aprendeste.

Havia chegado a hora de separar o joio do trigo, a hora da guerra lúgubre pela alma da atriz. Para tanto, uma postura mais adulta deveria ser adotada por Ivica, que prontamente deixa a voz melodiosa de lado para falar num tom mais autoritário.

- Emilie, você já passou da fase de se prestar ao ridículo. Falta-me palavras para expressar algo além de “patética”. Uma outrora grande atriz que hoje em dia vive de migalhas, à sombra de outras pessoas muito inferiores se comparadas à sua genialidade. Nem o tempo que se passou entre nossos encontros lhe serviu para criar coragem, ou mesmo vergonha. Tenho pena de sua falta de perspectiva.

Ivica bate o pé com força no chão e grita com a mulher.

- Queixo para cima, postura ereta!

Começa a rodeá-la lentamente.

- Aprendi desde cedo a manter minha postura. Aliás, “postura” é a primeira lição que uma atriz deveria aprender. E você ainda se julga uma? – dá uma tapa nas costas dela, para que ajeitasse a posição da coluna – Se você não consegue se enxergar com confiança, ninguém lhe presta respeito. Sem respeito à nossa honra, ao nosso nome e capacidades, não somos nada. E você não é nada no momento, Emilie Qorpum. O que tu foste um dia, o que pensei que poderia voltar a ser, nunca mais será.

Após aquelas palavras, Ivica desce do palco pelo mesmo caminho que havia feito. Deixaria o teatro se nada mais acontecesse.

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38 Re: Prytania Theatre em Sex Jan 25, 2013 11:54 pm

À sua última fala claudicante, dita em um único ataque de mente e diafragma, seguiu-se a contemplação muda. Se já não tinha vontade de falar antes, se tudo o que queria era apenas girar numa dança sem sentido a noite inteira com os pés bem plantados no palco e a mente nas nuvens, e desmaiar de cansaço quando fosse inevitável - e a chegada de Ivica a forçara a sair de um estado de espírito pelo qual ansiava tanto – imagine se queria falar agora, quando a criança andava em sua direção, falando sem parar, e seus olhos pareciam lhe pregar peças. Seus lábios estavam salgados, e colados como se nunca mais fossem abrir novamente. Tudo nela parecia rígido, imóvel, como uma criança muito séria brincando de estátua ou de morte. Não fosse pelo fato de seu corpo inteiro, mesmo imóvel, demonstrar interesse à situação, de seus ouvidos estarem atentos a cada inflexão do monólogo da criança e de seus olhos acompanharem tudo com ânsia, pareceria estar aterrorizada.

Talvez devesse estar aterrorizada, pensou quando Cécile saiu do teatro levando boa parte do calor do ambiente consigo. Tinha motivos para isso. Mas não temia Ivica, estranhamente. Teve ainda mais certeza de que não estava cumprindo seu papel naquela cena quando a voz de Ivica se transformou em alguma outra coisa, outra voz, outro ponto de ressonância, algo ao mesmo tempo desconcertante e perigoso, como um chiado de gato. Mesmo assim seus pés não se moveram, seus músculos se mantiveram rijos, sua boca permanecia grudada e agora estava amarga, como se estivesse fechada há muitos e muitos anos.

As primeiras palavras de Ivica se assemelharam a chicotadas. Quase podia senti-las estalando contra a pele de seu rosto, e tinha certeza que estava corando doentiamente, como quem tivesse apanhado. Depois do péssimo começo, cada frase se tornava mais dura, e o ardor em seu rosto aumentava, logo passando para suas orelhas, pescoço e descendo quente até o peito, onde seu coração batia incomodamente. Não tinha certeza se era raiva ou vergonha, mas poderia esbofetear a criança naquele momento. Se apenas conseguisse levantar um braço!

E então Ivica gritou.

Foi ofensivo e desnecessário, mas não realmente surpreendente. De fato, pelos rumos de seu discurso, até mesmo uma cusparada na cara seria coerente. Contudo, ver aquela pessoa pequena – pessoa porque, de alguma maneira, não conseguia associar Ivica a uma criança mais – gritar com tanta força, tão revestida de autoridade era uma imagem impressionante. Era uma cena forte, mas jamais poderia ser usada em cena propriamente dita; de tão desprovida de emoção. Ela parecia uma boneca que só por acaso tivesse recebido o sopro de vida, e que só em forma se assemelhasse a um humano. Isso arrepiou todos os pelos de seu corpo e causou um espasmo involuntário em suas mãos esqueléticas.

A pequena aberração – sim, era a maneira mais adequada de se referir a ela – começou a rodeá-la, como um animalzinho, irritante, mas com toda a pinta de criatura letal. Por um milésimo de segundo, teve vontade de simplesmente sair dali, a passos largos que as pernas curtas de Ivica mal e mal acompanhariam, e até sentiu que seus músculos começavam a trabalhar para isso, mas o tapa certeiro em sua coluna foi uma surpresa tão grande que frustrou seus planos. A própria Emilie ficou surpresa com a extensão da raiva que o gesto desencadeou. Seus olhos se injetaram e sua respiração pesou como se tivesse um piano nos ombros. Seu rosto ficou ainda mais vermelho, se é que isso ainda era possível, e sentiu que as veias em sua testa e punho saltavam com o fluxo intenso de seu sangue. Sua boca, hermeticamente fechada, escureceu com o fluxo sanguíneo causado pela força com que comprimia os lábios. Estava fervendo. Não se lembrava de ter se sentido tão enfurecida em toda sua vida – sempre fora uma pessoa de emoções consideravelmente comedidas, quer dizer, considerando-se os mitos sobre atrizes. Mas palavras de Ivica agora, além de dolorosas, em como empurrões em direção a um abismo que nunca se atrevera a mirar com os olhos de Emilie Qorpum. Com os olhos de Petra, talvez. Com os olhos de Lady Macbeth, certamente. Mas jamais com os olhos limpos de Emilie Qorpum.

Abriu a boca foi como se fizesse um rasgo no meio de seu rosto, e todos os seus músculos faciais se contorceram de contrariedade com aquele movimento súbito em meio a tanta tensão. Quando sua voz saiu, contudo, estava límpida e controlada, com grande quantidade de ar na garganta e mais aguda do que o normal.


- Talvez você esteja certa. Na verdade, você está certa. Nunca mais serei o que fui um dia. Mas isso, minha cara – quase cuspiu essas palavras – é o movimento natural da vida. Eu não sou mais a mulher que era. Mais do que ler minhas declarações como um suspiro de resignação melodramática, e quero acreditar que você tem intelecto para isso, entenda o que eu digo como essencial à condição humana. Estou mais velha. Passei por situações novas e encontrei novas saídas para elas. Patético seria estacionar no tempo. Patético seria se eu não mudasse. Eu fui uma grande atriz, verdade. Continuo sendo uma atriz. E jamais deixarei de ser atriz, porque fui e sou uma artista acima de qualquer coisa, e a arte é mais um tratado pessoal do que um conjunto de regras de postura. Minha arte ainda queima dentro de mim e, enquanto eu disser que sou uma artista, eu serei. Nada do que você disser, nenhuma de suas cenas desprovidas de emoção poderia tirar isso de mim.

Parou para recuperar o fôlego. Ainda sentia seu corpo queimando, mas não mais de raiva. Era de paixão, pura e completa.

- Meu desejo é maior do que meu medo, Ivica. Eu vivo há cinco anos na rua e ainda me permito sonhar e arquitetar os planos de minha volta, não apenas por minha indiscutível genialidade, mas porque eu não existiria em outro lugar. O palco é minha casa, mesmo que seja um palco mequetrefe como esse. Então sim, sou ridícula, patética, um nada, fraca e tola, e mais um milhão de adjetivos pouco lisonjeiros; mas sou Emilie Qorpum, uma das maiores atrizes vivas do mundo, e nada vai mudar isso.

E descansou seu olhar sobre Ivica. Sua garganta parecia travada com o bolo de palavras que gostaria de despejar sobre o mundo, por isso se calou. Não precisava dizer mais nada. Com alguma surpresa, percebeu que acreditava de verdade no que dissera, e isso era reconfortante. O que quer que aquela criança abusada dissesse agora não teria mais a menor importância.

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