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St. Louis Cathedral

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1 St. Louis Cathedral em Sex Jun 17, 2011 6:11 am



Poucas cidades no mundo são tão identificadas com um edifício como é Nova Orleans. A cidade é instantaneamente reconhecido pela histórica catedral e sua posição com vista para o Audubon Park. A Catedral-Basílica de St. Louis é a mais antiga catedral católica em uso contínuo nos Estados Unidos. Os encarregados da manutenção do prédio trabalham com esmero na manutenção do prédio, encarando o serviço quase como uma dívida com Deus.

Na St. Louis Cathedral existem ainda duas lojas de presentes. Ambas as lojas oferecem uma grande seleção de artigos religiosos e espirituais, incluindo rosários, medalhas, cartões de oração, estátuas, brindes e lembrancinhas feitas especialmente para a Catedral.



Toda a renda líquida de suas compras ajudam a sustentar o ministério da catedral, e apoiar a conservação e manutenção da Catedral-Basílica de Saint Louis. As Missas ocorrem em dois horários: pela manhã e pelo fim da tarde. Nos fins de semana há ainda uma terceira missa celebrada à noite.

Recentemente a igreja passou por uma reformulação de pessoas; o padre e diáconos antigos deram lugar a fervorosos membros enviados de Nova Iorque. Enquanto a população tenta se adequar as maneirismos dos novos religiosos os vampiros praguejam por terem perdido o controle sobre a igreja, e muitos deles sussuram que os novos religiosos são perigosos agentes que plenejam um ataque massivo contra as "forças do mal".






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2 Re: St. Louis Cathedral em Sex Jun 22, 2012 12:42 am

Eram duas da tarde na grande Catedral de Saint Louis. A maioria dos membros da igreja tratava rapidamente dos afazeres a tempo de realizar a eucaristia vespertina, amplamente freqüentada, tanto por fiéis locais quanto por turistas. Aquela catedral era também uma basílica, o que significava ser a primeira igreja dedicada a St. Louis King of France no mundo. Dessa maneira tinha uma grande importância dentre os templos norte-americanos. Era visitado por católicos de todo o país, que sempre saiam satisfeitos de lá com uma lembrancinha das lojas de presentes.

A mudança dos membros não causou diminuição da frequência das missas. Chegou até a aumentá-la e diversificá-la. Não era difícil encontrar senhoras negras com chapéus exuberantes, elogiando o fervor e fé com que a eucaristia era conduzida, comparando-as com a cantoria de seus templos protestantes. E os turistas nunca se preocupavam com quem administrava a igreja ou conduzia seus rituais. Pediriam a bênção do Arcebispo seja quem ele fosse.

Longe dos flashes dos turistas, do podar do jardim pelas tesouras das freiras, das lembrancinhas expostas nas prateleiras, do chão quadriculado em branco e preto refletindo o tom azulado dos vitrais, e do suave tremular das diversas bandeiras que pendiam imponentes do alto da nave principal da catedral, um homem caminhava. O som de seus sapatos italianos de couro ecoava pela sala de pedra sem janelas. Estava em frente a um quadro negro, onde o giz branco havia rabiscado diversas teorias e explicações sobre o tema que abordava.

- O poder que têm nas mãos, caros fiéis, não é de vocês. Este vem de Deus. O Pai, o Filho, o Espírito Santo, em toda a sua magnitude. E não os receberam por serem homens dedicados à Igreja, ou mesmo aos homens dela. Receberam-no pela sua Fé, algo ainda mais importante e poderoso. - Nesse ponto, o homem em trajes negros do ordenado mantinha um tom sereno, porém firme. O tom cresce, à medida que cada frase é completada. - A Fé em Deus, capaz de banir o mais perigoso dos demônios, existe dentro de cada um de vocês. E esta servirá para destronar os usurpadores da vida, que hoje andam entre nós. - Agora mostrava os dentes, transparecendo certa raiva sobre os demônios que citava. - Mentem suas formas como a serpente de Adão e Eva os iludiu, e do sangue humano tiram seu sustento. Matam sem piedade, privando as criaturas de Deus de cumprirem a Vossa vontade. - Suas mãos se fechavam, firmes, e seu alto tom de voz tornou-se um grito fervoroso, como se amaldiçoasse um deles bem a sua frente. - E por isso foram amaldiçoados, assim como foi o primeiro assassino da humanidade, de verem a luz do sol por suas eternas vidas...

Então veio o silêncio. Padre Wallace olhou para as carteiras na frente daquele quadro negro, e todas estavam vazias. Isso o incomodou profundamente. Aquela aula já havia sido dada diversas vezes em outros lugares. Foi responsável pela formação de um forte time em Nova Iorque, e agora voltava à sua terra natal para purificá-la dos demônios aos quais estava acostumado a enfrentar. Mas sem um time isso não era possível. Precisava de mais veículos de Fé. Precisava de corações puros e mentes preparadas para receber os ensinamentos.

Deixou a sala de estudos apressado, com a expressão fechada, sendo atacado por lembranças de fatos que o fizeram chegar até ali. Que o tiraram da vida mundana e o colocaram no caminho de vampiros para interromper sua trajetória permanentemente. A expressão doce de sua esposa, a voz suave que o acalmava, o abraço delicado do casal de filhos que haviam acabado de aprender a escrever uma carta de dia dos pais. Estas cartas eram a única lembrança que guardava dos filhos, além das fotos que tinha no porta-retratos do escritório em que trabalhava quando tudo aconteceu.

Sentou-se no reservado confessionário, na posição do sacerdote, prestes a ouvir os pecados de um fiel com peso na consciência por não ter devolvido o troco correto, ou por olhar para o decote da cunhada. Nada comparado ao inferno que tornou-se sua vida sem a família. Álcool, drogas, sexo, e todo o tipo de depravação que podia encontrar à sua frente. Não tinha mais esperança, não tinha mais vida, não sabia mais o que era ter Fé. Largou o seminário ao se apaixonar por Maggie, uma jovem colegial que jurou fazer feliz pelo resto de suas vidas no altar daquela mesma catedral assim que se formaram na faculdade, anos mais tarde. Mas ainda assim não havia largado sua crença. Ela apenas o abandonou quando sentiu Deus virar-lhe as costas. Mais tarde veio a descobrir que Deus tinha lhe reservado uma missão maior. Uma importância no grande plano divino...

Suas lembranças foram interrompidas pelo adolescente envergonhado, que agora falava sobre os joelhos de sua prima. Não notou quando ele havia começado. Pobre garoto. Deu-lhe a penitência e continuou a esperar dentro da cabine. Tinha a esperança de que alguém com potencial buscasse pela penitência naquele momento. "Deus, por favor, mostre-me.", pediu. E então esperou.

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3 Re: St. Louis Cathedral em Sex Jun 22, 2012 4:21 am

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Resolução da ação do post anterior, no Prytania Theatre - noite passada


________A noite anterior foi improdutiva demais, a começar pelos “convidados” que resolveram não aceitar o convite que lhes fora ofertado. Pré-indisposta a escolher outros do rebanho a lhe servirem de companhia, restou a Marie a solidão de um local lotado de pessoas. Em meio a um público de sangue quente e ávido por novidades, a criatura infernal que se disfarçava de linda mulher se manteve mais humana que muitos ao seu redor, frustrando a lógica e pregando uma peça na senhora probabilidade. Permaneceu sentada o tempo todo, comportadíssima. Mexia-se apenas na hora dos aplausos. O palco era tudo o que lhe importava naquela hora e meia que dividiu o espaço com o alimento. Queria voltar ao seu refúgio e dizer à seus lacaios que sorriu, chorou, que se emocionou de diferentes formas assistindo a sua velha arte. Mas seria mentira, pois uma criatura como ela não sente como sentia em vida. O que lhe restou foi a angústia da impossibilidade de viver tudo aquilo de novo, e mesmo tal angústia dura pouco; ela se esvai quando da lembrança da imortalidade adquirida, dos poderes da Serpente e em como inflige dor e sofrimento com extrema facilidade. No fim das contas, o que seria tristeza torna-se sucesso. Vão-se os anéis, ficam-se os dedos - mais fortes do que nunca.




Trecho transcorrido no Masquerade, no tópico Hilton Hotel & Harras Casino - mais cedo nesta noite


________Após ter voltado à sua casa no Garden District para passar a noite, Marie segue para o seu trabalho no Masquerade e se vê novamente entediada. O clube recebia as mesmas caras de sempre e o cenário político vampírico da cidade não mostrava mudanças excitantes, mesmo com o embate entre a Camarilla e os Ventrue. Ela poderia então correr atrás da ação, meter-se em uma investigação que lhe permitisse obter mais do que informações superficiais sobre tal embate, certo? Errado. A Serpente Marie é mais do que a imagem da independência política, ela é a imagem da ignorância desejada. Manter-se de fora a afasta de inúmeros problemas e aumenta suas noites sobre a Terra. Prefere mil vezes permanecer em seu território aguardando as vítimas se amontoarem noite após noite, sempre em busca de um algo a mais em suas vidas e nunca sendo decepcionados pela proprietária do Masquerade. Só que tem dias que ficamos entediados e não tem o diabo que mude isso. Quando você está com tédio até a alma é hora de procurar sarna para se coçar. Foi exatamente isso que Marie fez.

________A música eletrônica agitava por completo o Masquerade. Homens e mulheres dançavam um pouco mais retraídos na pista de dança do piso principal do que seus pares nos camarotes regados a cocaína. Marie estava debruçada no parapeito de seu próprio camarote no segundo piso, olhando para o telão da coluna central. Clipes de música eletrônica não costumam fazer sentido, e foi no meio do zilhão de informações que pipocavam nas telas LED que ela achou sua sarna da noite: uma cruz. Inicialmente sozinha no clipe, a cruz foi parar no pescoço de um jovem rapaz, que segundos depois estava sendo atacado por demônios. E ele se salvou por causa daquela cruz. “Até quanto de verdade havia naquilo?” A Serpente se afasta do parapeito sorrindo, pronta para obter sua resposta.

Mandou que preparassem o carro e que respondessem à Cassy Campbell em sua ausência. Sentou-se no banco de trás ajeitando o vestido curto e endireitando o grande decote nos seios para que não mostrassem mais do que o necessário. Enquanto o veículo cortava as ruas do Centro da cidade em direção ao Garden District, Marie pensava se não estava a se meter em algo maior que suas forças. Imagina que por mais besteira que seja todo e qualquer deus – inclusive Set -, a fé das pessoas pode ter o poder real de afetar o mundo. Píton, seu falecido senhor, tentou um dia a alertar sobre tal poder que certas pessoas possuem, mas ela, uma criatura que beira a megalomania, teimou em não lhe dar ouvidos. Bem, gostaria que o negro estivesse com ela essa noite para que testemunhassem quem pertencia a razão.




St. Louis Cathedral - presente


________O carro deixou Marie na calçada do Audubon Park. Ela mandou que a esperasse exatamente ali e então atravessou a rua. Os sentidos vampíricos nunca foram verdadeiramente fortes na Setita, mas ela inconscientemente fica mais atenta a cada metro avançado na direção do prédio religioso. O céu parece ficar nublado sobre a catedral com a aproximação da cria do inferno. Sombras ganham força e a sinfonia desgovernada da cidade emudece por completo, restando a presença solitária de uma brisa a levantar folhas e jornais velhos. É neste microcosmo em que os envolvidos da guerra entre o bem e o mal entram quando se defrontam.

________Era noite e a catedral ainda tinha a porta aberta. Mesmos os mais leigos sabem que já passou do horário das missas, motivo pelo qual a frente da catedral estava vazia quando Marie por lá chega. Os lábios de generosas curvas ressaltadas pela maquiagem parecem sempre exibir um sorriso disfarçado, sendo boa parte do charme da vampira. Ela cruza os braços segurando a pequena bolsa de colo nas mãos. Encara a porta com desenhos de anjos esculpidos como quem encara um alienígena, com curiosidade e cautela. Através da fresta ela tem uma visão reta do corredor central até... até o altar. Seus olhos percorrem o tapete vermelho, sobem pela curta escadaria do altar, a mesa e finalmente acham os pés do crucificado. Já sem sorriso algum no rosto, Marie hesita por um breve momento, mas continua a erguer o olhar. Sobe pelo corpo do homem até encontrar seus olhos. Ela leva um susto quando pensa que viu a figura virando os olhos para encará-la de frente. Os caninos se projetam por completo em um único movimento com o susto, culminando com um chiado curto e agudo. Maldição. Não tinha mais nada o que fazer ali depois dessa.

________A Seguidora de Set Marie é um demônio apelidado de "vampiro", cujo sangue contém gerações de mentiras e vícios. Sua própria forma natural é uma serpente, a inimiga declarada de Deus no Éden. Ela é a figura da maldade, vício e tentação, o pecado em oposição à virtude. Deus, se existir, não gosta dela nem um pouco - não cabendo à ela ficar e descobrir. Chia uma última vez na direção da cruz, blasfemando aquele tempo sagrado antes de dar meia-volta e começar a caminhar para o carro.
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4 Re: St. Louis Cathedral em Sab Jun 23, 2012 1:24 pm

A tarde no confessionário foi tediosa. Hoje Deus resolveu não atender ao seu chamado, adiando o encontro de alguém com o potencial que procurava. Deu diversas penitências, mas todos os pecados confessados eram superficiais e sem consistência. Wallace acreditava que antes de se privar, o homem devia deixar-se viver. E assim certamente cometeria erros, já que apenas Deus era perfeito. Apenas Deus estava acima de todas as coisas. E nem o mais santo dos santos deixou de errar em alguma vez em sua vida. Esse pensamento podia não ser o mais correto para a sagrada igreja, mas era o que o padre concluiu com sua experiência de vida. Afinal, ele viveu. Deus perdoa, mas apenas aqueles que fazem por merecer.

A eucaristia seria conduzida por ele, e assim que o ocaso começou a se aproximar, o ritual teve início. Em seu sermão naquela tarde falou sobre erros, pecados e arrependimentos. Na comunhão, observou cada um dos fiéis aos quais concedeu o corpo de cristo, olhando-os nos olhos, dando a eles sua bênção, e mais do que tudo, procurando por algo. Por um fervor. Pela forte manifestação da Fé. Este era um ritual que sempre se repetia. Assim já encontrou bons recrutas para o corpo da Ordem à qual pertencia. Mas aquela cidade parecia não ter esse tipo de fiel. Pensou que devia começar a procurar lá fora, no mundo, onde estava quando recebeu o chamado. Devia encontrar mais gente como ele mesmo.

Após a missa havia o jantar, onde os membros da igreja se encontravam e conversavam sobre os afazeres do dia. Alguns criticaram o sermão do Padre Wallace, dizendo-o que assim estava estimulando aquela comunidade católica a errar. Mas olhava para aqueles homens e sabia que não viveram, tendo dado toda a sua vida à igreja, e eles não entendiam o mundo como ele entendia. Era por isso que neles a Fé não se manifestava como acontecia com ele. Por isso que Deus não os escolheu para a missão que ele havia sido escolhido. E por isso que não eram iniciados na Ordem de São Miguel Arcanjo.

Seguiu para seus aposentos quando chegou o horário. Após um banho, vestiu a túnica ritualística branca de sua Ordem por cima de uma roupa mais simples, mas ainda toda preta, com a camisa contendo o clergyman, a gola branca que o identificava como padre. Desceu aos subterrâneos, onde foi montado um salão para que pudesse realizar os trabalhos aos quais foi designado. Mesmo sozinho, tinha que cuidar da proteção do local. Após realizar cada atividade do roteiro, ao qual já havia decorado todas as palavras, ajoelhou-se em oração à frente da imagem do patrono de sua Ordem. O anjo enfiava uma lança em um demônio sob ele, com as asas abertas, em uma representação dos poderes que Deus canalizava através dos membros da Ordem. E foi neste momento de concentração máxima que percebeu a aproximação de uma criatura das trevas.

Deus não colocou em seu caminho alguém em potencial naquele dia, mas atendeu suas orações de outra forma: fazendo-o encarar o inimigo. O seu alvo principal. Tirou a túnica apressadamente e correu em direção à porta da igreja, onde a presença da criatura era mais forte. Subiu as escadas estreitas e de iluminação parca, mas logo ganhou a nave principal. Do traje ritualístico manteve apenas a medalha de prata com a imagem de São Miguel, considerando que ela podia vir a ser útil. Uma proteção a mais, como se não bastasse estar na casa do Senhor. Concentrou-se apenas em localizar a criatura do mal, sem pensar em mais nada, até que a viu ali, de costas, andando para voltar ao seu carro.

Não precisou de sua Fé para entender que estava diante do Inimigo. Ele tinha vários nomes, várias formas, e esta estava recheada de luxúria. Em outros tempos se deixaria levar por aquele belo corpo, pelo caminhar sedutor por cima do salto, assim como a cobra tentou as criações de Deus no Éden. Mas além de seus votos, ele sabia que aquela era apenas uma arma de corrupção do inferno. Era com ela que aquela serpente conseguia levar pobres homens para o meio de suas pernas, e então tirar-lhes o sangue, a vida.

Mas o que ela estava fazendo ali? Buscava perdão? Redenção? Muitos vampiros iam até as igrejas em busca de salvação, ou apenas atrás do fim de seu tormento. Normalmente acabavam encontrando o fim, ardendo sob o poder do Todo Poderoso, queimando até suas almas serem purificadas. Hoje podia ser uma bela noite para salvar uma alma.

- Seja bem vinda à casa do Senhor. Em que posso ajudá-la?

Suas palavras saíram mais suaves do que normalmente, quando se dirigia a um deles. Mas agora ele estava seguro, em grande vantagem. Sabia que ela não poderia encostar um dedo nele, e que se o tentasse, sofreria sérias conseqüências. Então não foi hostil, dando a moça o benefício da dúvida. Ela era um demônio, isso era certo, mas nesse caso podia querer a paz e a redenção divina.

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5 Re: St. Louis Cathedral em Ter Jun 26, 2012 5:03 pm

Participação de Padre Wallace (em itálico)


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________Assim como sua presença trazia as sombras para o primeiro plano, uma aura especial de paz dominava os arredores da Catedral de Saint Louis.

________O som característico de seus saltos contra o piso de pedra fazia-se ainda mais forte conforme a angústia lhe enrijecia o corpo, fazendo com que pisasse cheia de intensidade. A lembrança do porquê resolveu encarar Deus esvaiu-se de sua mente. Agora ela procurava apenas se afastar de possíveis problemas, do mesmo modo como agiu durante toda sua existência. No caminho reto que escolheu seguir em sua pós-vida, este é o ponto fora da curva, o momento em que se julgou invencível e cometeu um erro. Os olhos da Virtude que lhe encararam de cima do altar surtiram nela o mesmo efeito que os seus olhos provocam em suas vítimas: o medo do “julgamento final”.

________Marie estava prestes a atravessar a rua e sumir pelas ruas de Garden District. O que a impediu de ir embora foi um ímpeto em se virar a olhar para a catedral uma última vez, e nessa exata hora ela vislumbrou a imagem do padre parado a poucos metros de distância. Algo inexplicável a fizera se congelar no lugar, como um arrepio que lhe tomou a espinha e que desde que fora Abraçada nunca mais sentira.

________Ela abaixa o rosto e encara o padre com um olhar incisivo e um sorriso de canto de boca, como se estivesse olhando um homem bonito numa boate. Nada mais que isso.

________- Seja bem vinda à casa do Senhor. Em que posso ajudá-la?

________Aquele homem aparecera do nada, calhando de vir diretamente em sua direção. Ele poderia saber que estava diante de uma criatura das trevas? Talvez. O certo seria ela seguir para o mais longe daquele lugar, mas a curiosidade... Ah, a curiosidade não é um mal somente dos humanos. Marie decide se arriscar a ficar um pouco mais e trocar algumas palavras com o enviado de Deus.

________Ela ergue a cabeça, desta vez encarando o padre com um olhar de cima para baixo.

________- Obrigada, mas infelizmente, em nada (não pode ajudar em nada). Já estou de saída. – finge que ia tomar o rumo da rua, mas eis que se pega cruzando os braços e disparando contra o religioso uma questão petulante que certamente acabaria prolongando a conversa – Não sabia que os padres vêm até o lado de fora buscar seus fiéis.

________Insinuava que ele estava ali por ela, interessado em seu sorriso de dentes impecavelmente brancos. Afinal, padres são homens e homens adoram um pecado da carne.

________Wallace entende como ela o olha, e aquele jeito apenas confirma a natureza do demônio no corpo de mulher. Apesar de não estar de bata, ainda usava sua identificação de padre na gola da camisa. Aquilo poderia ter sido um desafio à sua Fé, em outros tempos, mas o homem não se deixava intimidar pela sedução feminina. Estava acima disso. Ainda mantém sua calma.

________- O Senhor é onipresente, não precisa correr aos fiéis. Nós, humildes servos Dele, fazemos o possível para atendê-lo, e chegar onde Ele deseja. - Dá dois passos para frente, mas ainda não sai pela porta da igreja. Fica exatamente embaixo do batente da grande porta dupla. - Mas não é sobre fiéis que estamos falando... E quando se trata dos amaldiçoados, Ele envia seus anjos. - Abre os braços na altura da cintura, com as mãos espalmadas, mostrando vulnerabilidade. A medalha de prata brilha em reflexo à luz externa, e o padre sorri. - Diga-me, criatura, o que busca na casa do senhor?

________Deixa claro que sabia o que ela era, e de sua maldição. Mostra que não a teme, e que possui proteção a ela. Ou então possui uma grande ignorância aliada a uma confiança excessiva.


________O padre jogou tudo no ventilador; sem mais joguinhos de sua parte a partir de agora. Estava ali para confrontá-la, e se possível, convertê-la. Radelle estava tinha ido até ali com intenções parecidas, então enquanto ele não brandir uma espada de fogo sagrado em sua direção ela não via porque deixá-lo falando sozinho.

________- Não, padre. "Amaldiçoada" não. Eu preferia dizer “tocada pelas mãos de outro deus”.

________Em nenhum momento ela desfaz a expressão amigável com que havia o recebido. Continua de braços cruzados, passando a caminhar lentamente de um lado ao outro, mas sem avançar um passo sequer na direção dele. É agindo dessa forma que ela mostra sua inquietude perante a tentativa de conversão/ladainha católica. Inclusive tenta mudar o foco do assunto na sequência.

________– Não busco nada em específico. Vim em missão de paz. – ergue a palma a mão como os humanos fazem com os alienígenas nos filmes e ri de seu próprio gesto – Sabe, um dia me disseram que existem pessoas de fé tão grande que poderiam nos machucar só com suas vontades. Eu nunca acreditei muito nisso – dá de ombros -, então achei que era um bom momento de tentar conhecer uma dessas pessoas depois de tantos e tantos anos. Mas, por favor, não queira testar a sua fé em mim. Sei que há outros modos de eu ser convencida.

________Palavras leves, relaxadas, ditas sem nenhuma preocupação. Marie estava a conversar com o padre de maneira descontraída demais - ou não o temia e queria deixar isso claro ou estava a gostar de verdade da inusitada conversa.

________Um sorriso largo surge no rosto do Padre, e a olha diretamente nos olhos. Aquela pobre alma estava cheia de dúvidas, e buscava algo em que acreditar. Ela podia falar de "outro deus", mas ainda assim acreditava no poder da Fé. Se não acreditasse, não estaria ali. A amaldiçoada moça ainda não sabia, mas estava em busda de sua redenção.

________- Vejo que precisa de algum esclarecimento. Pois bem... Existe apenas um Deus, este que nos observa agora. - Ergue um dedo, apontando para cima, tanto por representar Vossa unidade quanto para mostrar a direção em que devia-se procurar por Ele. - Qualquer um que ousou mostrar-se mais poderoso que ele foi condedado. Deve ser íntima da história de Lúcifer, o príncipe do Inferno. Se segue outro deus senão Este, na verdade segue um demônio. - As mãos se juntam uma a outra, ligando-se pelos dedos, dando ao Padre Wallace uma pose de professor. - E não se preocupe, minha Fé não pode ser "provada". E é por isso que se chama Fé... O que posso fazer é lhe mostrar o caminho que percorri até chegar até aqui, até vivenciar o poder do Divino. Confesso que vivi, e segui um caminho árduo pelo Vale das Sombras, então eu conheço o caminho do ponto em que está, filha. - Usava o vocativo mesmo que Marie fosse pelo menos décadas mais velha que ele. Nesse caso insinuava uma superioridade de conhecimento, de iluminação, colocando-se em uma posição privilegiada em relação a ela. Detentor de um conhecimento ao qual supunha ser desejado e necessidado por ela. - Eu posso te guiar. Venha... - Vira-se de lado, espalmando a mão em direção à nave da igreja, ao cruxifixo com a imagem do Filho. - Todas as almas são bem vindas na casa do Senhor. Venha encontrar o que está procurando...

________Aquelas palavras podiam soar como ameaças. O "caminho" que propunha certamente a levaria ao seu fim, à Morte Final. Mas não era agressivo. A tratava como uma alma em busca de salvação, pelo fim de seu tormento, algo que o padre já testemunhou diversas vezes. E, afinal, ela poderia ser o potencial que pediu ao Pai naquela tarde. Ela o escutava atenta e pacificamente, e isso era um sinal.


________Marie sorria enquanto ouvia a tudo o que o padre dizia. Não se tratava de escárnio, mas sim por achar simpática a conversa daquele jovem senhor.

________- Novamente terei que negar, padre. Obrigada, mas já estenderam a mão para mim. E eu aceitei. Sou bem fiel quando quero. – ajeita o cabelo sem desmanchar a pose – Mas por quê não conversamos melhor a respeito do seu Vale das Sombras? Diga-me pelo que passou e quem sabe eu não me identifique com o senhor.

________Torna a caminhar bem lentamente em direção ao carro parado em frente ao parque*, como se esperasse que o religioso a acompanhasse.

________- Venha, padre. A sua fé cega pode lhe proteger de mim, não há o que temer. Proponho uma caminhada sadia pelo parque, para que possamos conhecer melhor o “outro lado”.

________Em um gesto extremamente surpreendente, Marie estica a mão para que o padre a segurasse ao sair da igreja, também funcionando como uma forma de fortalecer o convite feito.
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* O Audubon Park é exatamente em frente a Catedral.

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6 Re: St. Louis Cathedral em Ter Jun 26, 2012 9:31 pm

Eu ouço seus gritos - os mesmos que ouvi na sala de parto. Meu filho está vivo, não está? Não há nada ao redor - nada além da escuridão desértica do pesadelo. Sinto que não posso dar um único passo adiante: bem como se mil sacos de areia estivessem me prendendo aqui - bem aqui! Por Deus, alguém me ajude! Eu preciso encontrá-lo; tê-lo para mim! Eu te amei por tanto tempo... Amei por tanto tempo e com tamanha intensidade que penso não ser capaz de me entregar assim novamente - nem ao amor de mãe, de esposa ou de amiga. O berro aumenta - aumenta assim como o meu desespero e tudo o que me resta é o despertar.

Não há uma conclusão. O pesadelo se repete como a manifestação de uma doença silenciosa - dessas que vem e vão. Não existe "cura", assim como não existe um único momento de paz - um único momento em que o "infectado" clama por si mesmo e, acreditado de alguma "coisa", roga por misericórdia. É então que o "mal" engole tudo o que, com tamanho esmero e dedicação, foi construído - então que, violento, estraçalha com os últimos "por centos" de esperança. Esperança.

Sentiu o pesar das pálpebras inchadas por sobre os orbes e, esforçada, ergueu-as. Enxergou o borrão que se distribuía em verde e cinza - de árvores e calçadas -, não tardando em enxugar as lágrimas inconscientes. - Eu não vou suportar, meu Deus... Eu não vou suportar. - desabafou em silêncio, apertando os olhos com os dedos. Desatou, minutos depois, ao choro inconformado - desesperado. O número de vezes em que tinha tentado o suicídio ia muito além do que algumas pessoas poderiam supor - do que Irwyn poderia, fosse como fosse. Amava lâminas, assim como a lugares altos: os terraços e outros mais, mas do que importava? Talvez fosse preciso cinco ou dez metros. Nada que ela já não tivesse imaginado, calculado e, enfim, provado! Suspirou, cobrindo o rosto todo e, chorosa, abafando os suspiros que teimavam em escapar - suspiros sôfregos e quase gritantes. Tudo era uma questão de tempo e o cessar das lágrimas também estava incluído no tique e taque do relógio.

As mãos caíram por sobre o livro o qual vinha lendo, acompanhando o arquear da cabeça para trás. Os olhos fisgaram a pretensão de um primeiro voo, seguindo de um céu estrelado e, por último, do farfalhar de galhos e folhas. Quando iria acabar? Já tinha ouvido que "tudo" dependia dela: que se livrar da doença só dependia dela - do seu querer. Mas por quê? Ainda tinha motivos para fazê-lo? Algumas pessoas lutavam - pessoas do mundo todo: pessoas que têm, como objetivo, um bem maior. Esse "bem maior" diz respeito a uma família - ao amor. A quem ela tinha para amar? Quem estava "lá" para apoiá-la? Quem? Os olhos buscaram "mais". Talvez o correr animado de um casal ou mesmo o passear de um cachorro fujão, mas não captaram nada além de uma mocinha - de um bebê. Pensou que poderia ser o "seu": o seu filho quem estivesse correndo logo ali.

Apertou os olhos - sua cabeça doía. Só depois se levantou e, desatenta, ouviu o espatifar do livro contra as pedras que se estendiam aquém do gramado. Recolheu-o imediatamente, quase como se temesse a aproximação bondosa da menina que, como qualquer outra criança, tentaria ser gentil ao entregar o livro de volta ao dono. Caminhou para longe dos grupos familiares - da felicidade que se distribuía contagiosa: ou quase. O corredor iluminado a guiou silencioso e, insinuante, mostrou-a algo que ia muito além de um “pedido”: uma promessa. A catedral encheu seus olhos de esperança e, em contrapartida, sua boca de veneno. Deveria avançar? Achou, inicialmente, que o traje de "esportista" não fosse apropriado - o famoso conjunto acinzentado de moletom e, para completar, o tênis surrado. Um empecilho ridículo - o "medo" gerado pelo "não querer": o medo por não querer enfrentar.

Determinação? Ah, sim... Poderiam chamá-la de determinada - talvez como se quisesse e gritasse por um recomeço! Que Deus a ajudasse, não é? Como era bom se encher de esperança e vontade - não tão bom quanto saber que, minutos depois, a tristeza a desestabilizaria com pancadas: tão forte quanto nunca! Subiu a escadaria que a levaria ao paredão frontal, sequer olhando para os dois que se encontravam na entrada - sequer ouvindo a discussão: aquilo não era de seu interesse. Sentou-se no último banco da fileira à esquerda.

Deveria começar com uma prece?

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7 Re: St. Louis Cathedral em Sab Jun 30, 2012 12:19 pm

Participação de Marie Angeline Radelle (em itálico)



- Cega...?

O padre sorri e fecha os olhos, abaixando um pouco a cabeça, interrompendo a conversa por alguns segundos. Fez uma breve oração, o que pode ser percebido pelo franzir da testa e dos lábios movendo-se sutilmente, sem produzirem um som. Finalizou com um sinal da cruz, e então um sorriso. A oração serviu para que, com sua Fé, pudesse encontrar outros vampiros ao redor. Se aquele demônio realmente conhecesse o poder da Fé, não o desafiaria sozinha. Não estava ali para desafios. Queria conhecer o poder de Deus, o seu inimigo. Já mostrava sinais de temê-lo, recusando o convite para entrar na catedral.

– Deus me dá olhos onde não posso ver, cara...?

– “Amiga”.

Dá sua mão em cumprimento, esperando que ela diga seu nome. Mesmo que conversasse com um demônio, e mesmo que ele pudesse ter mil nomes, e ainda assim resolvesse usar um nome falso, mantinha a cordialidade. Aperta a mão gelada da moça com firmeza, a olhando nos olhos, incisivo, sem mostrar medo algum. Pensou no convite que ela lhe fez, e conversar com ela sobre sua história podia ajudar, mas também podia atrapalhar. Não mostraria a ela seus erros, seus pontos fracos. Não daria essa chance a ela.

– Não posso ir com você agora... "amiga". Tenho outras incumbências neste momento. Interrompi um trabalho no meio para vir ao seu encontro, e ele deve continuar. Sou Wallace. Padre Wallace. - Mesmo que ela não dissesse o nome, o padre se apresentou. Mostrava-se forte enquanto ela se encolhia.

Permite ser tocada pelo padre com o cumprimento. Percebe uma pele normal, um pouco afinada pela idade, mas que mantém o calor dos vivos. Marie só não tem certeza se seria seguro um dia provar daquele sangue.

O religioso a encarava com um olhar incisivo e corajoso. Ele já havia mostrado alguns truques, como seus símbolos e a proteção da catedral. Estava na hora de experimentar um pouco o amor cainita. Marie concentra toda a sua atenção dentro dos olhos do religioso, retribuindo aquela postura determinada com o seu sedutor poder do sangue. Suas próximas palavras iriam ser recebidas com muita boa vontade pelo pároco, gerando uma reflexão tendenciosamente negativa*.

– Padre Wallace, eu entendo suas preocupações em passar um tempo comigo. Consigo compreender como seria constrangedor passear ao meu lado e falar de seu deus depois de ter experimentado o mundo. Ainda que tenhamos recebido o perdão do deus de amor, há lembranças em nossas almas que merecem ser enterradas para sempre.


Coloca sua outra mão sobre a dela, estendendo o cumprimento por mais alguns instantes. Quem os via de longe podia imaginar que o padre consolava a moça de alguma maneira, com palavras iluminadas. Nesse momento vê Beatrice entrando na catedral com seu olhar perdido, amargurada. E então se lembrou de sua mais simples incumbência, mais importante que qualquer outro trabalho ao qual foi designado: trazer paz ao coração dos filhos de Deus. Apressou o fim da conversa, insistindo na despedida, mas ainda tinha uma pergunta.

– Podemos continuar essa conversa outro dia. Onde posso te encontrar?

– Não se preocupe com isso, padre. Laissez les bons temps rouler.

Marie deixa o padre com o famoso lema da cidade. Sem olhar para trás ela entra no carro que a aguardava e ordena que faça o retorno ao Masquerade. Já passou riscos demais em uma noite.


A pergunta que o padre fez não era simplesmente para dar continuidade àquela conversa. Queria saber onde começaria a procurar pelos demônios. Ainda assim ela resistiu. Nem seu nome cedeu. Acreditou que a vampira estivesse realmente com medo. E isso não era bom. A deixaria cautelosa, mais difícil de alcançar. Observou o caminhar da moça até o carro, enquanto a última frase que ela disse ecoava em sua mente. "...há lembranças em nossas almas que merecem ser enterradas para sempre." O quadril oscilante de Marie indo embora serviu como um pêndulo, que o colocou em um breve transe, e fez aquela frase ficar guardada em algum lugar de sua mente. Recuperou a consciência assim que o carro arrancou, a tempo de ver a placa e memorizá-la. Não queria ficar sem pista alguma. Mesmo que não a purificasse, a conversa havia sido de fato agradável, e podia ter uma continuação.

Seus pensamentos se distraíram quando voltava, ao ponto de quase não notar onde a moça desamparada havia se sentado. Já havia passado por ela, então interrompeu seu caminho, fazendo seus passos pararam de ecoar pela igreja quase vazia. Não se podia notar a presença de ninguém além dos dois. Já era tarde, e em breve as portas se fechariam, mas as almas não teriam seu tormento apaziguado. Olhou para a moça e sentiu um pouco de sua dor, sabendo que podia ajudá-la. Ela era bonita, e pelas suas roupas, não parecia ter a intenção de ir à igreja aquela noite. Os passos de corrida no parque acabaram por levá-la até ali pela vontade de Deus. A moça precisava Dele, e Wallace seria Vosso instrumento.

Deu o sorriso simpático e aconchegante, pedindo licença em silêncio, e sentou-se ao lado dela. Olhou para toda a nave da igreja, para a imagem de Cristo que se sustentava imponente sobre o altar para lembrar a todos o motivo de seu nascimento entre os homens, e após um suspiro, deu sua mão moça.

– Vamos fazer uma oração... - E então, em voz alta, concentrando-se de olhos fechados, segurando a mão da moça, rezou o Pai Nosso. A oração mais simples, aquela que todos sabiam (ou deveriam saber), e que chegava mais fácil ao coração dos filhos Dele. Não era apenas um veículo de Deus. Era também um homem, uma mão de carne e osso que apoiava Beatrice sem julgá-la nem apontar o dedo em sua cara por suas tragédias. Ele nem parecia saber quem ela era.



* Uso do nível 1 da disciplina Presença (Fascínio).

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8 Re: St. Louis Cathedral em Sab Jun 30, 2012 1:53 pm



Procurei conforto em sua imagem - em seu rosto. Foi meu pai quem me ensinou a ter Fé, muito diferente de Patrícia - minha mãe. Sei, de toda a forma, que me afastei dos ensinamentos - da doutrina -, mas quero recomeçar: quero tentar! Preciso me recuperar da desgraça em que fui atirada e, enfim, em que tenho estado até então. Será hoje? Amanhã? Para mim já não importa - eu quero apenas "acordar".



Tamborilava com a ponta dos dedos na madeira do assento, mantendo-se cabisbaixa e de olhos fechados. Por onde começaria? Não recordava, sequer, da oração mais popular - da que "todos deveriam saber". Afinal, o que estava fazendo ali? Por qual motivo tinha atravessado a rua e, cega, ultrapassado as portas do templo? Sentiu o aumento gradativo do desespero e, sufocada, reabriu os olhos. Quando virou o rosto para o extremo do banco - a fim de buscar por uma "saída" -, deparou-se com a imagem acolhedora dos olhos de Wallace. Desarmou-se do medo e do desespero, deixando-o se aproximar.

O calor de sua mão fez com que Beatrice se recordasse do "carinho" - da atenção. Sentiu-se protegida e, mais do que nunca, apoiada. Ouviu-o em seu silêncio - no quase grito de seu âmago. As palavras religiosas - abarrotadas em uma oração - trouxeram calma e, com alguma dificuldade, paz. Nada mais a atormentava e, deliciada, implorou para que aquele momento fosse eterno. Wallace pôde sentir o aperto delicado da mão de dedos longos e femininos - um aperto quase inconsciente e, fosse como fosse, necessitado. Tão breve a voz melodiosa - um tanto rouca - passou a acompanhá-lo em sua oração e, não obstante, entregou-se aos estragos ruidosos de mais um choro, mas não um choro desesperado, mas sim encantado; encantado de "algo". Sentiu como se Deus e seus anjos lá estivessem e, tenros, colocassem as mãos por sobre sua cabeça.

Como era bom acreditar em uma ideia: na simples ideia de que não estava sozinha e, apesar de outrora, o mundo ainda seguia e continuaria seguindo. Ao término da oração, Beatrice apegou-se ainda mais ao Padre - a sua mão -, abaixando o rosto e, chorosa, agradecendo aos cuidados divinos. Era absoluto e claro: Deus tinha estado ali e, misericordioso, acolhera mais um de seus filhos. Por quanto tempo iria durar? Por quanto tempo o calor da esperança a acolheria? Enquanto limpava as lágrimas com a outra mão, voltou-se ao Padre. - Obrigada. - disse, enfim, erguendo os olhos de orbes claros aos do outro. Wallace enxergaria tristeza por detrás de sua feição - por detrás da alegria passageira que lhe fora imposta.

Permitiu-se a um segundo de reflexão e, não obstante, virou o rosto para a direita. O que seria do silêncio aterrador de seu quarto? Sonho ou pesadelo? O reflexo do grito de seu filho - ainda no pesadelo - fez com que a mão de Beatrice esfriasse e, trêmula, se afastasse da outra. Wallace poderia, caso procurasse por isso, perceber a mudança quase crítica de expressão - como se Beatrice já não sentisse mais nada. - Por quê? Por que Ele sempre me abandona? - perguntou em voz baixa, arqueando ambas as sobrancelhas enquanto apertava uma mão contra a outra por entre as coxas. Ele a deixava em sua amargura e o desespero era sempre maior após um momento tão doce de esperança. Como dito em outrora: não tão bom quanto saber que a tristeza a desestabilizaria com pancadas. E sempre, sempre o fazia! Pensou que fosse chorar e, receosa, cobriu o rosto novamente.

- Eu preciso de ajuda, Padre... Eu preciso e aceito isso. - disse, então, realmente conformada com sua situação. Não queria se entupir com medicamentos ou coisa do gênero - queria apenas se curar: melhorar. Por mais que não tivesse por quem fazê-lo, iria fazer por si mesma - ou ao menos queria acreditar nisso. As sombras do passado continuariam a assombrando enquanto deixasse, mas isso não dependia dela - do seu "deixar": ia muito além. - Por favor, por favor, eu não suporto mais! - explodiu em um choro gritante e, ainda cobrindo o rosto, encolheu o dorso abaixo. Quase encostou a cabeça nos joelhos e, naquela posição, mais lembrou uma criança incompreendida e medrosa. Do que adiantaria um "recomeço"?

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9 Re: St. Louis Cathedral em Dom Jul 01, 2012 4:01 pm

AÇÕES LIBERADAS NOVAMENTE




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10 Re: St. Louis Cathedral em Qua Jul 04, 2012 10:48 pm

Durante a oração, as palavras da "amiga" que acabara de sair da frente da Catedral estavam em sua mente. Não para corromper sua Fé, mas para alertá-lo das armas do Inimigo. Toda a cena se repetiu em sua mente, e conferiu mais uma vez o jeito que ela o olhou, assim como a entonação da voz feminina ao proferir as palavras que se repetiam em sua cabeça. Entendeu aquilo como um ataque. Uma investida sutil à sua mente, à sua parte humana, fraca, feita de carne. Mas Deus estava ali, em sua casa, mais notável que em qualquer outro lugar, o protegendo. Ela falhou antes mesmo que o padre pudesse perceber o que acontecia. Terminou a oração pensando no que tinha acontecido, como um pedido atendido às suas orações.

- ...livrai-nos do mal, Amém.

Ainda apertava a mão da moça desesperada ao seu lado, e a observou. Precisava entender o que acontecia com ela para conseguir ajudá-la. Muitas vezes uma pergunta direta não deixava o problema ir embora. E em tantas outras, a pessoa quer apenas uma mão para segurar. Deu a ela sua mão e a escutou. Ouviu tudo o que a moça disse, desde os lamentos tão frequentes em relação ao abandono de Deus quanto o seu pedido desesperado de ajuda. Viu a paz trazida pela oração sumir de seu rosto e dar lugar ao desespero mais uma vez. Então ela desaba em choro. Wallace coloca suavemente sua mão sobre a cabeça da mulher, e a convida a colocá-la sobre seu ombro, enquanto busca palavras apaziguadoras.

- O fardo que carrega não é mais pesado do que pode suportar, minha filha. Deus nos coloca em provação, como fez com Jesus no deserto, para então nos iluminar com sua sabedoria. Nos dizer para que viemos aqui. - O Padre Wallace falava não só como um sacerdote que guiava um fiel, mas como alguém que falava sobre sua experiência de vida. Oferece à ela a mesma ajuda que recebeu na noite em que voltou à igreja depois de abandoná-la. - Podemos te ajudar, minha filha. Podemos. A oração traz paz à nossa alma. É uma forma de conversar com Deus. E isso sempre é tranqüilizador. Como fizemos agora, percebe? Ore, e conseguirá pedir a Deus por sua iluminação. E aqui na casa de Deus aprendemos a orar, a falar com Ele.

A deixa pensar em tudo que ele disse, observando-a. Esperou que suas palavras entrassem na mente dela, e que fossem colocadas ali da melhor maneira possível. Que realmente a tranqüilizassem. Deixa o convite implícito, e espera a resposta da mesma maneira em que fez a pergunta. Estava ali, estendendo a sua mão e entregando o ombro, plantando uma semente de Fé no peito da mulher.

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11 Re: St. Louis Cathedral em Dom Jul 08, 2012 8:48 pm

Sofrimento: este se desenrola como o fio de um novelo puxado pelas garras de um gato que quer, apenas, diversão.

Quem é o gato?


Beatrice ergueu a cabeça assim que sentiu o toque nos cabelos e, quieta, escutou-o em sua "missão": a missão de trazer paz e conforto ao coração dos filhos de Deus - dos irmãos de Jesus. O rosto banhado em lágrimas mostrou-se vermelho como se o sangue estivesse pulsando à flor da pele. Por mais que quisesse deixar com que Deus a acolhesse novamente e, acima de tudo, por mais que tivesse pedido por isso horas atrás, chegou a terrível conclusão de que ainda não estava "pronta" para recebê-lo e talvez não estivesse por mais algum tempo. Patrícia sequer conseguia crer em Deus ou em qualquer outra forma de religião, mas seu pai acreditava: o que ele poderia pensar sobre isso? Sobre o distanciamento de sua filha e...? E? Por Deus, eles não importavam mais e deixaram de fazer alguma diferença assim que a "herdeira" se mudou para Nova Orleans.

- Eu pensei... - começou, torcendo os lábios em sinal negativo como se temesse o que ela mesma iria dizer. - ...que existisse algum Deus por aí. Pensei que ele estaria sempre comigo, mas... Ele tirou de mim a "coisa" mais importante que há em cada um de seus... "Filhos". – referiu-se à última palavra com certo desdém, erguendo os olhos aos de Wallace ao dizer. Só após alguns segundos é que tornou a falar. - Tirou a minha capacidade de amar. - ou seja: Beatrice já não amava nem a si mesma.

Tremelicou segundos após fechar a boca, erguendo uma das mãos a fim de cobrir o rosto por mais uma vez. Quis chorar, mas não o fez e não o fez por não saber se conseguiria derramar mais alguma lágrima. Simplesmente apertou a mão contra os lábios e semicerrou os olhos, encarando um ponto fixo qualquer. - Eu nunca... Irei me perdoar por tudo o que deixei acontecer. - anunciou, mostrando-se culpada pelo que quer que tenha lhe acontecido no passado. - Nunca. - afastou a mão do rosto assim como recolheu a mão a qual Wallace segurava, erguendo a cabeça para que pudesse olhar adiante. - Vê? - engoliu em seco, então, prosseguindo. - Eu perdi a conta de quantas vezes rezei. De quantas vezes eu pedi para Ele... Para Ele olhar por mim e por meu filho... Por meu esposo ou... Ex-esposo, não sei. – remexeu-se no banco, acabando por repousar ambas as mãos por sobre as coxas. Talvez tenha parecido confusa e, em verdade, estava, mas logo se adiantou e se referiu a Alan como seu “ex-esposo”, que era o que ele realmente era. O padre notaria, caso fosse atencioso, o comportamento pouco mais inquieto de Beatrice: o remexer frequente das mãos e, tão breve, do corpo todo, assim como das expressões do rosto que volta e meia se contorcia em desespero, mas não agora - não agora e nem depois.

A vinda de uma sensação ruim e devastadora era tão certa quanto ao tique e taque de um relógio novo: o próximo tique é óbvio. - Às vezes tenho medo de ficar sozinha... - confessou em voz baixa, mostrando-se tão horrorizada quanto qualquer outro que pudesse estar assistindo e ouvindo suas palavras. - De ferir a mim mesma... - acusou-se mais uma vez, tornando a colocar as mãos brancas e finas por entre as coxas. Apertou uma contra a outra, abaixando o rosto a ponto de encostar o queixo no colo. - Quando me sinto "feliz" por alguma realização, repreendo-me porque sei... Que isso não é para mim e... - receou, levantando-se do banco. Tinha dito tantas coisas que nem mesmo se lembrava de uma única frase. Aprontou-se ao passar as mãos demoradamente pelo próprio abdômen, virando o rosto para que pudesse encará-lo - encarar os olhos de um filho leal. - ...que o que me espera é pior... E sempre será. - completou, enfim, e caminhou até o extremo do banco o qual Wallace não estava sentado. Ele pôde acompanhá-la com os olhos se quisesse, mas a perderia assim que a porta de saída do templo fosse deixada para trás.

Não há mais obstáculo, apenas o caminho de volta para casa.

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12 Re: St. Louis Cathedral em Ter Jul 10, 2012 6:00 pm

O padre se depara com um desespero que não via há muito tempo. Estava ficando acostumado com as banalidades que os fiéis ocasionais chamavam de pecado na falta de uma desgraça real em suas vidas. Até os mais fervorosos se puniam por coisas simples e bestas. Nada comparado ao tormento de uma vida perdida. Diante dele estava uma mulher sem vida, que caminhava no mundo apenas por que... sim. E seu dever como homem de Deus era mostrar a ela que havia um caminho. Que algo ainda podia ser feito. Sabia que podia ajudá-la. Ele já esteve lá um dia, sem família, sem volta, sem esperança alguma. Algumas de suas lembranças sobre seus dias negros voltam quando ela se expressa, incluindo o que ela diz sobre não saber mais amar. Era nesse momento que se perdia o amor próprio, e começava a se destruir.

Foi então que percebeu as marcas nos pulsos da moça. Ela realmente se machucava, condizendo com as suas palavras. Sem saber ela cometia um dos maiores crimes contra a vida que se podia imaginar, tendo como destino certo o inferno. Não era apenas uma vida que tinha que ser salva. Precisava também trazer luz àquela alma. Uma alma completamente desprovida de Fé, desiludida pela vida. Estava cega para os atos divinos, entendendo apenas as trevas. Contra esses demônios Padre Wallace também devia lutar.

- Entendo todas essas desilusões, minha filha. Sei quão negro é o lugar em que está agora, e te digo que, mesmo que não enxergue, Deus está com você. Ele não tirou aquilo de mais valioso que deu a você. E isso é a sua vida, minha filha. A sua vida! - Buscou segurar a mão dela mais uma vez, mas ela estava saía de perto dele, andando para a extremidade do banco. Sua voz aumentou, querendo alcançar a mulher e a fizesse ficar. Que ela o ouvisse. – Venha aqui quando se sentir sozinha. Procure o Padre Wallace! Posso te ajudar.

Anda atrás dela até a porta do templo, mas não a segura. Ela continuava, seguindo seu caminho para a saída. Sentiu que a perdia, e imaginou que poderia não vê-la mais passando por aquela porta. Uma pessoa nas condições dela era uma presa fácil para vampiros. E o pior é que era uma forte candidata para se tornar um deles. Nesse desespero segurou o braço dela, como se o ato de sair da igreja fosse trazer algum mal àquela pobre alma. Um segundo depois se arrepende, vendo que estava passando dos limites, e que assim a machucaria e a assustaria. Deus também havia dado aos homens o livre arbítrio. A vontade de fazer o que queriam de suas vidas, mesmo que isso trouxesse conseqüências após a morte. Ela tinha que ficar pela própria vontade. Ficaria se seu coração assim quisesse. Ou então, voltaria depois. Limitou-se a abençoá-la com suas palavras, e que isso servisse de proteção até o caminho de casa, e se Deus quisesse, até o próximo encontro dos dois.

- Que Deus te abençoe, minha filha. Que te proteja e que te acompanhe. – As palavras saíram quase com um sussurro, para compensar o tom de voz mais agressivo que usou. Ela não precisava escutar com os ouvidos. Se suas palavras chegassem ao coração da moça, bastaria.

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13 Re: St. Louis Cathedral em Sab Jul 28, 2012 10:14 am

[Continuação da ação no Supai Motel]

Michael acompanhou Cindy em silêncio durante o caminho todo. A verdade é que sua cabeça estava tão carregada de pensamentos que mal percebeu o quão incômodo e perturbador o silêncio que fazia em sua boca poderia ser, ainda mais na companhia de alguém que acabara de conhecer. Ficou pensativo durante o caminho todo, tanto que a longa estrada que tinham pela frente, no final, não pareceu tão longa. Estava muito confuso.

Já era tarde da noite, talvez a igreja estivesse fechada, mas sentia-se bem de ir até lá e sentia-se ainda melhor por levar Cindy até a catedral. Na lanchonete do Supai Motel, chegou a dizer que era um rapaz muito devoto e a moça nada lhe disse além do fato de ser prostituta. Embora tenha feito pouco caso para não chatear a moça, agora o assunto martelava em sua cabeça. Carregava a mochila e a mala de mão sem titubear, dava passos decididos e tinha um olhar perdido. Talvez, na igreja, a moça recebesse alguma mensagem nova de Deus. Para Michael, o sexo era algo sujo, impuro, violento e lhe causava um asco, um ódio, uma tristeza enorme. Não conseguia imaginar como uma senhorita tão bela, frágil e simpática poderia trabalhar com algo tão... ruim. E, assim como várias pessoas que Cindy deve ter conhecido, Michael não conseguia pensar que talvez esse trabalho “sujo” tenha sido uma escolha da própria moça. E não tardou para que em sua cabeça começasse a pensar em como poderia ajudá-la – mesmo que em momento algum ela tivesse pedido algum tipo de ajuda, mesmo que ela pareça feliz, mesmo que ela não tenha vergonha de seu trabalho. Não pensou, no entanto, em como reagia em Mariachi quando as pessoas queriam curá-lo da “viadagem”. Não tinha pedido a ajuda delas, não se considerava doente... Mas como diz o ditado: Em casa de ferreiro, o espeto ainda é de pau.

Não era do tipo de julgar as pessoas, o que também não significa que não ficava pensando sobre elas, suas atitudes diante de determinadas situações, seu modo de vida e, obviamente, questionar a missão que Deus havia dado para cada uma delas - sempre em segredo. Nunca conseguiu descobrir qual havia sido a missão que Deus tinha dado para sua mãe e acreditava que nem ela mesmo descobriu e, por esse motivo, era uma “filha perdida”. O mundo estava repleto de “filhos perdidos”, pessoas que tinham um grande potencial, que tinham a mão de Deus ao seu lado sempre – porque Deus sempre está de portas abertas para seus filhos - mas, mesmo assim, são pessoas que acabam tomando rumos e fazendo escolhas que as fazem parar em um “limbo”, criando raízes, vegetando ali, sem perspectivas. Michael sabia disso porque já havia vivido um longo período de limbo até descobrir que Deus lhe enviara com uma série de problemas porque foi uma pessoa terrível em vidas passadas. Sua missão na terra agora era encontrar meios de se redimir, de encontrar Deus novamente e, quem sabe, ajudar as pessoas a encontrar esse mesmo caminho ou, talvez, ajudá-las a não caírem no “limbo”. Michael tentou ajudar sua mãe, mas ela não queria sua ajuda. Ela queria o limbo, a miséria, a pobreza, o álcool, a maconha, o vício, o sexo violento, o marido que lhe desmerecia.

Essa coisa toda sobre Deus sempre deixou Michael atordoado. Conversara sobre isto uma vez em Mariachi. Padre Terrence não admitia a possibilidade de “em vidas passadas” Michael ter sido uma pessoa ruim:

"Não existem vidas passadas, minha filha. Você não é penitente porque aqui não é o inferno. Só temos uma vida, menina Marrie, e ela está aqui, no agora. Além da terra, existe somente o céu e o inferno. Se tivesse sido ruim em uma impossível vida anterior, teria ido ao Inferno e lá encontraria pessoas que gostam e escolheram a maldade e o afastamento da luz, do amor, de seu Pai em vida. Elas escolheram as trevas. Você está escolhendo a luz, menina? Está deixando Deus entrar? Escute, pequena, Deus disse uma vez: ‘Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus’ (*) Entenda uma só coisa, menina Marrie: O mal é simplesmente a ausência de Deus e nós só temos uma única vida. Estamos aqui para nos salvarmos, como já fomos salvos uma vez." ...

Michael gostava muito dos conselhos de Padre Terrence, por mais que discordasse dele em muitos pontos. Não acreditava em um Deus que te desse uma única chance e não sabia ao certo se existia o inferno, porque depois de tudo que já viveu, realmente achava que já estávamos no inferno. MAS sim, concordava neste único ponto: estamos aqui para nos salvarmos.

Não tardou para avistar as torres da catedral. Se não fosse pela cruz no topo da torre central, passaria direto acreditando que era um palácio, alguma casa antiga e com valor histórico local que havia sido preservada. A pequena igrejinha de Mariachi pareceu humilhada perto da St. Louis. Sentiu uma felicidade sem tamanho quando pensou nisso... Mesmo em Mariachi, havia ali um cantinho, mesmo que pequeno voltado para o coração de Deus. Olhou para Cindy com um sorriso sincero, como se a agradecesse por trazê-lo ali. Entrou pela porta da igreja fazendo um sinal da cruz e uma pequena reverência ao altar, como se pedisse licença para entrar na casa do senhor. Em um sussurro baixíssimo, murmurou: "Senhor, socorre-me, ó Deus".


(*) Mt 5:16

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14 Re: St. Louis Cathedral em Seg Jul 30, 2012 11:41 pm

Confusão. Aquela moça era a prova de quão perdidos estavam os filhos de Deus. De quantas coisas anuviavam suas mentes e os fazia continuar cegos perante o caminho da luz. Precisavam realmente de alguém que lhes segurasse pela mão e levasse adiante, até que aprendessem. Os tormentos que sentiu empaticamente naquela mulher eram graves. Pulsos marcados, crença perdida. Viu-se ainda mais comprometido com a missão de afastar os demônios dos pobres mortais. Conhecia muito bem tal cegueira, tais demônios.

Assim que a moça perturbada, que nem se apresentou, desceu as escadarias, Padre Wallace se voltou para dentro da catedral. Números pipocavam em sua mente, acompanhados de letras. Assim como João Evangelista viu os números da besta, aquela seqüencia alfanumérica se concretizou profeticamente em seus pensamentos. Era a placa do carro da vampira que conversou momentos antes. O número que o faria chegar àquela Besta. Sacou seu smartphone do bolso da frente da calça e falou um nome a ser detectado pelo reconhecimento de voz: “Fraternitate”. Fraternidade, em latim. O esperto advento da tecnologia direcionou uma ligação para um importante contato do Padre, da mesma forma que “palavras de passe” abriam portas de reuniões secretas. A tecnologia facilita a vida das pessoas, mas não acaba com as tradições.

- Boa noite, Fred. Como estão as coisas? – Sua voz era séria, apesar das palavras descontraídas. Esperou um momento pela resposta, inaudível por quem via o padre ao telefone, para então continuar. – Finalmente um deles apareceu. Um curioso, destemido, veio até a catedral. Sim, isso mesmo, acredita? Mas consegui uma pista. Rastreie uma placa da Louisiana, por favor. Sierra, Echo, Tango, One, Zero, One. – Disse o número da placa do carro de sua “amiga”, o demônio disfarçado de mulher, usando o alfabeto fonético da OTAN, dando um tom militar à ligação. – Vou aguardar a resposta. – Ouviu Fred dizer algo, para então suspirar uma despedida. – Eu também, Fred. Sinto falta de um time aqui, como vocês. Que Deus te abençoe, meu filho.

Logo que desliga o telefone, passa o olhar mais uma vez pelo banco que sentou ao lado da moça triste. Teve a impressão de ter visto um livro. Talvez uma bíblia esquecida. Não se lembrou de algo assim quando se sentou ali antes. Pegou o livro, e percebeu seu engano. Era uma edição de capa dura de “O Segredo”, um livro bem atípico para aquele ambiente. Soltou um pequeno riso preso nos lábios fechados, que mais saiu pelo nariz que por qualquer outro orifício facial. Devia ser da moça. Sua mania de investigar o fez abrir o livro na primeira página. Se houvesse alguma pista sobre ela, estaria ali. Um nome, uma dedicatória, ou coisa assim. E lá estava, com uma letra de mão feminina em tinta cor-de-rosa:

“Beatrice,

Adorei esse livro! Tem umas dicas ótimas aqui que vão servir pra você. Funcionaram pra mim!

Vê se melhora, amiga! Beijinhos! ;-*****

- Irwyn”
.

Pelas palavras e o tom da escrita, a mulher depressiva deveria ser Beatrice. Tinha um nome, ao menos. Quando pensou em correr para devolver o livro, imaginou que aquela seria uma boa oportunidade para ver Beatrice mais uma vez, e então guiá-la pelo caminho da luz, tirando-a do vale das trevas. Afinal, ela deveria voltar para buscar o seu livro. Esse pensamento foi interrompido pelo som distante de uma batida de carro. Um acidente, certamente ocorrido do outro lado da praça. Provavelmente por jovens que exageraram no álcool, ou desviados por alguma outra armadilha do demônio. Decidiu fazer uma oração por aquelas almas, que não se desprendessem do mundo tão cedo, e tivessem a sua chance de redenção. Não sabia que, na verdade, orava por Beatrice.

A conversa com o demônio, a chegada de Beatrice, as orações e os pensamentos sobre tudo fizeram o padre adiar o fechamento das portas da catedral. Já passava da hora de fechá-la. Os vigias do turno da noite estavam conversando do lado de fora, apenas aguardando as ordens de Wallace para mover as grandes portas de madeira, e então trancá-las. Era para o estranho casal que chegava agora dar de cara nos entalhes da porta, mas conseguiram entrar. Padre Wallace se dirigiu a eles, já de longe notando o quão atípicos eram.

A moça lembrava seus dias de escuridão, quando o perdido Jean esteve envolvido com garotas de programa. Mesmo com todos os enfeites e uma juventude que sugeria pureza, a mulher andava e olhava para tudo como uma prostituta. Como alguém que não fazia parte daquele lugar, de alguma forma até incomodada. Mas no rapaz podia sentir uma admiração. Ele sim sabia onde estava entrando. Percebeu que o peito dele enchia-se de uma coisa que o Padre Wallace sabia muito bem o que era. A graça do Senhor, sentida pelos mais dedicados fiéis ao entrar na casa Dele. O sinal da cruz que ele fez na porta confirmava a impressão inicial do padre. Chegando mais perto ainda notou a real estranheza do jovem. Apesar de seus trajes rústicos e sujos, lembrando um caminhoneiro desnutrido, havia algo bem feminino nele. Talvez o caminhar, ou a forma com que movia a cabeça, fazia do rapaz uma dama ainda mais delicada que a mulher que vinha com ele. Apenas quando esteve a poucos passos do casal é que entendeu que aquela pessoa era uma mulher que, com todas as forças, tentava ser um homem.

Logo em sua mente lembrou-se do sermão de Matheus sobre fazer julgamentos, e espera que ele (ou ela) se manifeste, para então saber como pode iluminar o caminho daquele filho de Deus. Soltou as palavras que guardava para caso encontrasse um casal natural, composto por um homem e uma mulher de fato.

- Não acham que está tarde para buscarem conselhos matrimoniais, meus filhos?

Seu tom era bem humorado e receptivo. Apesar de sugerir um horário avançado, seu sorriso era um convite para que gastassem um tempo ali. Padre Wallace ainda esperava pelo presente que Deus lhe levaria essa noite. E agora depositava todas as suas esperanças no casal. Ou ao menos no mais maravilhado deles.

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15 Re: St. Louis Cathedral em Ter Jul 31, 2012 8:57 pm

Ao sair do motel, comecei a pensar no que estava acontecendo ali. Eu, uma prostituta indo para uma igreja, seria isso possível??

Bom, se era possível não sei, o que sei é que estava tentando ajudar meu mais novo amigo. Eu estava prestes a viver uma aventura, afinal, nunca tinha pisado em uma igreja antes. Nunca vi necessidade de ir na igreja, já que sempre acreditei nas forças da natureza. Me pergunto às vezes se essa história de Deus é verdade. Mas não custava nada acompanhar Michael, assim eu poderia matar de vez a curiosidade de saber como é uma igreja ao vivo.

Durante todo o caminho ficamos em silêncio. Não sei o que se passava na cabeça dele, ele estava pensativo, mas na minha eu ficava imaginando como seria essa tal igreja, e ao mesmo tempo, fiquei com vergonha de perguntar para ele como era, com medo que Michael me achasse estranha, esquisita por não conhecer uma igreja, por nem fazer ideia de como seria uma.

Não demorou muito para a gente chegar. Sempre passava por ali, mas apesar da curiosidade enorme, eu nunca tinha coragem de entrar. A coragem veio quando, ao olhar para Michael, ele sorriu de um jeito que parecia sincero. Respirei fundo e entrei.

Nossa como era bonita! Fiquei encantada com o lugar, olhando cada detalhe, e eram muitos detalhes, a catedral era enorme, cheia de imagens, com os vidros desenhados, bonita mesmo. Michael de cara fez uma reverência para Deus, eu como nem sabia o que fazer, apenas fiquei observando tudo a minha volta.

Enquanto isso, o padre vinha na nossa direção, parecendo estranhar a nossa visita tão tarde da noite. Então ele disse:

- Não acham que está tarde para buscarem conselhos matrimoniais, meus filhos?

Depois dessa frase, comecei a rir, afinal me pareceu absurdo o padre ter pensado que a gente era um casal. Respondi:

- Seu padre, desculpa eu estar rindo assim, mas a gente não é casal, não queremos conselhos matrimoniais. Somos apenas amigos. – disse olhando para Michael, para ver qual seria sua reação. – Meu nome é Cindy, e este é Michael, ele chegou faz pouco tempo na cidade e a primeira coisa que me pediu foi para ir na igreja, e como essa é a única que conheço, aqui estamos. Eu sempre passo por aqui, mas é a primeira vez que eu entro em uma igreja, antes não tinha coragem, já que nunca fui muito ligada nessas coisas de Deus.

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16 Re: St. Louis Cathedral em Qua Ago 01, 2012 2:34 pm

Michael parecia estar em êxtase. Era a igreja mais bonita que já tinha visto em toda vida. Seu peito inflamava como se estivesse na fila do brinquedo mais aguardado do parque de diversões. Sentia uma paz tão grande dentro de si que seu coração parecia que não ia aguentar. A casa de Deus era um lugar realmente abençoado.

- Não acham que está tarde para buscarem conselhos matrimoniais?

A voz ecoou pela catedral inteira. Michael estava muito encantado com os santos, os vitrais coloridos e o teto decorado para notar a presença do padre. Quando ouviu a voz ecooando pela catedral com um tom tão imponente, seu coração disparou por um segundo achando que a voz de Deus estava ali, fazendo uma piada. Olhou para os lados procurando o dono da voz e então deu com a figura do padre Wallace. Ele era bonito, bem mais jovem do que padre Terrence e também muito mais “vivo”. Michael sentiu uma simpatia imediata. Sempre imaginou padres como velhos corcundas, calvos e com um coração e uma sabedoria enorme.

- Seu padre, desculpa eu estar rindo assim, mas a gente não é um casal, não queremos conselhos matrimoniais. Somos apenas amigos. – disse olhando para Michael, para ver qual seria sua reação. – Meu nome é Cindy, e este é Michael, ele chegou faz pouco tempo na cidade e a primeira coisa que me pediu foi para ir na igreja, e como essa é a única que eu conheço, aqui estamos. Eu sempre passo por aqui, mas é a primeira vez que eu entro em uma igreja, antes não tinha coragem, já que nunca fui muito ligada nessas coisas de Deus.

Michael ainda parecia um pouco avoado. “Conselhos matrimoniais”... Significava certamente que Padre Wallace tinha realmente achado que ele era um homem! Era um grande passo. Ficou observando Cindy encabulada pela pergunta e um tanto desconfortável com o local. Ficou satisfeito por tê-la trazido. Ninguém deveria “não ser ligada nessas COISAS de Deus”. Ela estava no limbo, agora tinha certeza.

- Padre. – fez uma pequena reverência com a cabeça – Por favor, nos perdoe pelo horário! Eu... Eu mal podia esperar para encontrar a casa de Deus, senhor. Essa é a igreja mais bonita que já vi em toda a minha vida! Sou Michael, é um prazer conhecê-lo. Sou do Texas, de um pequeno vilarejo chamado Mariachi... Já ouviu falar da capela San Benito em Rangerville? - Parecia animadíssimo. Tinha a esperança de encontrar ali um novo confidente. Padre Terrence com certeza ficaria feliz em saber. Escreveria para ele contando as novidades em breve.

Enquanto falava animado, inconscientemente, Michael fazia uma voz mais grossa do que de costume, como se quisesse mostrar uma postura nova, como se quisesse realmente convencer o padre a ver o que realmente era: um homem. Na sua cabeça, latejava um único versículo sagrado:“deixai a mentira e falai a verdade cada um com o seu próximo, pois somos membros uns dos outros” (*)

Convencia-se constantemente que podia ser o que era, que podia ser um homem mesmo nascendo mulher por outro versículo que sempre o acalentava: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (*) Era a sua verdade. E estava se libertando.

O problema de ser Michael e não Marrie era que, no fundo, uma voz interna sempre se sobrepunha para colocar um dedo em sua consciência: "Sou Michael!", "Sou Michael...", "Sou Michael?" ... Estaria Marrie enganando pessoas? Podia Marrie enganar um padre? Podia Marrie negar sua penitência dada por Deus?

(*)Efésios 4:25
(*) João 8:32

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17 Re: St. Louis Cathedral em Qui Ago 02, 2012 9:37 pm

A primeira reação de Cindy às suas palavras manteve o sorriso do padre. Trouxe inclusive certa satisfação. Piadas nunca foram o seu forte, e como seguiu uma carreira séria, nunca precisou ser engraçado. Mas acertar na mão dessa vez o deixou feliz, e mais receptivo às tantas palavras que ela dizia. Piscou quase dez vezes enquanto ela falou. “E como fala!”, pensou no seu tom bem humorado. A primeira vez que a ouviu dizer o nome de Michael, pensou no anjo patrono de sua Ordem, e sua mente ainda acreditou que era nele que falava até ela terminar. Porém o lado esquerdo do cérebro do Padre Wallace havia captado a mensagem, e olhou para a mulher andrógina tentando encaixar o nome à pessoa. Era uma mulher à sua frente, ao mesmo tempo em que se parecia um homem. Era estranho definir o que acontecia ali. Complexo como imaginar o gênero dos anjos. Então cada hemisfério de usa massa cinzenta resolveu sincronizar os pensamentos, para concluir que aquele só podia ser um sinal óbvio de Deus. Os olhos do padre brilharam.

O sotaque texano da forasteira denunciou a origem dela, antes mesmo de falar da tal capela San Benedito em Rangerville. Não conhecia muito bem aqueles lados, mas estava diante de um legítimo exemplar texano. Sentiu falta apenas do coldre na cintura. Ou melhor, não sentiu, já que preferia pessoas pacíficas àquelas que ameaçavam a outras pessoas com armas. O engrossar da voz de Michael o fez sorrir, já que soava como uma criança imitando um homem em uma brincadeira.

Tudo isso o levou para uma das lembranças mais recentes sobre seus filhos. Estava brincando de cowboy com o menino Mathew, falando em sotaques e sobre resgatar a donzela que o bandido havia seqüestrado. A donzela era Mary, irmã gêmea de Mathew. Se não fossem os cabelos compridos da menina, poderiam ser facilmente confundidos. Mary não gostou do papel que ganhou na brincadeira e, revoltada, disse que também queria ser um cowboy. Mathew logo se prontificou em dizer que ela não podia ser um cowboy, já que era uma menina, e que apenas meninos podiam ser cowboys. Ao invés de brigar mais ou chorar, Mary saiu da sala decidida a fazer algo. Não demorou a voltar, arrastando os pezinhos dentro de um par de sapatos do pai, usando chapéu que mal a deixava ver por onde estava andando e um bigode pintado às pressas com canetinha azul. Apontou seu dedinho gordo para o pai e o irmão, imitando uma arma, e engrossando a voz o máximo que podia disse um texto que decorou às pressas: “Essa cidadi é piquena dimais pa nói dois!!!”. A mãe estava atrás dela, encostada no batente da porta, segurando o riso ao ver o plano que bolaram juntas ser colocado em prática. Aquela cena acabou terminando em cócegas e risos. O tipo de cena que normalmente vinha apenas quando Jean Wallace mexia nas coisas que sobraram dos filhos. Do tipo que não fazia parte da vida do padre e, portanto, o fazia chorar.

As lágrimas foram censuradas por mais piscadas do Padre Wallace, não querendo demonstrar esse tipo de sentimento na frente dos novos convidados à casa do Senhor. Olhando mais uma vez para eles, imaginou que seus filhos poderiam ter a idade deles agora. Isso foi arrebatador, e uma lágrima solitária escorreu por um dos olhos, sendo prontamente impedida por uma mão apressada esfregando o rosto. Retomou a conversa, torcendo para que tais lembranças não o atacassem naquela hora.

- Sejam bem vindos Cindy, e Michael. Sou o Padre Wallace. – Olhou para cada um deles quando falou cada nome, estendendo a mão em cumprimento. – Realmente, não costumamos deixar as portas abertas até tão tarde, mas se Deus quis que elas estivessem abertas para recebê-los nesse horário, quem sou eu para ir contra a Vossa vontade, não é? – Seu sorriso continuou ali, mas os olhos marejados indicavam que estava emocionado de alguma maneira. – E que bom que foi bem quando resolveu entrar aqui, Cindy. Espero que interprete isso como um sinal! - Deu uma piscada simpática para ela, amenizando qualquer má interpretação daquelas palavras. - E Michael, tem um belo nome! Tenho um grande amigo que também se chama Michael. Infelizmente não conheço esta capela de San Benetido. Mas poderia falar mais sobre ela! E também sobre o motivo de Deus lhes trazer aqui neste horário. – A fala do padre era bem controlada, não demonstrando tantos sinais de emoção como seus olhos faziam. Estava se recuperando.

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18 Re: St. Louis Cathedral em Dom Ago 12, 2012 3:08 pm

Eu estava deslumbrada com aquele lugar, era lindo. Mas ao mesmo tempo, estava achando um saco estar ali, então pensei: De que adianta entrar em uma igreja tão bonita só pra ficar ouvindo besteiras? Sim, são besteiras essas coisas de que prostitutas, gays e os ditos loucos pela sociedade vão pro inferno pagar seus pecados, vão nada, a gente morre e pronto, acabou, não tem essa historinha de inferno, esse blábláblá da igreja. Apesar de pensar assim, ouvi atentamente o padre:

- Sejam bem vindos Cindy, e Michael. Sou o Padre Wallace. Realmente, não costumamos deixar as portas abertas até tão tarde, mas se Deus quis que elas estivessem abertas para recebê-los nesse horário, quem sou eu para ir contra a Vossa vontade, não é. E que bom que foi bem quando resolveu entrar aqui, Cindy. Espero que interprete isso como um sinal! E Michael, tem um belo nome! Tenho um grande amigo que também se chama Michael. Infelizmente não conheço esta capela de San Benetido. Mas poderia falar mais sobre ela! E também sobre o motivo de Deus lhes trazer aqui neste horário


Fiquei pensando no que o padre quis dizer com aquilo, será que ele queria tentar me converter?? Todos que estavam ali me olhavam de um jeito estranho, como se eu fosse um monstro, só por causa da minha roupa provocante. Se um deles quisesse fazer programa, era só falar, mas ouvir as palavras do padre e ver aqueles olhares me irritou de um jeito, que soube com certeza absoluta que ali não era o lugar para mim.

Percebi também que Michael estava feliz, ele tinha um brilho no olhar, só de ver como ele estava, qualquer um se animaria. O padre parecia admirado com ele, e vice-versa. Aquilo foi me dando um certo nojo, e acabei falando.

- Gente, esse lugar é lindo mesmo, mas sinceramente preciso me retirar, tenho que resolver algumas coisas, vou deixar vocês conversando. Michael estou te esperando lá fora, daqui uma hora te encontro aqui na porta!

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19 Re: St. Louis Cathedral em Qua Ago 15, 2012 1:37 pm

- Gente, esse lugar é lindo mesmo, mas sinceramente preciso me retirar, tenho que receber algumas coisas, vou deixar vocês conversando. Michael estou te esperando lá fora, daqui uma hora te encontro na porta!

“...Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares, pois, na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.(*)”, o versículo tamborilou várias vezes na cabeça de Michael, ecoando cada vez mais alto enquanto olhava a garota angelical se distanciando e caminhando para a porta, ali, na sua frente, dando as costas para o padre, para a Igreja e, novamente, para Deus. Pobre filha perdida. Pensou em fazer em algo, em impedi-la, em segurá-la, mas o que poderia fazer depois? Exorcizá-la? Abrir seu coração e enfiar dentro dela as palavras de Deus anotadas em um papel? Não, não podia fazer absolutamente nada. Aquela filha ainda não está madura, ainda não está pronta.

Suspirou com a saída da jovem. Parecia irônico dizer “Vá com Deus”, pensou. Certamente estava ali a companhia que ela não queria. Por alguns segundos, ficou realmente aborrecido com Cindy e quase fez um comentário em voz alta, julgando a atitude da jovem. Controlou-se e sentiu-se culpado pelo julgamento. Não disse nada, mas diria mais tarde, pessoalmente.

- Ora, padre. - Voltou-se ao Padre Wallace com um olhar sereno. A cabeça baixa não só delatava sua timidez, mas também seu respeito pelo representante de Deus dentro daquela casa sagrada. - A igreja de Rangerville era bem pequena, não era nada em matéria de construção física - fez questão de salientar - mas era enorme em construção de , de amor, de benção. Diria que era a minha casa em Rangerville, mas estaria mentindo para o senhor. Morava no vilarejo próximo, Mariachi. Queria conhecer minha nova casa, senhor. - Deu um sorrisinho, como se estivesse contando uma piada - O senhor pode me informar os dias de confissão? Sou muito devoto, como mencionei, mas não gosto de falar de minha vida fora da pequena sala, fora do "ouvido" de Deus. - Olhou para o chão novamente, inquieto. Não conversava muito com padre Terrence longe do pequeno box do confessionário, não seria diferente com um padre novo e ainda desconhecido. Sentia que ninguém podia julgá-lo dentro do box de madeira, era uma sensação incrivelmente prazerosa.

Observou padre Wallace por alguns instantes e viu que carregava um livro muito popular, tinha visto uma entrevista com alguns criadores do livro em um show de tv antes: "O Segredo". Não conseguia imaginar que alguém realmente pudesse acreditar nesse tipo de coisa, ainda mais um padre. Talvez ele estivesse estudando as múltiplas faces da crença, da fé as pessoas; os caminhos trépidos que alguém pode tomar para dar direção em sua vida, para se lamentar de seus infortúnios. Michael achava que não era esse tipo de pessoa. Olhou o livro com estranhamento. Achava essas coisas de lei da atração uma bobagem. Nunca tinha pedido ao universo para que Buddy aparecesse em seu quarto todas as noites. Nunca tinha pedido ao universo para nascer pobre e continuar na miséria de Mariachi... Se o poder da mente realmente funcionasse para alguma coisa, certamente já teria um pênis e um "M" de "Masculino" em sua certidão de nascimento. Desconfiou do padre por alguns instantes.

(*) Mateus 16:19

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20 Re: St. Louis Cathedral em Qui Ago 23, 2012 11:55 pm

O padre liberou Cindy apenas com um aceno de cabeça e um sorriso. Em sua mente estavam as mesmas palavras que vieram para Michael quando a moça deu as costas. "Vá com Deus.". Para ele, o plano divino no qual Cindy estava incluída se encerrava, por hora. Algo lhe dizia que voltaria a ver aquela garota, mas não como a via dessa vez. Em suas orações Deus lhe dizia que eram tempos de mudança, e que era hora dos homens escolherem o lado que seguiriam. A prostituta fazia sua escolha ao deixá-los na Catedral, assim como Michael a fazia ao insistir em estar lá em horário tão avançado. Voltou seus olhos ao rapaz, e continuou a sorrir, ouvindo atentamente a tudo o que ele dizia. Começou a andar em direção ao altar, bem devagar, com um passo após o outro, segurando o livro na altura do peito, como de costume fazia com a Bíblia Sagrada. Deu a entender que queria que Michael o acompanhasse nesse percurso.

- Rangersville... Interessante. Não explorei esses lados do Texas. Os caminhos de Deus me guiaram mais ao norte. Mas é bom receber um legitimo Texano, “amigo”! – A última palavra era pronunciada como os latinos erradicados na terra de Michael falavam, ainda buscando um trocadilho divertido com o significado do nome do estado. – De qualquer maneira, em nome de Deus, dou-lhe as boas vindas a esta humilde casa do Senhor. E claro, pode tomá-la como seu novo templo de orações, meu filho. Aliás, pode me chamar de padre mesmo. “Senhor” não seria muito apropriado, não é mesmo?

Sorri para garoto, continuando sua caminhada até o altar. Nota o olhar desconfiado de Michael para seu livro, e acha aquilo curioso. A situação funcionou como um teste para as crenças do forasteiro. Realmente, aquela literatura era cheia de enganos e desvios da palavra de Deus. Estranhá-la era o que mais esperava de um homem de Fé. E o que mais procurava em Michael era mesmo a Fé. A mais absoluta certeza de que seus pedidos foram atendidos, e que Michael era quem procurava.

- A penitência é normalmente concedida aos sábados, porém eventualmente abrimos o confessionário em outros dias. Principalmente na época do Madri Gras, quando os pecados tornam-se ainda mais banais! – Cerra os olhos por um momento, meneando a cabeça negativamente, querendo afastar alguns pensamentos que vinham acompanhados do nome da festa que citou, o carnaval de Nova Orleans. – Ultimamente, eu...

Sua fala foi interrompida pelo som de um coral de anjos, que começou a crescer no momento que chegaram ao altar. O padre sorriu, olhando para o grande crucifixo acima de suas cabeças. Era a mensagem que estava esperando. Tirou o Blackberry do bolso, que piscava, indicando que havia chegado uma mensagem, e ainda deixava a música divina soar enquanto contemplava a tela do pequeno aparato tecnológico.

- Com licença, Michael. Um minuto.

Apertou alguns botões e a música cessou. Olhava a tela atento, chegando a afastar o aparelho um pouco, como se tivesse alguma dificuldade para ler, e encontrasse uma posição melhor para pegar foco. Um sorriso largo abriu-se em seu rosto à medida que lia, ao mesmo tempo em que mantinha o olhar sério. Quando terminou de ler, voltou sua atenção para Michael, e colocou a mão em seu ombro. O olhar sério agora era dirigido para ele, e o sorriso desapareceu. Não podia dar um tom alegre ao que diria em seguida.

- Michael, meu filho. Deus não te colocou nesta vida a toa. Não te fez assim por engano. Todos os acontecimentos da sua vida, até os que parecem mais injustos, foram necessários. Todos eles vieram para a sua provação, Michael. Todos eles...

Padre Wallace não sabia exatamente por tudo o que ele passou, mas podia chegar a diversas conclusões corretas. Ligando os pontos, um moça que queria ser um rapaz, e agia como tal, em um estado conservador como o Texas, certamente sofreu preconceitos. E por ser religioso, imaginou a infinidade de questionamentos que fez a si mesmo, para se aceitar. Soube que estava pisando em terra firme ao enveredar suas palavras por estes rumos.

- ...Deus te trouxe aqui hoje, para esta cidade, esta catedral. À frente deste altar. Para que pudesse aceitar uma missão, vinda direto Dele. O mundo não é exatamente como você o conhece, caro Michael. – A voz de Wallace era firme, e seu olhar cada vez mais penetrante. Aos poucos sua voz ganha fervor. – Os demônios andam entre nós. Disfarçados de pessoas normais. Adornados com os pecados, meu filho. Com os pecados!!! Para seduzir as pobres almas! E precisamos detê-los. Deus te chama para as fileiras do exército de São Miguel Arcanjo, o nosso general maior contra os demônios. – Apesar de manter o tom baixo, para não chamar a atenção de quem poderia estar os observando, fala com energia, chegando a deixar escapar saliva em direção ao rapaz. – Hoje temos a oportunidade de conhecer o território inimigo, Michael. E para esta missão é necessário um homem de Fé. Ela é imprescindível para compor este exército, para receber as armas de Deus. Você aceita, Michael? Aceita este chamado?

As coisas não aconteceram exatamente como o padre previa. Costumava fazer tudo com calma, pensando muito antes de agir. Tinha que ter cautela contra os vampiros. Todo cuidado era realmente pouco. Mas não aceitar Michael como um sinal era ir contra a sua própria Fé. Contra tudo o que aprendeu no caminho que seguiu. Poderia se passar por louco falando tudo aquilo, do nada, depois de simplesmente checar seu e-mail. Mas isso era também mais uma prova da Fé do rapaz. Mais um teste de Deus.

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21 Re: St. Louis Cathedral em Seg Set 03, 2012 2:43 pm

“Ele é tão mais cheio de vida do que o padre Terrence”, Michael pensou enquanto ouvia padre Wallace falando sobre o Texas. Sentia um aperto no coração ao lembrar de padre Terrence e da possibilidade de nunca mais vê-lo. Estava velho, solitário e indisposto. Desejou, como em uma oração, que Deus tivesse piedade e deixasse aquele piedoso velhinho por mais um tempo na terra.

Guardou na memória o dia da confissão: Aos sábados. Não faltaria. Seus pensamentos foram atropelados pelo coral de anjos. O coração acelerou. Demorou alguns segundos para entender que era o celular de Wallace. Nos pequenos vilarejos do Texas, ninguém tinha essa “tecnologia”. Em Mariachi, os traficantes “alugavam” os telefone públicos e, geralmente, armavam um esconderijo ou moradia perto desses telefones, na rua mesmo. Sempre tinha uma pessoa que ficava responsável por atender os telefonemas, um laranja qualquer. Era ruim. Os moradores não podiam ligar ou passar o número desse telefone para ninguém, a não ser que o contato fosse para comprar drogas. O próximo orelhão ficava em Rangerville, e era o único disponível. Alguns vilarejos do Texas mereciam ser realmente esquecidos do mundo, uma civilização paralela.

Quando voltou à igreja, longe de seus pensamentos que frequentemente o levavam para o Texas, sentiu-se ligeiramente enjoado. A visão escurecia, o coração palpitava no peito. Sentia o pulsar das veias na lateral da cabeça. Talvez só estivesse faminto ou cansado.


- Com licença, Michael. Um minuto.

Michael acenou com a cabeça positivamente, permitindo ao padre responder "o chamado dos anjos" no celular. Foi o tempo que teve para sentar e recuperar-se do mal estar. Não prestou atenção no padre, mas ficou olhando os desenhos nos vitrais e as peças artísticas que decoravam a igreja.

Nunca gostou muito da imagem de Cristo na cruz. Sentia algo de grotesco nesse tipo de representação. Algo inanimado e morto, que parecia vivo mas ao mesmo tempo estava morto. O mais esquisito é que quanto mais sentia-se mal com a obra de arte, mais tinha curiosidade de olhar para ela, contemplar o desespero daquele homem que agonizava pregado à Cruz. Sentia-se como uma criança que se depara pela primeira vez com um deficiente físico. Ela quer olhar mas a mãe não deixa. A mãe de Michael não estava ali para não permitir que olhasse e, ao mesmo tempo, Cristo morrendo estava ali para ser observado, para trazer um estranho sentimento de culpa ao observador... "Eu morri por você", a escultura parecia dizer. E Michael estava ali, observando o "homem que morreu por todos nós". Lhe dava calafrios a imagem do sangue, da cruz, as feridas no peito de Cristo e, principalmente, sua expressão de dor. A peça artística parecia olhar fixamente para Michael. Tinha um olhar perdido, de desgosto, de vergonha.

"Foi por esse mundo que eu morri?", "Foram essas as pessoas que eu salvei?", "Foi por isso que eu lutei, Michael?"... "As pessoas estão perdidas". Em cada frase, o olhar da escultura parecia mais penetrante, mais furioso, mas arrebatador, mais decepcionado. Não conseguia distinguir a realidade de uma possível ilusão. "Estou sonhando?", perguntou-se Michael enquanto fugia o olhar da imagem semi-viva. Voltou o olhar depois de segundos para ver se a "coisa" voltou a ficar "morta". Viu o sangue escorrer das mãos de Cristo, pequenas gotas faziam um estalo ao chão da catedral. O peito da figura santa ainda se movia, lentamente, para cima e para baixo. Michael podia ouvi-lo respirar.

O suor frio pingava da testa aos olhos do texano. A visão de Michael parecia cada vez mais turva e os segundos em que padre Wallace respondia ao toque do celular pareceram que levaram horas. Não tinha mais coragem de olhar para a obra de arte. As figuras nos vitrais se moviam, se embaralhavam. Os anjos que ilustravam o teto da catedral, agora voavam do teto pelas paredes, chorando em coro pelo Cristo que ali sangrava, que agonizava, que morria. Fechava os olhos, sentia medo, mas ainda podia ouvir o respirar do homem crucificado, o coral de anjos chorando, o tilintar das gotas de sangue ao chão do altar e os gritos de desespero da Virgem Maria. Apertou as mãos, balançou a cabeça. Estava sonhando. Era um sonho. Isso precisava parar.

"Criança, pela graça sois salvos, por meio da fé..." ouviu a imagem dizer. Em seguida, ouviu um baque como de um corpo que cai ao chão. Abriu os olhos, a cruz estava vazia, logo em frente de Wallace. Não conseguia ver o padre, mas conseguia ver Jesus. O homem tinha deixado a cruz e agora levantava-se atrás do altar. Sua voz parecia mansa e calorosa. Dessa vez, não teve medo de abrir os olhos. O homem, que antes era estátua, congelada, fria e sem vida, agora estava ali, em pé, fora da cruz e sem feridas. Uma luz forte projetou-se de seu corpo.

- ...Deus te trouxe aqui hoje, para esta cidade, esta catedral. À frente deste altar. Para que pudesse aceitar uma missão, vinda direto Dele. O mundo não é exatamente como você o conhece, caro Michael. – A voz de Wallace era firme, e seu olhar cada vez mais penetrante. Aos poucos sua voz ganha fervor.

Michael não conseguia enxergar Padre Wallace, mas conseguia ver Cristo, ali, reluzindo diante do altar, logo ao lado de um vulto negro que deveria ser o padre. As feridas de seu corpo fechavam enquanto Wallace dizia aquelas palavras.

– Os demônios andam entre nós. Disfarçados de pessoas normais. Adornados com os pecados, meu filho. Com os pecados!!! Para seduzir as pobres almas! E precisamos detê-los. Deus te chama para as fileiras do exército de São Miguel Arcanjo, o nosso general maior contra os demônios. Hoje temos a oportunidade de conhecer o território inimigo, Michael. E para esta missão é necessário um homem de Fé. Ela é imprescindível para compor este exército, para receber as armas de Deus. Você aceita, Michael? Aceita este chamado?


"...A salvação não vem de vós, é dom de Deus...", falou a imagem de Cristo e então explodiu em milhares de flocos de luz. Michael fechou os olhos, levantou-se e caiu de joelhos. Não estava mais diante da imagem de Cristo, mas diante de Padre Wallace. Quando abriu os olhos, Cristo estava novamente na cruz, atrás do altar, inanimado. Os anjos voltaram ao teto, o silêncio invadiu a igreja e lágrimas invadiram os olhos de Michael, que só conseguiu dizer aos prantos:

- Sim, senhor. Eu aceito.


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22 Re: St. Louis Cathedral em Qua Set 12, 2012 10:32 am

A fumaça tomava forma em frente a seu rosto, e com a pequena brisa que percorria o lugar, aquela acabava adquirindo os mais diversos formatos. Sempre buscava imitar os famosos filmes americanos da década de 60 e 50, nos quais se davam as mais diversas formas em suas tragadas. Esticava seus lábios para criar um pequeno funil, ou apenas abria sua boca ao máximo procurando criar os círculos, porém se conseguia algo era engasgar-se, rir, ou simplesmente chorar. Estava agora sozinha, sentada em uma mesa qualquer, de um bar em algum lugar daquela cidade, e não se preocupava com nada a mais, apenas queria estar só. Isso às vezes lhe fazia lembrar que estava realmente sem ninguém no mundo, mas mesmo assim gostava, ainda mais quando podia realmente se sentir longe da outra.

Podia amar Marie, mesmo que de uma forma estranha, porém não havia como negar, quase a adorava tanto quanto a própria vida. Ainda assim conseguia sentir que não era algo verdadeiro, não como já foi, não como podia ter sido. Nunca soube bem como explicar tudo isso, mas também já havia sentido aquilo antes, ou ao menos algo próximo, no qual buscava explicações. Sua mãe, ou como a chamavam. Aquela que lhe deu a vida e ao mesmo tempo tornou sua existência intragável. Era incrível a semelhança se pensar bem. Contudo, já fazia tanto tempo, talvez apenas estivesse relacionando-as por engano e imaginando a primeira? Não tinha certeza, e possivelmente nunca mais teria. Quem sabe sua mente já a estivesse enganando, mas não, mesmo antigas, certas lembranças eram verdadeiras demais para serem esquecidas ou mesmo confundidas.

E agora estava ela, aproveitando o pouco tempo de liberdade enquanto seu corpo, seu espírito e sua... Dona não a obrigavam a retornar e a se deixar levar mais uma vez. Ela larga seu cigarro já apagado enquanto caminha, fazendo as cinzas da erva se espalharem ao atingir a calçada. Apesar de tudo ainda não estava derrotada, ou pelo menos gostava de pensar assim. Continuou a andar pela cidade à noite, olhando sempre para frente apenas buscando o que poderia a atrair, e não foi difícil para aquele edifício alcançar tal feito. Talvez por isso todos os desse tipo fossem tão suntuosos?

Percorreu os jardins enfrente, atraída pelo lugar. E aquele edifício era realmente fascinante. A torre branca contornada por toda aquela penumbra, quase um ponto de salvação em meio a tanta escuridão que envolvia Nova Orleans. Imaginou se o lugar seria tão bonito assim de dia, enquanto continuava seguindo até poder avistar bem a porta. Mas ali permaneceu e não moveu sequer mais um passo. Tirou uma pequena carteira do bolso de sua calça, e com a ponta de seus dedos retirou um pequeno tubo de nicotina, acendendo-o com um isqueiro e logo após recolocando de volta ao seu bolso junto à carteira, para por fim levar o cigarro a boca. Durante algum tempo apenas observou o lugar, com o rosto voltado para cima. A imponência era de fato impressionante. Quando voltou a olhar para porta, vira uma moça¹ sair, que não lhe parecia o mais esperado para um lugar como aquele, mas por algum motivo, não deixou de achar nada mais apropriado. Estava de frente a saída e esticou seus lábios para um sorriso sem qualquer compromisso, apenas amistoso - Quer um cigarro?


¹Cindy Tyler

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23 Re: St. Louis Cathedral em Dom Set 16, 2012 12:33 pm

Quando entrei naquela igreja com o Michael fiquei encantada, achei linda a decoração, o lugar, nunca tinha visto nada assim. Mas o padre chegou e eles começaram a conversar, foi aí que percebi o quanto era falso tudo aquilo, porque eles se encontram todo dia para criticar a sociedade e falar de um Deus que nem se sabe se existe de verdade. Definitivamente, aquilo não era para mim. Se é um lugar bom, porque algumas pessoas me olhavam de um jeito estranho? Só por causa da minha roupa? Achei aquela situação ridícula demais, então fiquei irritada, pensando no que falar para calar a boca daquelas pessoas que pensavam coisas erradas de mim, sem nem me conhecer.

Já vi que a conversa ia ser longa demais, então decidi sair e esperar pelo Michael na frente da igreja, até porque ele ficaria mais a vontade para falar com o padre. O calor estava grande, e a fome também, então resolvi dar um pulo na lanchonete do outro lado da rua para comer qualquer coisa. Mas sempre de olho na igreja, para ver se Michael saía de lá.

Ao voltar para frente da igreja, entrei rapidamente, só para ter certeza de que Michael estava ali ainda, e quando saí vi uma moça se aproximar com um sorriso amistoso. Era uma moça bonita, com uma roupa simples. Fiquei me perguntando o que alguém faria andando calmamente na rua tarde da noite. Bom, podia ela podia ser prostituta como eu, ou ter fugido de casa ou de algo que tenha feito de errado, ou até estar fazendo algo errado. Enfim, pensei que melhor do que ficar tentando adivinhar era perguntar para ela, porém antes que eu dissesse qualquer coisa, ela disse:

- Quer um cigarro?

Fiquei feliz por ter uma alma caridosa passando por ali, e também porque, além de ela ter puxado assunto comigo, eu teria alguém para conversar e deixar minha espera bem menos entediante. Então, falei:

- Quero sim, estou precisando mesmo. Meu nome é Cindy, estou esperando meu amigo sair da igreja. E você, qual é seu nome? O que faz andando pela rua tarde da noite?

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24 Re: St. Louis Cathedral em Dom Set 16, 2012 11:06 pm

A espontaneidade daquela garota era impressionante, e de certa forma até engraçada. Beirava um pouco a inocência, mesmo sendo algo meio incompatível, considerando as roupas que esta usava. Mas a situação ainda lhe gerou um sorriso - Prazer Cindy, sou Cassy - Ela estendeu a mão direita para cumprimentá-la, enquanto segurava o cigarro delicadamente por entre os dedos da esquerda - Estou apenas andando um pouco, descansando. Acho que quando estamos com a cabeça cheia demais acabamos fazendo besteiras, tipo andar pela cidade a noite - Apenas soltou outro sorriso, sendo este um pouco mais tímido, e voltou a dar uma tragada em seu cigarro.

Realmente algo naquela menina lhe chamara a atenção. Talvez tenha justamente sido isso, o fato dela ser uma menina. Apesar dos trajes e da aparente profissão, os olhos daquela garota não negavam, ainda possuía alguma inocência ali, ou melhor, inexperiência. Algo próprio da juventude, algo que Cassy também não havia perdido de todo, ou pelo menos não aparentava ter perdido. Mesmo que seus gestos e modos de falar denunciassem ocasionalmente sua idade e experiência, e a maquiagem normalmente muito pouco jovem, ao menos para essa época, escondesse ainda mais sua aparência, ela era uma mulher de sessenta e nove anos vivendo em um corpo de dezessete. E mesmo com tudo isso, seus olhos sempre lembravam o segundo fato.

Por vezes tivera dificuldades em intimidar, ameaçar ou apenas se impor, pois ainda lhe restava preservado em seu rosto a inocência de uma adolescente. Inclusive muito provavelmente esse seja um dos motivos que ainda atraem Marie. O eterno corromper da inocência, apesar de nesse caso, ser apenas na imagem. Após anos convivendo com uma serpente, você acaba adquirindo mais características do que desejava, e ao menos para o que já foi um dia, nenhuma delas é das melhores. Quando já havia soltado a fumaça para o alto, olhou bem nos olhos da outra e continuou - E então, você e seu amigo vieram a missa e no fim ele continuou conversando com o padre, ou também estão apenas esvaziando a cabeça? - Está ai algo que realmente queria saber. De fato havia algum fato anormal ali. Não conseguia ver essa garota em uma Igreja, e mesmo tendo ouvido tanto falar de Maria Madalena, nunca achou que essa história das mais verídicas e lógicas. Cassy então pôs o cigarro na boca, enquanto retirava a carteira com uma mão e o um isqueiro com a outra, oferecendo finalmente o cigarro a Cindy.

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25 Re: St. Louis Cathedral em Qui Set 20, 2012 3:47 pm

Enquanto esperava ansiosamente a resposta daquela garota, fiquei pensando o quanto eu tinha gostado dela logo de cara. Não me pareceu ser alguém que tivesse feito algo de errado nem que era prostituta, pareceu mais estar fugindo ou coisa do tipo, mas mesmo assim, fui com a cara dela. Então ela respondeu:

- Prazer Cindy, sou Cassy. – Disse isso me estendendo a mão, então retribui, e demos um aperto de mão. Sorrindo, após o cumprimento ela continuou. -Estou apenas andando um pouco, descansando. Acho que quando estamos com a cabeça cheia demais acabamos fazendo besteiras, tipo andar pela cidade a noite.

Ao ouvir isso, o jeito que ela falava, fiquei confusa, porque eu acho meio nada a ver alguém descansar andando na rua a noite, será que ela não sabe que é perigoso? Eu já me acostumei, sei me safar, mas ela, com esse visual arrumadinho, acho que não sabe. Além disso, Cassy pareceu ser uma menina experiente demais para sua idade, mas eu até que gostava disso, talvez porque, apesar de ser prostituta, não tenho tanta experiência de vida quanto ela parecia ter e poderia aprender com ela.

Logo depois de ter dado mais uma tragada no cigarro, ela continuou, antes mesmo que eu falasse qualquer coisa:

- E então, você e seu amigo vieram a missa e no fim ele continuou conversando com o padre, ou também estão apenas esvaziando a cabeça?

Eu sabia que realmente era uma situação estranha alguém como eu, esperando alguém como o Michael sair de dentro de uma igreja, ainda mais tarde da noite. Então, enquanto começava a fumar o cigarro que Cassy me deu, pensei em como contar toda a história de um jeito rápido e que ela entendesse. Depois de pensar muito, respondi:

- Na verdade não, é uma história complicada que eu vou tentar resumir. Eu conheci o Michael hoje mesmo, quando eu tinha acabado de atender um cliente, e aí viramos amigos. Ele me disse que queria muito conhecer uma igreja, e como essa é a única que eu conheço, vim com ele até aqui. Eu entrei com ele para conhecer essa tal de igreja, mas não gostei nem um pouco, então vim aqui fora esperar ele conversar com o padre. Você gosta de igreja?

Enquanto eu falava, percebi o quanto engraçada era essa história, daria um filme! Será que Cassy tinha entendido a história? Espero que sim, e espero que Michael não demore muito na igreja, ele ia gostar de conhecer ela. Pensava em tudo isso enquanto dava mais uma tragada no cigarro que eu tinha ganhado.

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